Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/CXLI

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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Mas por que razão poriam os homens no sangue a qualidade da Nobreza? Seria por ser aquela a parte de que a vida está mais dependente? Não, porque a vida não depende mais do sangue; que de outros muitos líquidos do corpo. O sangue tem na cor mais elegância, move-se, e existe em porção maior; mas disso não se segue, que a vida dependa mais do sangue, ou tenha dele maior necessidade. A cor é efeito da transposição da luz; a porção muitas vezes faz o nosso mal; e na formação dos mistos é menos importante aquilo, que entra neles em mais larga quantidade. Move-se finalmente o sangue; mas que parte haverá no corpo, que não tenha um movimento próprio? O que o sangue parece tem de mais, é que não necessita da nossa intenção para mover-se; mas isso mesmo tem o corpo em outras partes; e a depravação do movimento de que resulta a convulsão, procede de um movimento involuntário. Não achamos pois o fundamento por onde os homens quiseram, que fosse o sangue a fonte donde a Nobreza se imprime, e de donde sai. Só nos falta ver, se será talvez por entenderem, que as sucessões se continuam pelo sangue, e que este derivado de uns a outros, sucessivamente continua em uma mesma descendência, conservando nela um carácter particular, distinto, e determinado; e com efeito em cada árvore há um tronco cômum, de donde nascem muitos ramos, muitas folhas, muitas flores, muitos frutos; estes, ainda quando são muitos no número, sempre conservam a mesma ordem, e a mesma identidade na figura; a qualidade é a mesma, e igual em todos; e todos reconhecem uma mesma, e universal origem; ali se vê, que as produções são separadas, e diversas; mas o tronco progenitor é um. Muitas rosas brotam de uma só roseira; porém todas são rosas; a espécie é a mesma em todas; e por mais que cada uma esteja em diverso ramo, a árvore que as sustenta, é uma só. Assim é, e já parece, que aquela paridade tomada no reino vegetal, tem justa aplicação para o caso da Nobreza infundida no sangue, e na sucessão; mas não sei se a mesma paridade pode servir de aniquilar inteiramente, ou ao menos de embaraçar o sistema da Nobreza de geração. (A maior parte dos sistemas comummente está sujeita à variedade do discurso; ainda aqueles a que a prescrição do tempo tem feito adquirir um direito de certeza). O caso é, que o sangue dos animais é como o humor nas plantas; estas por meio das raízes atraem a si a humidade fecunda, que as faz reverdecer, e é a mesma de que se forma o tronco, os ramos, as folhas, e os frutos; de sorte que o humor da terra é o que anima a planta, é o seu sangue; este sangue pois, ou este humor, será porventura sempre o mesmo em uma planta? Não; porque a terra a cada instante recebe dos outros elementos uma nova vida, isto é, uma humidade nova: as águas, que a regam, nunca são as mesmas; daqui vem, que o sangue de uma planta sempre é outro, comparado ao que foi primeiro; e por isso sempre muda de sangue, porque sempre muda de humor; aquele com que nasceu, não é o mesmo que hoje tem: o primeiro parece se extinguiu por uma transpiração lenta, e insensível; e assim o sangue, com que está, não é o que já teve, porque já não tem o humor que tinha: a conservação das plantas, e animais, depende de uma contínua mudança de alimento, e por consequência de sangue; este sofre uma dissipação precisa; é preciso, que um sangue acabe, para dar lugar a outro; nesta renovação, ou reformação de sangue, consiste a vida; a morte vem de ser o sangue o mesmo; a falta de mudança, é o que o perverte; a constância, e estabilidade, serve-lhe de ruína.