Reisado do Cavalo Marinho e do Bumba-Meu-Boi

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Reisado do Cavalo Marinho e do Bumba-Meu-Boi
coletado por Sílvio Romero
Publicado em Cantos populares do Brasil. (Pernambuco)


CENA I

(O Cavalo marinho a dançar e o Coro)

Coro:

Cavalo-marinho
Vem se apresentar,
A pedir licença
Para dançar.
Cavalo-marinho,
Por tua atenção
Faz uma mesura
A seu capitão.
Cavala-marinho
Dança muito bem;
Pode-se chamar
Maricas meu bem.
Cavalo-marinho
Dança bem baiano;
Bem parece ser
Um pernambucano.
Cavalo-marinho
Vai para a escola
Aprender a ler
E a tocar viola.
Cavalo-marinho
Sabe conviver;
Dança o teu balanço
Que eu quero ver.
Cavalo-marinho,
Dança no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Cavalo marinho,
Dança na calçada;
Que o dono da casa
Tem galinha assada.
Cavalo-marinho,
Você já dançou:
Mas porém lá vai,
Tome que eu lhe dou.
Cavalo-marinho,
Vamo-nos embora;
Faze uma mesura
Á tua senhora.
Cavalo-marinho,
Por tua mercê,
Manda vir o boi
Para o povo ver.

CENA II

(O Amo, o Arlequim, o Mateus, o Boi, o Coro, o Sebastião e o Fidelis.)

O' arlequim,
O' pecados meus,
Vai ,chamar Fidelis,
E também Mateus.
O' meu arlequim.
Vai chamar Mateus,
Venha com o boi
E os companheiros seus.

Arlequim:

O' Mateus, vem cá.
Sinhô está chamando;
Traze o teu boi,
E venhas dançando.
Só achei o Mateus,
Não achei Fidelis;
Bem se diz que negro
Não tem dó da pele.

Amo:

O' Mateus, cadê o boi?

Mateus:

Olá, olá, olá,
Boio tá p 'ra cá,
Boio tá p'ra cá. . .
Se minha boio chegou
Eu tá aqui;
E que foi esse
Pur aqui?
O' meu xinhô,
Cadê-lo o Bastião,
Cadê-Ia- o Fidere?
Para onde fôro?
Venham cá vocês (para o coro)
E também o boio.

Coro:
Vem, meu boi lavrado,
Vem fazer bravura,
Vem dançar bonito,
Vem fazer mesura,
Vem fazer mistérios,
Vem fazer beleza;
Vem mostrar o que sabes
Pela natureza.
Vem dançar, meu boi,
Brinca no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Este boi bonito
Não deve morrer;
Porque só nasceu
Para conviver.

Mateus:

O' boio, dare de banda,
Xipaia esse gente,
Dare pra trage,
E dare pra frente. . .
Vem mai pra baxo,
Roxando no chão
E dá no pai Fidere,
Xipanta Bastião. . .
Vem pra meu banda
Bem difacarinha,
Vai metendo a testa
No Cavalo-marinha.
Ô, ô, meu boio,
Desce desse casa,
Dança bem bonito
No meio da praça. ..
Toca esse viola,
Pondo bem miúdo;
Minha boio sabe
Dançá bem graúdo.

Coro:

Toca bem esta viola
No baiano gemedô,
Que o Mateus e o Fidelis
São dois cabras dançadô.
No passo da juriti,
Tico-tico, rouxinó,
Se Fidelis dança bem,
O Mateus dança milhó.
O tocadô da viola
Tem os olhos muito esperto,
O som da sua viola
Parece~me um céu aberto.
Eu quero boa viola
Para fazer toda a festa,
O bom pandeiro concerta
O samba na floresta.
Eu fui dos que nasci
Na maré dos caranguejos,
Quanto mais carinhos faço,
Mais desprezado me vejo.
Como sou filho do povo,
Tenho o dom da natureza;
Não sou feliz, mas bem passo
Com toda a minha pobreza.
Dança o boi, dança o Mateus,
Dançam todos os vaqueiros;
Dançam que hoje nós temos
Grande festa no terreiro.

Mateus:

Para, para, para!
Quero dizer um recado:
- Boi dançou, dançou;
Mai agora tá deitado!

Sebastião:

Ah! pracêro meu,
Boio de sinhô morreu. . .

Mateus:

A t'embora, bobo,
O boio divertiu muito,
Agora ficou cansado;
Toca bico do ferrão,
Pra tu vê como arrevira
E te dá no chão.

CENA III

(Os mesmos, o Doutor, Capitão do mato, D. Frigideira, Catarina, e o Padre; caído o boi, foge F'ielelis, chama-se um capitão do campo para o prender e um Doutor para curar o Boi; aparece um Padre para fazer o casamento ele Catarina.)

Mateus:

Minha boi morreu!
Que será de mim?
Manda buscá outro
Lá no Piauí.

Amo:

O' Mateus,cadê o boi?

Mateus:

Sinhô, O boi morreu. . .

(Sai o Mateus espancado pelo amo)

Amo:

Ó Mateus vá chamar
O doutor para curar
O meu rico boi:
Quero saber do Fidelis
Para onde foi.
Ó Sebastião, vá a toda a pressa,
Chame o Capitão do mato,
Dê as providência,
Que traga o Fidelis
Na minha presência.

(Chegando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam D. Frigideira e Catanrina, e Sebastião quer casar com esta; aparece o Padre para este fim.)

Padre:

Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco;
Não sou padre, não sou nada;
Singular sou como os outros.

Coro:

Ó chente', que quer dizer
Um padre nesta função?
É sinal de casamento,
Ou alguma confissão.

Padre::

Bula hem na prima,
Bata no bordão;
Arribo a função,
Não se acabe não.

Doutor para Mateus:

Ó negro, teu desaforo
Já chegou aonde foi;
Quando tu me chamares
É prá gente e não pra boi.

Mateus:

Ah! uê, ah! uê!
Troco miúdo
Tu vai recebê.

(O Capitão campo dá com o Fidelis e vai prende-lo.)

Capitão:

Eu te atiro, negro,
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão.

(O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra.)

CORO:

Capitão de campo,
Veja que o mundo virou,
Foi ao mato pegar negro,
Mas o negro lhe amarrou.

Capitão:

Sou valente afamado,
Como eu pode não haver;
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr.

(Finda-se aqui a função saindo todos a cantar.)