Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/LXXXVIII

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
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Os tempos, e as ocasiões, tiram, ou dão valor à vaidade dos homens; e ainda que neles se vejam as mesmas vaidades, contudo há vaidades predominantes, que se mostram mais em certos tempos, e que em certas ocasiões se encontram mais. Assim como nas outras cousas, também na vaidade algumas há, que são como filhas de um lugar, e que em um país têm mais reputação que em outro. Os vícios lá parece que dependem da fortuna; porque as ilusões que os homens idolatram, não têm igual estimação em toda a parte. Assim como mudamos de destino, também mudamos de vaidades, não porque deixemos totalmente umas, para seguirmos outras; mas porque há vaidades, que em certos tempos têm mais culto. Ainda que a terra seja o primeiro móvel da vegetação, contudo, nem toda a terra é própria para todo o vegetal; aquela em que nasce a rosa, muitas vezes se nega ao lírio; ali donde o jasmim se cria, dá-se mal a assucena; lá donde o urmo reverdece, não pode tomar alento a hera: a mesma terra, base de todo o sensitivo, só na África é pátria do Leão, na América do Leopardo, na Ásia do Elefante; o Cisne só canta nas ribeiras do Meandro; a Fénix só na Arábia se diz que sabe renascer das suas cinzas; a Águia não remonta ao Sol em qualquer parte. Isto mesmo se vê na vaidade: umas nascem com o homem; essas são vaidades universais; outras resultam das opiniões, que são próprias, e particulares a cada uma das nações; essas são vaidades locais, e territoriais: e nesta forma governa a vaidade o mundo, dividida em muitas classes, ou em muitos géneros de vaidades. Em uma região a vaidade dominante consiste no valor, em outra no luxo, em outra na origem; muitos homens há que fazem vaidade de alguns vícios, a que os inclina a qualidade do clima, e necessidade do terreno; de sorte que aquilo mesmo, que em um lugar se faz por vaidade, em outro por vaidade não se faz; aquilo, que em uma parte se estima por vaidade, em outra por vaidade se despreza: como a vaidade depende da opinião das gentes, por isso é tão mudável como a mesma opinião; e com efeito a vaidade é cousa essencial no homem; a espécie dela não. Vivemos continuamente em esperanças, e quando alguma nos deixa, e nos engana, logo nos deixamos enganar por outra; não podemos viver sem aquele engano. A vaidade que nos anima primeiro, anima todas as paixões, só com a diferença de que esta nossa terra, ou esta terra do homem, naturalmente produz esperança, e vaidade, e tudo o mais vem por força da cultura, e do artifício. O mesmo amor está sujeito às leis da vaidade. Quem dissera, que o amor, que é como a alma de toda a natureza, tenha na vaidade o seu princípio, e algumas vezes o seu fim. Nascer o amor da vaidade, e morrer por ela, isto é amar por vaidade, e também por vaidade não amar, ou deixar de amar, parece difícil de entender; contudo a proposição é certa; mas como havemos de mostrá-la, sem entrar ao mesmo tempo em uma sucessiva progressão a respeito do amor, a respeito da fermosura, e por consequência a respeito das mulheres? Sim, faremos alguma digressão; mas que importa, em tudo havemos de encontrar a vaidade. Deixemos por um pouco a vaidade só; não sejam tudo reflexões sobre o fim do homem, sejam algumas sobre o seu princípio; não o busquemos naquele estado, em que ele acaba, mas sim naquele, em que começa; larguemos um instante aquele assunto triste, e busquemos no amor um mais alegre; façamos da mesma digressão, divertimento, depois sempre acharemos vaidade na fermosura, no amor, e nas mulheres.