Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXXVI

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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As virtudes humanas muitas vezes se compõem de melancolia, e de um retiro agreste. As mais das vezes é humor o que julgamos razão; é temperamento o que chamamos desengano; e é enfermidade o que nos parece virtude. Tudo são efeitos da tristeza; esta nos obriga a seguir os partidos mais violentos, e mais duros; raras vezes nos faz reflectir sobre o passado, quási sempre nos ocupa em considerar futuros; por isso nos infunde temor, e cobardia, na incerteza de acontecimentos felices, ou infaustos; e verdadeiramente a alegria nos governa em forma, que seguimos como por força os movimentos dela; e do mesmo modo os da tristeza. Um ânimo alegre disfarça mal o riso, um coração triste encobre mal o seu desgosto: como há-de chorar quem está contente? E como há-de rir quem está triste? Se alguma vez se chora donde só se deve rir, ou se ri por aquilo por que se deve chorar, a alma então penetrada de dor, ou de prazer, desmente aquele exterior fingido, e falso. Só a vaidade sabe transformar o gosto em dor, e esta em prazer, a alegria em tristeza, e esta em contentamento; por isso as feridas não se sentem, antes lisonjeiam, quando foram alcançadas no ardor de uma peleja, esclarecida pelas circunstâncias da vitória; as cicatrizes por mais que causem deformidade enorme, não entristecem, antes alegram, porque servem de prova, e instrumento visível, por onde a cada instante, e sem palavras, o valor se justifica; são como uma prova muda, que todos entendem, e que todos vêem com admiração, e com respeito; a tristeza, que devia resultar da fealdade, confunde-se, perde-se, e se muda em alegria, por meio das aclamações do aplauso; a dor do golpe também se converte em gosto, por meio do remédio, e simpatia do louvor; este atrai a si toda a nossa sensibilidade, e deixa a natureza como insensível, absorta, e indolente; assim se vê que a vaidade nos livra de uma dor como por encanto; por isso nos é útil, pois serve de acalmar os nossos males; e se os agrava alguma vez, é como a mão do artista, que faz doer para curar; e com efeito a vaidade não persiste muito em fazer sensível a razão que nos molesta; na mesma injúria do desprezo sabe descobrir algum motivo, que ou diminui a pena, ou totalmente a tira; lá vai buscar a Religião para fazer da paciência o maior merecimento; outras vezes faz que achemos nos exemplos um alívio constante; e que o mesmo vitupério, visto em sujeitos grandes, não só desfaça o nosso pela imitação, mas que também o autorize, e ilustre pela razão da semelhança. A vaidade não consente, que a nossa presunção fique abatida, antes para a conservar, lembra mil interpretações, e aplicações forçadas; daqui vem o excogitar a vaidade a regra, de que um dos privilégios da grandeza, é ser superior às máximas do vulgo, e que nela o descrédito não desacredita, a desonra não desonra, e a infâmia não infama. A vaidade da grandeza parece que é mais subtil, e mais vã do que as outras vaidades, pois introduz o poder, e a autoridade, até no modo de pensar. Mas que importa, que a vaidade estabeleça regras, se estas sempre ficam dependentes da aprovação dos homens; e se estes não sabem sujeitar os seus conceitos, senão àquilo que é comum, que toca a todos, e que a todos compreende? Por isso assim como em todos pode ter lugar a causa da ignomínia, também em todos pode ter lugar o efeito dela. A vaidade pode enganar a cada um, pelo que respeita a si, mas não pode enganar a todos, pelo que respeita a cada um. Contra a imaginação não há poder, contra as acções, sim; o pensamento enquanto não sai da sua esfera, tem uma liberdade inteira, impenetrável, e muitas vezes invencível. Creia pois a grandeza o que quiser de si, porque também nós havemos de crer dela o que quisermos. A sua vaidade poderá prometer-lhe, ou fingir-lhe várias isenções, porém fundá-las, não; poderá querer introduzir, mas fazer reconhecer, de nenhuma sorte. O labéu para todos é o mesmo, e se há nele diferença, é que nas pessoas eminentes fica sendo mais reparável, e maior. Em uma pedra vil não há imperfeição a que se atenda muito; em uma pedra preciosa qualquer defeito lhe faz perder a estimação; as manchas de um Planeta são imperceptíveis; no Sol qualquer vapor o ofusca; o menor eclipse é de todos conhecido; todos o calculam, todos o vêem, e o medem! Nas sombras não há que distinguir, na luz qualquer alteração é reparável.