Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXVIII

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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A ambição dos homens por uma parte, e pela outra a vaidade, têm feito da terra um espectáculo de sangue: a mesma terra, que foi feita para todos, quiseram alguns fazê-la unicamente sua: digam os Alexandres, os Césares, e outros mais conquistadores, heróis não por princípio de virtude, ou de justiça, mas por um excesso de fortuna, de ambição, e de vaidade. Esses mesmos, que tomados por si sós cabiam em um breve espaço, medidos pelas suas vaidades, apenas cabiam em todo o mundo: que mais podia excogitar a vaidade, do que fazer que alguns se lamentassem de ser o mundo estreito, e limitado! Já lhes parecia que o tinham todo debaixo do seu poder; que tudo estava já sujeito, e que ainda assim era curto império todo o circuito da terra, e toda a vastidão do mar. Aquela vaidosa infelicidade de que se lamentavam, consistia em não haver mais mundos que pudessem invadir, devastar, vencer; era desgraça neles o não poderem fazer mais desgraçados. Uma conquista injusta sempre começa pela opressão dos homens conquistados, e pelo destroço de uma terra alheia, por isso as façanhas que só têm por princípio a vaidade do valor, reputam-se grandes à proporção da impiedade, com que o mesmo valor as executa; fazem-se famosas pela mesma impiedade; daqui vem que nos anais da História, a parte que se admira mais, e que mais se imprime na lembrança, é aquela em que a narração se compõe de sucessos mais cruéis; e em que os campos, que foram de batalha, cobertos ainda hoje de esqueletos informes, e partidos, conservam certo horror; esses campos fatais, em que se observam espectros, debaixo da visão de umas luzes voláteis, em que se ouvem ainda hoje, entre o rouco som de caixas, e trombetas, vozes mal articuladas, alaridos confusos, e lamentos tristes; esses campos, que depois de muitos séculos, ainda trazem à memória representações funestas, e em que as plantas, parece nascem com medo, e que o humor, que recebem da terra, é sensitivo; esses campos finalmente foram os mesmos, em que a vaidade vencedora, arrancou os louros para coroar as suas empresas. Que monstro inspiraria a regra de medir-se a glória dos combates, menos pela consequência deles, que pelo estrago; menos pela utilidade, que pela ruína; menos pela fortuna de uns, que pela desgraça de outros? Quanto maiores são os ais, os gemidos, e os clamores, tanto maior é a acção, e a vaidade de quem os move. Que imaginação bárbara, e fèroz, seria a que ideou no vencimento o ser superior aquele, de que resulta uma desolação universal? O ser causa de que o mundo tome outra figura, outra ordem, outro movimento; o ver perturbadas as gentes, cheias de aflição, e espanto; o achar todos os caminhos humedecidos com lágrimas, rubricados com sangue, e impedidos com os despedaçados corpos de mil agonizantes; o ouvir no ar em ecos entercadentes uma multidão de soluços, e suspiros; o abater impérios, e fazer deles desertos solitários; tudo forma um objecto agradável, pomposo, e ilustre, em que a vaidade se inflama, se estende, e ensoberbece. A vaidade de um entusiasmo heróico consiste em querer reunir em um só braço toda a força, que a Providência repartiu por muitos, e em querer reduzir a um só homem toda a natureza humana.