Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXXVII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
[87]


A nossa tristeza nos faz parecer tudo o que vemos triste; a nossa alegria tudo nos mostra alegre; e o nosso contentamento tudo nos mostra com agrado: os objectos influem menos em nós, do que nós influímos em nós mesmos. Vemos como de fora as aparências de que o mundo se compõe, por isso não conhecemos o seu verdadeiro ser, nem gozamos delas no estado, em que as achamos, mas sim naquele em que elas nos acham. A delícia dos olhos, e do gosto, depende mais da nossa disposição, que da sua eficácia; o mesmo, que ontem nos atraiu hoje nos aborrece; ontem porque estava sem perturbação o nosso ânimo, hoje porque está com desassossego; e tudo porque não somos hoje, o que ontem fomos: o mesmo que hoje nos agrada, amanhã nos desgosta, e os objectos, por serem os mesmos, não causam sempre em nós as mesmas impressões; por motivos diferentes recebemos alterações iguais. O pouco que basta para afligir-nos, ou para contentar-nos, bem mostra o pouco constantes, que são em nós a aflição, e o contentamento; por isso uma, e outra cousa nos deixa com a mesma facilidade com que nos penetra. Como a maior parte das cousas, que sentimos, é sem razão, também nos não é necessário razão para deixarmos de as sentir; há espaços de tempo, em que nos esquecemos de sorte, que ficamos indiferentes para tudo, e que tudo nos fica indiferente. A mesma natureza a cada passo equivoca: com ais denota o contentamento, e explica com gemidos o alvoroço; as ânsias e suspiros, que acompanham o tormento, também são do gosto a imagem, e a expressão mais viva. A vaidade, que comummente produz as nossas alegrias, e tristezas, umas vezes tudo nos representa alegre, outras tudo nos oferece triste. Também na vaidade há horas; em umas ocupa-se em objectos de grandeza, em outras toda se entretém em ideias de opulência; umas vezes realiza a nossa fantasia em forma, que tudo nos propõe já conseguido; então é que a vaidade nos enche de alegria; e é também quando a alegria é vã, porque o seu motivo não tem corpo, e só se compõe de uma visão, ou sonho; outras vezes a vaidade nos enfeita com adornos tão ricos, e sublimes, que não podendo suportar, nem o esplendor, nem o peso da figura, ela mesma se desvanece; então é que a tristeza nos combate, porque então nos vemos como somos. O homem em si, é obra de uma inteligência inexplicável. Os seus adornos é que são materiais; a mesma grandeza e fausto, só consta de um aparato superficial, risível, e que não tem mais valor, que o que a vaidade, e o costume lhe têm dado: o costume é tudo; as cousas não são nada; o de que fazemos tanto caso, não é mais, do que o modo com que os homens significam, ou explicam o respeito; o mesmo costume faz, que buscamos umas cousas, e fugimos de outras; e que umas nos entristecem, e outras nos alegram; e como um mesmo objecto pode ser considerado por modos mui diversos, por isso alguns há que ao mesmo tempo nos alegram, e entristecem; ao mesmo tempo nos fazem chorar, e rir; amar, e aborrecer; por isso os nossos afectos mudam-se, encontram-se e variam. Somos os instrumentos da vaidade; ela nos tempera, e põe no tom, que lhe parece: umas vezes nos levanta, outras nos abaixa; umas vezes é um tom subtil, delicado, e agradável; outras é um tom áspero, duro, e pouco harmonioso. A sociedade dos homens forma um concerto de infinitas vozes, e de infinita diversidade. Todos choram, e todos cantam; a vaidade a todos dá por que cantem, e por que chorem; todos entram como partes principais; ninguém fica destinado, somente para ouvir, e ver: enquanto dura a acção (isto é, a vida), todos falam, depois todos emudecem; a estátua, que a vaidade enchia de ardor, e movimento, depois fica imóvel, e insensível; o mesmo homem, que atraía tudo a si, depois tudo faz fugir de si: que notável diferença! O mesmo que se via com gosto, e com respeito, depois se se vê, é com horror; e isto porque finalmente veio a desfazer-se o edifício mais nobre, mais regular, e mais soberbo; a melhor arquitectura jaz por terra; os mármores ficaram sem lustro, as colunas sem força, os pórticos sem ordem, os ornatos sem graça: já se não vêem senão torres abatidas, muros arrancados, frisos rotos, bases despedaçadas: não há parte, por mais mínima que seja, em que a ruína não seja universal; é ruína, em que não pode haver reparo; é templo, cuja destrução não se pode reedificar por arte: os materiais confusos, inúteis já, perdida a proporção, a medida, a correspondência, o polimento, e ainda a mesma substância da matéria, tendem desordenadamente a uma transformação fatal, impura, fétida, verminosa, e horrenda; a terra piedosamente se abre, como para recolher, ou esconder em seu seio, o mesmo que tinha saído dele; com a diferença lastimosa de receber em um cadáver, símbolo do espanto, e da tristeza, aquilo mesmo que havia entregue em um homem, símbolo da alegria, e da vaidade.