Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Ultimo canto do Anachoreta
Senhor! minha alma serenou fugindo
Do tumulto dos homens; os meus dias,
Pranteados á sós, foram caindo
Na urna do passado, e tu sorrias
No meio do meu pranto…
No ermo dos bosques descantei teu nome,
Meus cantos no echo da soïdão subiram
Ao throno teu; o aquilão gelou-me
Ao invocar-te á meia noite, ouviram
Os astros o meu hymno.
No fim da tarde eu ia junto á fonte
Minhas préces entoar co’as vozes della,
E quando o sol surgia no horizonte
Dava-me a mente nova phrase bella
Para te bemdizer.
Do meu corpo olvidei; as mesmas feras
Fogem de me avistar; á flôr das fragas
Duro leito cavei, e até das éras
O curso confundi, como o das vagas
Em procellosos mares.
Não quiz a terra! Pelos céos vaguei
Buscando um hymno para descantar-te…
Do mar no fundo as conchas procurei,
E no deserto as flôres, p’ra pintar-te
No intimo do peito.
Eu encarei a sol meridiano
Envôlto em chammas de rubenta braza,
P’ra soletrar teu nome; e quiz, insano!
Que meu peito d’argilla fosse a casa
Do teu nome, Senhor!
Porque tão cedo as fôrças me deixaram?
Não mais te louvarei, que a voz fallece
Nos meus pulmões exhaustos, e seccaram
As vêas do meu corpo… Oh! quem podesse
Louvar-te eternamente!
Senhor, prostrado, exanime, sem vida,
Um velho implora o teu amôr; não vejas
Sem piedade esta fronte encanecida
Ao sol da solidão! Bemdito sejas
Pelos homens, e anjos!