Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXIV

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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Há crimes, cuja atrocidade exige uma pena ainda maior, isto é, uma pena permanente, sucessiva, indelébil; que compreenda culpados, e inocentes; que induza infecção fatal, não só no sangue dos que estão, mas também no sangue dos que hão-de vir; e que faça detestável, não só o autor do crime, e a sua descendência, mas ainda a mesma lembrança do seu nome. Quantos há que não temem o castigo, pelo que este tem de insuportável, mas pelo que tem de infame; e que o não receiam pela que toca a si, senão pelo que há-de tocar aos seus? A corrupção da natureza, chega neles a desprezar a sua própria conservação, mas não a sua reputação; desatendem ao seu opróbrio pessoal, mas não àquele que há-de ficar, e continuar nos que hão-de vir depois: este resto de vaidade é unicamente o que os reprime. A malícia lhes ensina, que o perder a vida não é grande pena; porque esta verdadeiramente não assenta em se perder a vida, mas em a perder anticipadamente; e com efeito não é grande o mal, que sempre é infalível por outra parte, e que por ora só consiste na circunstância do tempo; isto é, em ser com antecedência, e ser já, aquilo que certamente há-de vir a ser daqui a pouco: por isso o preso, que se mata, é como um preso que foge; um, e outro, iludiu o castigo, porque este devia consistir na duração, e não na extinção. Daquela sorte ficou impunido o crime? Não, porque suposto se ausentasse o delinquente, cá deixou o nome, e a memória; e nesta ainda tem lugar a pena; contra ela se fulmina a condenação de um labéu perpétuo: o que acabou com a fugida, ou com a morte, foi a pena temporal, e por consequência pena curta, porque acabava com a vida; mas fica subsistindo a pena da ignomínia, pena quási sem fim, porque a tradição, e a história a fazem renascer a cada instante. A vaidade faz-nos adorar o respeito, e a estimação dos homens; por isso o desprezo aflige, ainda só considerado em um cadáver, em uma posteridade, em um nome; a pena vil imposta em uma estátua faz pavor, não pelo que é, mas pelo que representa; o criminoso, que de longe a considera, se estremece; por via do pensamento se lhe comunica de alguma sorte a dor, e assim nem por fugir ao castigo, fica livre dele. A vaidade entende que tudo quanto é nosso, é susceptível de aflição, e de prazer, de respeito, e de vitupério; e assim nos persuade, que para as razões da mágoa, e do contentamento, a nossa semelhança tem ser, a nossa sombra vida, e a nossa estátua sentimento.