Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano/11/O Cometa de 1652
O COMETA DE 1652
Aʼ extrema obsequiosidade do Exm. Sr. Dr. W. G. C. Byvanck, illustre director da Bibliotheca Real de Haya, deve o Instituto a recente acquisição da copia photographica de uma antiga e rarissima estampa hollandeza, representando o cometa observado, aqui no Recife, em fins de 1652.
No alto da gravura—adiante reproduzida—lê-se o distico—Nieuwe Ongewoon-Wonderlykke Stacrt-Sterre opʼt Recif in Brazil Gezien op den 16 December Anno 1652. Aldus vertoont, en Affgebeelt door N. N.—o que, em portuguez, quer dizer : Novo, estranho e maravilhoso cometa visto no Recife, no Brasil, a 16 de Dezembro de 1652. Assim descripto e desenhado por N. N.
Em baixo reza a legenda: Op't Recif van Paranambuca in Brazilien, Heeft zigh boven den Horizont gepresenteert een Comeetster; Wiens Stuert oogenschynlyk omtrent dry Ellen uytstrekte, orer en voorby ander Sterren heen; komende op met het aan komen des Naghts oft avontatont, en verdween als de Mane Klaar scheen; en is nogh dagelycks gezien van den 16.den tot den 21.sten. December inʼt sluyten der Brieven toe Anno 1652. Godt gerve dʼuytkomst tʼonzen beaten. tʼAmsterdam A° 1653—ou–No Recife de Pernambuco, no Brasil, apresentou-se acima do horisonte um cometa, cuja cauda apparentemente se estendia por espaço de tres varas, por cima e por diante de outras estrellas; nascendo ao pôr do sol ou ao anoitecer, e desapparecendo quando clareava a lua; e foi ainda diariamente visto de 16 a 21 de Dezembro ao serem fechadas as cartas do anno de 1652. Permitta Deus que as suas consequencias nos sejam favoraveis. Em Amsterdam. A° 1653.
Desejando fornecer aos leitores da Revista informações mais detalhadas, submettemos a copia da gravura á apreciação do nosso eminente consocio Dr. H. Morize, do Observatorio do Rio de Janeiro, e deste illustre scientista recebeu o nosso collega Dr. Alfredo de Carvalho a seguinte communicação:
«Quanto á photographia a que allude a vossa carta, penso, como vós, que se trata do cometa de Hevelius (forma latinisado de Hewelke).
«Infelizmente a Bibliotheca do Observatorio, comquanto assaz rica em obras technicas recentes, poucos recursos offerece para os assumptos historicos e muito pouco poderei adiantar sobre o assumpto.
«O Dr. Ph. Carl, em seu precioso Repertorium der Cometen—Astronomie, além de longa bibliographia de obras e opusculos suscitados pelo cometa de Hevelius, dá a data do seu descobrimento (18 de Dezembro de 1652), os elementos calculados por Halley, e diz que o astro, observado pela primeira vez, pouco depois da sua passagem perihelica, rapidamente diminuiu de brilho e desappareceu a 10 de Janeiro de 1653.
«Encontro na conceituada revista ingleza The Observatory, de Junho de 1905, uma interessante nota de W. T. Lynn sobre Hevelius e os seus cometas. Dʼella extracto o que diz respeito ao astro em questão:
«Quando o cometa de 1652 foi descoberto, a 20 de Dezembro de 1652, estylo gregoriano, (não concorda com Carl), na constellação de Orion, parece que já havia passado pelo perihelio desde mais de um mez. Estava situado um pouco acima de Rigel, que Hevelius chama Regel, e o seu nucleo era arredondado e de pequeno brilho. Hevelius assim o descreve: caput erat raræ magnitudinis, vix aliquanto Lunā plena minus, e accrescenta que a cauda ou «barba» se extendia por 6 ou 7 gráos de comprimento.
Continuou a observal-o ate 7 de Janeiro de 1653, data em que ficou extremamente difficil de ver, apezar de ter podido ainda percebel-o de relance, com auxilio de telescopio, e pela ultima vez, a 10 do mesmo mez. O cometa se achava então na constellação de Persêo.»
«Comquanto a gravura representando um cometa observado em Pernambuco tenha a data de 16 de Dezembro, isto é, 4 dias antes do descobrimento, creio que se trata do mesmo astro, pela seguinte razão:
«A reforma gregoriana do calendario, effectuada em 1582, foi immediatamente aceita pelos povos catholicos, mas os protestantes foram naturalmente mais esquivos e definitivamente só abandonaram o calendario Juliano em meiados do seculo XVIII.

No XVII, a mesma data era por elles numerada com 11 dias menos que nos povos catholicos. A data do documento hollandez é certamente enunciada de accordo com o calendario Juliano, emquanto que a data do descobrimento do cometa é pelo Sr. Lynn especificadamente referida ao calendario gregoriano.
Resulta que a data, estylo moderno, da observação no Brasil é 27 de Dezembro, ou uma semana depois da primeira observação de Hevelius.
«Alem de não constar haver sido visto nenhum outro cometa naquelle anno, outra consideração corrobora a identidade dos dous astros: na gravura hollandeza o cometa está orientado com o nucleo a Sul e a cauda a Norte. Conforme é sabido, a cauda dos cometas está sempre apontada para direcção opposta á do Sol, como se por este fôsse repellida; resulta, pois, que no momento da observação o Sol estava mais a Sul que o cometa. Ora, naquella epocha do anno (solsticio dʼinverno) o Sol alcança a sua maxima declinação Sul (cerca de 23°30ʼ); e o astro, estando proximo a Rigel (8°20ʼ), se achava mais a Norte, isto é, de accordo com o que está representado na referida estampa. Se, como é natural, o artista representou o cometa na posição em que o vira, com o horizonte em baixo, a orientação do Norte á esquerda só era possivel olhando do lado de Léste do horizonte, onde justamente se achava nas primeiras horas da noite, a constellação de Orion, que aliás parece grosseiramente representada por mão inexperiente.
«Accrescentarei que, pela dimensão do nucleo, quasi tão grande como a Lua, diz Hevelius, esse cometa não podia deixar de attrahir a attenção dos observadores pernambucanos.»
H. Morize.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
