Que pavor, que crueza?

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Que pavor, que crueza?
por Manuel Botelho de Oliveira


À morte da senhora rainha de portugal Dona Maria Sofia Isabel

I
Que pavor, que crueza?
Que pena, que desdita a Lísia enluta!
Já do pranto a tristeza,
Como mar lagrimoso, ao mar tributa;
Vendo Netuno, para novo espanto,
Que tem dois mares, quando corre o pranto.

II
Espanha lastimada
Pelas razões do sangue generoso,
Toda se mostra irada,
E brama contra o golpe rigoroso,
E para ser no Mundo mais temido,
Por boca do Leão faz o bramido.

III
Mostra Alemanha o fino
Excesso quando sente o seu tormento,
Porque do Palatino
A pátria faz ser próprio o sentimento;
E o Danúbio, que é rio arrebatado,
Parece que na dor se vê parado.

IV
França, que nobremente
A Lusitânia ostenta amor seleto,
De luto reverente
A seus Francos vestiu com franco afeto;
E tendo nesta mágoa altas raízes,
Em roxos lírios troca as brancas Lises.

V
Itália a dor publica
Em Florença, que rica se nomeia,
Mas de mágoas é rica;
Nápoles bela em dor se torna feia:
Porém Roma, que santa se conhece,
Com Princesa tão santa se engrandece.

VI
América sentida
Faz tanta estimação da dor, que ordena,
Que desejara a vida
Eterna, para ser eterna a pena;
E quando no tormento mais se alarga,
O doce açúcar troca em pena amarga.

VII
A belíssima Aurora,
Que chora de Mémnon a morte escura,
Também padece, e chora
Desta perda cruel a desventura;
E com dobrada dor da infausta sorte
Se uma morte chorou, chora outra morte.

VIII
O Sol, que luminoso
Tem o império das luzes no Hemisfério,
Já não quer ser lustroso,
E quisera largar o claro império,
Pois de uma Águia Real na morte triste
O majestoso vôo não lhe assiste.

IX
Também padece a Lua
Desta mágoa infeliz o desalento,
E quando mais flutua,
No inconstante noturno luzimento
Minguante, e cheia está, se a dor se estréia
Minguante em glórias, de desditas cheia.

X
As estrelas luzentes,
Que ao Sol no claro Pólo substituem,
Parecendo inclementes,
Se presságios cruéis ao Mundo influem,
Com tal rigor desta influência usaram,
Que em cometas infaustos se trocaram.

XI
Os Planetas errantes,
Triste a Saturno tem no Céu rotundo;
Vênus para os amantes
Tem da sorte feliz o bem jucundo;
Porém para Isabel, que é Vênus pura,
Não quis Vênus ser astro da ventura.

XII
O Cipreste funesto,
Que se levanta ao Céu triste, e frondoso,
Neste tormento infesto
Prepara os ramos seus por lastimoso,
E tendo o ser, que é só vegetativo,
Em corpo se transforma sensitivo.

XIII
A pacífica Oliva,
Que no Dilúvio foi da paz consorte,
Quando sente a nociva
Tirania infeliz da Parca forte,
Já não serve de paz, antes ostenta
O dilúvio das lágrimas, que alenta.

XIV
A palma celebrada,
Que contra o peso fica mais gloriosa,
Agora desmaiada
Se vê menos robusta, e vigorosa:
Porque ao peso da pena padecida
Toda humilde se vê, toda oprimida.

XV
O jardim, que florido
Era com Flora, e Zéfiro formoso,
Hoje se vê despido,
Feio, fúnebre, inculto, deslustroso,
Porque por esta morte inopinada
Zéfiro triste está, Flora anojada.

XVI
A Rosa, que ostentava
A beleza da púrpura olorosa,
E sempre se jactava
Ser Rainha das flores imperiosa,
Como vê desenganos de Rainhas,
Não quer mais que nas dores as espinhas.

XVII
O Cravo que exalante
Do belo olor se veste de escarlata,
Já não brilha flamante,
Quando sente da Morte a fúria ingrata,
Antes mostra na cor, sangue vestido,
Que do golpe da dor ficou ferido.

XVIII
O jasmim, que a beleza
Tem na neve animada, que a sustenta,
Perdeu a gentileza;
Já no frágil candor se desalenta;
E tendo a Parca a seta despedido,
Alvo ficou da seta amortecido.

XIX
Sente pois Pedro Augusto
Perder o Sol, a flor, o dia claro,
Pois tendo sempre adusto
Entre chamas de amor o peito caro;
Agora vê nas faltas da alegria
Posto o Sol, seca a flor, escuro o dia.

XX
Sente o culto sagrado
De ũa Rainha Santa o afeto pio,
Pois com devoto agrado
Fazia da humildade o senhorio,
Como quem altamente conhecia
Que a Púrpura também carcomas cria.

XXI
Sente o Palácio ilustre
A saudade da altíssima Princesa,
A quem deve seu lustre,
E da melhor Política a grandeza,
Que sendo Palatina, no amor fino
Fez do régio Palácio Palatino.

XXII
Sentem todas as Damas
A falta desta Aurora, que assistiam,
E como ilustres ramas
Do seu favor o orvalho mereciam,
E perderam, faltando seus fulgores,
De tantas esperanças os verdores.

XXIII
Sente a casta Donzela
A falta de Isabel, que tanto amava
Quando na idade bela
O tálamo ditoso lhe buscava,
E se Cupido armava seus enganos,
Himeneu casto lhe impedia os danos.

XXIV
Sente a caterva pobre
Da liberal senhora a perda rara,
Quando por mão tão nobre
Tantas vidas da morte restaurara,
Vencendo contra as Parcas desabridas
O poder, que intentavam sobre as vidas.

XXV
Sente o Preso os clamores,
Que lhe faz padecer a morte brava,
Que Isabel com favores
Da Justiça os rigores temperava
Conhecendo na espada da justiça,
Que era o sumo rigor suma injustiça.

XXVI
Sente enfim todo o povo
Esta tristeza atroz, e desumana:
Que não é caso novo
Sentirem todos o que a todos dana;
Pois perdeu, quando fica ao desamparo,
Todo o bem, toda a glória, todo amparo.
Canção, suspende o metro,
Que de tanta desdita o triste pranto
Me desafina a voz, faz rouco o canto.