Relatório do IPCC : Aquecimento global de 1,5°C

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Aquecimento global a 1,5°C
por [[Autor:Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)|Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)]]
Relatório Especial do IPCC sobre os efeitos de um aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e dos perfis de emissão de gases com efeito de estufa associados, como parte de uma resposta global reforçada à ameaça das alterações climáticas, do desenvolvimento sustentável e dos esforços para erradicar a pobreza

Resumo para decisores políticos

Publicado em inglês (pdf) em 6 de outubro de 2018 em Incheon, Coreia do Sul, revisão de janeiro de 2019 - ISBN 978-92-9169-151-7

Tradução cidadã, não oficial.


Editores[editar]

  • Valérie Masson-Delmotte, Co-Chair Working Group I
  • Panmao Zhai, Co-Chair Working Group I
  • Hans-Otto Pörtner, Co-Chair Working Group II
  • Debra Roberts, Co-Chair Working Group II
  • Jim Skea, Co-Chair Working Group III
  • Priyadarshi R. Shukla, Co-Chair Working Group III
  • Anna Pirani, Head of WGI TSU
  • Wilfran Moufouma-Okia, Head of Science
  • Clotilde Péan, Head of Operations
  • Roz Pidcock, Head of Communication
  • Sarah Connors, Science Officer
  • J. B. Robin Matthews, Science Officer
  • Yang Chen, Science Officer
  • Xiao Zhou, Science Assistant
  • Melissa I. Gomis, Graphics Officer
  • Elisabeth Lonnoy, Project Assistant
  • Tom Maycock, Science Editor
  • Melinda Tignor, Head of WGII TSU
  • Tim Waterfield, IT Officer

Colaboradores[editar]

Myles R. Allen (UK), Mustafa Babiker (Sudan), Yang Chen (China), Heleen de Coninck, (Netherlands/EU), Sarah Connors (UK), Renée van Diemen (Netherlands), Opha Pauline Dube (Botswana), Kristie L. Ebi (USA), Francois Engelbrecht (South Africa), Marion Ferrat (UK/France), James Ford (UK/Canada), Piers Forster (UK), Sabine Fuss (Germany), Tania Guillén Bolaños (Germany/Nicaragua), Jordan Harold (UK), Ove Hoegh-Guldberg (Australia), Jean-Charles Hourcade (France), Daniel Huppmann (Austria), Daniela Jacob (Germany), Kejun Jiang (China), Tom Gabriel Johansen (Norway), Mikiko Kainuma (Japan), Kiane de Kleijne (Netherlands/EU), Elmar Kriegler (Germany), Debora Ley (Guatemala/Mexico), Diana Liverman (USA), Natalie Mahowald (USA), Valérie Masson-Delmotte (France), J. B. Robin Matthews (UK), Richard Millar (UK), Katja Mintenbeck (Germany), Angela Morelli (Norway/Italy), Wilfran Moufouma-Okia (France/Congo), Luis Mundaca (Sweden/Chile), Maike Nicolai (Germany), Chukwumerije Okereke (UK/Nigeria), Minal Pathak (India), Antony Payne (UK), Roz Pidcock (UK), Anna Pirani (Italy), Elvira Poloczanska (UK/Australia), Hans-Otto Pörtner (Germany), Aromar Revi (India), Keywan Riahi (Austria), Debra C. Roberts (South Africa), Joeri Rogelj (Austria/Belgium), Joyashree Roy (India), Sonia I. Seneviratne (Switzerland), Priyadarshi R. Shukla (India), James Skea (UK), Raphael Slade (UK), Drew Shindell (USA), Chandni Singh (India), William Solecki (USA), Linda Steg (Netherlands), Michael Taylor (Jamaica), Petra Tschakert (Australia/Austria), Henri Waisman (France), Rachel Warren (UK), Panmao Zhai (China), Kirsten Zickfeld (Canada).

Citação[editar]

Este documento deve ser citado com a seguinte referência:

2018: Summary for Policymakers. In: Global Warming of 1.5 °C. An IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5 °C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, H.-O. Pörtner, D. Roberts, J. Skea, P.R. Shukla, A. Pirani, W. Moufouma-Okia, C. Péan, R. Pidcock, S. Connors, J.B.R. Matthews, Y. Chen, X. Zhou, M.I. Gomis, E. Lonnoy, T. Maycock, M. Tignor, and T. Waterfield (eds.)]. World Meteorological Organization, Geneva, Switzerland, 32 pp.

Agradecimentos[editar]

Agradecemos os conhecimentos especializados, o rigor e a dedicação demonstrados ao longo de todo o trabalho realizado pelos Autores Coordenadores Responsáveis e pelos Autores Coordenadores, que trabalham nas diversas disciplinas científicas de cada capítulo do relatório, com a contribuição essencial de muitos Autores Contribuidores. Os Revisores Editores desempenharam um papel fundamental na assistência às equipes de autores para garantir a integridade do processo de revisão. Expressamos o nosso sincero reconhecimento a todos os revisores especialistas e dos governos. Um agradecimento especial a todos os Cientistas do presente relatório que foram além do que era esperado: Neville Ellis, Tania Guillén Bolaños, Daniel Huppmann, Kiane de Kleijne, Richard Millar e Chandni Singh.

Gostaríamos ainda de agradecer a três membros do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), Vice-Presidentes Ko Barrett, Thelma Krug, e Youba Sokona, bem como aos membros do Secretariado dos Grupos de Trabalho WGI, WGII e WGIII, pela sua assistência, orientação e sabedoria durante a elaboração do relatório: Amjad Abdulla, Edvin Aldrian, Carlo Carraro, Diriba Korecha Dadi, Fatima Driouech, Andreas Fischlin, Gregory Flato, Jan Fuglestvedt, Mark Howden, Nagmeldin G. E. Mahmoud, Carlos Mendez, Joy Jacqueline Pereira, Ramón Pichs-Madruga, Andy Reisinger, Roberto Sánchez Rodríguez, Sergey Semenov, Muhammad I. Tariq, Diana Ürge-Vorsatz, Carolina Vera, Pius Yanda, Noureddine Yassaa e Taha Zatari.

Os nossos mais sinceros agradecimentos também aos anfitriões e aos organizadores da reunião de escopo, das quatro reuniões de Autores Coordenadores do relatório especial sobre aquecimento global de 1,5 °C, bem como da 48.ª sessão do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima(IPCC). Reconhecemos plenamente o apoio prestado pelos países e instituições de acolhimento: Organização Meteorológica Mundial, Suíça; Ministério das Relaçoes Exteriores e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil; Gabinete MET e Universidade de Exeter, Reino Unido; Instituto Sueco da Meteorologia e do Hidrologia (SMHI), Suécia; Ministério da Conservação dos Recursos Naturais e do Turismo, o Comitê Nacional para Mudança do Clima do Departamento de Serviços Meteorológicos e o Comité das Alterações Ambientais Global do Botsuana, na Universidade do Botsuana, Botsuana; e a Administração Meteorologica (KMA) e a Incheon Metropolitan City, da República da Coreia. O apoio prestado pelos governos e pelas instituições, bem como através de contribuições para o fundo fiduciário do IPCC, foi amplamente reconhecido, uma vez que permitiu a participação das equipas de autores na preparação do relatório. O funcionamento eficiente da Unidade de Apoio Técnico do Grupo de Trabalho I (WGI) foi viabilizado graças ao generoso apoio financeiro concedido pelo Governo francês e o apoio administrativo e tecnológico da Universidade de Paris - Saclay (França), pelo Instituto Pierre Simon Laplace (IPSL) e pelo Laboratório de Ciência do Clima e do Ambiente (LSCE). Agradecemos à Agência Norueguesa do Ambiente o apoio à preparação dos gráficos do resumo para os responsáveis políticos. Agradecemos à biblioteca do PNUA (UNEP), que apoiou os autores ao longo de todo o processo de elaboração, fornecendo documentação para a avaliação.

Gostaríamos ainda de agradecer ao secretário do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) Abdalah Mokssit e ao pessoal do Secretariado do PIAC (IPCC): Kerstin Standahl, Jonathan Lynn, Sophie Schlingemann, Judith Ewa, Mxolisi Shongwe, Jesbin Baidya, Werani Zabula, Nina Peeva, Joelle Fernandez, Annie Courtin, Laura Biagioni e Oksana Ekzarkho. Agradecimentos a Elhousseine Gouaini, que desempenhou as funções de oficial de conferência da 48.ª sessão do IPCC.

Por último, um especial agradecimento para as Unidades de Apoio Técnico dos Grupos de Trabalho, cuja dedicação, profissionalismo e entusiasmo conduziram à elaboração do presente relatório especial. Este relatório não poderia ter sido elaborado sem o compromisso dos membros da Unidade de Apoio Técnico do Grupo de Trabalho I (WGI), todos novos no IPCC, que se mostraram à altura do desafio sem precedentes do sexto Relatório de Avaliação, e que foram cruciais em todos os aspetos da preparação do relatório: Yang Chen, Sarah Connors, Melissa Gomis, Elisabeth Lonnoy, Robin Matthews, Wilfhan Mofouma-Okia, Clotilde Pécan, Roz Pidcock, Anna Pirani, Nicholas Reay, Tim Waterfield, e Xiao Zhou. Os nossos calorosos agradecimentos ao apoio colegial e colaborativo prestado por Marlies Craig, Andrew Okem, Jan Petzold, Melinda Tignior e Nora Weyer a partir da unidade de apoio técnico do Grupo de Trabalho II (WGII) e Bhushan Kankal, Suvadip Neogi e Joana Portugal Pereira da Unidade de Apoio Técnico do Grupo de Trabalho III (WGIII). Um agradecimento especial a Kenny Coventry, Harmen Gudde, Irene Lorenzoni, e Stuart Jenkins pelo seu apoio com os números do resumo para os responsáveis políticos, bem como a Nigel Hawtin para apoio gráfico ao relatório. Além disso, são amplamente reconhecidas as seguintes contribuições: Jatinder Padda (revisão do texto), Melissa Dawes (revisão do texto), Marilyn Anderson (índice), Vincent Grégoire (layout) e Sarah le Rouzic (estagiária).

O sítio internet do Relatório Especial foi desenvolvido por Habitat 7, sob a direção de Jamie Herring, tendo o conteúdo do relatório sido preparado e gerido por Nicholas Reay e Tim Waterfield. Reconhecemos com gratidão o apoio da Fundação das Nações Unidas para o desenvolvimento do sítio internet.

Introdução[editar]

O presente relatório responde ao convite ao IPCC para que «... apresente, em 2018, um relatório especial sobre os impactos do aquecimento global de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais e as trajetórias globais de emissão de gases de efeito estufa», conforme Decisão da 21.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para adoção do Acordo de Paris. [1]

O IPCC aceitou o convite em abril de 2016, decidindo preparar o presente relatório especial sobre os impactos do aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais e as respetivas trajetórias de emissão de gases de efeito estufa, no contexto de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima, o desenvolvimento sustentável e esforços para erradicar a pobreza.

O presente resumo para os formuladores de políticas (SPM) apresenta as principais conclusões do relatório especial, com base na avaliação das publicações científicas, técnicas e socio-econômicas disponíveis [2] relevantes para o aquecimento global de 1,5°C e para a comparação entre o aquecimento global a 1,5 °C e 2 °C acima dos níveis pré-industriais. O nível de confiança associado a cada resultado é informado utilizando a linguagem calibrada do IPCC [3]. A base científica subjacente a cada resultado é indicada nas referências às seções dos capítulos. Nesta síntese (SPM), são identificadas lacunas de conhecimento associadas a cada capítulo do relatório em si.

A. Memorando de Entendimento sobre o Aquecimento Global a 1,5 °C [4][editar]

A.1 Considera-se que as atividades humanas causaram cerca de 1,0°C de aquecimento global [5] acima dos níveis pré-industriais, com um intervalo 'provável'de 0,8 °C a 1,2 °C. É 'provável' que o aquecimento global atinja 1,5 °C entre 2030 e 2052 caso continue a aumentar à taxa atual ('confiança elevada'). (Figura SPM.1) {1.2}

A.1.1 Refletindo a tendência de aquecimento a longo prazo desde a época pré-industrial, a temperatura média global de superfície (GMST) observada para a década de 2006 — 2015 foi 0,87 °C ('provável' entre 0,75 °C e 0.99 °C) [6] superior à média do período 1850-1900 ('confiança muito elevanda'). A estimativa do aquecimento antrópico do clima corresponde ao nível de aquecimento observado a ±20 % ('intervalo provável'). O aquecimento antrópico do clima está atualmente aumentando 0,2°C ('provável' entre 0,1 °C e 0,3 °C) por década devido a emissões passadas e em curso ('confiança elevada'). {1.2.1, quadro 1.1, 1.2.4}

A.1.2 Em muitas regiões terrestres e estações (do ano) já se observa um aquecimento mais elevado do que a média anual global, incluindo um aquecimento duas a três vezes mais elevado no Ártico. O aquecimento é geralmente mais elevado em terra do que sobre os oceanos ('confiança elevada'). {1.2.1, 1.2.2, figura 1.1, figura 1.3, 3.3.1, 3.3.2}

A.1.3 Foram detetadas tendências em termos de intensidade e frequência de alguns extremos climáticos e meteorológicos ao longo do tempo, durante os quais se verificaram cerca de 0,5 °C de aquecimento global ('confiança média'). Esta avaliação baseia-se em vários tipos de evidência, incluindo estudos de atribuição de alterações nos extremos desde 1950. {3.3.1, 3.3.2, 3.3.3}

A.2 O aquecimento provocado pelas emissões antrópicas desde o período pré-industrial até ao presente persistirá por séculos ou milénios e continuarão a provocar novas alterações a longo prazo no sistema climático, como a elevação do nível do mar, com impactos associados ('confiança elevada'), mas é 'improvável' que estas emissões por si só provoquem um aquecimento global de 1,5 °C ('confiança média'). (figura SPM.1) {1.2, 3.3, figura 1.5}

A.2.1 É 'improvável' que as emissões antrópicas até ao presente (incluindo os gases de efeito estufa, os aerossóis e os seus precursores) provoquem um aquecimento subsequente superior a 0,5 °C nas duas ou três próximas décadas ('confiança elevada') ou à escala temporal de um século ('confiança média'). {1.2.4, figura 1.5}

A.2.2 Atingir e manter emissões antrópicas líquidas globais de CO2 iguais a zero (net zero) e uma redução do forçamento radiativo das emissões não-CO2 travaria o aquecimento global do planeta à escala de várias décadas ('confiança elevada'). A temperatura máxima atingida é assim determinada pelas emissões antrópicas líquidas acumuladas de CO2 até ao momento das emissões zero de CO2 ('confiança elevada') e pelo nível do forçamento radiativo das emissões não-CO2 nas décadas anteriores à altura em que se atingirem as temperaturas máximas ('confiança média'). Em mais longo prazo, talvez possam ser necessárias emissões antrópicas líquidas negativas globais de CO2 e/ou novas reduções do forçamento radiativo de gases não-CO2 para impedir o aquecimento provocado pelos feedbacks ('retroalimentação') do sistema da Terra e para reverter a acidificação dos oceanos ('confiança média') e ainda para minimizar a elevação do nível do mar ('confiança elevada'). {Caixa transversal 2 do capítulo 1, 1.2.3, 1.2.4, figura 1.4, 2.2.1, 2.2.2, 3.4.4.8, 3.4.5.1, 3.6.3.2}

A.3 Os riscos associados ao clima para os sistemas naturais e humanos são mais elevados no caso de um aquecimento global de 1,5 °C do que atualmente, mas inferiores àqueles associados a um aumento de 2 °C ('confiança elevad'). Estes riscos dependem da magnitude e da taxa de aquecimento, da localização geográfica, dos níveis de desenvolvimento e da vulnerabilidade, bem como das opções e da aplicação das opções de adaptação e mitigação ('confiança elevada'). (figura SPM.2) {1.3, 3.3, 3.4, 5.6}

A.3.1 Já foram observados impactos provocados pelo aquecimento global nos sistemas naturais e humanos ('confiança elevada'). Muitos ecossistemas terrestres e oceânicos e alguns dos serviços que estes prestam já formam alterados'evido ao aquecimento global ('confiança elevada'). (figura SPM.2) {1.4, 3.4, 3.5}

A.3.2 Os riscos futuros relacionados ao clima dependem da taxa, do pico e da duração do aquecimento. Globlalmente os riscos serão maiores caso o aquecimento global exceda 1,5 °C antes de retornar a esse nível até 2100, do que no caso do aquecimento global se estabilizar gradualmente em 1,5 °C, especialmente se a temperatura máxima for elevada (por exemplo, cerca de 2 °C) ('confiança elevada'). Alguns impactos podem ser duradouros ou irreversíveis, como a perda de alguns ecossistemas ('confiança elevada'). {3.2, 3.4.4, 3.6.3, caixa transversal 8 do capítulo 3}

A.3.3 Ações de adaptação e mitigação já estão ocorrendo ('confiança elevada'). Os riscos futuros associados ao clima serão reduzidos através da expansão e aceleração das ações de adaptação à mudança do clima, com medidas de longo prazo, intersetoriais e multinível, por adaptações graduais e transformadoras ('confiança elevada'). {1.2, 1.3, quadro 3.5, 4.2.2, caixa transversal 9 do capítulo 4, caixa 4.2, caixa 4.3, caixa 4.6, 4.3.1, 4.3.2, 4.3.3, 4.3.4, 4.3.5, 4.4.1, 4.4.4, 4.4.5, 4.5.3}


Figura SPM.1 | Painel a: Evolução mensal observada da temperatura média da superfície (GMST, linha cinzenta até 2017, a partir dos conjuntos de dados de HadCRUT4, GISTEMP, Cowtan-Way e NOAA) alterações e estimativa do aquecimento climático global antropogénico (linha laranja sólida até 2017, com sombra laranja que indica a gama provável avaliada). A seta a tracejado cor de laranja e a barra de erro laranja horizontal indicam, respetivamente, a estimativa central e o intervalo provável de tempo durante o qual se atinge a temperatura de 1,5 °C se a atual taxa de aquecimento continuar. A pluma cinzenta à direita do painel mostra a gama provável de respostas ao aquecimento, calculadas com um modelo simples do clima, para um cenário estilizado (futuro hipotético) em que as emissões líquidas de CO2 (linha cinzenta nos painéis b e c) diminuem em linha recta de 2020 até atingir o zero líquido em 2055 e a força radiativa não-CO2 (linha cinzenta no painel d) aumenta até 2030 e, em seguida, diminui. A pluma azul no painel a) mostra a resposta a reduções mais rápidas das emissões de CO2 (linha azul no painel b), atingindo o zero líquido em 2040, reduzindo as emissões cumulativas de CO2 (painel c). A pluma violeta mostra a resposta às emissões líquidas de CO2 a descer para zero em 2055, com força radiativa não-CO2 constante após 2030. As barras de erro vertical à direita do painel a) apresentam as gamas prováveis (linhas finas) e os tercis centrais (33º-66º percentis, linhas grossas) da distribuição estimada do aquecimento em 2100 ao abrigo destes três cenários. As barras de erro vertical pontilhadas nos painéis b, c e d mostram a gama provável de emissões líquidas globais anuais e cumulativas de CO2 em 2017 (dados do projeto mundial para as emissões de carbono / Global Carbon Project) e a força radiativa de não-CO2 em 2011 a partir do AR5 (NT: quinto relatório de avaliação, 2013), respetivamente. Os eixos verticais nos painéis c e d são reduzidos à escala de modo a representar efeitos aproximadamente idênticos para a GMST. {1.2.1, 1.2.3, 1.2.4, 2.3, figura 1.2 e capítulo 1 Material suplementar, caixa transversal 2 no capítulo 1}

B. Alterações climáticas projetadas, potenciais impactos e riscos associados[editar]

B.1 Os modelos climáticos projectam diferenças importantes[7] nas características regionais do clima entre a situação presente e um aquecimento global a 1,5 °C, e entre 1,5 °C e 2 °C [8]. Estas diferenças incluem aumentos da temperatura média na maior parte da terra e regiões oceânicas (confiança elevada), extremos de calor na maioria das regiões habitadas (confiança elevada), precipitação intensa em várias regiões (confiança média), e a probabilidade de ocorrência de secas e de défices de precipitação em algumas regiões (confiança média). {3.3}

B.1.1 A evidência das alterações em alguns extremos climáticos e meteorológicos para um aquecimento global de cerca de 0,5 °C apoia a avaliação de que um aumento adicional de 0,5 °C de aquecimento em comparação com o presente estará associado a novas alterações detetáveis nestes extremos (confiança média). Considera-se que várias alterações regionais no clima ocorrerão com um aquecimento global até 1,5 °C em comparação com os níveis pré-industriais, incluindo o aumento de temperaturas extremas em muitas regiões (confiança elevada), aumentos da intensidade, frequência e/ou quantidade de precipitação elevada em várias regiões (confiança elevada) e um aumento da intensidade ou frequência de secas em algumas regiões (confiança média). {3.2, 3.3.1, 3.3.2, 3.3.3, 3.3.4, quadro 3.2}

B.1.2 Prevê-se que os aumentos das temperaturas extremas em terra sejam superiores aos da GMST (confiança elevada): dias de calor extremo em latitudes médias com aumentos até cerca de 3 °C na sequência de um aquecimento global a 1,5 °C, e cerca de 4 °C, na sequência de um aquecimento a 2 °C, noites de frio extremo em latitudes altas deverão ter aumentos de temperatura até cerca de 4,5 °C, na sequência de um aquecimento global a 1,5 °C, e até 6 °C, na sequência de um aquecimento global a 2 °C (confiança elevada). Prevê-se que o número de dias quentes aumente na maior parte das regiões terrestres, com o maior aumento nos trópicos (confiança elevada). {3.3.1, 3.3.2, caixa transversal 8 no capítulo 3}

B.1.3 Prevê-se que os riscos das secas e dos défices de precipitação sejam mais elevados, na sequência de um aquecimento global a 2 °C, em comparação com 1,5 °C em algumas regiões (confiança média). Prevê-se que os riscos decorrentes de episódios de precipitação elevada sejam mais elevados, na sequência de um aquecimento global a 2 °C, em comparação com 1,5 °C em várias regiões de altas latitudes e/ou de alta altitude do hemisfério norte, na Ásia Oriental e no leste da América do Norte (confiança média). Prevê-se que a precipitação intensa associada a ciclones tropicais seja superior na sequência de um aquecimento global a 2 °C, em comparação com um aquecimento global a 1,5 °C (confiança média). De um modo geral, há confiança baixa para variações previstas na alteração dos níveis de precipitação elevada noutras regiões na sequência de um aquecimento global a 2 °C, em comparação com 1,5 °C. Estima-se que a precipitação elevada, quando agregada à escala global, seja mais elevada, na sequência de um aquecimento global a 2 °C, do que a 1,5 °C (confiança média). Em consequência da precipitação elevada, prevê-se que a fração da superfície terrestre global afetada pelos riscos de inundações seja superior em sequência de um aquecimento global a 2 °C, em comparação com 1,5 °C (confiança média). {3.3.1, 3.3.3, 3.3.4, 3.3.5, 3.3.6}

B.2 Prevê-se que até 2100 a subida do nível médio mundial do nível do mar seja inferior em cerca de 0,1 m (metro) no caso de um aquecimento global de 1,5 °C do que no caso de aquecimento global de 2 °C (confiança média). O nível do mar continuará a aumentar muito para além de 2100 (confiança elevada) e a magnitude e a taxa deste aumento dependem de futuros cenários de emissão. Uma subida mais lenta do nível do mar propicia maiores oportunidades de adaptação nos sistemas humanos e ecológicos das pequenas ilhas, zonas costeiras baixas e deltas (confiança média). {3.3, 3.4, 3.6}

B.2.1 As projeções baseadas no modelo de aumento global do nível médio do mar (em comparação com 1986-2005) apontam para um intervalo aproximado de 0,26 a 0,77 m até 2100 para 1,5 °C de aquecimento global, 0,1 m (0,04 — 0,16 m) menos do que para um aquecimento global de 2 °C (confiança média). Uma redução de 0,1 m na subida do nível do mar implica que até 10 milhões de pessoas a menos seriam expostas a riscos conexos, com base na população em 2010 e no pressuposto de que não houve adaptação (confiança média). {3.4.4, 3.4.5, 4.3.2}

B.2.2 A subida do nível do mar vai continuar para além de 2100, mesmo que o aquecimento global esteja limitado a 1,5 °C no século XXI (confiança elevada). A instabilidade da placa de gelo marinha na Antártida e/ou a perda irreversível do manto de gelo da Gronelândia poderá levar a um aumento do nível do mar de vários metros por centenas a milhares de anos. Estas instabilidades podem ser desencadeadas a cerca de 1,5 °C a 2 °C de aquecimento global (confiança média). (figura SPM.2) {3.3.9, 3.4.5, 3.5.2, 3.6.3, caixa 3.3}

B.2.3 O aumento de temperatura amplifica a exposição das pequenas ilhas, das zonas costeiras baixas e dos deltas aos riscos associados à subida do nível do mar para muitos sistemas humanos e ecológicos, incluindo uma maior intrusão de água salgada, inundações e danos nas infraestruturas (confiança elevada). Os riscos associados à subida do nível do mar são mais elevados, na sequência de um aquecimento global de 2 °C, em comparação com 1,5 °C. Uma taxa de subida do nível do mar mais reduzida em sequência de um aquecimento global de 1,5 °C reduz estes riscos, permitindo maiores oportunidades de adaptação, nomeadamente pela gestão e restabelecimento dos ecossistemas costeiros naturais e o reforço das infraestruturas (confiança média). (figura SPM.2) {3.4.5, caixa 3.5}

B.3 Em terra, prevê-se que os impactos na biodiversidade e nos ecossistemas, incluindo perda e extinção de espécies, sejam inferiores no caso de um aquecimento global de 1,5 °C, em comparação com um aquecimento global de 2 °C. Prevê-se que limitar o aquecimento global a 1,5 °C, em comparação com 2 °C, deverá reduzir os impactos nos ecossistemas terrestres, de água doce e costeiros e manter uma maior parte do serviços dos ecossistemas para os seres humanos (confiança elevada). (figura SPM.2) {3.4, 3.5, caixa 3.4, caixa 4.2, caixa transversal 8 no capítulo 3}

B.3.1 De 105,000 espécies estudadas,[9] 6% dos insetos, 8% das plantas e 4% dos vertebrados deverão perder mais de metade da sua expansão geográfica determinada em termos climáticos no caso de um aquecimento global de 1,5 °C, em comparação com 18% dos insetos, 16% das plantas e 8% dos vertebrados para um aquecimento global de 2 °C (confiança média). Os impactos associados a outros riscos relacionados com a biodiversidade, como os incêndios florestais e a propagação de espécies invasoras, são menores a 1,5 °C, em comparação com 2 °C de aquecimento global (confiança elevada). {3.4.3, 3.5.2}

B.3.2 Aproximadamente 4% (intervalo interquartil 2 — 7%) da superfície terrestre mundial deverá sofrer uma transformação dos ecossistemas de um tipo para outro a 1 °C de aquecimento global, em comparação com 13% (intervalo interquartl 8 — 20%) a 2 °C (confiança média). Isto indica que se prevê que a superfície em risco seja aproximadamente 50% mais baixa a 1,5 °C, em comparação com 2 °C (confiança média). {3.4.3.1, 3.4.3.5}

B.3.3 Florestas boreais e tundra nas altas latitudes estão particularmente em risco de degradação e perda provocadas pelas alterações climáticas, com os arbustos lenhosos já a invadir a tundra (confiança elevada), o que continuará a acontecer com o aquecimento subsequente. Prevê-se que se se limitar o aquecimento global a 1,5 °C em vez de 2 °C se possa evitar a descongelação durante um período de séculos de uma zona de permafrost (gelo eterno) entre 1,5 e 2,5 milhões de km2 (confiança média). {3.3.2, 3.4.3, 3.5.5}

B.4 A limitação do aquecimento global a 1,5 °C, em comparação com 2 °C, deverá reduzir o aumento da temperatura dos oceanos, bem como os aumentos associados da acidez dos oceanos e a diminuição dos níveis de oxigénio dos oceanos (confiança elevada). Por conseguinte, a limitação do aquecimento global a 1,5 °C deverá reduzir os riscos para a biodiversidade marinha, as pescas e os ecossistemas marinhos, bem como para as suas funções e serviços aos seres humanos, conforme ilustrado pelas recentes alterações introduzidas no gelo do mar Ártico e em recifes de coral em ecossistemas de águas temperadas (confiança elevada). {3.3, 3.4, 3.5, Caixa 3.4, caixa 3.5}

B.4.1 Há confiança elevada de que a probabilidade de um oceano Ártico sem gelo durante o verão seja substancialmente inferior no caso de um aquecimento global a 1,5 °C, quando comparada com um aquecimento global a 2 °C. Com 1,5 °C de aquecimento global, está previsto um verão sem gelo no mar Ártico por século. Esta probabilidade é aumentada para, pelo menos, uma ocorrência por década com 2 °C de aquecimento global. Os efeitos de uma ultrapassagem ('overshoot') da temperatura são reversíveis para a cobertura de gelo no mar Ártico em escalas temporais de décadas (confiança elevada). {3.3.8, 3.4.4.7}

B.4.2 Está previsto que o aquecimento global a 1,5 °C provoque alterações nas gamas de distribuição de muitas espécies marinhas para latitudes mais elevadas, bem como que aumente a quantidade de danos em muitos ecossistemas. Prevê-se igualmente um aumento na perda de recursos costeiros e uma redução na produtividade das pescas e da aquicultura (especialmente nas latitudes baixas). Prevê-se que os riscos de impactos induzidos pelo clima sejam mais elevados, no caso de um aumento global de temperatura a 2 °C, do que para o aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). Os recifes de coral, por exemplo, deverão diminuir uns adicionais 70 — 90% a 1,5 °C (confiança elevada), com maiores perdas (> 99 %) a 2 °C (confiança muito elevada). O risco de perda irreversível de muitos ecossistemas marinhos e costeiros aumenta com o aquecimento global, especialmente no caso de um aquecimento global a 2 °C ou superior (confiança elevada). {3.4.4, caixa 3.4}

B.4.3 Projecta-se que o nível de acidificação dos oceanos devido às crescentes concentrações de CO2 associadas a um aquecimento global a 1,5 °C irá agravar os efeitos adversos do aquecimento e ainda mais a 2 °C, com impacto no crescimento, no desenvolvimento, na calcificação e na sobrevivência, e, por conseguinte, na abundância de uma vasta gama de espécies, por exemplo de algas ou peixes (confiança elevada). {3.3.10, 3.4.4}

B.4.4 Os impactos das alterações climáticas no oceano estão a aumentar os riscos para as pescas e a aquicultura através de impactos na fisiologia, sobrevivência, habitat, reprodução, incidência de doenças e risco de espécies invasoras (confiança média), mas prevê-se que sejam menores a 1,5 °C de aquecimento global do que a 2 °C. Um modelo global para as pescas, por exemplo, previu uma redução nas capturas marítimas de cerca de 1,5 milhões de toneladas para 1,5 °C de aquecimento global, em comparação com uma perda de mais de 3 milhões de toneladas, a 2 °C de aquecimento global (confiança média). {3.4.4, caixa 3.4}

B.5 Os riscos relacionados com as alterações climáticas para a saúde, os meios de subsistência, a segurança alimentar, o abastecimento de água, a segurança humana e o crescimento económico deverão aumentar com um aquecimento global de 1,5 °C e ainda mais com 2 °C. (figura SPM.2) {3.4, 3.5, 5.2, caixa 3.2, caixa 3.3, caixa 3.5, caixa 3.6, caixa transversal 6 no capítulo 3, caixa transversal 9 no capítulo 4, caixa transversal 12 no capítulo 5, 5.2}

B.5.1 As populações com risco desproporcionadamente mais elevado de consequências adversas devidas ao aquecimento global a 1,5 °C e mais além incluem as populações desfavorecidas e vulneráveis, alguns povos indígenas e comunidades locais dependentes da subsistência agrícola ou costeira (confiança elevada). Entre as regiões de maior risco desproporcional contam-se os ecossistemas árticos, as regiões secas ('dryland regions'), os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e os países menos desenvolvidos (confiança elevada). A pobreza e a desvantagem deverão aumentar em algumas populações à medida que o aquecimento global aumenta; limitar o aquecimento global a 1,5 °C, em comparação com 2 °C, poderá reduzir até várias centenas de milhões o número de pessoas expostas a riscos relacionados com o clima e susceptíveis à pobreza até 2050 (confiança média). {3.4.10, 3.4.11, Caixa 3.5, caixa transversal 6 no capítulo 3, caixa transversal 9 no capítulo 4, caixa transversal 12 no capítulo 5, 4.2.2.2, 5.2.1, 5.2.2, 5.2.3, 5.6.3}

B.5.2 Prevê-se que qualquer aumento do aquecimento global afetará a saúde humana, com consequências principalmente negativas (confiança elevada). Preveem-se riscos mais baixos a 1,5 °C do que a 2 °C para a morbilidade e a mortalidade relacionadas com o calor (confiança muito elevada) e para a mortalidade relacionada com o ozono se as emissões necessárias para a formação do ozono permanecerem elevadas (confiança elevada). As ilhas de calor urbanas amplificam muitas vezes os impactos das vagas de calor nas cidades (confiança elevada). Prevê-se que os riscos de algumas doenças transmitidas por vetores, como a malária e a febre de dengue, aumentem com um aquecimento global de 1,5 °C a 2 °C, incluindo potenciais alterações da sua área de distribuição geográfica (confiança elevada). {3.4.7, 3.4.8, 3.5.5.8}

B.5.3 Prevê-se que limitar o aumento do aquecimento global a 1,5 °C, em comparação com 2 °C, permita obter uma redução líquida mais baixa dos rendimentos do milho, do arroz, do trigo e, eventualmente, de outras culturas cerealíferas, em especial na África Subsariana, no Sudeste Asiático e na América Central e do Sul, e na qualidade nutricional dependente do CO2 para o arroz e para o trigo (confiança elevada). As reduções projectadas da disponibilidade de alimentos são maiores a 2 °C, do que a 1,5 °C de aquecimento global no Sael, na África Austral, no Mediterrâneo, na Europa Central e na Amazónia (confiança média). Prevê-se que o gado seja negativamente afetado pelo aumento das temperaturas, em função da extensão das alterações na qualidade dos alimentos para animais, da propagação de doenças e da disponibilidade de recursos hídricos (confiança elevada). {3.4.6, 3.5.4, 3.5.5, Caixa 3.1, caixa transversal 6 no capítulo 3, caixa transversal 9 no capítulo 4}

B.5.4 Em função das condições socioeconómicas futuras, limitar o aquecimento global a 1,5 °C em comparação com 2 °C pode reduzir até 50% a proporção da população mundial exposta a um aumento do stress hídrico induzido pelas alterações climáticas, embora exista uma variabilidade considerável entre as regiões (confiança média). Muitos pequenos Estados insulares em desenvolvimento podem sofrer uma redução de stress hídrico em resultado das alterações previstas na aridez, quando o aquecimento global está limitado a 1,5 °C, em comparação com 2 °C (confiança média). {3.3.5, 3.4.2, 3.4.8, 3.5.5, Caixa 3.2, Caixa 3.5, caixa transversal 9 no capítulo 4}

B.5.5 Os riscos para o crescimento económico global agregado devidos aos impactos das alterações climáticas deverão ser inferiores, com um aquecimento global a 1,5 °C, do que um aquecimento global a 2 °C, até final do presente século [10] (confiança média). Isto exclui os custos de mitigação, os investimentos em adaptação e os benefícios da adaptação. Prevê-se que os países dos trópicos e do hemisfério sul deverão sentir os maiores impactos no crescimento económico devido às alterações climáticas, caso o aquecimento global aumente de 1,5 °C para 2 °C (confiança média). {3.5.2, 3.5.3}

B.5.6 A exposição a riscos múltiplos e compostos relacionados com o clima aumenta entre 1,5 °C e 2 °C de aquecimento global, com maiores aumentos na proporção de pessoas expostas e susceptíveis à pobreza em África e na Ásia (confiança elevada). Para um aquecimento global entre 1,5 °C e 2 °C, os riscos nos setores da energia, alimentação e da água podem sobrepor-se no espaço e no tempo, criando novos riscos e agravando os riscos, as exposições e as vulnerabilidades actuais, sendo suscetíveis de afetar um número crescente de pessoas e regiões (confiança média). {Caixa 3.5, 3.3.1, 3.4.5.3, 3.4.5.6, 3.4.11, 3.5.4.9}

B.5.7 Existem múltiplas provas de que, desde o AR5, os níveis de risco avaliados aumentaram em quatro das cinco Razões Para Preocupação (RFC) para um aquecimento global a 2 °C (confiança elevada). As transições de risco por graus de aquecimento global são agora: de risco elevado para risco muito elevado, compreendido entre 1,5 °C e 2 °C, para RFC1 (sistemas únicos e ameaçados) (confiança elevada); de risco moderado para risco elevado, entre 1 °C e 1,5 °C, para RFC2 (fenómenos meteorológicos extremos) (confiança média); de risco moderado a risco elevado entre 1,5 °C e 2 °C para RFC3 (distribuição de impactos) (confiança elevada); de risco moderado a risco elevado entre 1,5 °C e 2,5 °C, para RFC4 (impactos globais agregados) (confiança média); e de risco moderado a risco elevado entre 1 °C e 2,5 °C para RFC5 (acontecimentos singulares de grande escala) (confiança média). (figura SPM.2) {3.4.13; 3.5, 3.5.2}

B.6 Na sua maioria as necessidades adaptação serão menores para um aquecimento global a 1,5 °C do que a 2 °C (confiança elevada). Há uma vasta gama de opções de adaptação capazes de reduzir os riscos das alterações climáticas (confiança elevada). Há limites à adaptabilidade e à capacidade de adaptação para alguns sistemas humanos e naturais na sequência de um aquecimento global a 1,5 °C, com as correspondentes perdas (confiança média). O número e a disponibilidade de opções de adaptação varia consoante o setor (confiança média). {Quadro 3.5, 4.3, 4.5, caixa transversal 9 no capítulo 4, caixa transversal 12 no capítulo 5}

B.6.1 Está disponível um vasto leque de opções de adaptação para reduzir os riscos para os ecossistemas naturais e geridos (por exemplo, adaptação baseada em ecossistemas, recuperação dos ecossistemas e prevenção da degradação e da desflorestação, gestão da biodiversidade, aquicultura sustentável, conhecimento local e conhecimento indígena), o risco de aumento do nível do mar (por exemplo, defesa costeira e endurecimento (hardening)), os riscos para a saúde, os meios de subsistência, a alimentação, a água e o crescimento económico, especialmente nas paisagens rurais (por exemplo, irrigação eficiente, redes de segurança social, gestão do risco de catástrofes, repartição e partilha dos riscos e adaptação baseada na comunidade) e os riscos para as zonas urbanas (por exemplo, infraestruturas verdes, utilização e planeamento sustentáveis do solo e gestão sustentável da água) (confiança média). {4.3.1, 4.3.2, 4.3.3, 4.3.5, 4.5.3, 4.5.4, 5.3.2, Caixa 4.2, caixa 4.3, caixa 4.6, caixa transversal 9 no capítulo 4}.

B.6.2 Espera-se que a adaptação seja mais difícil para os ecossistemas, os sistemas alimentares e de saúde com um aquecimento global a 2 °C do que para um aquecimento global a 1,5 °C (confiança média). Prevê-se que algumas regiões vulneráveis, incluindo as pequenas ilhas e os países menos desenvolvidos tenham que suportar elevados riscos climáticos múltiplos e interligados, mesmo a um aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). {3.3.1, 3.4.5, Caixa 3.5, Quadro 3.5, caixa transversal 9 no capítulo 4, 5.6, caixa transversal 12 no capítulo 5, caixa 5.3}

B.6.3 A 1,5 °C de aquecimento global existem limites à capacidade de adaptação, que se tornam mais acentuados a níveis mais elevados de aquecimento e que variam consoante o setor, com implicações específicas dependentes do local para as regiões vulneráveis, os ecossistemas e a saúde humana (confiança média). {caixa transversal 12 no capítulo 5, caixa 3.5, quadro 3.5}


Figura SPM.2 | As cinco Razões Para Preocupação (RFCs) fornecem um quadro que resume os impactos-chave e riscos para os diversos sectores e regiões, e foram introduzidos no terceiro relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC). As RFCs ilustram as implicações do aquecimento global para as pessoas, as economias e os ecossistemas. Os impactos e/ou riscos de cada RFC baseiam-se na avaliação da nova literatura publicada. Tal como no AR5, esta literatura foi utilizada para fazer estimativas de modo a avaliar os níveis de aquecimento global a que os níveis de impacto e/ou risco são indetetáveis, moderados, elevados ou muito elevados. A seleção de impactos e riscos para os sistemas naturais, sistemas naturais geridos e sistemas humanos no painel inferior é ilustrativa e não pretende ser totalmente abrangente. {3.4, 3.5, 3.5.2.1, 3.5.2.2, 3.5.2.3, 3.5.2.4, 3.5.2.5, 5.4.1, 5.5.3, 5.6.1, Caixa 3.4}

RFC1 Sistemas únicos e ameaçados: Sistemas ecológicos e humanos que têm limites de distribuição geográfica limitados, por condições relacionadas com o clima e que apresentam um alto nível de endemismos ou outras propriedades distintivas. Exemplos destes sistemas são os recifes de coral, o Ártico e os seus povos indígenas, os glaciares de montanha e zonas de alta biodiversidade (hotspots). RFC 2 Acontecimentos meteorológicos extremos: Os riscos/impactos para a saúde humana, os meios de subsistência, os ativos e os ecossistemas provocados por fenómenos meteorológicos extremos, como vagas de calor, chuvas torrenciais, seca e incêndios florestais conexos, e inundações costeiras. RFC3 Distribuição de impactos: Riscos/impactos que afetam de forma desproporcionada determinados grupos devido à distribuição desigual dos perigos físicos resultantes das alterações climáticas, exposição ou vulnerabilidade. RFC4 Impactos globais agregados: Os danos monetários globais, a degradação à escala global e a perda de ecossistemas e de biodiversidade. RFC5 Acontecimentos singulares de grande escala: Dizem respeito a alterações de grande escala, abruptas e por vezes irreversíveis, causadas pelo aquecimento global. Exemplos incluem a desintegração das placas de gelo na Gronelândia e na Antártida.

C. Os cenários de emissão e as transições de sistemas são coerentes com um aquecimento global a 1,5 °C.[editar]

C.1 Nos cenários (pathways) de modelos de emissão sem superação (overshoot) ou modelos de superação limitada a 1,5 °C, as emissões antropogénicas líquidas de CO2 a nível mundial têm que diminuir até cerca de 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030 (intervalo interquartil 40-60%), atingindo o valor zero líquido cerca do ano 2050 (intervalo interquartil 2045-2055). Para limitar o aquecimento global a menos de 2 °C [11] prevê-se que as emissões de CO2 tenham que diminuir cerca de 25% até 2030 na maior parte dos cenários (intervalo interquartil 10—30%) e atinjam um zero líquido cerca do ano 2070 (intervalo interquartil 2065—2080). As emissões não-CO2 em cenários de modelos que limitam o aquecimento global a 1,5 °C mostram reduções profundas que são semelhantes às dos cenários dos modelos que limitam o aquecimento a 2 °C (confiança elevada). ( Figura SPM.3a) {2.1, 2.3, quadro 2.4}

C.1.1 Uma redução das emissões de CO2 que limite o aquecimento global a 1,5 °C, sem ou com uma superação limitada, pode envolver diferentes carteiras de medidas de mitigação, saldos significativamente diferentes entre a redução da intensidade energética e de intensidade de uso recursos, a taxa de descarbonização e a dependência da remoção de dióxido de carbono. Estas diferentes opções apresentam diferentes desafios de aplicação e potenciais sinergias e soluções de compromisso com o desenvolvimento sustentável (confiança elevada). (Figura SPM.3b) {2.3.2, 2.3.4, 2.4, 2.5.3}

C.1.2 Os modelos que limitam o aumento da temperatura global a 1,5 °C com superação nula ou limitada implicam reduções profundas das emissões de metano e de carbono negro (black carbon) (35 % ou mais de ambos até 2050 em relação a 2010). Estes modelos reduzem também a maioria dos aerossóis causadores de arrefecimento, contrariando em parte os efeitos da mitigação durante duas a três décadas. As emissões não-CO2 [12] podem ser reduzidas em resultado de medidas de mitigação alargadas no setor da energia. Além disso, as medidas específicas de redução das emissões de gases não-CO2 podem reduzir o óxido nitroso e o metano provenientes da agricultura, o metano do setor dos resíduos, algumas fontes de carbono negro e hidrofluorocarbonetos. A elevada procura de bioenergia pode aumentar as emissões de óxido nitroso em alguns dos cenários dos modelos a 1,5 °C, sublinhando a importância de abordagens de gestão adequadas. Uma melhor qualidade do ar resultante de reduções previstas em muitas emissões de não-CO2 proporcionam benefícios diretos e imediatos para a saúde da população em todos os modelos a 1,5 °C (confiança elevada). (Figura SPM.3a) {2.2.1, 2.3.3, 2.4.4, 2.5.3, 4.3.6, 5.4.2}

C.1.3 Para limitar o aquecimento global, é necessário limitar as emissões antropogénicas cumulativas totais de CO2 desde o período pré-industrial, isto é, mantendo um orçamento total de carbono (confiança elevada). [13] Até ao final de 2017, estima-se que as emissões antropogénicas de CO2 desde o período pré-industrial reduziram o orçamento total de carbono para um aquecimento global a 1,5 °C em aproximadamente 2200 ± 320 GtCO2 (confiança média). O restante orçamento está a ser empobrecido pelas emissões atuais de 42 ±3 GtCO 2 por ano (confiança elevada). A escolha da medida da temperatura global afeta o orçamento restante estimado para o carbono. Utilizando uma temperatura média global do ar à superfície, tal como no AR5, obtém-se uma estimativa do orçamento remanescente de carbono de 580 GtCO2 para uma probabilidade de 50% de limitar o aquecimento global a 1,5 °C e de 420 GtCO2 para uma probabilidade de 66% (confiança média).[14] Alternativamente, se se utilizar a GMST as estimativas passam a 770 e 570 GtCO2, para 50 % e 66 % de probabilidades[15] respectivamente (confiança média). As incertezas quanto à dimensão destes orçamentos de carbono estimados são substanciais e dependem de vários fatores. As incertezas na resposta às emissões de CO2 e de não-CO2 contribuem com ±400 GtCO2 e o nível de aquecimento histórico contribui com ±250 GtCO2 (confiança média). O potencial de libertação de carbono adicional resultante da futura descongelação de permafrost e da libertação de metano das zonas húmidas reduziria os orçamentos de 100 GtCO2 adicionais ao longo deste século e no futuro (confiança média). Além disso, o nível de mitigação para emissões de não-CO2 no futuro poderá alterar o orçamento restante de carbono em 250 GtCO2 em cada direção (confiança média). {1.2.4, 2.2.2, 2.6.1, quadro 2.2, capítulo 2 Material adicional}

C.1.4 As medidas de alteração da radiação solar (SRM) não estão incluídas em nenhum dos cenários avaliados disponíveis. Embora algumas medidas de SRM possam, em teoria, ser eficazes na redução de uma superação, enfrentam grandes incertezas e lacunas de conhecimento bem como riscos substanciais e restrições institucionais e sociais à sua implementação relacionadas com a governança, a ética e os impactos no desenvolvimento sustentável. Além disso, não mitigam a acidificação dos oceanos (confiança média). {4.3.8, caixa transversal 10 no capítulo 4}

(insert SPM.3a here)'

Figura SPM.3a | Características dos cenários de emissão globais. O painel principal apresenta as emissões antropogénicas líquidas globais de CO2 em cenários com limitação do aquecimento global a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada (inferior a 0,1 °C) e cenários com superação elevada. A área sombreada apresenta a gama completa dos cenários analisadas no presente relatório. Os painéis da direita apresentam intervalos de emissões de não-CO2 para três componentes com uma grande perturbação (forcing) histórica e uma parte substancial das emissões provenientes de fontes distintas das que são essenciais para mitigação de CO2. As zonas sombreadas nestes painéis indicam os intervalos entre 5-95 % (sombra clara) e os intervalos interquartis (sombra escura) dos cenários que limitam o aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada. Os diagramas de extremos e quartis que se encontram no fundo da figura mostram o calendário dos cenários que atingem os níveis globais líquidos zero de emissão de CO2 e uma comparação com cenários que limitam o aquecimento global a 2 °C, com uma probabilidade de, pelo menos, 66 %. Quatro cenários do modelo são destacados no painel principal e são rotulados P1, P2, P3 e P4, correspondendo aos cenários LED, S1, S2 e S5, avaliados no capítulo 2. As descrições e características destes cenários estão disponíveis na figura SPM.3b. {2.1, 2.2, 2.3, figura 2.5, figura 2.10, figura 2.11}

(insert figure SPM3b here)


Indicadores globais Classificação dos cenários modelados P1

Sem superação
ou superação limitada
P2

Sem superação
ou superação limitada
P3

Sem superação
ou superação limitada
P4

Superação
elevada
Intervalo interquartil

Sem superação
ou superação limitada
Variação das emissões de CO2 em 2030
(% em comparação com 2010)
-58 -47 -41 4 (-58, -40)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-93 -95 -91 -97 (-107, -94)
Emissões de gases de efeito de estufa de acordo com Kyoto (*) em 2030
(% em comparação com 2010)
-50 -49 -35 -2 (-51, -39)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-82 -89 -78 -80 (-93, -81)
Procura final de energia (**) em 2030
(% em comparação com 2010)
-15 -5 17 39 (-12, 7)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-32 2 21 44 (-11, 22)
Parte de energias renováveis na electricidade em 2030 (%) 60 58 48 25 (47, 65)
em 2050 (%) 77 81 63 70 (69, 86)
Energia primária produzida
— a partir de carvão
em 2030
(% em comparação com 2010)
-78 -61 -75 -59 (-78, -59)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-97 -77 -73 -97 (-95, -74)
a partir de petróleo em 2030
(% em comparação com 2010)
-37 -13 -3 86 (-34, 3)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-87 -50 -81 -32 (-78, -31)
— a partir de gaz natural em 2030
(% em comparação com 2010)
-25 -20 33 37 (-26, 21)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-74 -53 21 -48 (-56, 6)
— a partir de energia nuclear em 2030
(% em comparação com 2010)
59 83 98 106 (44, 102)
em 2050
(% em comparação com 2010)
150 98 501 468 (91, 190)
— a partir de biomassa em 2030
(% em comparação com 2010)
-11 0 36 -1 (29, 80)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-16 49 121 418 (123, 261)
— a partir de energias renováveis
não originárias de biomassa
em 2030
(% em comparação com 2010)
430 470 315 110 (245, 436)
em 2050
(% em comparação com 2010)
833 1327 878 1137 (576, 1299)
Sequestro de carbono acumulado até 2100 (GtCO2) 0 348 687 1218 (550, 1017)
— dos quais bioenergia com armazenamento de CO2 até 2100 (GtCO2) 0 151 414 1191 (364, 662)
Área de culturas bioenergéticas em 2050
(millões de km2)
0.2 0.9 2.8 7.2 (1.5, 3.2)
Emissões de metano pela agricultura em 2030
(% em comparação com 2010)
-24 -48 1 14 (-30, -11)
em 2050
(% em comparação com 2010)
-33 -69 -23 2 (-47, -24)
Emissões agrícolas de azoto en 2030
(% em comparação com 2010)
5 -26 15 3 (-21, 3)
em 2050
(% em comparação com 2010)
6 -26 0 39 (-26, 1)
NOTA: Os indicadores foram seleccionados para mostrar as tendências globais identificadas na avaliação do Capítulo 2. As características nacionais e sectoriais podem diferir substancialmente das tendências globais aqui mostradas.

(*) As emissões de gases de efeito de estufa de acordo com Kyoto baseiam-se no segundo relatório de avaliação do IPCC GWP-100.
(**) As alterações na procura de energia estão associadas a melhorias de eficiência energética e alteração de comportamentos.


Figura SPM.3b | Características de quatro cenários ilustrativos em relação ao aumento do aquecimento global a 1,5 °C, apresentados na Figura SPM.3a. Estes cenários foram selecionados para mostrar uma série de potenciais abordagens de mitigação e que apresentam grandes variações na utilização projectada do uso de energia e do solo, bem como os seus pressupostos sobre a futura evolução socioeconómica, incluindo crescimento económico e demográfico, equidade e sustentabilidade. Mostra-se uma repartição das emissões antropogénicas líquidas globais de CO2 nas contribuições em termos de emissões de CO2 provenientes dos combustíveis fósseis e da indústria; agricultura, silvicultura e outras utilizações do solo (AFOLU); e bioenergia com captura de carbono e armazenamento (BECCS). As estimativas da AFOLU apresentadas aqui não são necessariamente comparáveis com as estimativas dos países. Outras características para cada um destes cenários são enumeradas abaixo de cada cenário. Estas trajetórias ilustram as diferenças globais entre as estratégias de mitigação, mas não representam estimativas centrais, estratégias nacionais e não indicam os requisitos. Para efeitos de comparação, a coluna mais à direita mostra o intervalo interquartil dos cenários sem superação ou com superação limitada a 1,5 ºC. Os cenários P1, P2, P3 e P4 correspondem aos cenários LED, S1, S2 e S5 avaliados no capítulo 2 (Figura SPM.3a). {2.2.1, 2.3.1, 2.3.2, 2.3.3, 2.3.4, 2.4.1, 2.4.2, 2.4.4, 2.5.3, figura 2.5, figura 2.6, figura 2.9, figura 2.10, figura 2.11, figura 2.14, figura 2.15, figura 2.16, figura 2.17, figura 2.24, figura 2.25, quadro 2.4, quadro 2.7, quadro 2.9, quadro 4.1}


C.2 Os cenários que limitam o aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada, exigiriam uma transição rápida e de longo alcance em energia, terrenos, infraestruturas urbanas e outras infraestruturas (incluindo transportes e edifícios) e sistemas industriais (confiança elevada). Estas transições têm uma dimensão sem precedentes em termos de escala, mas não necessariamente em termos de rapidez, e implicam reduções profundas das emissões em todos os setores, uma vasta gama de opções de mitigação e um conjunto significativo de investimentos nessas opções (confiança média). {2.3, 2.4, 2.5, 4.2, 4.3, 4.4, 4.5}

C.2.1 Os cenários que limitam o aumento da temperatura global a 1,5 °C com superação nula ou com superação limitada mostram que seriam requeridas mudanças do sistema mais rápidas e pronunciadas ao longo das duas próximas décadas do que em cenários de 2 °C (confiança elevada). As taxas de variação associadas à limitação do aquecimento global a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada já ocorreram no passado em setores, tecnologias e contextos espaciais específicos, mas não existe precedente histórico documentado para a sua escala (confiança média). {2.3.3, 2.3.4, 2.4, 2.5, 4.2.1, 4.2.2, caixa transversarl 11 no capítulo 4}

C.2.2 Nos sistemas energéticos, os cenários dos modelos globais (considerados na literatura) que limitam o aquecimento global a 1,5 °C sem superação ou com uma superação limitada (para mais pormenores ver Gráfico SPM.3b) satisfazem, em geral, a procura de serviços energéticos com menor consumo de energia, nomeadamente através de uma maior eficiência energética, e mostram uma viragem mais rápida para utilização final de energia eléctrica, em comparação com 2 °C (confiança elevada). Nos cenários a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada, prevê-se que as fontes de energia com baixo nível de emissões tenham uma quota mais elevada, em comparação com os cenários a 2 °C, sobretudo antes de 2050 (confiança elevada). Nos cenários a 1,5 °C sem superação ou com uma superação limitada, prevê-se que as energias renováveis forneçam 70—85% (intervalo interquartil) de eletricidade em 2050 (confiança elevada). Na produção de eletricidade, as quotas de energia nuclear e de combustíveis fósseis com captura e armazenamento de dióxido de carbono (CAC / CCS) estão a ser modeladas a aumentar, na maior parte dos percursos de 1,5 °C, sem ou com superação limitada. Nos cenários de modelos a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada, a utilização da CAC permitiria que a quota de produção de eletricidade a partir de gás fosse de cerca de 8 % (intervalo interquartil 3-11%) da eletricidade global em 2050, ao passo que a utilização de carvão mostra uma redução acentuada em todas os cenários e seria reduzida para cerca de 0% (intervalo interquartil 0-2%) para a produção de eletricidade (confiança elevada). Embora reconhecendo os desafios, e as diferenças entre as opções e as circunstâncias nacionais, políticas, económicas, sociais e técnicas, a viabilidade da energia solar, energia eólica e das tecnologias de armazenamento de eletricidade melhoraram substancialmente nos últimos anos (confiança elevada). Estas melhorias assinalam uma eventual transição do sistema para a produção de eletricidade. (figura SPM.3b) {2.4.1, 2.4.2, figura 2.1, quadro 2.6, quadro 2.7, caixa transversal 6 no capítulo 3, 4.2.1, 4.3.1, 4.3.3, 4.5.2}

C.2.3. As emissões de CO2 provenientes da indústria, em cenários de limitação do aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada, deverão ser de cerca de 65-90 % (intervalo interquartil) mais baixas em 2050 em relação a 2010, em comparação com 50-80% para um aquecimento global a 2 °C (confiança média). Essas reduções podem ser alcançadas através de combinações de tecnologias e práticas novas com outras já existentes, incluindo a eletrificação, o uso de hidrogénio, as matérias-primas biológicas sustentáveis, a substituição de produtos e a captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS). Estas opções estão tecnicamente comprovadas a várias escalas, mas a sua implantação em larga escala pode ser limitada por condicionalismos económicos, financeiros, humanos e institucionais em contextos específicos e pelas características específicas das grandes instalações industriais. Na indústria, as reduções das emissões pela energia e o aumento da eficiência dos processos são, por si só, insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada (confiança elevada). {2.4.3, 4.2.1, quadro 4.1, quadro 4.3, 4.3.3, 4.3.4, 4.5.2}

C.2.4 A transição dos sistema urbano e das infraestruturas consistente com uma limitação do aquecimento global a 1,5 °C sem superação ou com uma superação limitada implicaria, por exemplo, alterações nas práticas de ordenamento do território e do planeamento urbano, bem como reduções mais profundas das emissões nos transportes e edifícios, em comparação com os cenários que limitam o aquecimento global abaixo de 2 °C (confiança média). As medidas técnicas e as práticas que permitem reduções profundas das emissões incluem várias opções em matéria de eficiência energética. Nos cenários que limitam a 1,5 °C o aquecimento global sem superação ou com superação limitada, a quota de electricidade na procura de energia pelos edifícios seria de cerca de 55-75% em 2050, em comparação com 50—70% em 2050, para os cenários a 2 °C de aquecimento global (confiança média). No setor dos transportes, a quota de energia final de baixas emissões teria que aumentar de menos de 5 % em 2020 para cerca de 35—65% em 2050, em comparação com 25—45% nos cenários para um aquecimento global a 2 °C (confiança média). As barreiras económicas, institucionais e socioculturais podem inibir estas transições no sistema urbano e no sistema de infraestruturas, em função das circunstâncias nacionais, regionais e locais, das capacidades (técnicas) e da disponibilidade de capital (confiança elevada). {2.3.4, 2.4.3, 4.2.1, quadro 4.1, 4.3.3, 4.5.2}

C.2.5 As transições no uso dos solos a nível mundial e regional encontram-se em todas os cenários de limitação do aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou superação limitada, dependendo a sua escala da carteira de mitigação seleccionada. Cenários de modelos que limitam o aumento da temperatura a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada projectam entre uma redução de 4 milhões de km2 a um aumento de 2,5 milhões de km2 de terras agrícolas que não são pastoreadas para a produção de alimentos para consumo humano e animal, 0,5—11 milhões de km2 de redução de terras de pastagem, a converter em 0-6 milhões de km2 de terras agrícolas para culturas energéticas e de uma redução de 2 milhões de km2 a um aumento de 9,5 milhões de km2 de florestas até 2050 em relação a 2010 (confiança média)[16]. Nos cenários dos modelos a 2 °C (confiança média) podem observar-se transições no uso do solo de magnitude equivalente. Transições de tão grande dimensão constituem desafios profundos para a gestão sustentável das diversas exigências em matéria de terrenos para aglomerados urbanos, alimentos para humanos e animais, produção de fibras, bioenergia, armazenamento de carbono, biodiversidade e outros serviços de ecossistema (confiança elevada). As opções de mitigação que limitam a procura de terrenos incluem a intensificação sustentável de práticas de utilização dos solos, a recuperação de ecossistemas e a evolução no sentido de regimes alimentares com uma menor utilização intensiva de recursos (confiança elevada). A aplicação de opções de mitigação em terra exigiria a superação dos obstáculos socioeconómicos, institucionais, tecnológicos, financeiros e ambientais que diferem de região para região (confiança elevada). {2.4.4, figura 2.24, 4.3.2, 4.3.7, 4.5.2, caixa transversal 7 no capítulo 3}

C.2.6 Os investimentos médios anuais adicionais no domínio da energia para o período de 2016 a 2050 em cenários de limitação do aquecimento global a 1,5 °C comparados com cenários sem novas políticas climáticas para além dos atualmente em vigor são estimados em cerca de 830 mil milhões de dólares dos EUA (intervalo de 150 mil milhões a 1 700 mil milhões de USD 2010 em seis modelos [17]). Este valor é comparável com o total anual de investimentos de fornecimento de energia a 1,5 °C (1460 a 3510 mil milhões de USD) e com o total anual de investimentos na procura de energia de 640 a 910 mil milhões de USD2010 no período de 2016 a 2050. Os investimentos totais relacionados com a energia aumentam cerca de 12% (entre 3% a 24%) em cenários a 1,5 °C, em comparação com as trajetórias de 2 °C. Os investimentos anuais em tecnologias energéticas hipocarbónicas e na eficiência energética são reescalonados num fator de seis (intervalo de variação de 4 a 10) até 2050, em comparação com 2015 (confiança média). {2.5.2, caixa 4.8, figura 2.27}

C.2.7 Os cenários com limitação do aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada, prevêem uma vasta gama de redução de custos marginais ao longo do século XXI. Estes custos são cerca de 3-4 vezes superiores aos dos cenários que limitam o aquecimento global a menos de 2 °C (confiança elevada). A literatura económica distingue a redução dos custos marginais da redução dos custos totais de mitigação na economia. A literatura sobre os custos totais de mitigação dos cenários a 1,5 °C é limitada e não foi avaliada no presente relatório. Subsistem lacunas de conhecimento na avaliação integrada dos custos e benefícios da mitigação na economia, em consonância com os cenários que limitam o aquecimento a 1,5 °C. {2.5.2; 2.6; Figura 2.26}

C.3 Todos os cenários que limitam o aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada, prevêem a utilização da remoção de dióxido de carbono (CDR) na ordem das 100-1000 GtCO2 durante o século XXI. A CDR seria utilizada para compensar as emissões residuais e, na maior parte dos casos, alcançar emissões negativas líquidas para restabelecer o aquecimento global a 1,5 °C, na sequência de um pico (confiança elevada). A implementação de CDR para remover várias centenas de GtCO2 é objeto de múltiplas limitações de viabilidade e de sustentabilidade (confiança elevada). Reduções significativas das emissões a curto prazo e medidas para reduzir a procura de energia e de terras podem permitir limitar a implementação de CDR a algumas centenas de GtCO2, sem dependência da bioenergia com a captura de carbono e armazenamento (BECCS) (confiança elevada). {2.3, 2.4, 3.6.2, 4.3, 5.4}.

C.3.1 As medidas existentes e potenciais de utilização de CDR incluem a florestação e reflorestação, a recuperação de terrenos e o sequestro de carbono no solo, a captura e armazenamento direto de carbono atmosférico (DACCS), a alteração forçada (enhanced weathering) e a alcalinização dos oceanos. Estas técnicas são muito diferentes em termos de maturidade, potencial, custos, riscos, benefícios mútuos e soluções de compromisso (trade-offs) (confiança elevada). Até à data, apenas alguns cenários dos modelos publicados incluem medidas de CDR para além da florestação e de BECCS. {2.3.4, 3.6.2, 4.3.2, 4.3.7}

C.3.2 Em cenários com limitação do aquecimento global a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada, prevê-se que a implementação de BECCS varie entre 0—1, 0—8 e 0—16 GtCO2 por ano em 2030, 2050 e 2100, respetivamente, enquanto se prevê que as medidas CDR relacionadas com a agricultura, a silvicultura e a utilização dos solos (AFOLU) removam 0-5, 1-11 e 1-5 GtCO2 por ano nos mesmos anos (confiança média). O extremo superior destas gamas de implementação até meados do século excede o potencial de BECCS em até 5 GtCO2 por ano e o potencial de florestação em até 3.6 GtCO2 por ano avaliados com base em literatura recente (confiança média). Alguns cenários evitam totalmente a implantação de BECCS através de implementação de medidas do lado da procura e de uma maior dependência em medidas de tipo AFOLU e CDR (confiança média). A utilização de bioenergia pode ser tão elevada ou mesmo mais elevada quando se excluem BECCS, em comparação com os modelos em que esta está incluída, devido ao seu potencial para substituir os combustíveis fósseis em todos os setores (confiança elevada). (figura SPM.3b) {2.3.3, 2.3.4, 2.4.2, 3.6.2, 4.3.1, 4.2.3, 4.3.2, 4.3.7, 4.4.3, quadro 2.4}

C.3.3 Cenários com aquecimento global superior a 1,5 °C baseiam-se em que a CDR excederá as emissões residuais de CO2 no final do século, de modo a voltar a menos de 1,5 °C até 2100, sendo que para maiores superações se exigem CDR maiores (figura SPM.3b) (confiança elevada). As limitações à velocidade, escala e aceitação pela sociedade da implantação de medidas CDR determinam, por conseguinte, a capacidade de regresso do aquecimento global a um nível inferior a 1,5 °C, na sequência de uma superação. O conhecimento dos ciclo do carbono e do sistema climático é ainda limitado no que respeita a eficácia das emissões negativas líquidas para reduzir as temperaturas após o seu pico (confiança elevada). {2.2, 2.3.4, 2.3.5, 2.6, 4.3.7, 4.5.2, quadro 4.11}

C.3.4 A maioria das medidas CDR atuais e potenciais pode ter impactos significativos na terra, na energia, na água ou nos nutrientes se forem utilizadas em grande escala (confiança elevada). A florestação e a bioenergia podem concorrer com outras utilizações do solo e podem ter impactos significativos nos sistemas agrícolas e alimentares, na biodiversidade e noutras funções e serviços dos ecossistemas (confiança elevada). É necessária uma governança eficaz para atingir soluções de compromisso e assegurar a permanência do carbono removido nos reservatórios terrestres, geológicos e oceânicos (confiança elevada). A viabilidade e a sustentabilidade da utilização de medidas CDR poderiam ser reforçadas por uma carteira variada de opções aplicadas a uma escala substancial, mas inferior ainda assim a uma única opção em muito larga escala (confiança elevada). (figura SPM.3b) {2.3.4, 2.4.4, 2.5.3, 2.6, 3.6.2, 4.3.2, 4.3.7, 4.5.2, 5.4.1, 5.4.2; caixas transversais 7 e 8 no capítulo 3, quadro 4.11, quadro 5.3, figura 5.3}

C.3.5 Algumas medidas CDR relacionadas com AFOLU, como a restauração de ecossistemas naturais e o sequestro de carbono no solo, poderiam proporcionar benefícios conexos, como a melhoria da biodiversidade, da qualidade dos solos e a segurança alimentar local. Se aplicadas em grande escala, exigirão sistemas de governança que permitam a gestão sustentável das terras, a fim de conservar e proteger as reservas de carbono e outros serviços e funções dos ecossistemas (confiança média). (figura SPM.4) {2.3.3, 2.3.4, 2.4.2, 2.4.4, 3.6.2, 5.4.1, caixas transversais 3 no capítulo 1 e 7 no capítulo 3, 4.3.2, 4.3.7, 4.4.1, 4.5.2, quadro 2.4}

D. Reforçar a resposta global no contexto do desenvolvimento sustentável e dos esforços para erradicar a pobreza[editar]

D.1 Estimativas do resultado das emissões globais, dos atuais objetivos de mitigação estabelecidos a nível nacional como apresentados ao abrigo do Acordo de Paris, conduziriam a um nível mundial de emissões de gases com efeito de estufa[18] em 2030 de 52-58 GtCO2eq. por ano (confiança média). Os cenários que refletem estas ambições não limitariam o aquecimento global a 1,5 °C, ainda que fossem complementados por um aumento muito exigente na escala e na ambição para as reduções das emissões após 2030 (confiança elevada). Evitar a superação e confiar na futura aplicação em larga escala das medidas de remoção de dióxido de carbono (CDR) só será possível se as emissões globais de CO2 começarem a diminuir muito antes de 2030 (confiança elevada). {1.2, 2.3, 3.3, 3.4, 4.2, 4.4, caixa transversal 11 no capítulo 4}

D.1.1 Cenários que limitam o aumento da temperatura global a 1,5 °C sem superação ou com superação limitada apresentam reduções claras das emissões até 2030 (confiança elevada). Todos, com exceção de um, mostram uma diminuição das emissões globais de gases com efeito de estufa para níveis inferiores a 35 GtCO2 eq. por ano em 2030, e metade dos cenários modelados insere-se na gama de 25-30 GtCO2 eq. por ano (intervalo interquartil), uma redução de 40—50% em relação aos níveis de 2010 (confiança elevada). Os modelos que refletem a atual ambição de mitigação declarada a nível nacional até 2030 são, de um modo geral, coerentes com cenários economicamente eficientes, que resultam num aquecimento global de cerca de 3 °C até 2100, com continuação do aquecimento para além dessa data (confiança média). {2.3.3, 2.3.5, caixa transversal 11 no capítulo 4, 5.5.3.2}

D.1.2 As projecções com superação resultam em maiores impactos e mais desafios associados, quando em comparação com cenários de modelos que limitam o aquecimento global a 1,5 °C, sem superação ou com superação limitada (confiança elevada). A inversão do aquecimento, após uma superação de 0,2 °C ou superior durante este século, exigiria um reforço e aplicação de medidas CDR a taxas e volumes que poderão não ser alcançáveis, dada a existência de desafios consideráveis em matéria de execução (confiança média). {1.3.3, 2.3.4, 2.3.5, 2.5.1, 3.3, 4.3.7, caixa transversal 8 no capítulo 3, caixa transversal 11 no capítulo 4}

D.1.3 Quanto mais baixas as emissões em 2030, menor o desafio para limitar o aquecimento global a 1,5 °C após 2030, sem superação ou com superação limitada (confiança elevada). Entre os desafios colocados pelos atrasos nas ações de redução das emissões de gases com efeito de estufa contam-se o risco de agravamento dos custos, o bloqueio (lock-in) das infraestruturas emissoras de carbono, os ativos improdutivos e a redução da flexibilidade nas futuras opções de resposta a médio e longo prazo (confiança elevada). Estas podem aumentar a desigualdade na distribuição dos impactos entre países em diferentes fases de desenvolvimento (confiança média). {2.3.5, 4.4.5, 5.4.2}

D.2 Os impactos provocados pelas alterações climáticas no desenvolvimento sustentável, na erradicação da pobreza e na redução das desigualdades são mais facilmente evitados se o aquecimento global for limitado a 1,5 °C em vez de a 2 °C, caso sejam maximizadas as sinergias de mitigação e de adaptação, ao mesmo tempo que são minimizadas as soluções de compromisso (confiança elevada). {1.1, 1.4, 2.5, 3.3, 3.4, 5.2, quadro 5.1}

D.2.1 Os impactos e as respostas às alterações climáticas estão estreitamente ligados ao desenvolvimento sustentável que equilibra o bem-estar social, a prosperidade económica e a proteção do ambiente. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDGs), adotados em 2015, proporcionam um quadro estabelecido para avaliar as ligações entre o aquecimento global a 1,5 °C ou 2 °C e os objetivos de desenvolvimento que incluem a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades e a luta contra as alterações climáticas (confiança elevada). {caixa transversal 4 no capítulo 1, 1.4, 5.1}

D.2.2 A consideração da ética e da equidade pode ajudar a fazer face à distribuição desigual dos impactos adversos associados a 1,5 °C ou a níveis mais elevados de aquecimento global, bem como aos efeitos de mitigação e adaptação, em especial para as populações pobres e desfavorecidas, em todas as sociedades (confiança elevada). {1.1.1, 1.1.2, 1.4.3, 2.5.3, 3.4.10, 5.1, 5.2, 5.3, 5.4, caixa transversal 4 no capítulo 1, caixas transversais 6 e 8 no capítulo 3, e caixa transversal 12 no capítulo 5}

D.2.3 As medidas de mitigação e adaptação que se coadunam com a limitação do aquecimento global a 1,5 °C são apoiadas por condições favoráveis, avaliadas no presente relatório por dimensões de exequibilidade em todos os domínios geofísicos, ecológico-ambientais, tecnológicos, económicos, socioculturais e institucionais. O reforço da governança a vários níveis, a capacidade institucional, os instrumentos políticos, a inovação tecnológica e a transferência e mobilização de financiamento, bem como as mudanças no comportamento humano e nos estilos de vida são condições que reforçam a viabilidade de opções de mitigação e adaptação para a transição para sistemas coerentes com um aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). {1.4, caixa transversal 3 no capítulo 1, 2.5.1, 4.4, 4.5 e 5.6}

D.3 As opções de adaptação específicas em contextos nacionais, se selecionadas cuidadosamente em conjunto com as condições favoráveis, terão benefícios para o desenvolvimento sustentável e a redução da pobreza, com um aquecimento global a 1,5 °C, embora possam acontecer soluções de compromisso (confiança elevada). {1.4, 4.3, 4.5}

D.3.1 As opções de adaptação que reduzem a vulnerabilidade dos sistemas humanos e naturais apresentam muitas sinergias com o desenvolvimento sustentável, se bem geridas, como a garantia da segurança alimentar e qualidade da água, a redução dos riscos de catástrofes, a melhoria das condições de saúde, a manutenção de serviços de ecossistema e a redução da pobreza e das desigualdades (confiança elevada). O aumento do investimento em infraestruturas físicas e sociais é uma condição essencial para reforçar a resiliência e as capacidades de adaptação das sociedades. Estes benefícios podem ocorrer na maior parte das regiões com adaptação a um aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). {1.4.3, 4.2.2, 4.3.1, 4.3.2, 4.3.3, 4.3.5, 4.4.1, 4.4.3, 4.5.3, 5.3.1, 5.3.2}

D.3.2 A adaptação a um aquecimento global a 1,5 °C pode também dar origem a soluções de compromisso ou a desadaptações com impactos adversos para o desenvolvimento sustentável. Por exemplo, se forem mal concebidos ou implementados, os projetos de adaptação podem aumentar as emissões de gases com efeito de estufa numa série de setores, podem aumentar a utilização da água, podem aumentar a desigualdade entre homens e mulheres e a desigualdade social, comprometer as condições de saúde e interferir com os ecossistemas naturais (confiança elevada). Estas soluções de compromisso podem ser reduzidas através de adaptações que incluam atenção à pobreza e ao desenvolvimento sustentável (confiança elevada). {4.3.2, 4.3.3, 4.5.4, 5.3.2; caixas transversais 6 e 7 no capítulo 3}

D.3.3 Uma combinação de opções de adaptação e mitigação para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, aplicada de forma participativa e integrada, pode permitir transições sistémicas rápidas em zonas urbanas e rurais (confiança elevada). Estas são mais eficazes quando alinhadas com o desenvolvimento económico e sustentável e quando os órgãos de poder local e regional e os decisores são apoiados pelos governos nacionais (confiança média). {4.3.2, 4.3.3, 4.4.1, 4.4.2}

D.3.4 As opções de adaptação que também mitigam as emissões podem proporcionar sinergias e economias de custos na maioria dos setores e transições de sistemas, nomeadamente quando a gestão do solo reduz as emissões e o risco de catástrofes, ou quando edifícios com baixo teor de carbono são também concebidos para um arrefecimento eficiente. Os compromissos entre mitigação e adaptação, com vista à limitação do aquecimento global a 1,5 °C, como por exemplo nos casos em que o uso de culturas bioenergéticas, a reflorestação ou a florestação ocupam as terras necessárias para a adaptação agrícola, podem comprometer a segurança alimentar, os meios de subsistência, as funções e os serviços de ecossistema e outros aspetos do desenvolvimento sustentável (confiança elevada). {3.4.3, 4.3.2, 4.3.4, 4.4.1, 4.5.2, 4.5.3, 4.5.4}

D.4 As opções de mitigação compatíveis com cenários a 1,5 °C estão associadas a múltiplas sinergias e soluções de compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs). Embora o número total de possíveis sinergias exceda o número de soluções de compromisso, o seu efeito líquido dependerá do ritmo e da amplitude das alterações, da composição da carteira de medidas de mitigação e da gestão da transição (confiança elevada). (Figura SPM.4) {2.5, 4.5, 5.4}

D.4.1 Os cenários a 1,5 °C apresentam fortes sinergias, nomeadamente para os SDGs 3 (saúde), 7 (energia limpa), 11 (cidades e comunidades), 12 (consumo e produção responsáveis) e 14 (oceanos) (confiança muito elevada). Alguns dos cenários a 1,5 °C apresentam potenciais compromissos com a mitigação para os SDG 1 (pobreza), 2 (fome), 6 (água) e 7 (acesso à energia), se não forem cuidadosamente geridos (confiança elevada). (figura SPM.4) {5.4.2; Figura 5.4, caixas transversais 7 e 8 no capítulo 3}

D.4.2 Os cenários a 1,5 °C que incluem uma baixa procura de energia (por exemplo, ver P1 na figura SPM.3a e SPM.3b), o baixo consumo de materiais e reduzido consumo de alimentos com alto nível de emissões de gases com efeito de estufa têm as maiores sinergias e o menor número de compromissos no que respeita ao desenvolvimento sustentável e aos SDGs (confiança elevada). Estes cenários reduziriam a dependência de medidas CDR. Nos cenários modelados, o desenvolvimento sustentável, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades podem apoiar a limitação do aquecimento a 1,5 °C (confiança elevada). (figura SPM.3b, figura SPM.4) {2.4.3, 2.5.1, 2.5.3, figura 2.4, figura 2.28, 5.4.1, 5.4.2, figura 5.4}

(insert figure SPM4 here)


Figura SPM.4 | Potenciais sinergias e compromissos entre o portfolio setorial de opções de mitigação das alterações climáticas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs). Os SDGs servem de quadro analítico para a avaliação das diferentes dimensões de desenvolvimento sustentável, que se estendem para além do período de tempo das metas de SDGs para 2030. A avaliação baseia-se na literatura sobre as opções de mitigação consideradas relevantes para um aquecimento global a 1,5 °C. A força das interações aferida baseia-se na avaliação qualitativa e quantitativa das opções de mitigação individuais enumeradas no quadro 5.2. Para cada opção de mitigação, avaliou-se a força da ligação do SDG, bem como a confiança que lhe está associada na literatura de referência (tonalidades de verde e vermelho). A força das ligações positivas (sinergias) e ligações negativas (soluções de compromisso) em todas as opções individuais de um setor (ver Quadro 5.2) são agregadas em potenciais setoriais para o conjunto do portfolio de mitigação. As zonas (brancas) fora das barras, que indicam a inexistência de interações, têm confiança baixa devido à incerteza e ao número limitado de estudos que explorem os efeitos indiretos. A força da ligação considera apenas o efeito da mitigação e não inclui os benefícios dos impactos evitados. O SDG 13 (acção climática) não consta da lista porque a mitigação está a ser considerada em termos de interações com os SDGs e não vice-versa. As barras representam a força da ligação e não consideram a força do impacto nos SDGs. O setor da procura de energia inclui respostas comportamentais, mudança de combustível e opções de eficiência no setor dos transportes, da indústria e da construção, bem como as opções de captura de carbono no setor industrial. As opções avaliadas no setor do fornecimento de energia incluem energias renováveis baseadas e não baseadas em biomassa, energia nuclear, captura e armazenamento de carbono (CCS) com bioenergia, e CCS com combustíveis fósseis. As opções no setor fundiário incluem a agricultura e opções florestais, regimes alimentares sustentáveis e redução dos resíduos alimentares, fixação do solo, gestão do gado e do estrume, florestação, reflorestação e redução da desflorestação, e aprovisionamento responsável. Além deste valor, as opções no setor dos oceanos são discutidas no relatório subjacente. {5.4, quadro 5.2, figura 5.2}

A informação sobre os impactos líquidos da mitigação no desenvolvimento sustentável em cenários a 1,5 °C só está disponível para um número limitado de SDGs e opções de mitigação. Apenas um número limitado de estudos avaliou os benefícios de evitar o impacto das alterações climáticas a 1,5 °C, incluindo os efeitos colaterais, e os efeitos conexos de adaptação e mitigação aos SDGs. A avaliação dos potenciais de mitigação indicativos na figura SPM.4 é um novo passo em frente desde o AR5 no sentido de uma avaliação global mais alargada e integrada no futuro.


D.4.3 Os cenários modelados a 1,5 °C e 2 °C de aquecimento global baseiam-se frequentemente em medidas de grande escala relacionadas com a utilização do solo, como a florestação e o fornecimento de bioenergia, que, se forem mal geridos, podem competir com a produção alimentar e, por conseguinte, suscitar preocupações em matéria de segurança alimentar (confiança elevada). Os impactos das opções de remoção de dióxido de carbono (CDR) sobre os SDGs dependem do tipo de opções e da escala de aplicação (confiança elevada). Se forem aplicadas de forma incorreta, as opções de CDR, como BECCS e AFOLU, conduziriam a soluções de compromisso. Uma conceção e execução relevantes para cada contexto exigem que se considerem as necessidades das pessoas, a biodiversidade e outras dimensões do desenvolvimento sustentável (confiança muito elevada). (figura SPM.4) {5.4.1.3, caixa transversal 7 no capítulo 3}

D.4.4 Uma mitigação consistente com as trajetórias a 1,5 °C cria riscos para o desenvolvimento sustentável em regiões com elevada dependência dos combustíveis fósseis para as receitas e a criação de emprego (confiança elevada). As políticas que promovem a diversificação da economia e do setor da energia podem dar resposta aos desafios associados (confiança elevada). {5.4.1.2, caixa 5.2}

D.4.5 As políticas de redistribuição em todos os setores e populações que protejam os pobres e os mais vulneráveis podem solucionar as soluções de compromisso para uma série de SDGs, em especial na erradicação da fome e da pobreza, e no acesso à energia. As necessidades de investimento para essas políticas complementares são apenas uma pequena fração dos investimentos globais de mitigação nos cenários a 1,5 °C (confiança elevada). {2.4.3, 5.4.2, figura 5.5}

D.5 Limitar os riscos do aquecimento global a 1,5 °C no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza implica transições de sistema que podem ser facilitadas por um aumento dos investimentos de adaptação e mitigação, instrumentos de política, aceleração da inovação tecnológica e mudanças de comportamento (confiança elevada). {2.3, 2.4, 2.5, 3.2, 4.2, 4.4, 4.5, 5.2, 5.5, 5.6}

D.5.1 O financiamento direto em investimentos em infraestruturas de mitigação e adaptação poderia proporcionar recursos adicionais. Tal poderá envolver a mobilização de fundos privados por investidores institucionais, gestores de ativos e bancos de desenvolvimento ou de investimento, bem como a disponibilização de fundos públicos. As políticas governamentais que reduzem o risco de investimentos em baixas emissões e adaptação podem facilitar a mobilização de fundos privados e aumentar a eficácia de outras políticas públicas. Os estudos indicam uma série de desafios, incluindo no acesso ao financiamento e à mobilização de fundos (confiança elevada). {2.5.1, 2.5.2, 4.4.5}

D.5.2 O financiamento da adaptação coerente com um aquecimento global a 1,5 °C é difícil de quantificar e comparar com a opção a 2 °C. As lacunas de conhecimento incluem dados insuficientes para o cálculo de investimentos específicos de resistência às alterações climáticas decorrentes do fornecimento de infraestruturas de base atualmente subexploradas. As estimativas dos custos de adaptação podem ser inferiores com um aquecimento global a 1,5 °C do que a 2 °C. As necessidades de adaptação têm sido normalmente apoiadas por fontes do setor público, como os orçamentos nacionais e infranacionais, e nos países em desenvolvimento, juntamente com o apoio da ajuda ao desenvolvimento, os bancos multilaterais de desenvolvimento e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (confiança média). Mais recentemente existe uma melhor compreensão da dimensão e aumento do número de organizações não governamentais e do financiamento privado em algumas regiões (confiança média). As barreiras incluem a escala do financiamento da adaptação necessário, a capacidade limitada e o acesso a financiamento de adaptação (confiança média). {4.4.5, 4.6}

D.5.3 Os modelos mundiais de referência para limitar o aquecimento global a 1,5 °C projectam necessidades médias anuais de necessidade de investimento no sistema energético de cerca de 2,4 biliões (trillion) de USD2010 entre 2016 e 2035, o que representa cerca de 2,5% do PIB mundial (confiança média). {4.4.5, caixa 4.8}

D.5.4 Os instrumentos políticos podem ajudar a mobilizar recursos suplementares (incremental), nomeadamente através da transferência de investimentos e poupanças globais e através de instrumentos de mercado e de instrumentos não baseados no mercado, bem como de medidas de acompanhamento para garantir a equidade da transição, reconhecendo os desafios relacionados com a execução, incluindo os relativos aos custos da energia, depreciação dos ativos e impactos na concorrência internacional e utilização das oportunidades para maximizar os cobenefícios (confiança elevada). {1.3.3, 2.3.4, 2.3.5, 2.5.1, 2.5.2, caixa transversal 8 no capítulo 3, caixa transversal 11 no capítulo 4, 4.4.5, 5.5.2}

D.5.5 As transições de sistemas, consistentes com a limitação do aquecimento global a 1,5 °C, incluem a adoção generalizada de tecnologias e práticas novas e possivelmente disruptivas e de uma inovação impulsionada pelo clima. Estas tecnologias implicam um reforço das capacidades de inovação tecnológica, quer na indústria quer no setor financeiro. Tanto as políticas nacionais de inovação como a cooperação internacional podem contribuir para o desenvolvimento, a comercialização e a adoção generalizada de tecnologias de mitigação e adaptação. As políticas de inovação podem ser mais eficazes quando combinam apoio público à investigação e desenvolvimento com combinações de políticas que proporcionam incentivos à difusão de tecnologia (confiança elevada). {4.4.4, 4.4.5}

D.5.6 Educação, informação e abordagens comunitárias, incluindo as que são informadas pelos conhecimentos locais e indígenas podem acelerar mudanças de comportamentos em grande escala coerentes com a adaptação e a limitação do aquecimento global a 1,5 °C. Estas abordagens são mais eficazes quando combinadas com outras políticas e adaptadas às motivações, capacidades e recursos de intervenientes e contextos específicos (confiança elevada). A aceitação pública pode permitir ou inibir a aplicação de políticas e medidas destinadas a limitar o aquecimento global a 1,5 °C e à adaptação às consequências desse aquecimento. A aceitação pública depende da avaliação, por parte de cada indivíduo, das consequências esperadas da implementação de políticas, da perceção da equidade da distribuição dessas consequências e da perceção da equidade dos procedimentos de decisão (confiança elevada). {1.1, 1.5, 4.3.5, 4.4.1, 4.4.3, caixa 4.3, 5.5.3, 5.6.5}

D.6 O desenvolvimento sustentável apoia, e permite frequentemente, as transições fundamentais na sociedade e sistemas que permitem limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Tais mudanças facilitam a prossecução de cenários de desenvolvimento resistentes às alterações climáticas que permitam uma mitigação e uma adaptação ambiciosas em conjugação com a erradicação da pobreza e os esforços para reduzir as desigualdades (confiança elevada). {Caixa 1.1, 1.4.3, Figura 5.1, 5.5.3, Caixa 5.3}

D.6.1 A justiça social e a equidade são aspetos fundamentais de cenários de desenvolvimento resistentes às alterações climáticas, que visam limitar o aquecimento global a 1,5 °C, ao mesmo tempo que abordam desafios e inevitáveis soluções de compromisso, alargam as oportunidades e garantem que as opções, visões e valores são deliberados, entre países e comunidades, sem fazer com que os pobres e os desfavorecidos fiquem em pior situação (confiança elevada). {5.5.2, 5.5.3, Caixa 5.3, Figura 5.1, Figura 5.6, caixas transversais 12 e 13 no capítulo 5}

D.6.2 O potencial para os modelos de desenvolvimento resiliente às alterações climáticas diferem entre regiões e em cada região ou nação, devido a diferenças de contextos de desenvolvimento e a vulnerabilidades sistémicas (confiança muito elevada). Até à data, os esforços envidados nesse sentido foram limitados (confiança média) e a intensificação dos esforços deverá implicar uma ação reforçada e atempada de todos os países e intervenientes não estatais (confiança elevada). {5.5.1, 5.5.3, figura 5.1}

D.6.3 Os cenários que são coerentes com o desenvolvimento sustentável mostram menos desafios em matéria de mitigação e adaptação e estão associadas a custos de mitigação mais baixos. A grande maioria dos estudos de modelação não conseguiu construir cenários que fossem caracterizados pela falta de cooperação internacional, desigualdade e pobreza e que fossem suscetíveis de limitar o aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). {2.3.1, 2.5.1, 2.5.3, 5.5.2}

D.7 Reforçar as capacidades das autoridades nacionais e subnacionais, da sociedade civil, do setor privado, dos povos indígenas e das comunidades locais em matéria de ação climática, pode apoiar a execução de ações ambiciosas necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5 °C (confiança elevada). A cooperação internacional pode proporcionar um ambiente favorável a este objetivo em todos os países e para todas as pessoas, num contexto de desenvolvimento sustentável. A cooperação internacional é um fator essencial para Países em desenvolvimento e regiões vulneráveis (confiança elevada). {1.4, 2.3, 2.5, 4.2, 4.4, 4.5, 5.3, 5.4, 5.5, 5.6, caixa 4.1, caixa 4.2, caixa 4.7, caixa 5.3, caixa transversal 9 no capítulo 4, caixa transversal 13 no capítulo 5}

D.7.1 As parcerias que envolvem intervenientes públicos e privados, investidores institucionais, o sistema bancário, a sociedade civil e as instituições científicas facilitariam ações e respostas coerentes com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C (confiança muito elevada). {1.4, 4.4.1, 4.2.2, 4.4.3, 4.4.5, 4.5.3, 5.4.1, 5.6.2, Caixa 5.3}

D.7.2 Cooperação em matéria de governança reforçada a vários níveis, que inclua intervenientes não estatais, como a indústria, a sociedade civil e as instituições científicas, políticas setoriais e intersetoriais coordenadas a vários níveis de governança, políticas sensíveis às questões de género, financiamento, incluindo financiamento inovador, e cooperação em matéria de desenvolvimento e transferência de tecnologias pode assegurar a participação, a transparência, o reforço das capacidades e a aprendizagem entre os diferentes intervenientes (confiança elevada). {2.5.1, 2.5.2, 4.2.2, 4.4.1, 4.4.2, 4.4.3, 4.4.4, 4.4.5, 4.5.3, caixa transversal 9 no capítulo 4, 5.3.1, 5.5.3, caixa transversal 13 no capítulo 5, 5.6.1 e 5.6.3}

D.7.3 A cooperação internacional é um fator essencial para que os países em desenvolvimento e as regiões vulneráveis reforcem a sua ação para a aplicação de respostas climáticas coerentes com um aquecimento global a 1.5.º C, nomeadamente através da melhoria do acesso ao financiamento e à tecnologia e do reforço das capacidades internas, tendo em conta as circunstâncias e as necessidades nacionais e locais (confiança elevada). {2.3.1, 2.5.1, 4.4.1, 4.4.2, 4.4.4, 4.4.5, 5.4.1 5.5.3, 5.6.1, Caixa 4.1, caixa 4.2, caixa 4.7}

D.7.4 Ação coletiva a todos os níveis, de forma a refletir as diferentes circunstâncias e capacidades, a fim de limitar o aquecimento global a 1,5 °C, tendo em conta a equidade e a eficácia, pode facilitar o reforço da resposta global às alterações climáticas, alcançando o desenvolvimento sustentável e erradicando a pobreza (confiança elevada). {1.4.2, 2.3.1, 2.5.1, 2.5.2, 2.5.3, 4.2.2, 4.4.1, 4.4.2, 4.4.3, 4.4.4, 4.4.5, 4.5.3, 5.3.1, 5.4.1, 5.5.3, 5.6.1, 5.6.2, 5.6.3}

Caixa SPM 1: Conceitos de base centrais do presente relatório especial[editar]

Temperatura média global da superfície (GMST)
Média global estimada das temperaturas do ar próximo da superfície em terra e no gelo marinho e da temperatura da superfície do mar em regiões oceânicas sem gelo, com variações normalmente expressas em termos de partida de um valor durante um período de referência específico. Ao estimar as variações da GMST também se usam temperaturas sobre a terra e os oceanos[19]. {1.2.1.1}
Era pré-industrial
O período de vários séculos, anterior ao início da atividade industrial em grande escala, por volta de 1750. O período de referência 1850-1900 é utilizado para aproximar a GMST pré-industrial. {1.2.1.2}
Aquecimento global
O aumento estimado da GMST, em comparação com a média para um período de 30 anos, ou o período de 30 anos centrado num determinado ano ou década, expresso em relação aos níveis pré-industriais, salvo especificação em contrário. Para períodos de 30 anos que abrangem anos anteriores e futuros, presume-se que a atual tendência multi-decada para o aquecimento global se mantém. {1.2.1}
Emissões líquidas nulas de CO2
Obtêm-se emissões líquidas nulas de dióxido de carbono (CO2) quando as emissões antropogénicas de CO2 são compensadas globalmente por remoções antropogénicas de CO2 durante um período especificado.
Remoção de dióxido de carbono (CDR)
Atividades antropogénicas que eliminam o CO2 da atmosfera e o armazenam de forma duradoura em reservatórios geológicos, terrestres ou oceânicos, ou em produtos. Inclui o reforço antropogénico, existente e potencial, de sumidouros biológicos ou geoquímicos e a captura e armazenagem direta do ar, mas exclui a absorção natural de CO2 não diretamente causada por atividades humanas.
Orçamento total para o carbono
Estimativa das emissões antropogénicas líquidas globais globais líquidas de CO2 do período pré-industrial até ao momento em que as emissões antropogénicas de CO2 atinjam um valor zero líquido que resultaria, com alguma probabilidade, na limitação do aquecimento global a um determinado nível, tendo em conta o impacto de outras emissões antropogénicas. {2.2.2}
Orçamento remanescente para o setor do carbono
Estimativa das emissões antropogénicas líquidas globais de CO2 a partir de uma determinada data de início do período em que as emissões antropogénicas de CO2 atingem um valor zero líquido que resultaria, com alguma probabilidade, em limitar o aquecimento global a um determinado nível, tendo em conta o impacto de outras emissões antropogénicas.{2.2.2}
Superação da temperatura
A ultrapassagem temporária de um determinado nível de aquecimento global.
Cenários de emissão
Nesta síntese para os responsáveis políticos, a modelação de cenários de emissões antropogénicas globais ao longo do século XXI são designadas como cenários de emissão. Os cenários de emissão são classificados segundo a sua trajetória de temperatura ao longo do século XXI: os cenários que forneçam pelo menos 50 % de probabilidade, com base nos conhecimentos atuais, de limitação do aquecimento global a menos de 1,5 °C, são classificados como sem superação; as que limitam o aquecimento a menos de 1,6 °C e regressam a 1,5 °C até 2100 são classificadas como 1,5 °C com superação limitada; as que ultrapassem 1,6 °C, mas continuem a regressar a 1,5 °C até 2100, são classificadas como de elevada superação.
Impactos
Efeitos das alterações climáticas nos sistemas humanos e naturais. Os impactos podem ter efeitos benéficos ou adversos para os meios de subsistência, a saúde e o bem-estar, para os ecossistemas e para as espécies, os serviços, as infraestruturas e os bens económicos, sociais e culturais.
Risco
O potencial de consequências adversas de um perigo relacionado com o clima sobre os sistemas humanos e naturais que resulte das interações entre o perigo e a vulnerabilidade e a exposição do sistema afetado. O risco integra a probabilidade de exposição a um risco e a magnitude do seu impacto. O risco pode também descrever o potencial de consequências adversas das medidas de adaptação ou atenuação das alterações climáticas.
Cenários de desenvolvimento resistentes às alterações climáticas (SDRC)
Cenários que reforcem o desenvolvimento sustentável em múltiplas escalas e esforços para erradicar a pobreza através de transições e transformações societais e de sistemas equitativas, reduzindo simultaneamente a ameaça das alterações climáticas através de medidas ambiciosas de atenuação, adaptação e resiliência às alterações climáticas.

Referências[editar]

  1. Decisão 1/CP.21, n.º 21
  2. A avaliação inclui literatura aceita para publicação até 15 de maio de 2018.
  3. Cada constatação assenta numa avaliação dos elementos de prova subjacentes acordados. Um nível de confiança é expresso utilizando cinco qualificadores: muito baixa, baixa, média, elevada e muito elevada, e texto em itálico por exemplo: confiança média. Os termos que se seguem foram utilizados para indicar a probabilidade de ocorrência de um resultado: virtualmente certo (99-100% de probabilidade de ocorrência), muito provável (90-100%), provável (66-100%), tão provável de ocorrer como não (33-66%), pouco provável (0-33%), muito improvável (0—10%), excepcionalmente improvável (0-1%). Podem também ser utilizados termos adicionais, caso adequado: muito provável (95—100%), mais provável de ocorrer do que não (>50—100%), mais improvável do que provável (0—<50%), extremamente improvável (0—5%). A probabilidade aferida é apresentada em itálico, como por exemplo, em muito provável. Isto é consistente com o AR5.
  4. Ver também a Caixa SPM.1: Conceitos fundamentais ao presente relatório especial.
  5. O nível atual de aquecimento global é definido como a média de um período de 30 anos, centrado em 2017, pressupondo que a recente taxa de aquecimento continua.
  6. Este intervalo abrange as quatro estimativas disponíveis para análise interpares das alterações observadas na GMST, bem como outras incertezas decorrentes de uma possível variabilidade natural a curto prazo. {1.2.1, quadro 1.1}
  7. A robustez (NT: importância) é aqui utilizada para significar que pelo menos dois terços dos modelos climáticos apresentam o mesmo sinal de alterações à escala da grelha, e que as diferenças nas grandes regiões são estatisticamente significativas.
  8. São determinadas as alterações previstas nos impactos entre os diferentes níveis de aquecimento global no que diz respeito à variação da temperatura média global do ar à superfície
  9. De acordo com estudos anteriores, os exemplos ilustrativos foram adotados a partir de um metaestudo recente
  10. Aqui, os impactos no crescimento económico referem-se a alterações no produto interno bruto (PIB). Muitos impactos, como a perda de vidas humanas, o património cultural e os serviços dos ecossistemas, são difíceis de avaliar e monetizar.
  11. As referências a uma limitação do aquecimento global a 2 °C baseiam-se nos 66 % de probabilidade de permanecer abaixo dos 2 °C.
  12. As emissões de não-CO2 incluídas no presente relatório são todas as emissões antropogénicas diferentes das emissões de CO2 que resultam em força radiativa. Incluem-se os gases de vida curta que provocam força radiativa como o metano, alguns gases fluorados, precursores de ozono, aerossóis ou precursores de aerossóis, como o carbono negro e o dióxido de enxofre, respetivamente, bem como os gases com efeito de estufa de longa duração, como o óxido nitroso ou alguns gases fluorados. A força radiativa associada às emissões de não-CO2 e às alterações no albedo da superfície é designada por força radiativa não-CO2. {2.2.1}
  13. Há uma base científica clara para um orçamento total de carbono coerente com a limitação do aquecimento global a 1,5 °C. No entanto, nem este orçamento total para o carbono nem a fração do orçamento resultante das emissões passadas foram avaliados no presente relatório.
  14. Independentemente da medida da temperatura global utilizada, a compreensão atualizada e outros avanços nos métodos conduziram a um aumento do orçamento restante estimado para o carbono de cerca de 300 GtCO2 em comparação com o orçamento do AR5 previsto para o efeito (confiança média). {2.2.2}
  15. Estas estimativas utilizam a GMST observada para 2006-2015 e estimam as futuras variações de temperatura utilizando temperaturas do ar próximas da superfície.
  16. As alterações previstas da utilização dos solos apresentadas não são aplicadas aos seus limites máximos em simultâneo numa única via.
  17. Incluindo dois percursos que limitam o aquecimento a uma temperatura de 1,5 °C, sem ou com superação limitada, e quatro cenários de superação.
  18. No segundo relatório de avaliação do IPCC, foram agregadas emissões de gases com efeito de estufa com os valores GWP a 100 anos.
  19. Relatórios anteriores do IPCC, que refletem a literatura, utilizaram uma variedade de métodos aproximadamente equivalentes de avaliação da alteração da GMST