Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano/11/O Recife de Grês do Porto de Pernambuco
O RECIFE DE GRÉS
PORTO DE PERNAMBUCO
Ao entrar no porto de Pernambuco o navio passa em volta da extremidade de um longo recife, que visto na préa-mar, quando as vagas se quebram fortemente ao seu encontro, seria naturalmente considerado de formação coralinea ; mas, observado na baixa-mar, póde ser confundido com um dique artificial levantado por obreiros cyclopicos.
Na baixa-mar apresenta-se como um escolho plano, de superficie nivelada, com 30 a 60 jardas de largura, estendendo-se em linha perfeitamente recta por espaço de varias milhas.
De permeio á cidade inclúe uma laguna rasa ou canal de cerca de meia milha de largura, que mais para o sul se estreita para pouco mais de cem jardas.
Proximo ao extremo septentrional veem-se navios fundeados ao longo do recife e amarrados a velhos canhões fincados no mesmo.

exageradas
A. Nivel da préa-mar.
B. Massas depositadas, densamente revestidas de Serpulae, etc.
C. Cimo do escolho que em geral desce para o mar com leve pendor, na gravura intencionalmente augmentado.
D. Massas depositadas de grés descoberto.
E. Superficie do porto ou laguna.
A gravura acima representa, na baixa-mar das aguas vivas, a secção transversal da parte norte do recife, onde do ludo interior offerece uma secção de cerca de sete pés de altura. Consiste dum grés duro, de cor pallida, quebrando-se com fractura muito lisa, e formado de grãos silicosos cimentados por materia calcarea ; observam-se embebidos nelle seixos de quartzo perfeitamente arredondados, do tamanho dum feijão e raras vezes do duma maçã, junto com muito poucas conchas.
Os vestigios de estratificação são obscuros, mas, num lugar de calcareo stalactitico havia uma camada incluida de um oitavo de pollegada de espessura. Num outro ponto alguns falsos estratos, mergulhando para o lado de terra num angulo de 43º, achavam-se capeados por uma massa horizontal. De ambos os lados do escolho acham-se depositados fragmentos quadrangulares, conforme mostra a gravura ; e o todo, em alguns lugares, está fendido, apparentemente devido a ter sido arrastada pelas aguas alguma tenra camada subjaccente. Um dia, na baixa-mar, percorri por espaço de uma milha este molhe singularmente plano e estreito, com agua de ambos os lados, e pude ver que ainda por mais outra milha alem a sua forma se mantinha inalterada.
Na bella charta de Pernambuco do Barão Roussin ( Le Pilote du Brésil ) está representado como se estendendo, numa linha inteiramente recta, por varias milhas; ignoro se a sua composição é sempre a mesma; mas, das informações que obtive de intelligentes pilotos do paiz, parece que em alguns pontos da costa é substituido por dous recifes de coral.
A superficie superior, comquanto em grande escala se deva chamar plana, apresenta nunierosas pequenas irregularidades, devidas á desintegração irregular. Os maiores seixos imbebidos repouzam sobre curtos pedestaes de grés; ha tambem muitas cavidades sinuosas, de duas a tres pollegadas de profundidade e de largura e de seis pollegadas a dous pés de comprimento.
As margens superiores dos sulcos por vezes sobresahem aos seus lados; terminam abruptamente, mas de forma arredondada. Um destes sulcos occasionalmente se divide em dous braços ; mas, em geral são quasi paralellos uns aos outros e collocados em linhas transversaes ao escolho de grés. Não sei como explicar a sua origem, a não ser que sejam formados pela ressaca que diariamente vem quebrar-se sobre o recife e arrasta seixos para dentro e para fóra das depressões originariamente apenas ligeiras.
Opposta a esta noção é o facto de estarem alguns delles esmaltados com numerosos pequenos Actineae vivos. Reproduzo este trecho assim como o escrevi em tempo, porque ultimamente sulens de natureza similar em rochas têm merecido muita attenção, e são invariavelmente considerados como indicando a primitiva acção duma queda dagna sobre a margem duma geleira movente.
A parte exterior do escolho se acha revestida duma delgada camada de materia calcarea ; esta, na parte externa das massas depositadas que só póde ser attingida na baixa-mar e no intervallo duas vagas, é tão espessa que raramente consegui, com um pesado martello, expôr o grés ; colli, porem, alguns fragmentos em que a camada tinha de tres a quatro pollegadas de espessura ; consiste principalmente de pequenos Serpulae, incluindo alguns Balani e poucas camadas, muito delgadas e semelhantes a papel, de Nulliporuc. Apenas a superficie está viva, e o interior é composto todo dos corpos organicos acima mencionados cheios de materia calcarca esbranquiçada.
A camada, comquanto não seja dura, é resistente e devido á sua superficie arredondada supporta o embate das vagas. Em toda a margem externa do escolho vi apenas um unico ponto, muito diminuto, em que o grés estava exposto á acção da ressaca.
Nos Oceanos Pacifico e Indico as margens superiores e externas dos recifes de coral são protegidas, conforme será descripto num livro futuro, por uma capa muito similar ; mas, ali ella é quasi exclusivamente formada de varias especies de Nulliporae. O tenente Nelson, na sua excellente memoria sobre as Bermudas (Geol. Trans., Vol. V, parte 1ª, pag. 117) descreveu recifes formados, segundo assegura, mas, apenas revistidos como não posso deixar de suspeitar, de massas similares de Serpulae. Inquiri de alguns velhos pilotos se havia alguma tradição de mudança na forma e nas dimensões do recife de grés ; mas, todos unanimemente me responderam pela negativa.
Surprehende quando se reflecte que, apezar de batido noute e dia por vagas de aguas turvas, carregadas de sedimentos, impellidas pela brisa incessante de encontro ás margens abruptas deste quebra-mar natural, elle tenha permanecido no presente estado perfeito, durante seculos ou mais provavelmente millenios.
Considerando-se que a superficie do lado interno está se decompondo gradualmente, conforme demonstram os seixos nas pedestaes de grés, esta durabilidade deve ser inteiramente devida á protecção fornecida pelo delgado revestimento de Serpulae e outros seres organicos: eis uni bello exemplo de como, na apparencia insignificantes, são todavia efficazes os meios de conservação, bem como os de destruição, empregados pela natureza.
Creio que recifes similares de rocha occorrem em algumas outras bahias e rios na costa do Brasil : o Barão de Roussin refere que em Porto Seguro ha um quay similar ao de Pernambuco. Trechos de varias centenas de milhas de extensão, nas costas do Golfo do Mexico, dos Estados Unidos e do Brasil Meridional, são constituidos por longas e estreitas ilhas e restingas de areia, incluindo lagunas bastante extensas, algumas de varias leguas de largura.
A origem destas ilhotas lincares é assaz obscura: o Prof. Rogers ( Report to the British Association, Vol. III, pag. 13) dá algumas razões para se suppor que foram formadas pelo solevamento dos bancos de areia depositados nas confluencias de correntes.
Eʼ muito provavel que estes phenomenos tenham, na sua origem, relação com as mesmas causas que produziram o notavel recife de grés de Pernambuco.
A cidade de Pernambuco assenta numa ilhota baixa e e numa longa restinga de areia em face do littoral muito baixo, que a certa distancia é limitado por um semicirculo de collinas.
Cavando-se na baixa-mar junto á cidade nota-se que a areia se acha consolidada em grés, similhante ao do quebra-mar porem, contendo muito mais conchas.
Se, pois, de uma parte o interior de uma longa praia arenosa e de outra o nucleo de um escolho ou restinga, em frente a uma bahia, ficaram consolidados, uma pequena modificação, provavelmente de nivel, mas talvez apenas da direcção das correntes, póde ter dado lugar, pelo arrastamento das areias soltas, a uma estructura igual á que existe em frente á cidade de Pernambuco e ao longo da costa ao sul da mesma ; mas, sem a protecção dada pelo successivo crescimento de seres organicos a sua duração seria curta, se é que não fosse destruida antes de apresentar-se completamente.
- ↑ Extrahido no British Museum, de The London, Edinburgh and Dublin Philosophical Magazine and Journal of Science, Serie 3ª. Outubro de 1841, Vol. XIX, pp. 257-260, pelo Prof. John C. Branner, e traduzido do inglez por Alfredo de Carvalho.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
