Senhora/Resgate/VIII

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Senhora por José de Alencar
Resgate — Capítulo VIII


Aurélia continuou com os olhos fitos nas alvas pétalas aveludadas de um jasmim do Cabo:

— O recato é o mais puro véu de uma senhora. Feliz aquela que vive à sombra do zelo materno, e só a deixa pelo doce abrigo do amor santificado. Sua virtude tem como esta flor a tez imaculada, e o perfume vivo. Essa ventura não me tocou; achei-me só no mundo sem amparo, sem guia, sem conselho, obrigada a abrir o caminho da vida, através de um mundo desconhecido. Desde muito cedo vi-me exposta às suspeitas, às insolências e às vis paixões; habituei-me para lutar com essa sociedade, que me aterra, a envolver-me na minha altivez, desde que não tinha para guardar-me o desvelo de uma mãe ou de um esposo.

A expressão tocante e melancólica da moça ao proferir estas palavras comoveu Seixas, que já não se lembrava de seus ressentimentos.

— Quando eu era uma menina ingênua, que não deixava a companhia de sua mãe, e nunca se achara só em presença de outro homem a não ser aquele a quem amava e, unicamente, amou neste mundo, esse homem abandonou-me por outra mulher, ou por outra cousa; e foi entrelaçar o seu nome ao de uma moça que era noiva de outrem. Mais tarde, encontrando-me só no mundo, acompanhada por uma parenta velha, mãe de aparato e amiga oficiosa, que ainda mais só me tornava, fazendo as vezes de um reposteiro, esse homem desabusado casou-se comigo sem a menor repugnância.

A moça fitou os olhos no marido:

— Confesse que os escrúpulos desse senhor e o seu pânico de escândalo vêm tarde e fora de tempo.

— Esses escrúpulos nascem da posição atual.

— Outro engano seu. Essa posição é um encargo, e não um direito. O senhor falou-me em sua honra. Penso eu que a honra é um estímulo de coração. Que resta dela a quem alienou o seu? Se o senhor tem uma honra, e eu acredito, essa me pertence; e eu posso usar e abusar dela como me aprouver.

— Assim, julga-se dispensada de guardar qualquer re-serva?

— Para o senhor e para o mundo julgo-me dispensada de tudo; nada lhes devo; o que me dão, são apenas as homenagens à riqueza, e ela as paga com o luxo e a dissipação. Sou senhora de mim, e pretendo gozar da minha independência sem outras restrições, além do meu capricho. Foi o único bem que me ficou do naufrágio de minha vida; este ao menos hei de defendê-lo contra o mundo.

— Agradeço-lhe ter me desiludido a tempo. Acreditava que sacrificando a liberdade, não renunciava à minha honra perante o mundo e não me sujeitava a ser apontado como um indigno; a senhora entende o contrário; aplaudo esta colisão; ela vem a propósito para romper uma situação intolerável, e que já durou demais para a dignidade de ambos.

— Sobretudo daquele que tendo alienado sua pessoa em um casamento livre e refletido, conserva as prendas de outra noiva.

Seixas surpreso interrogou a mulher com os olhos.

— Nunca pensei ter feito a aquisição de seu amor nem contei com a fidelidade que jurou; mas esperava do senhor ao menos a lealdade do negociante, que depois de vendida a mercadoria, não substitui por outra marca à do comprador.

Seixas não podia compreender esta alusão, cujo sentido só atinou mais tarde, quando ao entrar no gabinete viu os destroços da prenda de Adelaide. Quis pedir a explicação; mas avistou um criado que dirigia-se para ali.

— Está aí o Sr. Eduardo Abreu que deseja falar à senhora.

— Bem! disse Aurélia despedindo com um gesto o criado que afastou-se.

Seixas custou a conter-se até esse momento:

— A senhora não pode receber esse homem!

— Era minha intenção. Tinha-o recebido esta manhã pela última vez; mas à vista de sua desconfiança mudei de resolução, respondeu Aurélia friamente.

— Pois saiba que hoje, depois que saiu de sua casa, encontrei-o de face na rua, e recusei-lhe claramente o cumprimento, voltando-lhe as costas.

— Razão demais para que o receba. É preciso convencê-lo de que foi uma simples distração de sua parte, para não supor ele que o senhor honrou-o com uma suspeita, que ultraja-me.

Aurélia tomou o braço do marido e dirigiu-se à saleta, onde acharam o Eduardo Abreu.

Os dois mancebos trocaram um cumprimento seco e cerimonioso; depois do qual Seixas foi debruçar-se à janela ao lado de D. Firmina, e deixou a mulher em liberdade com sua visita:

— Desculpe-me esta insistência; um dever de lealdade à justiça. Hoje tive de repelir a um leviano certa insinuação vil, e logo depois encontrando o Sr. Seixas, percebi diferença notável em seu tratamento.

— Alguma preocupação.

— Afligiu-me a idéia de ser causa involuntária, ou mesmo pretexto de qualquer desconfiança; e por isso vim desistir da promessa que me fez do segredo sobre seus benefícios, e confessar eu próprio a seu marido tudo quanto lhe devo a fim de que ele ainda mais admire a nobreza de sua alma.

— Essa confissão o senhor não a fará; seria uma ofensa grave à minha dignidade. Meu marido não carece de seu testemunho para conservar-me na mesma elevada estima, inacessível aos assaltos da maledicência. No dia em que eu precisasse justificar-me, estaria divorciada, pois se teria extinguido a confiança, que é o primeiro vínculo do amor, e a verdadeira graça do casamento. Esteja tranqüilo pois; seu segredo não lançou a menor sombra em minha felicidade.

A moça disse essas palavras com uma emoção que persuadiu a Abreu, e desvaneceu-lhe os receios.

De seu lado Seixas tinha refletido. Em véspera de uma resolução definitiva que devia operar mudança profunda em seu destino, pareceu-lhe fraqueza esse ridículo desabafo, semelhante aos agastamentos do ciúme banal, que ele acreditava não sentir. Fazendo portanto um esforço, aproximou-se do Abreu com a maneira cortês, por que o costumava tratar, e confirmou assim a explicação dada por Aurélia ao incidente da manhã.

Essa noite era de partida.

A reunião não foi numerosa, mas correu animada. Fernando esteve muito alegre; nunca se ocupou tão ostensivamente da mulher como nessa noite; não a deixava; as mais delicadas flores, as mais galantes finezas, que se disseram naquela escolhida sociedade, foram dele a Aurélia.

Aurélia pelo contrário mostrou-se preocupada.

Essa amenidade do marido depois da cena do jardim a inquietava a seu pesar. Por mais esforços que fizesse não podia arredar seu espírito das palavras proferidas por Seixas naquela tarde, acerca de um rompimento, que devia solver a suposta colisão.

Qual intenção era a sua? Nesse problema fatigou o espírito durante a noite.

No dia seguinte Seixas almoçou às oito horas conforme o ordinário e partiu para a repartição. A essa hora Aurélia ainda estava recolhida; mas seu quarto de dormir, que ficava no pavimento superior, deitava janelas para o jardim; da última delas via-se perfeitamente a parte da sala de jantar onde estava a mesa.

A moça tinha uma devoção de todas as manhãs; quando ouvia o rumor dos passos de Seixas na escada, saltava da cama, e envolta na sua colcha de damasco para não perder tempo a vestir o roupão, corria à janela. Ali escondida por entre as cortinas ficava um instante a olhar o marido algum tempo; como para dar-lhe o bom-dia. Se estava muito fatigada da véspera, se o sono lutava com ela, voltava ao ninho ainda quente, e dormia novo sono.

Nessa manhã porém apesar de ter-se recolhido tarde e sentir necessidade de repouso, demorou-se contemplando o semblante de Seixas com um sentimento de tristeza, que não podia desterrar de si. Um pressentimento vago advertia-lhe que não deixasse partir seu marido sob a impressão dos sarcasmos implacáveis, que lhe tinha lançado na véspera.

Mas triunfou a altivez de seu amor, ainda magoada pelas recordações pungentes que havia acordado em sua alma a vista do mimo de Adelaide.

Seixas saiu, e ela, para disfarçar a impaciência, logo depois do almoço meteu-se no carro com D. Firmina e foi gastar o tempo na Rua do Ouvidor, por casa das modistas e das amigas. Procurava nas novidades parisienses, nas tentações do luxo, um atrativo que lhe cativasse o pensamento e o arrancasse a suas inquietações.

Conseguiu atordoar-se até quatro horas em que chegou a casa.

Seixas não estava, o que era extraordinário. Não havia exemplo de ter excedido dessa hora. Aurélia disfarçou para não mostrar seu desassossego a D. Firmina e aos criados. Recolheu-se a seus aposentos para mudar o vestuário; mas encostou-se ao portal da janela, com os olhos no caminho.

Às cinco horas veio a mucama chamá-la:

— A senhora não vem jantar? Está na mesa.

— Quem mandou deitar?

— São cinco horas.

— E o senhor?

— Disse ao José para prevenir a senhora que talvez não voltasse hoje, senão muito tarde.

— Quando falou o senhor com José?

— Esta manhã, na cidade.

— E não disse a razão por que se demorava?

— Não sei; eu vou chamá-lo.

O José interrogado nada adiantou, de modo que Aurélia permaneceu na mesma inquietação; mas para não dá-la a perceber a D. Firmina, atribuiu a ausência do marido à conferência que ele devia ter com o ministro acerca de trabalhos importantes da repartição.

Quando sentavam-se à mesa, abriu-se a porta e entrou Seixas.

A surpresa não deu tempo a Aurélia para dominar o primeiro impulso de sua alegria que logo arrefeceu ante a fisionomia de Seixas. Ele trazia na expressão rígida e grave do rosto o cunho- de uma resolução inflexível.

Entretanto não apartou-se da natural polidez. Desculpou-se delicadamente com a mulher pela demora:

— Precisava concluir um negócio urgente, que lhe comunicarei.

— E concluiu?

— Felizmente.

— Perguntei, para saber se devia esperá-lo amanhã.

— Agora creio que não há de esperar mais por mim, tornou Seixas com um sorriso fugaz.

Aurélia viu o sorriso, e sentiu a modulação especial da voz.

Terminado o jantar, quando seguiam ambos pelos meandros recortados na grama, Seixas disse à mulher:

— Desejo falar-lhe em particular.

— Vamos sentar-nos então, disse Aurélia indicando o sítio onde habitualmente passavam as tardes.

— Aqui no jardim, não; prefiro um lugar mais reservado, onde não venham interromper-nos.

— No meu toucador?

— Serve.

— Ou no seu gabinete?

— No seu toucador; é melhor.

— Já? perguntou Aurélia simulando indiferença.

— Não; basta à noite; e se não lhe incomoda, depois do chá, antes de recolher-se.

— Como quiser! disse Aurélia abrindo as folhas das violetas, à cata de uma flor.

Seixas tomou o regador da moça, guardado com os outros utensílios de jardinagem em um ninho rústico praticado no muro, e entreteve-se a regar os tabuleiros de margaridas e os vasos de hortênsias.

Uma vez na volta do repuxo onde fora buscar água, ao passar perto de Aurélia, a moça perguntou-lhe distraidamente, como se não tivessem interrompido o diálogo:

— É sobre o negócio de que falou-me?

— Justamente.

Seixas ficou parado em frente de Aurélia, supondo que ela ia fazer-lhe nova pergunta, enquanto a moça esperava uma explicação, que não queria pedir diretamente.

Vendo que o marido calava-se, voltou de novo às violetas, e ele continuou em sua ocupação.