Sapo do Cariri

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Sapo do Cariri
coletado por Sílvio Romero
Publicado em Cantos populares do Brasil. (Sergipe)

No sertão de Cariri
Havia um sapo casado,
Na seca de oitenta e nove
Quase que morre torrado.

Determinou a mudar-se
Levando consigo a Gia,
Descendo cabeça abaixo
Em procura da Bahia.

É certo que vai pejada
Dona Gia de Menezes,
Que já vai a completar
A conta de nove meses.

E deu no pé de uma serra
Nos mares de Acaracu,
Logo ali a tardezinha
Deu na casa do teiú.

Bateu na porta do dito:
"Deus vos guarde, meu Senhor,
Vasmincê, por caridade,
Dá-me um rancho por favor."

— Não, senhor, não pode ser,
Pois a casinha é pequena,
Não havemos de caber.
Ao demais, pelo que vejo,
Parece que não vem só,
Pelo trem que vem trazendo
Também traz a sua avó.

"Não, senhor, a minha avó
Há muito que já morreu;
Esta que trago aqui
É a mulher que Deus me deu.
Disto mesmo me arreceio
De andar a riba e abaixo,
Com medo qu'ela não para
Antes que chegue ao riacho".

— Visto isto, meu senhor,
Entre vasmincê pra dentro,
Recolha-se àquele quarto,
Faça lá seu aposento.
E precisa-se saber
Da senhora D. Gia
Se nos promete sossego,
E não muita gritaria.

"Sim, senhor, senhor teiú,
Também sabemos da solfa,
Mas não usaremos dela,
Porque a casa não é nossa."

Desce o teiú as escadas
Pras camarinhas de baixo;
Dão dores em D. Gia,
Que pare um sapinho macho.

"Marido, você não sabe,
Que por direita razão.
Deve o teiú ser padrinho
Deste nosso rapagão?"

Bom, muito bom discurso,
 Minha mulher, D. Gia,
Hei de fazer o convite
Assim que amanheça o dia."

— Bons dias, Siá D. Gia,
Como se foi de dormida?
 "Eu, bem, amanheci parida
De um menino mui perfeito,
Que pelo chorar, parece,
Ser solfista de preceito."

"Não lhe servindo de incômodo,
Nem também de enfade,
Quero que vasmincê seja
O bom do nosso compade."

— Eu só para o seu serviço
Muito gosto me acho;
Mas é preciso saber
Se o menino é fêmea ou macho.

"É machinho, meu Senhor,
E pra cantar minuete
Por músicas e solfejos Ir
Ele é todo sem defeite."

— A comadre não precisa
Dalguma ama de leite,
E também dum panicum
Onde este menino deite?

"Meu senhor, ama de leite
Isto não lhe dê enfade,
Que quando faltar o meu,
Suprirá o seu compade.'"

— Ob! comadre, e o meu compadre
Tem peito que nem mulber?
"Batendo nas costas dele,
Dá leite como qualquer."

— Vasmincê me dê licença,
Que o sol está esquentando,
E vou aqui pela estrada
Dar um giro passeando.

"Vasmincê, mande e não pede”
Responde a gia e o sapo.
Deus o livre do cadelo
Que o deseja por no papo."

Saiu o teiú por ali
Ligeirinbo se arrastando,
Escutando com bem medo
Alguém que andasse caçando.

Deu logo com um vaqueiro.
De muito certa jornada,
Que lhe deu com o rastinho
Muito fresco da estrada.

Escutou e fez sentido.
Atrepou depois num pau,
E tocou a sericória
Parecendo birimbau.

O cachorro quando ouviu
Que o tom era do senhor,
Botou-se por ali fora
E num instante chegou.

Mestre sapo mais agia,
Que estavam cantarolando,
Não sabiam do barulho
Que o teiú estava arranjando.

Mas o cachorro danado
Dá com o sapo cururu,
E endireitou-se para ele
Julgando que era o teiú.

A gia saiu à frente
Dizendo: "seu presumido!
Não me mate meu marido,
Tenha pena dum sapinho,

Que lhe faltando seu pai
Morre à míngua, coitadinho."

"Eu não o mato, senhora,
Não é por dó dele ter,
É por nojo dele haver,
Que um diabo como este
Só se levando a cacete",
Pois tem a pele tão grossa
Que por ela verte azeite."

Assim sucede a quem anda
Por casa que não é sua,
Mesmo sendo de compadre
Anda com os quartos na rua.

O sapo de grande susto
Ficou meio adoentado,
Não disse nada ao teiú,
Mas ficou desconfiado.

"Marido, este seu mal
Parece ser perigoso;
Precisa tomar purgante
De raiz de fedegoso."

"Mulher, lá nos Cariris
Entendia alguma cousa?
"Marido, nos, Cariris,
Em mim tinham sua fé,
Depois que curei de olhado
O formoso jacaré.

"Faça seu apontamento
Em seu juízo perfeito,
Pra depois eu não ficar
Embaraçada e sem jeito.
Mulher, por meu testamento
Não lhe bata este papinho,
Deixo as solfas pra você
A boceta pro sapinho.

"E, marido, o seu enterro?
 "O meu enterro, mulher,
As formigas e urubus
O farão como quiser.

Saiu a gia pra fora
Caçar remédio pro sapo;
encontrando os urubus,
Quase caiu no buraco.

"Marido, era verdade
O que você me dizia,
Perto do buraco estava
Reunida a clerezia;
O que digo não é peta,
Todos de chimarra preta.

Crivada de diamantes,
E por uma banda e outra
Sessenta e dois estudantes.
E aonde há um abade
Do tamanho de um peru,
Que é o Felix do Pedrão."

"Felix do Pedrão, mulher,
É homem muito mofino,
Que sem que veja dinheiro,
Não pega em corda de sino."

Tendo o sapo melhorado
Foi-se embora com a Gia,
Com medo doutro barulho
Que o teiú trazer podia.

Nisto o teiú aparece;
"— Deus vos salve, meu compadre;
Cá pela sua casa
Houve alguma novidade?

E o meu afilhadozinho
Já toca solfa no coro?
Vasmincês naquele dia
Fizeram praça ao cachorro."

O sapo quando. isto ouviu,
 Qu 'era uma pabulage,
Aqui mesmo foi descendo
O surrão da matalutage,
 Foi levando mãos à riba
Puxou pela parnaíba.

"Ah! seu cão! seu pé de gancho."
"— Este é o pago que me dás
De ter te dado o meu rancho?
 "Ah! cão! ah! cara de fome!
Atira, atira, seguro,
Que tu atiras em home."

"Acuda, Siá D. Gia,
Não seja tirana, ingrata,
Veja bem que estou por baixo,
O cão do teiú me mata."

"Marido que mofineza!...
Puxe a faca da maneira;
Não se esqueça onde ela está
Eu a botei n'algibeira."

"Esta mulher D. Gia
É mulher muito faceira,
Sempre anda se lembrando
Da pequena da maneira'

E puxou a mão da faca,
Saiu o teiú ferido.
A Gia ficou com queixa
De o não matar o marido.

Foram tratar de fazer
Morada de pedra e cal,
Mas sem cuidar de saber
Que isto era pra seu mal.

Caiu a casa
Como esparrela.
Morreram todos
De dentro dela.
Saiu o sapinho
Por um buraquinho.