São Cristóvão/VIII

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São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo VIII


O sítio onde se encontravam era num claro de árvores derrubadas, à orla do bosque. Havia ali uma torre outrora erguida pelo conde da Ocitânia. O Diabo um dia derrubara-a; e ainda se distinguiam nas pedras tisnadas os vestígios das garras do Tentador. Um terror afastava dali os passos humanos mas a abundância das flores silvestres, a doçura dos musgos, oferecia, aos audazes que lá chegavam, um asilo fresco de paz silvana. Era ali que se encontravam Alfredo e Etelvina. Para chegarem mais depressa, Cristóvão tomava Alfredo aos ombros, e com passadas de côvados, saltando as ribanceiras, transpondo os lameiros, chegava lá primeiro, ao cair fresco da tarde. Por um caminho que contornava a colina, viam descer Etelvina, que levantava o seu vestido cinzento, por causa dos espinhos das sebes. Como voltava da igreja, trazia um livro na mão. As suas duas tranças louras caíam-lhe pelos ombros. As longas pestanas, dos seus olhos baixos, faziam-lhe uma sombra na face da cor e doçura de uma rosa branca. E junto da sua escarcela soavam as tesouras, as chaves, o dedal, pendentes da cinta por correntes de prata. O bom estudante dobrava diante dela o joelho: e tomando-a pela mão delicada, caminhava com ela pelo bosque, parando para lhe tirar, da orla do vestido, as silvas que se lhe prendiam. Ela tinha sempre para Cristóvão um sorriso, a que se misturava o brilho dos seus olhos: e ele de pé, vigiando o caminho, ficava pensando naqueles olhos que lhe pareciam estrelas. No arvoredo em torno cantavam as aves: um aroma de verduras, de pinheiros, de madressilvas, flutuava no ar: e por vezes os passos de uma corça roçavam por entre a espessura das faias tenras. E Cristóvão, apoiado a um forte cajado, lançava os olhos em redor, pelo vale. Mas ninguém se aproximava da torre derrocada. E ele, pouco a pouco invadido pela doçura da tarde, pensava em doçuras que recebera – na carícia das mãos de sua mãe sobre a grenha crespa, nas festas das crianças que por vezes sem medo lhe trepavam aos joelhos. Uma melancolia tomava-lhe o peito. E, na sua vaga ternura, desejava apertar contra si todo aquele vale, e as nuvens dos céus, e a água que fugia cantando.

No entanto Alfredo e sua bem amada vinham repousar, sentados numa pedra. Ele olhava a fímbria do seu vestido, ou segurava os seus dedos delicados, que arrancavam uma a uma as folhas dos malmequeres. Por vezes ele colhia um ramo; ou apanhando o livro dela, que caíra a seus pés, voltava as folhas; ela debruçava-se, e os fios soltos dos seus cabelos roçavam os ombros de Alfredo; e muitas vezes assim se esqueciam, com os olhos postos na mesma página que não voltavam, corados, com o peito a arfar.

Mas um dia que ambos passeavam longe, ao fundo dos pinheirais, com os ombros juntos, Cristóvão ousou tocar o livro, esquecido sobre uma pedra, e com os seus grossos dedos voltar as folhas. Eram linhas negras que não compreendia; mas uma emoção tomou-o diante das imagens cheias de cor. Parecia ser uma história – e começava por uma criancinha, que num curral, entre uma vaca e uma jumenta, sorria, toucada de estrelas, nos joelhos de uma mulher pálida. Depois a mesma criança, já maior, e sempre coroada de estrelas, falava diante de um grupo de velhos barbudos, que espalmavam as mãos com espanto. Quem era esse, pois, que, tão novo, assombrava a velhice sapiente? Mais longe os dedos de Cristóvão, virando as folhas duras, encontravam o mesmo ser, que ele reconhecia por seu aro de estrelas, já homem, envolto numa túnica, passeando à beira de um lago: e não cessava mais de aparecer, pondo a suas mãos sobre os entrevados, estendendo os braços para as crianças, desatando as ligaduras dos mortos, consolando as multidões. Montado num burro, penetrava as portas de uma cidade, entre o povo que o aclamava movendo folhas de palma; sentado sob um sicômoro, ouvia duas mulheres, que fiavam a seus pés; de joelhos, entre oliveiras, orava sobre um monte; preso em meio de soldados, com tochas, comparecia ante um juiz que erguia o dedo, pensando.

E Cristóvão sentia uma ansiedade de compreender, quando viu diante de si os dois noivos com os braços enlaçados, que sorriam. Surpreendido, Cristóvão fechou o livro. E como Etelvina, vendo a sua larga face perturbada e cheia de piedade, lhe perguntava se ele amava o Senhor, Cristóvão moveu a cabeça, sem compreender. Pois quê? Ele não conhecia o Senhor e não amava a sua doçura? Tão grande escuridão naquela alma encheu-a de piedade: e um escrúpulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto ela se ocupava de amar, alguém, ao pé dela, vivia sem conhecer o Senhor. E então, para que bem merecessem Jesus, e para recompensar a proteção de Cristóvão, ela pediu a Alfredo que lessem o santo livro àquele homem simples, que o ignorava.

Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. Já as árvores se desfolhavam; mais tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o céu. Para ouvir melhor, Cristóvão sentara-se sobre um alto monte de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepava ao seu vasto joelho – e Etelvina sentou-se no outro joelho, tão simplesmente como se fora um rocha ou um cômoro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os de um anjo: as suas mãos pousavam castamente no regaço. Defronte, Alfredo abrira o livro: - e com a vasta face de Cristóvão entre eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e duros de uma enorme estátua de pedra.

E toda a tarde, no silêncio do arvoredo. Alfredo leu a vida do Senhor. Disse a estrela brilhando sobre o seu berço, e os pastores de longe vindos para ele, misturados aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros chegavam com alfanjes: e o Menino sorria adormecido no colo da mãe, enquanto a burrinha, toque, toque, os levava para o Egito. Lá repousavam sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do deserto: e o menino, rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um ramo de açucena. Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse a ler o Menino: seu pai sorria por trás na sua grande barba: S. Joãozinho, ao lado, escutava com a mãozinha apoiada à face; e dois anjos no alto erguem a mão, param os ventos, para que nenhum ruído perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino aprendeu, porque eis que os velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do seu saber...

Cansado de ler, Alfredo parava, com o dedo entre as folhas do livro. E na face simples de Cristóvão havia tanto espanto, como nas dos doutores: o seu grosso lábio tremia. E murmurou humildemente, e já cheio de amor:

— Mas que fez o Menino?

Quem sabe? Um doce silêncio caía sobre a terra. Em Nazaré o carpinteiro aplaina a sua tábua, e S. João com os cabelos ao vento partia para o deserto. Mas já ao longe brilham as claras águas de um lago, com barcos amarrados na areia: Jesus fala devagar, erguendo o braço; e os pescadores deixam as suas redes, os semeadores esquecem a sementeira, os publicanos deixam os seus postos, os pobres saem dos cotovelos das estradas, e Jesus, seguido de todos, começa a caminhar pela Judéia. Uma incomparável doçura enche a vida dos homens. Jesus está entre eles. Os que não podiam ver, aclamam o esplendor da luz; os que não andavam, galgam, cantando, as colinas; todos os demônios se somem; os mortos desatam as suas ligaduras; não há dor que não espere consolação; as crianças têm um amigo, e as multidões, nas aldeias, vêem o pão nascer do pão.

Por que vai ele a Jerusalém, terra dura, onde os homens, com as barbas agudas, gritam uns contra os outros, brandindo rolos da Lei? Mas, que importa! Ele vai para tornar os homens melhores, e o povo vai com ele, cantando. É então que o céu se começa a tornar escuro. Os fariseus tramam baixo sob as arcadas do templo. E uma ansiedade pesa na terra...

E uma ansiedade enche também a face de Cristóvão. Porque não permanecera ele sempre Menino, sobre os joelhos da mãe, quando a Estrela luzia, e ele estendia a mãozinha para o focinho da vaca? Ou, se devia ser homem, porque deixou ele a beira do lago, e os caminhos verdes, onde a cada um dos seus passos a terra se tornava melhor, e melhor a alma dos homens?

— Tens pena, Cristóvão?

Era Etelvina que assim murmurava com os olhos apiedados.

Ele moveu a cabeça, em silêncio. O seu vasto peito arfava, e um terror invadia-o de o ver a ele, tão bom, naquela cidade onde os homens eram tão duros.

— E depois?

Alfredo disse então os dias derradeiros. Tristemente, Jesus, sozinho, sobe, ao cair da tarde, para o vergel de Betânia. Aí são as melancolias de uma felicidade que finda. Madalena, desgrenhada, lava os seus pés cansados. Marta fia, com um fiar tão lento como se fiasse um sudário. Mas já Jesus se senta para a última ceia. S. João inclina a cabeça sobre o seio do Mestre. Judas aperta, sob a túnica, a sua negra bolsa. Jesus diz: “Em breve não estarei mais entre vós”. A noite é escura; Jesus sobe devagar o monte, onde há oliveiras; e um anjo, todo coberto de negro, marcha ao seu lado. Um vento passa no ramo das oliveiras. Um rumor de armas vem com o vento que passa...

Nos olhos de Cristóvão borbulhavam grossas lágrimas. E Alfredo dizia as tochas surgindo na escuridão das ramagens, os soldados brutais, e a prisão do Senhor. Por que o prendiam assim, e levavam ele, mais doce do que o anho? Ei-lo que passa! E os seus pés, que encontravam o caminho do bem, sangram sobre as lajes duras, da casa de Pilatos à casa de Caifás. Traz sangue na face, as mãos arroxeadas pelas cordas, os ombros riscados pelas vergas: - e a sua doçura é tão grande que diz: “Por que me bateis?” A cruz que lhe dão é tão pesada, que cai uma vez, outra vez, ferindo os joelhos nas pedras, com grandes bagas de suor na face... Mas eis que em tropel todos sobem a colina: cravam com grandes pregos as suas mãos sobre o madeiro; cravam no madeiro os seus pés com grandes pregos... E da água com que ele secava a sede das multidões pede, sem que ninguém o escute, um trago que mate a sua sede. Os homens maus atiravam pedras à sua cruz. E todo o mal era feito Àquele que não fizera senão bem!

E então um grande suspiro abalou o vasto peito de Cristóvão, e, na solidão do bosque, gritou:

— Oh! Por que não estava eu lá com os meus braços!

Os dois bem-amados estavam de pé diante dele, e o homem enorme chorava. Chorava pela morte d’Aquele que conhecera tão tarde. Chorava por todos os que, morto ele, perdiam o amigo melhor dos homens. – Mas por que o mataram? por que o mataram? E Cristóvão, deixando os dois desceu a colina, chorando.

A noite caía no vale. Um vento triste vergava os canaviais. E Cristóvão seguia e chorava. Os seus vastos pés empurravam as rochas como seixos. O seu ombro, ao passar, quebrava os ramos tenros. Oh! se ele estivesse então no monte escuro onde o prenderam! O seu braço sacudiria, como ervas secas, as espadas reluzentes. Tomaria sobre o seu ombro o Mestre adorável. Fugiria com ele para a paz dos campos; e como um cão fiel, junto aos seus passos, defenderia dos soldados, dos padres, aquele corpo que era de Deus, e espalhava Deus entre os homens.

A noite caíra, Cristóvão parou. E sentado sobre uma rocha, com grandes lágrimas sobre a face, olhava as estrelas que, uma a uma, marcavam os pontos do céu. Era ali, naquela altura, que ele habitava. Oh! se ele pudesse subir lá, e ver como era a sua face, e sentir a doçura da suas mãos! Por que não voltaria ele mais para consolar os pobres, secar as lágrimas, agasalhar as criancinhas, e nutrir as multidões? Agora, que todos o amavam, ninguém o prenderia: o caminho que ele seguisse seria juncado de rosas; os bispos, nas suas capas de ouro, cantando e balançando os incensadores, viriam ao seu encontro. E para o defender, os barões correriam, cobertos de ferro e com lanças nos seus grandes corcéis! Por que não voltava? Ele seguiria pelo mundo os seus passos ligeiros: a cada instante afastaria as silvas, que o não magoassem; com grandes brados espantaria os cães, que ladram às portas dos castelos: fardos que houvesse, com alegria ele os levaria; só ele, e mais ninguém, colheria os frutos para o Senhor, ou iria buscar a água às nascentes melhores. De noite, faria com rama uma cabana para o abrigar do vento mau: - e estenderia o seu braço, para que nele repousasse a sua cabeça cansada. E assim, pensando, um imenso amor erguia-lhe o peito: - e, de pé numa rocha, os seus braços estendiam-se para o céu, para neles estreitar Aquele que, para o salvar, fora pregado na cruz. E três vezes chamou: “Jesus, Jesus, Jesus.”

Então, perto dele, ouviu como um pranto que cortava o silêncio da noite. Vinha de longe, de onde brilhava uma luz de cabana. Os seus passos foram para lá, esmagando a terra fresca. E mais perto reconheceu o soluçar de uma mulher que chorava. Decerto, alguém sofria muito. Havia ali orfandade ou viuvez, uma miséria que erguia os braços para o céu. Por que não vinha o Senhor? Se ele habitasse a Terra, para aquele casebre iriam os seus passos. Ele iria atrás humildemente, seguindo-o. Mas Jesus estava além, por trás daquelas estrelas. Por que não iria ele, como se seguisse o Senhor? Mais vivo e triste, o pranto cortou a noite. E Cristóvão, devagar, e com medo, bateu à porta do casebre,