Traducção e breve analyse sobre M. Pasteur e M. Renan
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TRADUCÇÃO E BREVE ANALYSE
de
ALGUMAS PASSAGENS DOS DISCURSOS PROFERIDOS
POR
M. PASTEUR E M. RENAN
POR OCCASIÃO DA
ENTRADA DO PRIMEIRO NO INSTITUTO DE FRANÇA
COMO
SUCCESSOR DE M. E. LITTRÉ
POR
MONSENHOR PINTO DE CAMPOS
SEGUNDO O TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DE ROMA E NO UNIVERSO
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1882 |
IMPRENSA NACIONAL
1882
Isto desenha em traços indeleveis as feições caracteristicas de M. Renan! Já em outra occasião havia dito que a maxima sabedoria consiste em se abster de tirar consequencias. A posição não pode ser mais commoda, nem mais apropriada á missão de quem falla, e escreve para embair, e não para esclarecer! Dicere et non probare est non concludere. Esse espirito fluctuante e vario repasta-se na contradicção: batido no absurdo, refugia-se na duvida. Não querendo affirmar nada, não podendo negar tudo, duvida, e desejaria que o mundo inteiro duvidasse com elle!
Sua grande arte é dissimular essa duvida tormentosa sob exterioridades brilhantes, sob os ouropeis da fórma. O que elle porém não pôde evitar, porque isso lhe seria impossivel, é que o absintho que se occulla debaixo dʼessas flores, apparentemente bellas e louçãs, escape aos olhos do observador attento. Por mais que se esforce, por torneios fallaciosos, para subtrair-se a uma resposta seria e precisa, é sempre apanhado nas redes dos sophismas e das contradicções. Mas, peior serpente que a de Moysés, morde, e empeçonha, ainda quando tomado ao revés! Não importa; contra o seu morder e o seu empeçonhar ha o grande antidoto de todos os venenos moraes e scientificos: a verdade.
Que differença entre o scepticismo esturdio e villão de M. Renan, e a tranquilla e firme profissão de fé de M. Pasteur! «A verdade, diz M. Renan, é uma coquette. Não quer ser requestada com muitos carinhos e extremos. Tratal-a com indifferença é, não raro, o meio mais seguro de alcançal-a.»
«Pelo contrario, diz M. Pasteur: a verdade é o objecto de asperas e constantes investigações do espirito, bem certo de que, por meio do esforço, ha de conquistal-a. A sciencia, e o ardor de comprehender serão acaso cousa diversa do estimulo do saber, que põe a nossa alma na posse do mysterio do universo?»
—Em M. Pasteur, a sciencia é o olho que vé, que perscruta, que compara, que reflecte, que espera, que se apodera da luz, que junta aos seculos passados o peso dos seculos novos, e que, sentinella paciente do tempo, arranca por fim ao universo, gotta por gotta, seus eternos segredos.
— Em M. Pasteur, a sciencia, filha querida da rasão allumiada pelos fulgores da revelação, não é o principio da ordem humana, é o seu glorioso instrumento; mas, se supprime a fé, em vez de sustental-a, não será senão o instrumento de uma ruina, em que o homem conhecerá, cedo ou tarde, que é necessario crer para viver um só dia, quando mesmo não fosse necessario crer para viver eternamente.
— Em M. Renan, pelo contrario, a sciencia é o orgulho, é a infatuação do espirito embriagado de si mesmo, que se mira e revê no seu presumpto saber, como Narciso no seu lago, e que, considerando todo e qualquer limite uma injuria á sua capacidade, suppõe na sua baixa altivez poder arcar com Deus como de igual para igual; porque M. Renan, não se deslumbrando com outras cousas, senão com os quadros furta-côres da sua phantasia, não vê Deus, que é o infinito, através de todas as nossas invenções, e progressos! Se affirma o eterno é para ter o direito de negar sua existencia, como se deduz dʼestas suas palavras escriptas na Revista dos dois mundos: «No meio da absoluta fluidez das cousas, affirmâmos o eterno. Sem isto não seriamos livres, nem estariamos á nossa vontade para discuti-lo. As primeiras victimas, no dia seguinte ao em que se não cresse em Deus, seriam os atheus. Não se philosopha nunca mais livremente do que quando se sabe que a philosophia não tira consequencias.»
Eis o homem, que devia responder ao sabio M. Pasteur, cuja sciencia affirma a existencia do infinito e do eterno! Qual dos dois contendores deve merecer a palma da victoria, o livre pensador ou o crente? Qual corresponde melhor ás verdadeiras aspirações do genero humano, ou aos intuitos grandiosos da civilisação, tomada no sentido de ascensão gradual, progressiva, indefinida, ao apogeu de todos os aperfeiçoamentos da sociedade? M. Renan póde pretender, nʼoutro scenario, o papel de embaidor publico, por seus exercicios rhetoricos; mas evidentemente, com o seu scepticismo de academia, nada tem que ensinar aos homens, que de tal mestre, oscillante como a pendula do relogio de Achaz, nenhuma verdade solida, nenhum beneficio scientifico podem esperar.
Alcançará, não duvidâmos, alguns applausos ephemeros, que não faltam nunca a nenhum genero de truanice no Circo; o que jamais alcançará será a reputação de homem util á humanidade! Emfim, M. Renan, no dizer elegante de um seu chistoso critico, é um sceptico zombeteiro, que nega tudo, inclusivè a propria negação. M. Renan est un sceptique moqueur, niant tout, même sa propre négation.
Em contraposição, a geração presente, cuja voz echoará no mais remoto futuro, acclama em M. Pasteur, não só um sabio, que tem opulentado os thesouros da sciencia com preciosos descobrimentos, mas tambem um philosopho, que tem, com a auctoridade da mesma sciencia, derramado no mundo grandes e utilissimas verdades praticas. Suas profissões de fé francamente espiritualistas, sua linguagem elevada, e eminentemente christã, a condemnação severa, e justa por elle proferida contra os absurdos e erros do positivismo, provocaram unanimes applausos, muitas vezes repetidos! Quando o novo academico se assentou na cadeira, tão gloriosamente conquistada, duas longas salvas de parabens enthusiastas saudaram sua eloquencia varonil, e recompensaram a coragem com que imprimiu na fronte pallida, e humilhada do sceptico o estigma da sua apostasia scientifica e christã!
Pobre Renan ! Fadado para tão grandes cousas, renunciou á luz, e abraçou as trevas ! Oremos por elle, para que Deus, na sua infinita misericordia, lhe dissipe as densas nuvens, que lhe affogam o entendimento, cada dia mais precipitado em novos abysmos de cegueira, qual viandante enredado em selva escura, sem outro guia que o clarão mortiço de sua pobre rasão desvairada, ebria de erros e de fataes illusões!
Seguem-se as passagens dos dous discursos:
«Senhores: — No momento de apresentar-me ante esta illustre assembléa, sinto renascer-se-me aquelle alvoroço de que me achei possuido no dia em que solicitei os vossos suffragios. A idéa da minha insufficiencia assoberba-me de novo, e enleiado subiria a esta cadeira, se não me corresse o dever de attribuir á sciencia em si mesma a honra, por assim dizer impessoal, que me conferistes.
«A sciencia opera quotidianos prodigios. Quizestes testemunhar mais uma vez a impressão profunda que o mundo, os habitos da vida, e as lettras por sua vez recebem de tamanha accumulação de descobrimentos. Se vos dignastes de volver olhos sobre a minha carreira litteraria, estou bem certo de que a indole dos meus trabalhos vos não terá fallado em meu desfavor. Sob alguns aspectos, elles interessam ás manifestações da vida.
«Demonstrando-vos que até este momento a vida não se tem jamais apresentado ao homem como um producto das forças, que regem a matería, não tenho feito mais que render homenagem á doutrina espiritualista, muito esquecida nʼoutras regiões, porém segura de achar ao menos em vossas fileiras um glorioso refugio.»
E antes de examinar a vida de seu predecessor, M. Littré, o novo academico declara que não admitte a philosophia positiva, dizendo:
«Encontro tanto que louvar, e por tantas formas, na bella vida de M. Littré, que fio me desculpareis a sinceridade de assignalar desde já a minha discordancia das suas opiniões philosophicas.»
O retrato de M. Littré é fiel, e seductor. A rectidão, o desinteresse, a modestia, o caracter dʼaquelle espirito notavel, são ali traçados com naturalidade, e vigor. M. Littré percorreu o campo tão vasto dos conhecimentos humanos. Poucos assumptos deixaram de ser tocados por sua laboriosa penna. Seus numerosos artigos no jornalismo ou nas mais sabias revistas, seu diccionario de medicina, suas obras de philosophia, de linguistica, de litteratura, bem como seu diccionario da lingua franceza, não bastaram ainda á sua actividade intellectual, e é com pesar que dizia antes de morrer:
«Que de cousas não tenho revolvido em meu espirito?... Se minha velhice tivesse sido mais forte, se a molestia não me tivesse acabrunhado, eu teria posto mão, com alguns collaboradores, em uma historia universal, cujo plano havia traçado. »
No numero de seus collaboradores, cumpre collocar em primeira plana sua boa mulher, e sua filha. M. Pasteur descreve, com uma simplicidade encantadora, esse sanctuario do trabalho, e esse remanso intimo de familia:
«Teria Horacio acaso escripto o seu Hoc erat in votis, se a sua casa de campo se assimilhasse áquella que M. Littré possuia em Mesnil? Lá se não vê nem o regato de agua viva, nem as frondes do bosque, nem nada que se parecesse com a abastança, que Horacio havia phantasiado. Só o mais singelo presbyterio da mais mesquinha das aldeias póde dar uma idéa dʼessa casa, onde tudo reflecte uma vida de isolamento, de labor e de abnegação. M. Littré tinha o culto da austeridade. Um piedoso respeito deixou todas as cousas em seu logar, como se devesse elle, de um momento para outro, ali voltar, e encontrar em seu gabinete livros abertos, e apontamentos esparsos. Acolá uma mesasinha, onde sua mulher e sua filha trabalhavam junto dʼelle, e em cima da qual apparece (visivel testemunho da profunda tolerancia de M. Littré), uma imagem de Christo.).
A tolerancia de M. Littré provinha de que seu coração não participou jamais da perversão do espirito. Os intimos — porque M. Littré não recebia se não intimos — repetem a amenidade de seu trato, o encanto de suas relações, a franqueza de seu caracter, o extremo de sua dedicação. Os enfermos sobretudo tinham direitos privilegiados aos seus serviços, visto como no ardor que o levava a investigar «noções de tudo» converteu toda a sua vida nʼum campo de estudos de predilecção: a medicina.
«Era elle em Mesnil, diz M. Pasteur, o medico de consulta de toda a aldeia. Prolongando suas vigilias até tres horas da manhã, a claridade de sua alampada brilhava ao longe durante a noite, como um phanal, que animava os enfermos. Sabiam que ao primeiro chamado, M. Littré abriria mão de seu trabalho, para ir levar-lhes os desvelos a toda a parte aonde elles estivessem.»
Tal foi a vida de M. Littré; vida toda de trabalho, intimidade e dedicação. Dʼonde vem pois, pergunta M. Pasteur, que fosse esse homem desconhecido, e mal comprehendido até o ponto de ser calumniado? A resposta é facil. Ha nas grandes vocações grandes mysterios que escapam ao alcance das turbas ignaras. O illustre recepiendario continúa depois:
«Sendo as suas opiniões philosophicas o causal dʼisso, é chegado para mim o momento de examinal-as. Não porei outro cuidado senão o de conservar a minha propria liberdade de pensar.»
Antes de seguir M. Pasteur nʼeste exame, cumpre protestar contra a parte indigna que uma certa imprensa attribue ao clero nos ataques de que M. Littré foi victima. Sem duvida era dever dos catholicos refutar a philosophia positivista, e negar as consequencias materialistas de um tal systema.
As obras de M. Littré, ácerca dʼesta materia, eram sujeitas á critica que, é necessario confessar, lhe não faltou ; mas houve sempre todo o esmero em não confundir o philosopho com o homem sabio, e honesto: este foi sempre acatado. Quando Monsenhor Dupanloup julgou da sua dignidade de bispo dever deixar a academia franceza por occasião de nʼella entrar M. Littré, o digno prelado dirigiu-lhe logo uma carta, que se tornou publica nʼaquelle anno, com o fim de estabelecer clara e francamente, que, retirando-se dʼaquella illustre corporação, obedecia a um principio, e que de nenhuma sorte envolvia o menor desapreço para com o caracter da pessoa, a quem muito respeitava. M. Littré tinha pelo contrario numerosas sympathias no clero. Honrava-se da amisade do reverendo abbade Huvelin, que o preparou, e dispoz para uma morte christã, assim como vivia em intimas relações com o padre Millériot, a respeito de cujo fallecimento escreveu ao superior dos jesuitas este bello, e tocante elogio funebre! «É viver alguns dias de mais o viver para ver morrer homens taes como o padre Millériot! Tinha elle para commigo uma bondade angelica. Amava-me sem que houvesse em mim predicado algum que podesse justificar aquella affeição que eu não merecia, mas que gosava como uma graça de que lhe sou muito reconhecido. Vós sabeis melhor do que eu, meu caro padre, que a graça nos é dada, sem que nós a mereçâmos.» A graça que almas amadas haviam merecido para M. Littré foi a da conversão, e estamos seguros que é elle feliz de ter por successor na cadeira academica um sabio ainda mais illustre que elle, que tem a coragem de lhe estigmatisar uma doutrina, que foi o erro da sua vida, para exaltar crenças, que foram a consolação da sua morte.
M. Pasteur expõe em alguma palavras a philosophia positivista ; philosophia que tem o triste privilegio de ser hoje seguida por muitos, que, por isso mesmo que a não comprehendem, a acham excellente! Corneille havia dito, ha dois seculos, a um amigo, que lhe indicava quatro versos sonoros, mas obscuros: Deixae-os como estão: aquelle que os não comprehender, admiral-os-ha por esse mesmo motivo. Laisses: qui ne les comprendra pas, les admirera.
«O principio fundamental de Auguste Comte, diz M. Pasteur, é pôr de lado toda a investigação metaphysica sobre as causas primeiras e finaes; é reduzir a factos todas as idéas e todas as theorias, e não attribuir o caracter de certeza senão ás demonstrações da experiencia. Este systema comprehende uma classificação das sciencias, e uma pretensa lei da historia, que se resume nʼesta affirmação: Que as concepções do espirito humano passam successivamente por tres estados: o estado theologico, o estado metaphysico, o estado scientifico ou positivo.»
M. Littré havia-se tornado o apostolo sincero, e perseverante do positivismo. A primeira causa dʼessa convicção está, conforme a opinião de M. Pasteur, no genero de estudos de M. Littré. Nós reproduzimos essa these um tanto paradoxal, segundo a qual os trabalhos de historia, e de erudição teriam uma tendencia a encerrar o espirito na especialisação dos factos contingentes, ao passo que os estudos scientificos, e experimentaes elevam a intelligencia acima do mundo creado.
«Os trabalhos de M. Littré versaram sobre investigações de historia, de linguistica, de erudição scientifica e litteraria. A materia de taes estudos cifra-se toda em factos pertencentes ao passado, aos quaes nada se póde acrescentar, nem diminuir. É sufficiente o methodo de observação que o mais das vezes não poderá dar demonstrações rigorosas. O essencial, pelo contrario, da experiencia, é não admittir outras.
«O experimentador, homem de conquistas sobre a natureza, acha-se de contínuo a braços com factos, que ainda se não manifestaram, e que, pela maior parte, não existem, senão na possibilidade de se tornarem em leis naturaes. O desconhecido no possivel, e não no que tem sido ou foi, eis seu dominio, e, para exploral-o, tem o auxilio dʼaquelle maravilhoso methodo experimental, de que se póde dizer com verdade, não que elle baste para tudo, mas que engana raras vezes, e só engana aquelles que dʼelle se servem mal. Elimina certos factos, provoca outros, interrega a natureza, força-a a responder, e não pára, senão quando o espirito está plenamente satisfeito. O attractivo dos nossos estudos, o encanto da sciencia, se assim se póde dizer, consiste em que, por toda a parte, e sempre, podemos dar a justificação dos nossos principios, e a prova dos nossos descobrimentos.
«O erro de M. Auguste Comte e de M. Littré é confundir esse methodo com o methodo restricto de observação. Estranhos ambos á experimentação, dão á palavra experiencia a accepção em que se toma na conversação commum, e que de fórma alguma tem o mesmo. sentido que na linguagem scientifica. No primeiro caso, a experiencia não é senão a simples observação das cousas, e a inducção que conclue, mais ou menos legitimamente, do que foi para o que poderia ser. O verdadeiro methodo experimental vae atéiá prova sem replica.
«As condições e o resultado quotidiano do trabalho do homem de sciencia, habituam, alem dʼisto, o seu espirito a não attribuir uma idéa de progresso, senão a uma idéa de invenção. Para julgar do valor do positivismo, o meu primeiro pensamento foi procurar nʼelle a invenção. Não a encontrei. Não se póde verdadeiramente attribuir a idéa de invenção á lei chamada dos tres estados do espirito humano, nem tão pouco á classificação hierarchica das sciencias, que ambas não são outra cousa mais do que umas approximações sem grande alcance. O positivismo, não me offerecendo nenhuma idéa nova, deixa-me em reserva, e desconfiança.»
Em algumas linhas mais adiante, fallando das crenças religiosas, e particularmente da existencia de Deus, e da immortalidade da alma, M. Pasteur acrescenta:
«Quanto a mim, que julgo que as palavras progresso e invenção são synonymas, pergunto: Em nome de que descobrimento novo, philosophico ou scientifico, se podem arrancar da alma humana essas altas preoccupações! Ellas me parecem de essencia eterna, porque o mysterio que envolve o universo, e de que são uma emanação, é o mesmo eterno por sua natureza.»
M. Pasteur mostra os erros sociologicos a que a applicação do positivismo conduziu M. Littré, e dʼisso tira occasião para fazer uma eloquente e magnifica profissão de fé espiritualista. Essa pagina não admitte analyse, lè-se:
«Em muitas occasiões, diz o orador, M., Littré define assim o positivismo encarado sob o ponto de vista pratico: Chamo positivismo tudo o que se faz na sociedade para organisal-a segundo a concepção positiva, isto é, scientifica do mundo. »
«Estou prompto a acceitar esta definição, com a condição que dʼella se não faça uma applicação rigorosa; mas a grande, e visivel lacuna do systema consiste em que, na concepção positiva do mundo, elle não leva em conta as mais importante das noções positivas, a do infinito.»
«Que ha ao través dʼessa abobada estrellada? Novos ceus estrellados. Seja. E alem? O espirito humano impellido por uma força invencivel não cessará nunca de perguntar: Que ha alem? Quer parar ou no tempo, ou no espaço? Como o ponto onde elle pára não é senão uma grandeza finita, maior sómente que as precedentes, apenas começa a encaral-a, eis que surje a implacavel pergunta, e sempre, sem que possa fazer calar o grito de sua curiosidade. Não serve de nada responder: «Alem estão espaços, tempos, ou grandezas sem limites. Ninguem comprehende estas palavras. Aquelle que proclama a existencia do infinito, e ninguem póde a isso escapar, accumula nʼesta affirmação maior dóse de sobrenatural do que a que ha em todos os milagres de todas as religiões; porquanto, a noção do infinito tem o duplo caracter de se impor e de ser incomprehensivel. Quando esta noção se apodera do entendimento, não ha senão inclinar-se. Ainda, nʼesse momento de pungentes agonias, é necessario pedir auxilio á propria rasão: todas as molas da vida intellectual ameaçam de se afrouxar; o homem sente-se quasi accommettido da sublime loucura de Pascal! Essa noção positiva e primordial, o positivismo desvia-a gratuitamente; e a desvia conjunctamente com todas as suas consequencias na vida das sociedades.
«Encontro por toda a parte a inevitavel expressão da noção do infinito no mundo. Por ella o sobrenatural está no intimo de todos os corações. A idéa de Deus é uma fórma da idéa do infinito. Emquanto o mysterio do infinito pesar sobre o pensamento humano, templos serão erguidos ao culto do infinito, quer o Deus se chame Brahma, Allah, Jehovah, ou Jesus. E sobre a lage dʼesses templos vereis homens ajoelhados, prostrados, abysmados no pensamento do infinito. Não faz a metaphysica outra cousa senão traduzir dentro de nós a dominadora noção do infinito. A concepção do ideal não será tambem a faculdade, reflexo do infinito que, em presença da belleza, nos leva a imaginar uma belleza superior? A sciencia e o ardor de comprehender são porventura outra cousa do que o aguilhão do saber, estimulo que o mysterio do universo põe em nossa alma? Onde estão as verdadeiras fontes da dignidade humana, da liberdade, e da democracia moderna, se não na noção do infinito, ante o qual todos os homens são iguaes?
«É necessario um laço espiritual na humanidade, diz M. Littré, sem o qual não haveria na sociedade senão familias isoladas, hordas, e nada de sociedade verdadeira.» Esse laço espiritual que elle collocava em uma especie de religião inferior da humanidade, não pode estar nʼoutra parte que na noção superior do infinito, porque esse laço espiritual deve ser associado ao mysterio do mundo. A religião da humanidade é uma dʼaquellas idéas de uma evidencia superficial e suspeita, que levaram um psychologo de um espirito eminente a dizer: olla muito que eu penso que aquelle que não tivesse idéas claras seria seguramente um parvo. As noções mais preciosas, acrescenta elle, que a intelligencia humana encobre, estão no fundo da scena, a uma meia luz, e em torno dʼessas idéas confusas cuja cohesão nos escapa, é que giram as idéas claras, para se estenderem, se desenvolverem, e elevarem-se. Se nós estivessemos separados dʼeste fundo da scena, as proprias sciencias exactas ali perderiam aquella grandeza que lhes provém das suas occultas relações com outras verdades infinitas, cuja existencia suspeitâmos.
«Os gregos tinham comprehendido o mysterioso poder da dependencia em que umas cousas estão de outras: Foram elles que nos legaram uma das mais bellas palavras da nossa lingua, a palavra enthusiasmo: — Um Deus interior.
«A grandeza das acções humanas mede-se pela inspiração que as faz nascer, ou que as produz. Feliz aquelle que tem em si um deus, um ideal de belleza, e que lhe obedece; ideal dʼarte, ideal da sciencia, ideal da patria, ideal das virtudes do evangelho. Ali estão as fontes vivas dos grandes pensamentos, e das grandes acções. Todas se illuminam dos reflexos do infinito.
«M. Littré tinha seu deus interior. O ideal que enchia sua alma era o amor do trabalho e da humanidade.
«Não raro, apraz-me em represental-o na imaginação, assentado junto a sua mulher, como em um quadro dos primeiros tempos do christianismo: elle, olhando para a terra, cheio de compaixão por aquelles que padecem ; ella, fervente catholica, de olhos voltados para o céu ; elle, inspirado de todas as virtudes terrestres ; ella, de todas as magnificencias divinas, reunindo em um mesmo impulso, como em um mesmo coração, as duas santidades, que formam a aureola do Homem-Deus, aquella que procede da dedicação ao que é humano, aquella que procede do ardente amor divino; ella, uma santa na accepção canonica; elle, um santo leigo.
«Esta ultima expressão não é minha; eu a ouvi a todos que o conheceram.»
A resposta de M. Renan é de bem mediocre interesse. É mais um especimen das nihilidades brilhantes, que costumam resaltar da penna dʼeste academico, que sabe pôr os encantos do estylo, as destrezas e flexibilidades da linguagem ao serviço de miseraveis sophismas, cuja ultima consequencia é sempre a negação de todas as cousas! Mas, porque devemos ser veridicos e leaes, poremos em relevo algumas das passagens do seu discurso, que confirmam os nossos anteriores assertos a respeito dos displantes, e fluctuações do seu espirito sceptico.
Depois de apreciar em largos traços a vida scientifica, e os titulos de gloria litteraria de M. Pasteur, prorompe nas seguintes singulares palavras:
«Eu vos farei a minha confissão: quando, em politica, e em philosophia, me acho em presença de idéas assentadas, sou sempre da opinião do meu interlocutor. Nʼestas delicadas materias, cada um tem rasão por algum lado. Pede a deferencia e a justiça que não procuremos na opinião, qué se nos propõe, senão a parte de verdade que contém. Effectivamente, trata-se aqui dʼessas questões por sobre as quaes aprouve á Providencia (entendo por esta palavra o complexo das condições fundamentaes do universo) que pairasse um absoluto mysterio. Nʼesta ordem de idéas, deve-se afastar toda a prevenção: é bom variar seus pontos de vista, e ouvir os rumores, que vem de todos os lados do horisonte.»
Foi, sem duvida, essa deferencia para com as opiniões de M. Pasteur que levou M. Renan a prevenil-o de que ellas poderiam errar o alvo, buscando um refugio na academia franceza.
«Á philosophia de M. Littré, diz elle, vós preferis outra, que suppondes, encontraria aqui «um ultimo refugio». Ah! não vos fieis muito nʼisto. A zona da nossa protecção litteraria é demasiado larga; estende-se desde Bossuet até Voltaire. Muitas vezes nos é grato dar asylo aos vencidos; a causa porém que encontrasse aqui o seu ultimo refugio, poderia ser assás enferma. Nós não patrocinamos as doutrinas; distinguimos o talento. Eis porque não temos nunca lograções, nem contrariedade. Tudo passa, e nós ficâmos; porque não pômos mira senão em duas cousas que, esperamo-lo, serão eternas em França: o talento e o genio. Respeitâmos todas as fórmas de que se póde revestir uma crença elevada. Vós, por exemplo, vos servis de duas palavras de que jamais me servirei: espiritualismo e materialismo. O escopo do mundo é a idéa; mas eu não conheço um só caso em que a idéa seja produzida sem materia: não conheço espirito puro, nem obra de espirito puro. A obra divina effectua-se pela tendencia intima para o bem, e para a verdade que está no universo: não sei bem se sou espiritualista ou materialista.
«É prudente não associar a sorte das crenças moraes a systema algum. A explicação do enigma, que nos atormenta e encanta, não nos será jamais dada. Quanto a mim, quando alguem nega esses dogmas fundamentaes, tenho desejo de cré-los; quando alguem os affirma de outro modo que em bellos versos, sou assaltado de uma duvida invencivel. Receio que deixe de haver nʼisso toda a segurança, e, como o mystico de que falla Joinville, desejaria por momentos fazer arder o paraizo por amor de Deus. Em caso similhante, a duvida é que constitue o merito.»
É singular! Dizia Descartes que um dos estados mais tormentosos para o espirito humano seria o da duvida permanente, da duvida por systema; M. Renan pelo contrario considera a duvida como merito, e até como fonte de recreio do espirito!
Faremos uma ultima citação do seu discurso, em que mais evidentemente se revela, ou em que mais fortemente se accentúa o seu scepticismo atheu: ouçamol-o:
«Os problemas moraes, diz elle, exigem o que poderiamos chamar critica geral. Não é possivel examina-los pelo methodo escolastico. Para podermos attingir aquellas verdades, que se divisam não de face, mas de esguelha, e como com o rabo do olho, é necessaria a cultura variada do espirito, o conhecimento da humanidade, de seus estados diversos, de suas fraquezas, de suas illusões, de seus preconceitos, sob tantas relações fundadas em rasão, dʼesses absurdos respeitaveis; — é necessaria a historia da philosophia, que algumas vezes torna religioso, a historia da religião, que muitas vezes torna philosopho, a historia da sciencia, que deveria tornar sempre modesto; — é necessario o conhecimento de uma multidão de cousas, que não se aprendem, senão para se ver que são vaidades; — é necessario, sobretudo, o espirito, a alegria, a boa saude intellectual de um Lucien, de um Montaigne, de um Voltaire. E o resultado final, é que o maior dos sabios foi o Ecclesiastes, quando representa o mundo entregue ás disputas dos homens para que elles não comprehendam cousa alguma. Que importa, em todo o caso, pois que o ponto imperceptivel da realidade, que entrevemos, está cheio de arrebatadoras harmonias, e a vida, tal como nos foi outorgada, é um dom excellente, e para cada um de nós a revelação de uma bondade infinita?
«Aquelle que proclama, dizeis vós, a existencia do infinito, accumula nʼessa affirmação maior dóse de sobrenatural do que a que existe em todos os milagres de todas as religiões.» Vós ides, creio eu, um pouco mais longe, M. Pasteur; daes com isto um certificado de credibilidade a cousas estranhas. Permitti-me uma distincção. No campo do ideal, oh! vós tendes rasão; ahi se póde manobrar durante toda a eternidade sem se encontrar jamais. Mas o ideal não é o sobrenatural particular, que é julgado ter feito sua apparição em um ponto do tempo e do espaço. Este câe sob o dominio da critica. A ordem do possivel, que frisa com a do sonho, não é a ordem dos factos. As religiões dão-se como factos, e devem ser discutidas como factos, isto é, pela critica historica. Ora, os factos sobrenaturaes do genero dʼaquelles que enchem a historia religiosa, M. Littré primou em mostrar que não acontecem; e se elles não acontecem, não será o caso de perguntar com Cicero: «Porque desappareceram essas forças secretas? Não seria porque os homens se tornaram menos credulos?»
Pois bem, M. Renan: quereis saber quem responde cabalmente a essa interrogação de Cicero, com que tão ufano fechaes o vosso discurso? É o mesmo Cicero! Sim, é o mesmo Cicero que proclama, não simplesmente a existencia do infinito em abstracto, mas a crença nʼum Deus providente, e infinito, dizendo: «Que a base de toda a legislação, como primeiro apoio do estado, é o temor do céu; que é preciso antes que tudo, que os cidadãos estejam intimamente convencidos da existencia de um Deus infinito; de sua providencia, que dirige o universo, e regula seus movimentos; de seu poder a que estão submettidos sem excepção todos os seres; de sua vigilancia, que penetra ainda os mais intimos pensamentos; de sua justiça emfim que faz distincção entre os homens piedosos, e os impios, para os avaliar pelas suas obras. Sabei que sem Deus as vossas leis não têem força, porque não têem sancção, e a união dos cidadãos não é inviolavel, senão quando é formada debaixo de suas vistas, e de algum modo no tribunal da divindade. Eis o preambulo (conclue o philosopho pagão) de toda a lei: assim o chama Platão.»
Em uma palavra; os discursos dos dois academicos estiveram mui longe de ter produzido o mesmo effeito no esplendido auditorio, e de ter recebido o mesmo acolhimento. Os applausos calorosos, que interromperam tantas vezes M. Pasteur faltaram ás perfidas subtilezas de M. Renan. E porque? Porque a idéa e a necessidade do infinito estão sempre vivas na mente e no coração do homem. O scepticismo, por mais espirituoso e elegante, não passa de uma ironia amarga do soffrimento. A humanidade quer e aspira a um mundo melhor, onde encontre todas as consolações da fé. Foi esta fé tāo dignamente representada no Instituto que cobriu de applausos ao Credo de um dos primeiros sabios da França !
P. S. Já estava no prelo este escripto quando lemos em jornaes estrangeiros outro discurso de M. Renan, em resposta a outro de M. Cherbuliez, recebido ultimamente como membro da academia franceza.
Dʼesta vez, nào se tratando de idéas espiritualistas e religiosas, o discurso de M. Renan não foi uma declamação sceptica, nem athea. Fóra dʼeste terreno, M. Renan diz sempre, não nihilidades brilhantes, mas cousas muito bellas em estylo bellissimo. A parte final do seu discurso refere-se ao actual estado politico da Europa. Ha na sua apreciação a maior justeza de idéas, o mais acrysolado bom senso! Nʼaquelle dia teve M. Renan intervallos os mais felizes? Daremos como prova dʼisto a seguinte confissão, que em tal bôca tem preço inestimavel.
«A seriedade, diz elle, dos tempos modernos, derivando quasi toda do christianismo, cada um de nós encontra de ordinario suas origens em alguma respeitavel sociedade religiosa, onde a gravidade dos costumes mantinha a gravidade do espirito, e onde a discussão theologica preparava a aptidão para os grandes arrasoados. Estas austeras tradições, continuadas durante seculos, accumularam as economias intellectuaes e moraes que nós hoje despendemos. »
Chatheaubriand não fallou com maior eloquencia a favor das ordens religiosas, esses vastos e fecundos sementaes, onde em todos os seculos christãos desabrocharam tantos e tão saborosos fructos de erudição e de virtude! E quem sabe se aindau não estará reservado a M. Renan cantar uma das mais sublimes palinodias dʼeste seculo, confessando e professando resolutamente os sagrados principios fundamentaes da religião, cuja origem divina tem tão obstinadamente negado! Altos juizos de Deus!... Tudo é permitido esperar da sua inexhaurivel misericordia.
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