Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/CXXVI

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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E com efeito em que se acordam os sábios? Qual é a doutrina em que todos concordam, qual é o sistema em que todos convêm, ou qual é o princípio em que todos se fundam? Só a vaidade é certa em todos. Não há furor a que um homem se não entregue, só pela vaidade de ser cabeça de um dogma, ou de uma opinião. Vejamos qual tem sido o destino da Filosofia, que se diz ser a primeira das ciências. Os discípulos de Aristóteles dividiram-se em duas seitas, ou em duas parcialidades; uma foi a que chamaram Nominais, e outra a dos Realistas; os Nominais diziam, que as naturezas universais não eram outra cousa mais do que nomes; os Realistas, seguindo opinião contrária, afirmavam, que aquelas naturezas eram verdadeiramente cousas que existiam na realidade. Ocão, Frade Inglês e discípulo de Escoto, foi o cabeça dos Nominais, e João Duns o era dos Realistas; estes seguiam a Aristóteles mais literalmente; os outros não admitiam nenhuma entidade supérflua, tendo sempre por infalível o axioma do Filósofo, quando diz, que a natureza nada faz em vão. Estas duas seitas fizeram em Alemanha um tal progresso, que uma matéria inútil, indiferente, e puramente de opinião, veio a parar em fazer-se dela um ponto de honra; a vaidade de discorrer melhor animava com tal excesso a todos, que os argumentos só se decidiam pelas armas; os combates particulares vieram finalmente a reduzir-se a uma guerra viva. Introduziu-se aquele mesmo fanatismo em França, e chegou a tanto extremo, que Luiz XII, para o evitar, determinou, que em todas as livrarias se fechassem com cadeias os livros dos Nominais, para que ninguém os pudesse abrir, nem ler. Daquela sorte veio a ficar a doutrina de Aristóteles tão desfigurada, pelas subtilezas com que cada um queria sustentar a vaidade da sua opinião, que essa foi a causa principal de desprezar-se a Filosofia, e ficar parecendo odiosa a todos. Os livros de Aristóteles foram levados a França no século treze pelos Franceses, que tinham ido a Constantinopla; Amauri, que entrou a sustentar os seus erros pelos princípios daquele Filósofo, foi condenado como Herege por um Concílio de Paris celebrado em o ano de 1209. Este Concílio proibiu totalmente a leitura de Aristóteles, e condenou os seus livros ao fogo; a mesma proibição se tornou a renovar por um Legado, somente a respeito da Física, e Metafísica. Gregório IX diminuiu a proibição do Concílio de Paris por uma Bula expedida em 1231, proibindo a leitura das obras de Aristóteles, somente enquanto se não extirpavam os erros, que resultavam, ou podiam resultar da sua doutrina. Em 1366 os Cardeais João de S. Marcos, e Gil de S. Martinho delegados por Urbano V para reformarem a Universidade de Paris, concederam, que se pudessem ler várias obras de Aristóteles, exceptuando a sua Física. O Cardeal de Estoureville em 1452, fazendo vários regimentos para a mesma Universidade por mandado de Carlos VII, ordenou que os Estudantes, e Bacharéis fossem examinados pela Metafísica, e Moral de Aristóteles. Em 1601, concedeu à Universidade de Paris o uso, e lição das obras daquele Filósofo, e juntamente da sua Física; e à imitação da Universidade começaram todos os estudos públicos a seguirem a Filosofia Peripatética; esta foi combatida em 1624, por Conclusões; porém a faculdade de Teologia de Paris tomou a sua defesa: a Sorbona fez um Decreto, pelo qual censurou aquelas Conclusões, e o Parlamento por um Acórdão ordenou três cousas: a primeira que aquelas Conclusões fossem laceradas; a segunda, que todos os que as tivessem defendido, fossem riscados dos livros das matrículas; a terceira, que todos os que ensinassem algumas máximas, que fossem contrárias aos Autores antigos, e aprovados, incorressem em pena de morte. Em 1629 declarou o Parlamento, que se não podiam impugnar os princípios da Filosofia de Aristóteles, sem se impugnarem também os da Teologia Escolástica recebida na Igreja; porém não obstante todas estas proibições, e declarações, entrou Gassendo a escrever contra aqueles princípios; e Cartésio fez-se cabeça de um novo sistema, ou nova seita. Depois destes começou a Filosofia de Aristóteles a perder muito do seu primeiro lustre: hoje as Filosofias todas se compõem de Matemáticas; de sorte que já não há silogismo, que conclua, se não é fundado em alguma demonstração geométrica; na Física não se está pelo que se diz, senão pelo que se vê; pouco importa que se afirme que este, ou aquele Meteoro procede desta ou daquela causa, se isso se não mostra por meio de alguma experiência, ou instrumento. A formação das nuvens, do vento, da chuva, dos raios, e terremotos, e de outros muitos efeitos naturais, a Química não só ensina como se produzem, mas também os imita; e isto sem ser necessário saber se o silogismo está em Barbara, ou em Celarent. Um lambique, um Eolípilo, uma máquina Pneumática, e a mistura de vários corpos explicam mais em uma hora, do que um professor de Filosofia em muito tempo; o entendimento percebe melhor sendo ajudado pelos olhos, do que só por si. Nas mais ciências também tem havido fortunas, e desgraças: todas encontraram um tempo feliz, e outro infausto; a vaidade dos primeiros Mestres, continuada em seus sucessores como herança, foi a fonte, em que nasceram as ciências; destas a Monarquia principal, é a Europa; na maior parte do mundo, o desprezo das ciências passou à Religião; assim devia ser porque a vaidade, que resulta das ciências, é vaidade de homens livres, e estes só os há na Europa: o Despotismo reduziu as outras partes a escravidão. Que vaidade pode haver em um escravo? Este ou seja valeroso, ou sábio, nada disso é seu: o valor, e sabedoria também entram na escravidão; a vaidade que o escravo pode ter, também pertence ao Senhor; o edifício, a carroça triunfal, o alfange, a pêndula, são instrumentos incapazes de vaidade em si; da bondade deles só o Senhor se desvanece. Assim são os escravos; se há Autómates no mundo, são eles.