São Cristóvão/VII

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São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo VII


Uma tarde, na fonte, as mulheres viram como uma torre que avançava: as mais novas fugiram de medo, mas outras mais velhas erguiam as mãos e diziam: “É Cristóvão! É Cristóvão!”

O seu vasto corpo crescera ainda, e a sua grenha ruiva ia mais alta que a mais alta das árvores; lento nos movimentos, cada um dos seus passos parecia despregar-se do chão, com dificuldade; todo ele cheirava a torrão e a arvoredo; uma barba ruiva, como um capim queimado, cobria-lhe a face: e os seus olhos azuis conservavam, como os de uma criança, um espanto perpétuo.

Ao chegar junto da fonte baixou a cabeça, bebeu com lentidão; depois, limpando os beiços, olhava, com um bom sorriso, as mulheres, que já sem medo, reconhecendo o filho do lenhador, se juntavam em torno dele, tocando-lhe com as toucas altas pelo joelho, e erguendo os olhos pasmados para as alturas de sua face.

Obtuso de espírito, ele não reconhecia ninguém – mas sorria sempre. Pouco a pouco, porém, na grande penumbra do seu espírito, decerto surgiram certas memórias dos tempos, que, ainda, pequeno, era o servo da aldeia, e os seus enormes braços moveram-se com lentidão como procurando de novo fardos a levantar, fraquezas a socorrer. E quase imediatamente, vendo uma velha que passava, vergada sob o molho de lenha, tirou-lho e meteu-o, como uma simples acha, sob o braço; depois como um carro de pedra passava, tão pesado que os bois não o podiam puxar, desatrelou o gado, tomou o timão. Mas avistando ainda o moleiro, que picava o seu velho burro carregado de sacos de farinha, com os seus cinco enormes dedos ergueu os fardos do jumento; atirou ainda para os ombros um pobre velho, manco, que mal se arrastava – e assim, com o molho de lenha debaixo do braço, o velho pendurado do pescoço, os sacos pendentes da mão, o pesado carro de pedra preso pelo outro braço, começou a caminhar para a aldeia, seguido das mulheres, que acenavam para o lado, para as portas dos casais, e gritavam” “É Cristóvão! É Cristóvão!”

Despojado dos fardos, foi-se sentar no cruzeiro – e a sua cabeça chegava ao seios de Jesus crucificado, e parecia repousar sobre ele. No entanto, de toda a aldeia, gente corria a ver Cristóvão. Os homens vinham da taberna, limpando à pressa os beiços; as mulheres vinham fiando, outras trazendo ainda na mão as hortaliças dos caldos. As crianças, ao princípio assustadas, vendo que ele lhes estendia a mão, com um bom riso, saltavam-lhe para cima da palma, e ficavam de lá rindo e acenando com os barretes, como do alto de um eirado. O regedor das terras veio por fim diante de Cristóvão rolando os olhos redondos, coçando o queixo, e falando baixo ao arqueiro que o seguia, desconfiado decerto daqueles fortes músculos, que podiam arrasar a aldeia, tudo roubar, e vencer os arqueiros; mas decerto todas as suas algemas não eram bastante fortes para algemar aqueles enormes pulsos, por onde as crianças trepavam, como por troncos de olmeiros: e afastou-se com dignidade, coçando sempre o queixo agudo. Mas duas mulas zurravam, por trás do caminho – e apareceram dois guardiões do convento, que, decerto avisados, desviavam-se do caminho para ver o enorme gigante. Todas as mulheres dobraram os joelhos, e os homens, com os barretes na mão, baixavam os olhos: - e então o mais velho espicaçou a mula com os calcanhares até a fazer parar junto de Cristóvão. Para experimentar, com receio que em tão grande corpo habitasse Satanás, fez o sinal da cruz, murmurou três vezes o nome de Jesus. Cristóvão fez também uma cruz sobre a testa. Então, tranqüilo, o guardião começou a andar em volta dele, batendo os calcanhares nos ilhais da mula, para o, examinar, como um monumento. E a cada grosso músculo, a cada detalhe de força, uma idéia surgia nele: e falava baixo ao outro, que aprovava, com um sorriso reverente. Por fim o guardião gritou: “Cristóvão, se queres ganhar o teu pão, vai amanhã, a matinas, à portaria do convento.”

Os dois frades picaram as mulas, pouco a pouco a gente recolhera às casas, de onde saía o fumo das lareiras acesas. Uma a uma, as estrelas brilhavam. E Cristóvão só, cansado, estirou-se junto ao cruzeiro, onde o sacristão veio acender uma lâmpada.

Estirado de costas, Cristóvão olhava as estrelas. Eram as mesmas que ele tantas vezes contemplava na serra: - mas pareciam-lhe mais brilhantes, mais próximas, e derramando um calor como lâmpadas que alumiam uma morada humana. E ele mesmo, enfim, sentia vir daqueles casebres que em volta se acendiam e mandavam o seu fumo para o céu, um calor que o penetrava até o coração. Adormeceu sorrindo.

De manhã, chegou do outro lado do vale, em frente do mosteiro. Uma muralha envolvia-o como a um castelo: - e por trás da porta, de grossa pregaria, os cães inquietos agitavam as cadeias de ferro. No pátio enorme uma faia abrigava a roldana de um poço. Altas fachadas com reixas nas janelas, erguiam-se em redor: - e ao fundo, junto à entrada da capela, havia um banco de pedra onde um guardião lia o breviário.

Ao ver Cristóvão, fechou o breviário – e examinou-lhe outra vez, com satisfação, os grandes membros serviçais. Depois, por um corredor, alto e fresco, levou-o a um claustro que cercava um jardim; ruas areadas contornavam os canteiros de flores; ao meio cantava um repuxo; e um espaço, entre paredes que a hera revestia, estava lajeado, como chão de igreja. Aí quatro frades, de hábitos arregaçados, jogavam a bola; outros, mais longe, conversavam ao sol; e sob um caramanchão o abade dormitava, com as mãos cruzadas no ventre.

Mas quando Cristóvão apareceu, tudo se interrompeu, todos ergueram as faces, um rumor correu de espanto: - e o guardião diante de Cristóvão, que hesitava, com o seu barrete na mão, fazia-lhe sinais para o levar até ao abade.

Sua Senhoria deu um salto na cadeira ao encarar com o monstro. Depois ergueu as mãos ao Céu, com olhos de piedade. Para mostrar a força de Cristóvão, o guardião mandou-lhe erguer uma pilastra partida que jazia no chão. Cristóvão brandiu a pilastra, como um simples cajado: e todos os frades recuaram com grandes ahs maravilhados.

Cristóvão fora trazido para servir no convento, fazendo o trabalho de muitos serventes. O rancheiro, porém, perguntava se era na realidade uma economia – porque ele igualmente comeria a ração de muitos homens. Os frades argumentavam com gravidade. O abade, porém, decidiu. Além da economia, o convento ganhava a glória de possuir o mais forte de todos os homens. E imediatamente Cristóvão foi levado às cavalariças para as limpar.

Foi o servo da comunidade – e sobre ele recaiu todo o serviço do convento, onde havia oitenta frades, trinta noviços, e dependências inumeráveis. Varria os pátios, limpava as mulas, cavava as hortas, caiava os muros, carregava os sacos de farinha, acarretava os feixes de lenha – e era ele que trazia das pedreira as grandes pedras para as obras da lavanderia. Durante longos meses os seus fortes ossos rangeram sob o trabalho violento. Substituía as cavalgaduras, puxando os carros pesados, com eixos de ferro. Todo o dia, dentro do convento, na cerca, sob o sol ou sob a chuva, a sua forte figura se movia no trabalho contínuo: só por vezes descansava, para tirar do poço um balde de água, que punha à boca, e secava de um trago. À noite, estendido sobre as lajes do pátio, dormia de um sono de animal, entre os cães soltos, que lhe punham as patas sobre o peito, como sobre um rebordo de muralhas, para ladrar contra os ruídos da noite.

Todos os anos, na véspera da Candelária, o padre-mestre reunia os serventes, e interrogava-os sobre a doutrina. Cristóvão não pôde responder, nem sequer enfiar o padre-nosso. Não sabia quem criara o Mundo – e eram-lhe desconhecidos os casos do Paraíso. Aterrado com tão negra ignorância, o abade ordenou que Cristóvão assistisse à aula de História Sagrada. O seu imenso corpo não cabia nos bancos da escola: - e o padre-mestre dispôs que Cristóvão, encostando-se ao muro do pátio, aplicasse a cabeça à janela aberta da aula.

Quando a sineta de estudo tocava, Cristóvão chegava ao muro: - e a sua imensa grenha surgia no parapeito da janela. Todos os discípulos riam – e os mais inquietos atiravam-lhe aos olhos caroços de frutos ou vibravam-lhe, como pequenas lanças, penas de pato que se lhe enterravam na grenha. Ele sorria com paciente respeito.

Sentado no estrado o mestre ensinava – e Cristóvão, como através de um névoa, entrevia as coisas maravilhosas do começo do Mundo. Um Deus enorme, grande como ele, alargando os seus braços potentes, separava o Sol e a Lua; a sua voz era o trovão que rolava; e o seu sopro ora fazia curvar as florestas, ora encapelava as vagas. Mas os homens começavam a povoar a terra, e Deus entrava logo em grandes cóleras. Ao seu capricho as cidades tombavam, sepultando sob as ruínas as criancinhas que sorriam nos berços; vastos prados secavam, e os gados balavam lamentavelmente de fome; um grande terror tomava a terra: - e os homens viviam no terror daquela mão imensa, que só saía das nuvens para os devastar.

De noite, o doce sono fugia de Cristóvão. E encolhido, voltava para o Céu os olhos desconfiados. Se Deus reparando nele, de repente, fizesse sobre ele cair o fogo que queimara Gomorra? Todo o barulho o inquietava: e numa noite de trovoada os seus gritos acordaram todo o convento.

Mas o padre-mestre bem depressa começou a explicar os dogmas. E foi como se toda a Terra e Céu perdessem a sua realidade, ficando apenas deles baixas névoas que flutuavam. Nas alturas já não governava um homem forte e velho, de longas barbas: - mas uma trindade, que era de três, mas que formava um só, e era um Pai, um Filho, e um Espírito que tinha asas. O pecado não era fazer mal, mas nascer, e a água, escorrendo de uma concha, lavava-o como um linho sujo. Cristóvão arregalava os olhos desmedidamente – e as prédicas do padre-mestre eram como névoas que flutuavam intangíveis, logo, esvaídas apenas formadas. Sentia como uma tristeza diante daquelas coisas inacessíveis: e o suspiro que lhe fugia do peito fazia voltar os noviços, que, às escondidas do padre, lhe faziam visagens como de demônios.

Um só parecia simpatizar com Cristóvão. Era um moço franzino, que tinha a sua banca junto da janela, sobre a qual caíam os caracóis dos seus cabelos louros. As suas mãos pálidas folheavam de leve um in-fólio: - e havia em todo ele como a gravidade de um letrado e a doçura de uma virgem.

Todos os dias Cristóvão o via chegar da aldeia com o seu tinteiro metido no cinto, o rolo de papel sob o braço: e todas as tardes o seguia com os olhos quando ele, finda a aula, regressava à aldeia, folheando ainda pelo caminho algum livro onde havia cores brilhantes. Por vezes via-o parar, colher as flores silvestres do caminho. Ou alegremente, deitando os seus longos cabelos para trás, cantava sob a doçura da tarde.

Sempre que passava junto de Cristóvão, dizia-lhe: “Deus te salve!” E Cristóvão sentia como uma carícia na alma. Muitas vezes pensava nele – e voltava-lhe à lembrança o que ouvira ao padre-mestre, dos anjos que desciam à Terra, se misturavam às ocupações humanas. Ia então colocar-se no caminho em que ele passava. E um dia que os caminhos estavam alagados pela chuva, Cristóvão ofereceu-se para o passar ao colo. Desde então procurava maneiras de o servir. Nos dias de calor, tinha para ele a bilha de água mais fresca; e nos dias de frios, fazia depressa no pátio um fogo de rama, para ele aquecer os pés úmidos antes e subir aos claustros. Por fim, como o Inverno se avizinhasse, com os crepúsculos mais escuros, Cristóvão seguia-o na sua volta à aldeia, para o proteger dos lobisomens, ou dos maus encontros: e quando vieram as chuvas, ofereceu-se para o levar às costas, como um macho, até a porta da sua morada. Então pelo caminho conversavam baixo: Cristóvão contava os seus trabalhos no convento, o moço dizia os seus desejos de ser militar, conhecer o mundo, percorrer as cidades. Seu pai era o regedor das terras e destinava-o para padre; mas ele queria casar com uma prima chamada Etelvina, que morava ao pé do castelo, para além do Pego das Dunas. E um dia que assim conversava, o moço contou a Cristóvão que às vezes ia encontrar essa rapariga, longe, à orla de um bosque; mas temia que a surpreendessem os arqueiros do pai, que rondavam os campos, ou o servos do castelo mandados pelo pai de Etelvina. Se Cristóvão quisesse, podia ficar à orla, vigiando os caminhos, como uma torre, e se viesse alguém chegando, avisá-los com um grito. Cristóvão disse: “Irei para onde me mandares”.