Sonetos (Antero de Quental, 1880)/Nirvana

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Nirvana
por Antero de Quental
Poema publicado em Sonetos (1880).
NIRVANA

Para além do Universo luminoso,
Cheio de fórmas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa immobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A illusão e o vasio universaes.