Reflexões sobre a Vaidade dos Homens/Prólogo

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Reflexões sobre a Vaidade dos Homens por Matias Aires
Prólogo ao Leitor


Eu que disse mal das vaidades, vim a cair na de Autor: verdade é que a maior parte destas Reflexões escrevi sem ter o pensamento naquela vaidade; houve quem a suscitou, mas confesso que consenti sem repugnância, e depois quando quis retroceder, não era tempo, nem pude conseguir o ser Anónimo. Foi preciso pôr o meu nome neste livro, e assim fiquei sem poder negar a minha vaidade. A confissão da culpa costuma fazer menor a pena.

Não é só nesta parte em que sou repreensível: é pequeno este volume, mas pode servir de campo largo a uma censura dilatada. Uns hão-de dizer que o estilo oratório, e cheio de figuras, era impróprio na matéria; outros hão-de achar que as descrições, com que às vezes me afasto do sujeito, eram naturais em verso, e não em prosa; outros dirão, que os conceitos não são justos, e que alguns já foram ditos; finalmente outros hão-de reparar, que afectei nas expressões alguns termos desusados, e estrangeiros. Bem sei que contra o que eu disse, há muito que dizer; mas é tão natural nos homens a defesa, que não posso passar sem advertir, que se os conceitos neste livro não são justos, é porque em certo género de discursos, estes não se devem tomar rigorosamente pelo que as palavras soam, nem em toda a extensão, ou significação delas. Se os mesmos conceitos se acham ditos, que haverá que nunca o fosse? E além disto os primeiros princípios, ou as primeiras verdades, são de todos, nem pertencem mais a quem as disse antes, do que aqueles que as disseram depois. Se o estilo é impróprio, também pode ponderar-se que no modo de escrever, às vezes se encontram umas tais imperfeições, que têm não sei que gala, e brio: a observância das regras nem sempre é prova da bondade do livro; muitos escrevem exactamente, e segundo os preceitos da arte, mas nem por isso o que disseram foi mais seguido, ou aprovado: a arte leva consigo uma espécie de rudeza; a fermosura atrai só por si, e não pela sua regularidade, desta sabe afastar-se a natureza, e então é que se esforça, e produz cousas admiráveis; do fugir das proporções, e das medidas, resulta muitas vezes uma fantasia tosca, e impolida, mas brilhante, e forte. Nada disto presumo se ache aqui; o que disse, foi para mostrar, que ainda em um estilo impróprio se pode achar alguma propriedade feliz, e agradável.

Escrevi das vaidades, mais para instrução minha, que para doutrina dos outros, mais para distinguir as minhas paixões, que para que os outros distingam as suas; por isso quis de alguma sorte pintar as vaidades com cores lisonjeiras, e que as fizessem menos horríveis, e sombrias, e por consequência menos fugitivas da minha lembrança, e do meu conhecimento. Mas se ainda assim fiz mal em formar das minhas Reflexões um livro, já me não posso emendar por esta vez, senão com prometer, que não hei-de fazer outro; e esta promessa entro a cumprir já, porque em virtude dela ficam desde logo suprimidas as traduções de Quinto Cúrcio, e de Lucano. As acções de Alexandre, e César, que estavam brevemente para sair à luz no idioma Português, ficam reservadas para serem obras póstumas, e talvez que então sejam bem aceites; porque os erros facilmente se desculpam em favor de um morto; se bem que pouco vale um livro, quando para merecer algum sufrágio, necessita que primeiro morra o seu Autor; e com efeito é certo que então o aplauso não procede de justiça, mas vem por compaixão, e lástima

Não me obrigo porém a que (vivendo quase retirado) deixe de ocupar o tempo em escrever em outra língua; e ainda que a vulgar é um tesouro, que contém riqueza imensa para quem se soubesse servir dela, contudo não sei que fatalidades me têm feito olhar com susto, e desagrado para tudo quanto nasceu comigo: além disto, as letras parece que têm mais fortuna, quando estão separadas do lugar em que nasceram; a mudança de linguagem é como uma árvore que se transplanta, não só para frutificar melhor, mas também para ter abrigo.

Vale

Vanitas vanitatum et omnia vanitas Eccl., cap. I, vers. 2