Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXX

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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O valor não é igual em toda a parte; porque a vaidade não é em toda a parte a mesma. Há empresas de mais, e de menos vaidade, por isso as há de menos, e mais valor. A vaidade aumenta, e diminui, à proporção do seu motivo; e da mesma sorte o valor diminui, e aumenta à proporção da sua vaidade. A razão do esforço, regula-se pela razão da vaidade; daqui vem, que em um conflito grande, os ânimos se elevam, e arrebatam; porque algumas vezes é questão do destino de um Império; em lugar que o ardor é lento, quando só se disputa um posto ventajoso. A presença de um Monarca não influi pouco na fortuna militar; então quer o Soldado distinguir-se com maior excesso, porque fica sendo memorável a acção a que assiste um Rei: aquela é a ocasião, em que cada um dos combatentes vaticina, que o seu nome há-de escrever-se nos anais da história; por isso corre a assinalar-se em um dia, que há-de servir de época aos séculos vindouros: nenhum entra na peleja indiferente, todos fazem a causa sua; uns combatem pela glória do sucesso, outros pela honra da assistência; e a todos parece que o Soberano os vê. O estrépito das armas antes que chegue ao coração, inflama a vaidade, e esta, que comummente move, então acende.