Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Mocidade
Aparência
IX.
A MOCIDADE.
Gigante do porvir, oh Mocidade! Erguei a fronte altivaEntre as brancas cabeças da velhice;Como ao sopro vital da primaveraO pimpolho gentil se desabrochaEntre os já seccos e curvados troncos.
Subi em sacro arroubo a mente vossa, Como uma labareda; Contemplai o passado;Em silencio o futuro vos aguarda,E o presente se curva ao vosso mando.
Deos em vós ateou do genio o fogo, Que a Humanidade guia,Como a estrella polar o navegante,Ou como a chammejante, ignea columna,Que o povo de Moysés guiou nos bosques;Sagrado fogo que jamais se extingue.
Em vosso coração palpita a vida;O brío, e a força os membros vos circulam;Flammeas azas vos dá o enthusiasmo; É vulcanea vossa alma, E d’ aguia os olhos tendes,Com que medis o espaço, o céo, e o globo.
A terra vos pertence, oh Mocidade!Por vós renasce o mundo a todo o instante;Por vós resplende juventude a terra;Não envelhece o céo, nem as estrellas,Nem se encanece o sol no longo gyro.Em vós só se resume a Humanidade,Que a passos graves, ao través dos evos,Ovante marcha sempre fresca e joven.
Para vós o passado é muda estatua, Que o grande livro aponta,Onde a verdade, e o erro se confundem,Bem como o ouro, e o esmeril no antro da terra.Os seculos sellaram esse livro,Quando n’elle seus fastos transcreveram. Eis a pagina branca, Que aguarda os feitos vossos;Meditai, meditai, antes de enchel-a!
Quando já fatigados do caminho,Sobre a pedra da tumba repousardes,Avante marcharão os filhos vossos;E esse livro tomando-vos, um diaIrão saber o que seus pais fizeram.
Qual é vossa missão? Qual vossa idéa?Oh Mocidade, um só caminho existe, Um só trilhar vos cumpre,Si vos apraz o bem, si o bem vos chama.É longa a estrada, asperrima e difficil!Mas um Astro em seu fim claro rutila,Permanente pharol que a côr não muda; Olhai, — vêde-o ao través do nevoeiro, Que ante vós remuínha,Como elle immovel sua luz esparge!Esse Astro é Deos! — Oh Mocidade, a Elle!Ah, não retrogradeis, — a Elle, a Elle.
Vêdes vós como se ergue encapelladoAnte a convulsa prôa o mar em montes?Vêdes a nuvem que no céo negreja?O sol que empallidece? — Ouvis os roncosDe horridos ventos que nos ares trôam?O raio crepitante que espedaçaVélas, e mastro? a náo, que soluçando,Qual nas vascas da morte o moribundo,Nos vaivens sóbe, desce, e se debate,Perde o rumo, sem tino á esmo vaga,Roça no escolho a quilha, alli recûa,Ao capricho dos ventos, e das vagas,Té que sanctelmo lhe illumine o tope, E do naufragio a salve?Tal é da Humanidade o fido emblema!Tal sua marcha foi; tal é ainda,Por mil contrarios ventos combatida! Porêm máo-grado a furia, e a tempestade,A Humanidade marcha; — e Deos a guia.
Forceja a humana industriaPara domar o mar, pôr freio aos ares;Talvez um dia os ares assoberbe, Até-qui indomaveis; E ás suas leis submissos,Tambem os ares, desdobrando as azas,No espaço o Genio vencedor transportem.
E porque não será melhor um diaDo que até hoje foi a Humanidade?Si Deos mil vezes a salvou da morte,Somente agora a deixará sozinha,Antes de realisar a augusta idéa,Que é sua vida, e pela qual só lucta?
Qual é a grande idéa,Que nem mesmo nos mais crueis revezesJamais abandonou a Humanidade?A perfeição, o bem! — Ah, não me illudo!Vossa idéa será vosso destino: Innata idéa só do Eterno herdastes,Deos em vós a gravou; verace é ella.
Erguei os olhos vossos,E cravai-os no céo, oh Mocidade! Vêde o astro da ecliptica,Que gyrando no centro do Universo, A terra vivifica,A terra que vos nutre, opaca moleQue por elle de luz se adorna, e esmalta?Em torno ao sol em perennal cadenciaOutros astros satellites gravitam,Sem deslizar das orbitas traçadas Pelo compasso eterno! Eis o physico mundo,Emblema de outro, mais sublime ainda,Cujo Sol sempiterno enche o Universo.Vossa alma é um satellite desse Astro,E sem a sua luz ella não fulge;Similhante ao planeta que vos nutre,Que na ausencia do sol morto negreja.Mas desse Astro, que excede á mortal vista, Sabeis acaso o Nome? Perguntai ás estrellas que alcatifam Os degráos de seu solio;Perguntai ao trovão, ao raio, ás ondas,A terra perguntai, á aguia celeste, E ao verme que rasteja:Jehová, Adonai, Deos, Harmonia, Eis o Sol de vossa alma.
Por elle só viveis. Ah! si um instanteEm centrifugo vortice deixardes O sulco de seu dedo,Desgarrada, e sem lei, como um metéoro, Vos perdereis no espaço!
Gigante do porvir, oh Mocidade,Aprendei a entoar de Deos o Nome;Cantai, cantai da Juventude o hymno,Marchai, louvando do Senhor a gloria,Como nos bosques de Israel os filhos.Ante vós fugirão espavoridos Tyrannos inimigos!O mar recuará as ondas suas,E os montes vos darão doces torrentes.
Olhai, ah, vêde a promettida terra! Eil-a! Marchai ovante;Cantai, magnificai de Deos o Nome.
Entôa, oh minha alma, Um hymno ao Senhor, Um hymno de gloria Ao teu Criador.
A luz que te aclara, É d’Elle emanada, E a tua linguagem Por Elle inspirada.
Embalde procuras O bem sobre a terra; O bem que desejas, Só n’ Elle se encerra.
No meio das ondas O nauta mais forte Pergunta ás estrellas Qual é o seu norte.
Si o vento enfurece, Si o mar se exaspera, Invoca seu Nome, E salvar-se espera.
Si tu sempre attenta Seu mando escutares, E por seus dictames Fiel te guiares:
Que haverá que possa Roubar-te a victoria? O bem terás certo, Terás certa a gloria.
Então, oh minha alma, Um hymno ao Senhor, Um hymno de gloria Ao teu Criador.
E vós da Patria minha, oh Mocidade,De quem os feitos celebrar desejo… Mas porque um suspiro inopinado O canto me interrompe?…Porque se apagam de meu genio as azas,Que expandidas nos ares flammejavam,E esmorecidas caiem, qual ferida Pela setta do IndioSuberba arára, no celeste vôo,Em vortices gemendo baixa á terra?
Oh Mocidade, ouvi, não meus accentos, Mas a voz da verdade, Que em minha alma troveja,E me abala dos ossos a medulla.Vós sois como uma flor não bafejadaPelo sopro vital da primavera,Que mal nascida, languida se inclina.As lagrimas do misero captivoCahiram sobre vós, quando embalaram Vosso berço seus braços;Sangue do captiveiro alimentou-vos; O vicio d’elle herdastes,Senhores vos julgais, e sois escravos.Entre feras nutrido, é fera o homem; Doctrinado entre servos,Afeito ao mando, a liberdade odeia, E o peito se endurece. E vós cuidais ser livres!…Por vós, por vós só fallo, oh Mocidade!Ah, não me detesteis; máo-grado vossoO mal herdastes; — mas o mal tem cura.
Ah, quando bons costumes,Pura Moral, amor nobre e celeste Vos tomarão no berço?Ah, quando, ah, quando a san Philosophia,Sobre vós seus fulgores espargindo,Desthronará a tumida indolencia, Que o vosso clima infesta,E as portas á Sciencia, e ás Artes fecha?O egoismo, que só para sí olha, Tudo em sí concentrando,E os laços quebra que os humanos ligam Em fraternal amplexo,Quando, de vós fugindo, aos vossos olhosDeixará que paixões que alma ennobrecem, Sublimes resplendeçam?
Alerta, oh Mocidade! A Patria por vós chama. Mostrai que da verdade Sancto amor vos inflamma.
Alerta! erguei a fronte, Medi vosso terreno; E o valle, e o prado, e o monte Se dobre ao vosso aceno.
Não diga o estrangeiro, Que vê tantas bellezas, Que o povo Brasileiro É pobre entre riquezas.
Bani tanta vaidade; Sciencia, Industria, e Artes São só da Liberdade Os firmes baluartes.
Erguei-vos, e sem susto Luctai com o erro futil; Amai tudo o que é justo, Sancto, sublime, e util.
Alerta, oh Mocidade! A Patria por vós chama. Mostrai que da verdade Sancto amor vos inflamma.
- Paris, Dezembro de 1835.