Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/CLVII

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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Na propagação dos animais observa a natureza a mesma ordem; desta sempre vem a resultar a mesma forma, e as mesmas circunstâncias; os indivíduos porém de cada espécie não são tão uniformes, que não tenham entre si um carácter particular com que se distinguem uns dos outros. Nas famílias se notam feições determinadas, pelas quais são conhecidos os que vêm da mesma parte; o mesmo ar no gesto, ou na figura persiste em muitas linhas descendentes; e de tal sorte que algumas são reconhecidas por uma fermosura sucessiva; e outras também o são, por uma fealdade hereditária. As mesmas nações se mostram diferentes por um aspecto, ou semblante próprio, que a natureza afecta em cada uma delas. A cor é um sinal demonstrativo, regular, e indelébil, que a mesma natureza imprime nas gentes de cada clima, ou região; e dessa cor procedem outras cores mistas, ou modificadas, que indicam o grau, e concorrência de nações diversas, mas unidas; de gentes separadas, mas juntas; de famílias estranhas, mas naturalizadas. Aquela é a marca, que a Providência pôs nos homens; marca perpétua, enquanto eles se perpetuam dentro da sua mesma esfera, mas temporal, e extinguível por meio de uma nova composição. Até nas plantas se encontra a mesma economia; elas têm sinais por onde se distinguem; uns perseverantes, outros mudáveis. A arte, que concilia entre si plantas diversas, ou as conserva, e faz permanecer no estado primitivo, ou as altera, e muda para outro; ela força o tronco a sustentar ramos alheios, a vestir-se de folhas desconhecidas, e a produzir frutos adulterinos. Ainda nas cousas insensíveis, tem às vezes lugar a violência. Assim se constrange a natureza a que siga um caminho errado, e que em certos casos não siga as suas leis, mas as leis da indústria, e do artifício; daqui vem, que é útil que a nossa inteligência seja limitada; se o não fosse, apenas teria a terra liberdade para fazer nascer, como quisesse, a menor flor do campo. Quantas vezes não se faz o mal, porque se não sabe fazer? Aquela ignorância nos preserva; mas nem por isso valemos mais, porque o merecimento é da ignorância, e não de nós.