Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXXI

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
[81]


Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa, não para existir, mas para acabar; menos para ser, que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a desaparecer também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta, que sobre a aparência de buscar os objectos, só procura neles a mudança. A inconstância nos serve de alívio, e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve; e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas se nós sempre vamos sendo outros? Tudo nos é dado por um certo tempo; em breves dias, e em breves horas se desvanece a razão da novidade, que nos fazia apetecer; fica invisível aquele agrado, que nos tinha induzido para desejar. Quantas vezes esperamos as sombras da noite com mais fervor do que as luzes do dia; não por vício do desejo, mas porque não temos forças para suportar o bem, nem para conservar o mal? Tudo nos cansa: não só nos é preciso constância para sofrer; também necessitamos paciência para gozar; a mesma delícia nos importuna. Perdemos as cousas, primeiro pela nossa indiferença, que pelo fim delas; primeiro porque se acaba em nós o gosto, do que nelas a duração; unicamente sensíveis quando começamos a ter, ou a alcançar; então gozamos, depois só possuímos. Os objectos depois de vistos muitas vezes, ficam como diferentes da primeira vez que os vimos; perdem todo o nosso reparo, e atenção: os olhos facilmente se esquecem do que sempre vêem; não porque o costume nos tire a admiração, mas porque a fraqueza dos nossos sentidos a não pode conservar. Oh quão diversos são em si os princípios de que se compõe o homem; primeiramente terra, e ultimamente racional! Começa a melhorar-se desde a sua primeira origem, até que vem a tornar àquilo de que procedeu. Infeliz metamorfósis! Tudo o que nasce é para não ser firme, nem constante: a terra apenas alenta as suas produções, quando logo as deixa, e desanima; o mesmo firmamento, com giro rápido, esconde pela tarde os Astros que amanheceram com a Aurora. Só a vaidade é constante em nós; em tudo o mais a firmeza nos molesta: com o tempo, e a razão vimos a perder uma grande parte da sensibilidade no exercício das paixões; porém o exercício da vaidade não se perde com a razão, nem com o tempo. O nosso gosto debilita-se, altera-se, muda-se, e também se acaba; a vaidade sempre persiste, e dura; isto deve ser, porque os nossos sentidos usam-se; a vaidade não: naqueles o costume os enfraquece, nesta o costume a aumenta, e aviva. A jurisdição dos sentidos é muito limitada, porque os olhos só vêem, os ouvidos só ouvem, e o tacto só sente; e para haver ainda menos firmeza nos sentidos, estes quási sempre estão enfermos; e não pode haver constância, donde pode haver enfermidade; de sorte que a inconstância não é mais do que enfermidade dos sentidos. As nossas acções dependem mais da constituição do nosso corpo, que da estabilidade da nossa vontade; o estado do nosso ânimo depende da nossa disposição; por isso a inconstância é natural, porque logo que nascemos, entramos em um estado contínuo de mudar. O tempo não conta a nossa idade pelos anos, mas sim pelos instantes, e cada instante de mais também é de mais em nós uma mudança. Caminhamos com pressa, e com gosto para o fim; semelhantes aos rios, que apressadamente correm para o mar, donde perdem a doçura, e acabam. Não há imagem mais própria da vaidade humana, do que esses mesmos rios; nem todos têm o nascimento em um profundo lago; nem todos trazem do monte Olimpo a origem; nem todos correm por entre flores, por entre plátanos, e cedros; nem todos trazem ouro nas areias, porque nem todos vêm de donde vem o Tejo; uns assim que nascem, logo formam um dilúvio de água, inundam a campanha, e com violência, e peso, tudo abatem, forçam, levam; o leito que os sustenta, em partes se abre, se rompe, e se desfaz. Outros rios mais pequenos no princípio, depois se fazem caudalosos, no caminho engrossam com emprestadas águas, que recebem: uns correm por cima de esmeraldas, outros não têm no fundo mais do que humildes conchas, pardos seixos, verdes limos; uns nascem entre cristais claros, outros entre rocha escura; uns passam escumando, e com estrondo, outros só murmuram; uns acham campo largo, em que as águas se dilatam, e em que o Sol se vê, outros correm presos, e oprimidos por entre serras agrestes, e sombrias; uns têm alto o nascimento, porque este é no cume de altos montes, por isso ainda quando descem passam com estrépito, e furor; outros têm o mesmo nascimento baixo, porque este é na parte mais remota de um vale inferior, por isso correm mansamente, e sem ruído, só se deixam ver, e não se ouvem; finalmente uns são frios com excesso, outros têm calor; uns servem de remédio, outros de mal; de uns sabe-se o princípio, de outros não; uns têm nome famoso nos anais da história, outros apenas se conhecem. Todas estas diferenças, encontram-se nos rios; uns pequenos, outros grandes; uns elevados, outros abatidos. Parece que também nas águas há fortuna, e vaidade. Mas que importa? A diferença dos lugares, não faz que as águas sejam diferentes: que umas nasçam nos montes, e outras nos vales; que umas venham das nuvens, e outras da terra; que umas corram claras, e outras turvas; nada disso faz nas águas diversidade alguma; todas são as mesmas na razão de águas; o que sucede é passarem por lugares diferentes; a natureza, o princípio, e o fim é o mesmo; todas vêm do mar, e tornam para o mar; o serem as águas muitas, de sorte que cheguem a formar um rio, ou serem poucas, de sorte que só formem uma fonte, não introduz nelas diferença. Quem há-de dizer, que muitos homens juntos na razão de homens, sejam diferentes daqueles que estão sós? O mar é o centro de donde as águas saem, e para donde tornam; os meatos da terra em umas partes são estreitos, e em outras largos; daqui vem que quando as águas chegam à superfície do globo, sucede saírem com mais, ou menos abundância, e assim não diferem os rios das fontes, senão no diâmetro do canal, e em esse se terminar em algum monte, ou algum vale; e nesta forma, de que se desvanecem esses rios? Será de passarem por caminhos mais, ou menos largos? De se juntarem uns com outros, e fazerem mais volume? De encontrarem diamantes? Ou de acharem um campo mais, ou menos dilatado? Nada disso é seu. Que lustre pode resultar do encontro de uma cousa alheia, distinta, separada, e estranha? As águas passam como são, e por passarem por rubins, não se convertem neles; nem se dignificam pela qualidade do caminho; o correrem mais juntas, não lhes muda a natureza; a substância de uma pinga de água, é a mesma que a de um rio inteiro; o tamanho é circunstância exterior, e independente. Na criação do mundo não houve nas águas diferença, só houve divisão; a diversidade só foi no nome, e no lugar, mas não na matéria original: o Espírito vivificante, e eterno, em todas infundiu um movimento próprio, circular, fecundo, e sujeito às leis do peso, e do equilíbrio. Há pois nas águas o mesmo nascimento em todas, a mesma propriedade, e o mesmo fim. Assim são os homens; no seu género, têm com as águas um paralelo, ou figura igual. Nem todos nascem na abundância; nem a todos a fortuna lisonjeia; uns parece que nascem para o descanso, outros para o trabalho; uns para a grandeza, outros para a humildade; uns para a opulência, outros para a miséria; uns para o respeito, outros para o desprezo; uns para a memória, outros para o esquecimento; uns para a bonança, outros para a tormenta; uns para venturas, outros para desgraças; uns para as atenções, outros para os descuidos; a uns vemos subir, a outros descer. Mas que importa que no exterior do homem haja tanta diferença, se no seu interior não há nenhuma? Que importa que sejam diversos os lugares, se nos sujeitos não há diversidade? Quem há-de haver que diga, que o homem que está posto no elevado de uma torre, seja mais homem, que aquele que está posto em campo raso? O homem muda de lugar, mas não muda o ser de homem; em toda a parte é o mesmo, e em nenhuma é mais, nem menos; pode parecer maior, mas ser, não. O Sol no meio-dia brilha mais, não porque deixe de ser o mesmo, nem porque então tenha mais luz, mas porque esta faz mais efeito em um lugar, que em outro: no Ocaso, e no Oriente é o mesmo Sol, e a mesma luz, mas não parece o mesmo. Assim são os homens; em qualquer parte que os ponham, todos são iguais, e uniformes; a diferença, que há entre eles, não tem outro fundamento, que o que vem da preocupação, e do conceito; são duas cousas, e ambas vãs, porque nenhuma tem realidade. A fortuna pode armar o homem com jeroglíficos, e adornos figurados, mas não o pode armar senão por fora; quem levantar as roupas, há-de ver o engano, e a suposição, e não há-de achar mais do que um homem como os outros, cujo ornato é de pura fantasia, arbitrária, artificial, e separável; a fortuna pode vestir, não pode formar; sabe fingir, mas não sabe fazer. O mesmo obséquio todo se compõe de um ceremonial imaginário, mudável, de instituição nacional, e variante. O incenso que algumas vezes é símbolo da vaidade, e da lisonja, primeiro que exale o seu perfume, arde, e no ar se extingue, e se consome. Tudo o que nos recreia, e nos atrai, é exalação, e fumo; por isso o emprego da vaidade todo consiste em dar substância às vozes, entidade ao modo, e corpo ao vento.