Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXIX

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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Nascem os homens iguais; um mesmo, e igual princípio os anima, os conserva, e também os debilita, e acaba. Somos organizados pela mesma forma, e por isso estamos sujeitos às mesmas paixões, e às mesmas vaidades. Para todos nasce o Sol; a Aurora a todos desperta para o trabalho; o silêncio da noite, anuncia a todos o descanso. O tempo que insensivelmente corre, e se distribui em anos, meses e horas, para todos se compõe do mesmo número de instantes. Essa transparente região a todos abraça; todos acham nos elementos um património comum, livre, e indefectível; todos respiram o ar; a todos sustenta a terra; as qualidades da água, e do fogo, a todos se comunicam. O mundo não foi feito mais em benefício de uns, que de outros: para todos é o mesmo; e para o uso dele todos têm igual direito, ou seja pela ordem da sua natureza, ou seja pela ordem da sua mesma instituição; todos achamos no mundo as mesmas partes essenciais. Que cousa é a vida para todos mais do que um enleio de vaidades, e um giro sucessivo entre o gosto, a dor, a alegria, a tristeza, a aversão, e o amor? Ainda ninguém nasceu com a propriedade de insensível; a vida não pode subsistir, sem estar subordinada às impressões do gosto, e do sentimento. Todos nascemos para chorar, e para rir; a circunstância de chorar mais, ou menos, resulta de cada um de nós. A violência, e a vaidade das nossas paixões nos faz apetecer, e quem apetece, já se expõe aos delírios do riso, e às amarguras das lágrimas; esse mesmo apetecer ainda só por si, é uma espécie de sentimento, e de prazer; a imaginação nos anticipa tudo, por isso o nosso contentamento, ou a nossa pena, chegam primeiro do que o seu objecto; e esse quando vem, já nós estamos, ou abatidos de tristeza, ou cheios de alegria: somos tão sensíveis, que os sucessos para nos moverem, não é necessário que estejam em nós, basta que os vejamos de longe; a nossa sensibilidade tem maior força na nossa mesma apreensão; daqui vem que no mal, que se espera, ou se receia, não pode haver alívio, porque o pensamento lhe dá uma extensão maior; em lugar, que o mal que já se sente, pode consolar-se, porque então se vê que tem limite. As cousas parece que se espiritualizam para se entregarem a nós assim que as imaginamos; ou ao menos para que a eficácia delas se incorpore em nós, muito antes que elas cheguem; e deste modo as cousas antes que as tenhamos, já são nossas; e quando a causa se apresenta, já temos sentido os seus efeitos; por isso desconhecemos tudo o que vimos a alcançar, e nos parece que há falta naquilo que vimos a conseguir: as cousas, quando chegam, já nos acham saciados; porque o desejo é uma espécie de gozar mais activa, e mais durável, mais forte, e mais contínua; daqui procede o ser tão deleitável a esperança, porque é uma espécie de possessão daquilo que se espera. Quem imagina o que deseja, tudo pinta com cores lisonjeiras, e mais vivas; por isso a verdade é grosseira, e mal polida; tudo o que descobre, é sem adorno; antes faz desvanecer aquela aparência feliz, com que os objectos primeiro se deixam ver na ideia, do que se mostrem na realidade. Todas estas propensões, e inclinações se encontram em cada um de nós; e assim devia ser, porque as variações do tempo, da idade, da fortuna, e dos sucessos, a todos compreende[m], e a todos iguala[m] ; só a vaidade a todos distingue, e em todos põe um sinal de diferença, e um carácter de desigualdade, e por mais que a terra fosse feita para todos, nem por isso a vaidade crê, que um homem seja o mesmo que outro homem. É subtil a vaidade em discorrer; por isso nos inspira, que há desigualdade no que é igual; que há diferença no que é o mesmo; e que há diversidade donde a não pode haver; mas que importa que a vaidade assim discorra, se sempre é certo, que os homens todos são uns, e que os não há de diferente fábrica; e que tudo quanto a vaidade ajunta ao homem, é emprestado, fingido, suposto, e exterior. Tirada a insígnia, o que fica, é um homem simples; despida a toga Consular, também fica o mesmo. Se tirarmos do Capitão a lança, o casco de ferro, e o peito de aço, não havemos de achar mais do que um homem inútil, e sem defesa, e por isso tímido, e cobarde. Os homens mudam-se todas as vezes que se vestem; como se o hábito infundisse uma nova natureza: verdadeiramente não é o homem o que muda, muda-se o efeito que faz em nós a indicação do hábito. Debaixo de um apresto militar, concebemos um guerreiro valeroso; debaixo de uma vestidura negra, e talar, o que se nos figura, é um Jurisconsulto rígido, e inflexível; debaixo de um semblante descarnado, e macilento, o que descobrimos, é um austero Anacoreta. O homem não vem ao mundo mostrar o que é, mas o que parece; não vem feito, vem fazer-se; finalmente não vem ser homem, vem ser um homem graduado, ilustrado, inspirado; de sorte que os atributos, com que a vaidade veste ao homem, são substituídos no lugar do mesmo homem; e este fica sendo como um acidente superficial, e estranho: a máscara, que encobre, fica identificada, e consubstancial à cousa encoberta; o véu que esconde, fica unido intimamente à cousa escondida; e assim não olhamos para o homem: olhamos para aquilo que o cobre, e que o cinge; a guarnição é a que faz o homem, e a este homem de fora é a quem se dirigem os respeitos, e atenções; ao de dentro não; este despreza-se como uma cousa com~ua , vulgar, e uniforme em todos. A vaidade, e a fortuna são as que governam a farsa desta vida; cada um se põe no teatro com a pompa, com que a fortuna, e a vaidade o põem; ninguém escolhe o papel; cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto, nem cortejo, e que logo no rosto indica, que é sujeito à dor, à aflição, e à miséria, esse é o que representa o papel de homem. A morte que está de sentinela, em uma mão tem o relógio do tempo, na outra tem a fouce fatal, e com esta de um golpe certo, e inevitável, dá fim à tragédia, corre a cortina, e desaparece: a fortuna, e a vaidade, que vêem desbaratada a cena, caídas por terra as aparências, prostrados os actores, emudecido o coro, trocados os clarins em flautas tristes, os hinos em trenos, os cânticos em elegias, e em epitáfios os emblemas; as rosas encarnadas convertidas em lírios roxos, os girassóis em desmaiadas assucenas, entrelaçados os louros no cipreste, os cajados confundidos com os ceptros, e com o burel a púrpura; a vaidade pois, e a fortuna, que em menos de um instante viram desvanecidos os triunfos da vida pelos triunfos da morte, precipitadamente fogem, e deixam um lugar cheio de horror, e sombras, e donde só reina o luto, a verdade, e o desengano. Assim acaba o homem, assim acabam as suas glórias, e só assim acaba a sua vaidade.