Tratado Elementar da Cultura da Vinha/I
CAPITULO I
Organisação e vegetação da videira
1. - A videira europea, utilisada pelo homem desde as éras mais remotas e que se apresenta subdividida em tão numerosas castas ou variedades culturaes, e as videiras americanas d'introducção recente, pertencem todas ao mesmo genero botanico Vitis, da familia das Ampelideas. Seja qual fôr a videira considerada tem, no seu estado de completo desenvolvimento, os orgãos seguintes: as raizes; o tronco ou cêpa, ramificado em varas ou sarmentos, provenientes da evolução dos gommos, gemmas ou botões; as folhas; as gavinhas, elos ou abraços, que se prendem aos corpos visinhos e por meio das quaes a videira trepa; as flores, de que mais tarde resultam os fructos.
2. - Raizes. - Uma grainha ou semente de videira, posta em condições favoraveis, germina e produz uma nova planta. A parte subterranea d'esta planta e que tende a profundar, opposta ao caule ou eixo ascendente e collocada na extremidade inferior d'elle, é a raiz.
14 CULTURA DA VINHA
3. - Nas videiras obtidas pela cultura, enterrando parcialmente um bacello, já não cabe com rigor a denominação de raiz a toda a parte subterranea; n'este caso, são apenas verdadeiras raizes as que nascem lateralmente nos nós do bacello ou, em menor numero, ao longo dos entre-nós.
4. - Qualquer que seja a origem da raiz, ella é primeiro delgada, tenra, herbacea, e depois, á medida que se alonga, torna-se mais grossa, dura e lenhosa; n'estes dois estados tem estructura diversa e coopera de modo differente para a vida da planta. No primeiro estado tem o nome de radicula.
5. - No systema subterraneo de uma videira adulta existem sempre raizes lenhosas, mais ou menos ramificadas, algumas bastante grossas, e um grande numero de radiculas, que constituem o cabellame. As radiculas são os orgãos exclusivos da absorpção da agua e das substancias soluveis do solo. As raizes lenhosas prendem com maior segurança a videira ao terreno; produzem as radiculas e repartem-nas por maior cubo de terra; finalmente, conduzem, atravez os tecidos apropriados, os liquidos que, absorvidos pelas radiculas, se dirigem ás folhas, e, em sentido inverso, a parte da seiva elaborada nas folhas, necessaria para o desenvolvimento do systema subterraneo.
6. - As mais grossas ramificações lenhosas da raiz profundam sempre, mais ou menos; além d'essas raizes lenhosas, a videira tem tendencia a produzir outras, que os nossos agricultores chamam pastadeiras, mais delgadas, pouco profundas, quasi horisontaes, ramificadas e com abundante cabellame. Pela sua situação superficial, as pastadeiras estão muito mais expostas aos phenomenos meteorologicos, favoraveis ou desfavoraveis, e são tambem as que mais gosam das estrumações, das cavas e das sachas.
CULTURA DA VINHA 15
7. - O typo da radicação varía bastante nas diversas especies, e até ás vezes nas castas da mesma especie, como particularmente se vê na videira europea: varía a tendencia das raizes a profundarem e a ramificarem-se, bem como a quantidade e a fórma das madeixas do cabellame. E' claro que este conhecimento é muito util para bem adaptar cada videira ao terreno: as que teem longas raizes mais ou menos verticaes pedem solos profundos e penetraveis; emquanto as de radicação menos funda ou mais horisontal podem aproveitar os solos menos espessos ou de menor penetrabilidade. Notaremos, todavia, que, embora o typo de radicação de uma dada videira tenha uma certa constancia, póde, comtudo, moldar-se ainda bastante ás condições do terreno e do clima. Assim, nas terras e climas seccos, as pastadeiras são geralmente menos abundantes e menos superficiaes. Nas terras frescas e nos climas humidos, o enraizamento, bem como toda a vegetação, toma grande pujança. Quando o terreno assenta n'um subsolo roto, de schisto fendido por exemplo, as videiras de radicação habitual menos profunda podem modifical-a, e produzir verticalmente longas raizes. Pelo inverso, algumas cêpas de funda radicação conseguem viver nos solos relativamente pouco espessos, alargando as raizes mais na linha horisontal, e sem que pareçam muito resentidas, embora tenham então vida mais curta.
16 CULTURA DA VINHA
8. - A facilidade com que as radiculas se lenhificam e a grossura e a dureza das novas raizes lenhosas variam muito d'umas para outras especies, e tem hoje esse estudo grande importancia, porque indíca o grau de resistencia das raizes aos ataques da phylloxera. As videiras não resistentes, como as castas da nossa Vitis vinifera e como a Isabella, tão cultivada em S. Miguel, e as outras variedades da especie americana Vitis labrusca, teem as raizes novas grossas e tenras; emquanto as videiras americanas mais resistentes, como a V. rupestris, as fórmas selvagens da V. riparia, a V. Berlandieri, etc., as teem muito mais delgadas e duras.
9. - O alongamento das radiculas realisa-se por um tecido muito novo e delicado terminal (que está protegido por um pequeno involucro - coifa ou pilorhiza). Por isso, a radicula cuja extremidade seja cortada ou destruida não se alonga mais, embora ainda possa continuar a viver e a ramificar-se.
10. - A radicula não absorve a agua e as substancias soluveis do solo por toda a sua extensão; um pouco acima da extremidade tem uns pellos hyalinos, denominados pellos radiculares, que se insinuam entre as particulas terrosas, contrahindo com ellas certa adherencia, e são esses os verdadeiros agentes da absorpção. O funccionamento dos pellos radiculares é bastante ephemero; gastam-se, morrem e desprendem-se, á medida que a radicula cresce; mas outros novos os vão substituindo, na região inferior aos primeiros. D'aqui resulta uma dupla vantagem: a radicula tem sempre pellos absorventes novos, isto é, imminentemente aptos para a absorpção; e o deslocamento d'esses pellos, ao mesmo tempo que a radicula se alonga, permitte-lhe ir successivamente explorando novas camadas do terreno, em procura da humidade e das substancias nutritivas.
CULTURA DA VINHA 17
11. - Muitas radiculas morrem, passado certo tempo d'acção, sem soffrerem modificações na fórma ou na estructura; acontece isto principalmente ás mais delgadas. Muitas outras lenhificam-se ao depois e endurecem, crescem e engrossam, transformando-se em raizes. Como, de qualquer dos modos, o funccionamento das radiculas é transitorio, torna-se de necessidade que ellas vão sendo substituidas por outras, o que demanda certas condições simultaneas de temperatura e de humidade. Os terrenos frescos, nem seccos nem humidos, são, a este proposito, de todos os mais favoraveis: as radiculas crescem e desenvolvem-se ahi durante todo o periodo em que a temperatura o permitte. Mas já não acontece o mesmo nos terrenos muitos seccos no estio ou muito humidos na primavera: n'esses, ainda que a temperatura seja propicia, a renovação radicular não se faz, emquanto os segundos não enxugarem sufficientemente, ou alguma chuva não der, no outomno, a humidade precisa aos primeiros.
12. - Quando uma raiz se ramifica, ou quando um sarmento produz uma raiz, a nova radicula, lateral em qualquer dos casos, não se inicia em gommos particulares, como as ramificações da parte aerea; tem seu principio na intimidade dos tecidos do eixo (na camada circular de cellulas, denominada pericyclo, que involve os feixes) e, para se alongar na terra, precisa atravessar primeiro todos os tecidos d'esse eixo que ficam mais externos; este caminho percorre-o auxiliada por uma acção digestiva ou solubilisadora dos fermentos (diastases) que segrega. Varía bastante o grau de facilidade com que enraizam os sarmentos das diversas especies: esse enraizamento é facil na nossa V. vinifera e n'algumas especies americanas, taes como a V. riparia; é já menos facil em varias americanas, como por exemplo na V. rupestris, V. aestivalis e seus derivados (Jacquez, etc.); e torna-se bastante difficil n'outras (V. Berlandieri, V. cinerea, V. candicans, etc.).
2
18 CULTURA DA VINHA
Fig. 1. - Córte transversal (ampliado) de uma radicula: p, pellos absorventes; c, casca; e, endoderme; pe, pericyclo; l, feixes liberianos; v, feixes lenhosos.
CULTURA DA VINHA 19
13. - A estructura da radicula estuda-se n'um córte transversal (Fig. 1). Vê-se então que ella apresenta uma casca parenchymatosa (c), mais ou menos espessa, terminada á peripheria pela zona dos pellos absorventes (p), e um cylindro central. Este cylindro central é formado pelos feixes lenhosos (v) e feixes liberianos (l) dispostos em circulo, alternadamente, e involvidos pelo pericyclo (pe). Os feixes lenhosos teem como elemento principal os vasos, ou longos tubos longitudinaes de parede lenhosa, onde passam os liquidos que da terra se dirigem ás folhas. Os feixes liberianos teem como elemento principal os tubos crivosos, de parede molle, divididos por septos crivados de pequenissimos orificios, e por onde caminha a seiva elaborada nas folhas. Entre cada feixe lenhoso e cada feixe liberiano existe uma linha radiante de tecido parenchymatoso, denominada raio medullar. Finalmente, o centro da radicula, ou está occupado pelos feixes lenhosos, que profundam sempre mais que os liberianos, e ás vezes se reunem internamente, em linha ou em estrella (conforme são dois ou mais); ou apresenta uma pequena porção de tecido, semelhante ao dos raios medullares e circumscripto pelos feixes lenhosos, que tem o nome de medulla.
Fig. 2. - Córte transversal (ampliado) de raizes novas; A, raiz de uma videira europea; B, raiz de uma videira americana resistente á phylloxera; c, casca; r raio medullar; l, feixe liberiano; g, cambio; v, feixe lenhoso.
20 CULTURA DA VINHA
14. - Na raiz (Fig. 2), os feixes lenhosos e liberianos, em vez de alternarem circularmente como na radicula, estão dispostos em linha radiante, ficando o feixe liberiano ou liber pela parte de fóra (l), e o feixe lenhoso ou lenho (v) pela parte de dentro. Entre um e outro d'estes dois feixes existe uma camada geradora (g), formada de cellulas muito delicadas, que, produzindo liber para a parte externa e lenho para a parte interna, provoca o augmento successivo d'estes feixes, isto é, o engrossamento successivo da raiz. Notando, todavia, que a parte lenhosa tem sempre um volume relativo muito maior do que a parte liberiana. A casca da raiz nova é protegida externamente por uma assentada de cortiça, mais ou menos esfoliada.
15. - O periodo de transformação da radicula em raiz é um periodo bastante critico da sua existencia. Esta transformação realisa-se pelo jogo complicado de duas assentadas geradoras, e uma parte consideravel dos tecidos vivos da radicula morrem e são substituidos por outros. Assim, toda a casca da raiz é de formação nova, e nada tem com a casca da radicula, que fica morta e esfoliada na parte externa da camada de cortiça.
CULTURA DA VINHA 21
16. - O estudo comparativo anatomico das raizes da videira europea e das diversas videiras americanas, e o d'estas entre si, feito pelo sr. Foëx, explica satisfactoriamente os graus de resistencia d'estas raizes aos ataques da phylloxera; mas, para o comprehender, torna-se preciso conhecer primeiro as alterações resultantes d'esses ataques.
17. - Nas cêpas não resistentes, o insecto provoca nas radiculas o apparecimento de intumescimentos e deformações, de volume e aspecto variavel, que teem o nome de nodosidades (Fig. 3); nas raizes lenhosas provoca pequenas protuberancias ou verrugas chamadas tuberosidades (Fig. 4), tanto menores quanto os tecidos são mais velhos e mais duros. Mais tarde, estes diversos intumescimentos anormaes alteram-se, trazendo a morte e a desorganisação das radiculas e das raizes, que se apresentam escuras, molles, friaveis. A videira succumbe então, e não só porque perde as radiculas com que se nutre, mas tambem perde as raizes delgadas onde se poderia regenerar novo cabellame. Nas cêpas resistentes, as alterações provocadas pelo insecto são muito mais ligeiras (e tanto mais ligeiras forem tanto maior a resistencia), o que permitte a essas cêpas a conservação do systema subterraneo, mesmo n'um meio phylloxerado.
Fig. 3. - Nodosidades produzidas pela phylloxera sobre as radiculas.
22 CULTURA DA VINHA
18. - E' a picada do insecto que produz a hypertrophia dos tecidos em volta; essa hypertrophia é tanto maior quanto mais tenros os tecidos, e por isso as tuberosidades são mais sensiveis nas raizes que teem casca mais espessa e menos densa. Nas videiras não resistentes, a alteração interessa não só a casca, mas até a camada geradora e os raios medullares, d'onde se propaga com rapidez aos vasos do cylindro central. Nas videiras resistentes, só a camada cortical é alterada, á superficie, dando-se depois a cicatrisação subjacente, á custa de laminas isoladoras de cortiça, que defendem o lenho da raiz.
Fig. 4. - Tuberosidades produzidas pela phylloxera sobre as raizes lenhosas.
19. - As raizes da nossa videira europea (fig. 2, A) são de todas as que apresentam maior casca e raios medullares mais largos, de tecido mais frouxo e transparente, e por isso mesmo são as menos resistentes aos ataques do insecto. As da V. labrusca, por exemplo da Isabella, a Uva de cheiro dos Açores, seguem-nas logo na densidade dos parenchymas e desenvolvimento da camada cortical, o que faz com que esta especie americana succumba tambem facilmente. As raizes de outras especies americanas, taes como a V. riparia, V. rupestris, V. Berlandieri, etc., (fig. 2, B), teem lenhificação mais perfeita e mais rapida, casca mais delgada e mais densa, raios medullares mais estreitos e mais numerosos, formados de cellulas mais pequenas e com as paredes mais espessas, e esta estructura permitte-lhes resistir nas condições em que as primeiras morrem.
CULTURA DA VINHA 23
20. - Tronco ou cêpa. - As videiras são arbustos sarmentosos (isto é, de longas varas lenhosas e flexiveis), com tendencia manifesta a treparem, segurando-se por meio das gavinhas aos corpos proximos. Algumas castas portuguezas e algumas especies americanas elevam-se, trepando, até aos ultimos ramos de arvores muito altas; algumas outras teem habitualmente menores dimensões, ou propendem mais a rastejar; a V. rubra, a V. monticola e a V. rupestris, especies todas ellas americanas, formam de ordinario pequenas moitas, e a ultima, ás vezes, mesmo, é quasi destituida de gavinhas. O pórte das videiras cultivadas depende muito do methodo cultural.
24 CULTURA DA VINHA
21. - O tronco ou cêpa é o eixo mais ou menos tortuoso da ramificação aerea; nas videiras cultivadas ou se apresenta simples, ou dividido em grossos ramos ou braços. A parte superior da cêpa, d'onde sáem as varas, denomina-se cabeça.
22. - A grossura relativa do tronco não só varía bastante nas diversas especies, como tambem nas castas ou variedades da mesma especie. Assim, entre as videiras americanas são notaveis pelo seu fraco engrossamento algumas fórmas selvagens da V. riparia; das castas portuguezas da V. vinifera, umas teem cêpas grossas (Bastardo, Verdelho, Mourisco preto, etc.), outras cêpas mais delgadas (Alvarelhão, Borraçal, etc.).
23 - Consideradas as dimensões quanto á cultura, a videira póde ser alta, mediana ou baixa. Alta, quando toma grande desenvolvimento, erguida sobre as arvores, sobre grandes chantões ou forcados, ou em parreiras elevadas; mediana, quando armada em chantões medianos, bardos, latadas, cordões ou ramadas; baixa, quando as cêpas, por via de regra isoladas, são de pequeno pórte.
24. - E' certo que para cada um d'estes typos culturaes ha castas de videiras mais apropriadas; mas tambem é certo que algumas se prestam a qualquer d'elles, quando convenientemente dirigidas. Na região norte-littoral que produz os vinhos verdes, a preponderancia da vinha alta e mediana não depende só das castas cultivadas, mas tambem muito da humidade do clima, que imprime á videira grande força vegetativa.
25 CULTURA DA VINHA
25. - A estructura do caule ainda herbaceo da videira muito nova, produzida de semente, ou do pampano da planta adulta, é a seguinte: exteriormente fixa a epiderme, assentada de cellulas com a parede peripherica muito espessa e transformada á superficie na cuticula, membrana resistente protectora; n'esta epiderme notam-se os estomas, ou pequenas aberturas, marginadas por duas cellulas reniformes, com as concavidades voltadas uma para a outra. Subjacente á epiderme encontra-se a casca, ou parenchyma cortical, relativamente mais estreita do que a da raiz, e tendo granulos abundantes de chlorophylla, que dão a côr verde ao caule novo ou ao pampano (Fig. 5, c). O cylindro central começa, como na raiz, por uma assentada de cellulas que constitue o pericyclo; contra o pericyclo encostam feixes libero-lenhosos, dispostos no sentido do raio, com o liber (l) collocado externa e o lenho (v) internamente; estes feixes estão separados pelos raios medullares (r) e circumscrevem uma medulla central (m). Exactamente como na raiz, os feixes lenhosos teem como elemento essencial os vasos lenhosos e os feixes liberianos os tubos crivosos (13).
Fig. 5. - Córte transversal (ampliado) de um sarmento; c, casca; l, feixe liberiano; g, cambio; v, feixe lenhoso; r, raio medullar: m, medulla.
26 CULTURA DA VINHA
26. - Mais tarde, o caule novo ou o pampano engrossa e torna-se lenhoso. O engrossamento realisa-se á custa de uma assentada geradora, formada de cellulas muito tenues, collocada entre o liber e o lenho, a constituir um annel, que tem o nome de cambio (Fig. 5, g); este annel gerador funcciona durante o periodo da actividade vegetativa, produzindo novo liber para a parte externa e novo lenho para a parte interna, que se intercalam entre o liber e o lenho primarios. No inverno, no periodo do repouso vegetativo, ha uma paragem n'estas formações, recomeçando na primavera seguinte nova actividade geradora. O lenho, á medida que envelhece, torna-se mais duro, menos aquoso, mais incrustado, e é elle que constitue em maior proporção a cêpa adulta.
27. - E' de ver, que tanto o lenho como o liber são tecidos mortos, isto é, cujas cellulas já nem teem actividade propria, nem podem crescer nem multiplicar-se. Na cêpa ou na vara lenhosa, abstrahindo por agora das camadas corticaes, o tecido vivo e essencialmente em via de nova producção cellular é apenas o ligeiro annel de cambio; conhecimento este que tem grande importancia na pratica da enxertia.
28. - Quando a cêpa ou qualquer ramo engrossa mais, a epiderme tem sido substituida por uma casca morta, escura e fendida. No pericyclo produz-se uma lamina circular de cortiça, que depois se torna mais profunda e invade a região externa e mais velha do feixe liberiano; é o desenvolvimento d'este annel de cortiça, impermeavel aos liquidos nutritivos, que provoca a morte de todos os tecidos collocados para o exterior, e são esses tecidos mortos, fendidos e que se desprendem em fitas pelo engrossamento persistente do tronco, que constituem a casca secca. A mesma assentada geradora que produz a lamina de cortiça para a parte externa, produz para a parte interna um parenchyma, que substitue o parenchyma cortical primitivo, morto e esfoliado na casca secca.
CULTURA DA VINHA 27
29. - A grossura da casca secca, o numero e a profundidade das fendas em que se divide, e a facilidade com que se desprende em fitas, diversificam muito, segundo as castas, e dependem principalmente do engrossamento variavel da cêpa e da contextura dos tecidos mortos.
30. - Varas ou sarmentos. - As varas ou sarmentos são as ultimas ramificações lenhosas da cêpa, as que apresentam os botões. O seu comprimento, grossura e disposição (erecta, patente, encurvada, etc.), variam bastante, de umas para outras castas, e a cultura e as condições de vegetação podem alterar ainda muito essas tendencias naturaes de cada casta.
31. - Na V. vinifera, as varas são roliças ou ás vezes achatadas na base. N'algumas especies americanas são roliças tambem (V. aestivalis, etc.), mas n'outras apresentam-se angulosas, com secção polygonal (V. Berlandieri, V. cinerea, etc.).
28 CULTURA DA VINHA
32. - Denomina-se nó o disco transversal do sarmento onde está, ou esteve, inserida uma folha; os nós são sempre salientes, mais ou menos, segundo o typo da videira. Chamam-se entre-nós ou merithallos os espaços da vara comprehendidos entre dois nós successivos. Na mesma vara, os merithallos são menores na base, augmentam depois progressivamente até adquirirem um maximo, e decrescem em seguida para a extremidade livre.
33. - Considerado o comprimento dos merithallos em castas ou variedades diversas, postas em egualdade de circumstancias, vê-se que pode variar em mais do simples ao dobro. Assim, a V. riparia tem merithallos muito compridos, sobretudo algumas das suas fórmas selvagens; na V. vinifera, umas castas portuguezas tem-nos maiores (Ferral, Rabo d'ovelha, Mourisco preto, etc.) do que outras (Bastardo, Touriga, etc.). Parece que existe uma certa relação entre o comprimento dos merithallos e a radicação da videira, indicando os merithallos compridos raizes profundas.
34. - N'umas variedades, os merithallos dispõem-se successivamente quasi que na mesma linha, tornando a vara quasi recta; n'outras, formam angulos entre si, dando á vara o aspecto sinuoso.
35. - Fazendo o córte longitudinal de um sarmento, nota-se que a medulla está interrompida nos nós, existindo ahi uns diaphragmas transversaes, lenhosos e resistentes (Fig. 6). As dimensões relativas da medulla (a) variam bastante. O lenho (b, b'), n'umas castas é muito menos duro (Uva da promissão, Castella, Formosa, etc.) do que n'outras (Bastardo, Mourisco preto, etc.), o que facilmente se reconhece pela resistencia que a vara offerece aos golpes da poda. A elasticidade do lenho tambem é muito variavel, e se as varas de muitas castas se gemem facilmente na empa, as de algumas outras são bastante quebradiças (Preto Martinho, Arintho, Negra molle, etc.).
CULTURA DA VINHA 29
36. - Gommos ou botões. - Os botões, gommos ou gemmas, nascem alternadamente nos nós da vara, em duas linhas longitudinaes, na axilla ou angulo de uma folha, e do seu desenvolvimento provém novos sarmentos. Teem, conforme o typo da videira, a fórma globosa, ovoide ou conica, e dimensões diversas. Emquanto novos e atrazados na sua evolução recebem o nome de ólhos.
Fig. 6. - Corte longitudinal de um sarmento: a, a', medulla; b, b', casca e lenho.
37. - Estudando um córte longitudinal, vê-se que o botão é formado por um ramo ou eixo muito rudimentar, com os entre-nós muito curtos e as folhas muito pequenas, quasi conchegadas. As folhas externas ou basilares d'este pequeno eixo transformam-se em escamas e apertam-se, a servir de protecção aos orgãos muito novos e muito tenros que incluem. Este papel protector torna-se ainda mais efficaz pela presença dos pellos ou das secreções gommosas, que existem nos botões de muitas videiras.
30 CULTURA DA VINHA
38. - Os botões formam-se emquanto o pampano sobre que se implantam está ainda rudimentar; permanecem, como regra geral, atrazados durante o verão e o inverno, e só na primavera seguinte entram em evolução. No emtanto, ás vezes desenvolvem-se no mesmo anno, ramificando logo a vara; apparecem então botões supplementares que os substituem.
39. - Chegada a epocha da videira abrolhar ou engommar, o botão intumesce; descerram-se e mais tarde desarticulam-se as escamas, e o pequeno eixo do botão alonga-se, bem como se desenvolvem simultaneamente as folhas; constitue-se d'este modo o renovo ou pampano, ramificação da vara, e que depois de desenvolvido e lenhoso produz a vara seguinte.
40. - No primeiro periodo do seu desenvolvimento, o novo rebento e as pequenas folhas apresentam-se, conforme as videiras, sem pellos (glabros) ou diversamente pelludos (pubescentes, tomentosos, lanuginosos, etc.): e revestem cores differentes, ás vezes muito vivas (verde, esbranquiçada, amarellada, avermelhada, carmim, etc.), que teem importancia para a distincção das castas. Emquanto são novos, os pampanos desarticulam-se muito facilmente do eixo.
CULTURA DA VINHA 31
41. - A epocha do abrolhamento de uma casta varía não só com as localidades, como até na mesma localidade segundo o correr das estações e as praticas culturaes. Depende principalmente da temperatura, e por isso a mesma casta abrolha primeiro, de ordinario, nos pontos de mais baixa latitude e altitude, e nas exposições e terrenos mais quentes. A poda tardia attraza a rebentação, e tambem a modifica o pórte da videira, abrolhando mais cedo a mesma casta cultivada em cêpa baixa do que em cêpa alta.
42. - Por outro lado, como as diversas especies e as diversas castas teem exigencias particulares de vegetação, as suas differentes cêpas, n'um mesmo local, sujeitas ás mesmas condições de tratamento, abrolham em epochas distinctas. Geralmente, em Portugal, póde estabelecer-se a seguinte escala, partindo das especies mais precoces: V. riparia, V. rupestris, V. aestivalis, V. vinifera, e por ultimo a V. cinerea, V. cordifolia e V. Berlandieri. Mas as castas da mesma especie tambem podem ter rebentação muito desegual, como é facil de observar nas castas portuguezas da V. vinifera, algumas das quaes teem periodos de abrolhamento tão afastados.
43. - De ordinario, a videira (como os outros arbustos e as arvores) tem tendencia para desenvolvêr com menos vigor os gommos da base da vara, e é exactamente essa tendencia que se contraría pela empa. Quando o solo é pobre e a vegetação fraca, nem todos os gommos da vara se desenvolvem; pelo contrario, se as condições da vegetação são favoraveis e o solo rico ou bem adubado, muitas vezes, nascem, junto dos primeiros pampanos, outros mais pequenos, a que chamam netos, provenientes de gommos supplementares.
32 CULTURA DA VINHA
44. - E' frequente apparecerem pampanos sobre a cêpa, sem logar determinado; denominam-se ladrões ou rebentos adventicios e são por via de regra estereis; apenas devem ser conservados quando convenham para rebaixar a cêpa. No intumescimento basilar da vara, é tambem muito commum desenvolverem-se rebentos, sobretudo se a vara perdeu alguns dos olhos inferiores.
45. - O pampano, á medida que se alonga e engrossa, vae modificando a consistencia herbacea primitiva, e por fim endurece e lenhifica-se, constituindo então propriamente a vara. No estado de boa lenhificação, a vara diz-se atempada ou outomnada. É muito importante que ella adquira esse estado (o que muito depende do correr das estações e de uma perfeita vegetação), para resistir depois melhor aos frios hibernaes, para se resentir menos com os golpes futuros da poda, e para desabrolhar com maior vigor na primavera seguinte.
46. - Folha. - As folhas da videira estão dispostas isolada e alternadamente em cada nó, ao longo de duas linhas longitudinaes. Compoem-se de duas partes bem distinctas: o pé ou peciolo e a lamina terminal desenvolvida, limbo ou folha propriamente dita. Na base do peciolo da folha nova existem dois pequenos appendices lateraes, que se denominam estipulas. No limbo importa considerar: a pagina superior, voltada para o ceu, e a pagina inferior, voltada para a terra; a base, que é a região mais proxima do peciolo, e o cimo ou vertice, que é o extremo opposto.
CULTURA DA VINHA 33
47. - O limbo é de ordinario mais ou menos cordiforme: podendo o comprimento ser maior que a largura (V. cordifolia, V. riparia, etc.); ou a largura maior que o comprimento (V. rupestris, etc.); ou serem estas duas dimensões proximamente eguaes, o que torna a folha quasi que arredondada (V. vinifera, V. labrusca).
Fig. 7. - Folha de videira europea.
Fig. 8. - Folha de videira americana (Solonis).
48. - A partir do peciolo, existem no limbo cinco nervuras (Figs. 7 e 8): uma central, mais grossa, e duas de cada lado d'esta, divergentes como os dedos de uma ave (folhas palminervadas); cada uma das cinco nervuras principaes se divide e subdivide ainda em outras d'ordem inferior, e os ultimos ramusculos anastomosam-se, formando uma rede de malhas estreitas. As nervuras são deprimidas na pagina superior e salientes na inferior, mais ou menos, segundo o typo da videira.
3
34 CULTURA DA VINHA
49. - Na base do limbo da folha existem habitualmente dois prolongamentos, auriculas ou lobulos, que contornam um chanfro basilar. Na V. vinifera (Fig. 7), estas auriculas são muito compridas, relativamente á parte restante do limbo (variam entre 24 e 40 % do comprimento total, segundo os srs. Portes e Ruyssen); emquanto nas especies americanas são menores (Fig. 8), não excedendo nunca 19 %, e em mais raros casos nem mesmo existem (algumas fórmas da V. riparia, etc.). Além d'isto, na V. vinifera as auriculas tendem a approximar-se do peciolo, limitando o chanfro basilar por curvas convexas: e pelo contrario, nas especies americanas, as auriculas são divergentes, afastam-se continuamente do peciolo, e desenham o chanfro basilar entre duas curvas concavas. O exame do chanfro basilar, a sua fórma e abertura, é importante na caracterisação das videiras.
50. - Typicamente, a folha da videira ou parra tem recortados cinco lobulos (Fig. 7), mais ou menos fundos, correspondentes ás cinco nervuras principaes (folha quinquelobada); um d'elles é terminal e corresponde á nervura media, os quatro restantes são lateraes e ficam dois de cada lado; o valor do angulo dos recortes que separam os lobulos varía bastante. A's vezes, dois lobulos são muito pouco pronunciados, e a folha apparenta ser trilobada; ou podem mesmo ser todos os lobulos tão poucos visiveis que a folha parece inteira. Em qualquer d'estes casos, a margem apresenta ainda dentes, mais ou menos compridos, agudos ou obtusos, umas vezes simples, outras vezes duplos (os dentes maiores subdivididos em outros menores).
CULTURA DA VINHA 35
51. - E' facto de observação que, quando uma videira tem as folhas mais divididas, com recortes mais fundos e mais agudos, do que habitualmente pertence ao seu typo, é pouco productiva e dá cachos pequenos.
52. - Na pagina superior, umas castas ou variedades teem o limbo lizo, outras aspero, rugoso ou intumescido com bolhas ou empolas. N'uns typos, as folhas são glabras, destituidas de pellos, n'outros apresentam pellos variaveis na fórma e no numero (folhas pubescentes, tomentosas, lanosas, tearaneas, flocconosas, etc.). De ordinario, é na pagina inferior, de côr mais pallida, que existem mais pellos. De ordinario ainda, as folhas novas de um mesmo individuo são mais pelludas do que as adultas; o que tem a sua explicação natural no crescimento intercalar da folha, que afasta os pellos já formados na folha nova, ao mesmo tempo que com a edade alguns se destróem e cáem.
53. - A côr das parras é verde, mais escura ou mais clara, verde-amarellada ou verde-avermelhada, podendo a pagina superior apresentar-se baça ou lustrosa. As dimensões da folha variam com o typo da videira, mas são tambem influenciadas pelas condições da vegetação. A espessura do limbo não é constante, e umas vezes as folhas são relativamente grossas, outras vezes delgadas. Estas variantes na fundura dos recortes, na côr, dimensões, espessura, e quantidade dos pellos da folha, encontram-se com muita frequencia nas fórmas da mesma especie; a natureza dos pellos é muito mais constante para cada especie.
36 CULTURA DA VINHA
54. - As folhas produzem-se lateralmente, no eixo muito novo incluido no botão (37); têem a principio um pequeno crescimento terminal, mas o seu maior desenvolvimento realisa-se depois á custa de um crescimento intercalar. As estipulas basilares (46) servem-lhes de protecção em muito novas, e por isso adquirem primeiro um maior desenvolvimento relativo. Umas vezes, logo depois do abrolhamento, as folhas apresentam-se planas, outras vezes são em novas dobradas em gotteira e podem mesmo persistir mais ou menos tempo com essa fórma (V. riparia, V. rupestris, etc.).
55. - Anatomicamente, as folhas teem no exterior uma epiderme analoga á do pampano (25); esta epiderme tambem apresenta a cuticula peripherica, e na pagina inferior da folha tem um grande numero d'estomas. As cellulas reniformes que marginam o estoma são muito influenciadas pela luz; á noite cerram o ostiolo, ou pequeno orificio entre as suas superficies concavas, emquanto ao sol o abrem largamente. Entre a epiderme das duas paginas, fica um parenchyma de paredes delgadas, cujas cellulas teem abundantes granulos de chlorophylla; junto á pagina superior, este parenchyma é formado de cellulas alongadas e intimamente juxtapostas, tomando o nome de parenchyma em palissada; junto á pagina inferior, apresenta grandes espaços cheios d'ar e fórma o parenchyma lacunoso. No parenchyma da folha correm as nervuras, que são constituidas por feixes libero-lenhosos, com o liber voltado para a pagina inferior e o lenho para a pagina superior; feixes que se continuam com os do pampano, como estes se continuam, atravez todas as ramificações aereas, com os feixes da cêpa, os quaes por sua vez se reunem com os das raizes e radiculas.
CULTURA DA VINHA 37
56. - No outomno, no fim do periodo vegetativo, as folhas mudam de côr, amarellecem ou avermelham, e desprendem-se, desarticulando-se pela base do peciolo. A epocha da queda das folhas varía com as castas, e dentro de cada uma com a localidade e as variantes das estações.
57. - Gavinhas. - As gavinhas são os filamentos contorcidos em espiral, simples, bifurcados ou ramosos, por meio dos quaes a videira se prende aos corpos visinhos e eleva, trepando, as longas varas; produzem-se nos pampanos, oppostas ás folhas, bem como as inflorescencias, que evidentemente são da mesma natureza, pois que ás vezes se apresentam as gavinhas com algumas flores (1).
(1) Esta posição das gavinhas e dos cachos, opposta ás folhas, tem sido botanicamente explicada por diversas theorias; não as referimos, por não terem nenhum interesse pratico.
38 CULTURA DA VINHA
58. - Não existem defronte das folhas basilares. Como regra geral, a partir d'estas, encontram-se, successivamente ao longo do pampano, duas folhas com gavinha opposta (gavinha ou cacho, porque as duas formações se substituem) e uma terceira folha sem gavinha; em mais raras especies (V. labrusca, etc.), não se dá esta intermittencia, e, uma vez formadas, as gavinhas (ou cachos) apparecem defronte de todas as folhas. O primeiro typo denomina-se de gavinhas discontínuas e o segundo de gavinhas contínuas.
59. - Flores e fructos. - As inflorescencias da videira apparecem sobre o pampano logo ao abrolhar, e são, como vimos, oppostas ás folhas. N'umas castas, como por exemplo a Negra molle, existem principalmente nos pampanos nascidos dos primeiros gommos da vara; n'outras, pelo contrario, taes como o Arintho, são os pampanos do extremo que mais produzem; ou podem, finalmente, repartir-se os cachos por todos os pampanos. Tem grande valor pratico esta observação, para bem dirigir a poda. O numero total dos cachos de cada videira, e a constancia da sua producção, tambem dependem das castas, que umas são muito mais productivas e mais regulares do que outras; mas dependem ainda bastante das condições da vegetação e da cultura.
60. - A inflorescencia da videira é um cacho composto: isto é, apresenta um eixo central ou pedunculo, d'onde partem eixos secundarios, que se subdividem, por sua vez, mais ou menos; as ramificações que supportam as flores tomam o nome de pedicellos.
CULTURA DA VINHA 39
61. - As flores teem por fim a reproducção. Na videira (Fig. 9) são pequenas, esverdinhadas, cheirosas, e constituidas por dois involucros protectores, calice e corolla, e pelos orgãos propriamente reproductores - os estames ou orgãos masculinos e o pistillo ou orgão feminino. O calice é pequeno (s) e tem cinco dentes curtos. A corolla é formada de ordinario de cinco petalas, mas que, em logar de se abrirem como nas flores das outras plantas, ficam adherentes no cimo, obrigando-as o alongamento dos estames a desprenderem-se pela base, com o aspecto de um pequeno capuz (C). Os estames (e) são geralmente cinco, oppostos ás petalas: compõe-se cada um d'elles de um filete estreito, assovelado, que supporta no cimo um pequeno corpo bilocular, ou anthera, dentro de cujos loculos se produz o pollen, ou pó fecundante; para a sahida do pollen, a anthera abre-se por duas fendas, um pouco voltadas para o pistillo. O pistillo occupa o centro da flôr; tem inferiormente o ovario (o), as mais das vezes com duas cavidades ou loculos, onde existem os ovulos, que depois de fecundados hão de produzir as sementes; para a parte superior, o ovario prolonga-se n'um estylete curto, terminado n'um pequeno corpo viscoso, levemente bilobado, que tem o nome de estigma (st). Entre os estames e o ovario ha um disco annular, com cinco glandulas nectariferas (g).
Fig. 9. - Flôr da videira: A, em botão; B, depois de aberta; s, o calice; e, os estames; o, ovario; st, estigma; g, glandulas nectariferas: c, corolla desprendida com as petalas adherentes, em fórma de capuz.
40 CULTURA DA VINHA
62. - Nas videiras europeas cultivadas, as flores teem sempre os dois orgãos da reproducção, estames e pistillo, isto é, são hermaphroditas. Nas especies americanas, uns pés teem flores hermaphroditas e outros só flores unisexuaes, masculinas, pelo aborto do pistillo. Convém todavia notar, que isto mesmo acontece á especie europea quando reproduzida de semente (segundo Engelmann, citado pelos srs. Portes e Ruyssen).
63. - A epocha em que as flores abrem ou limpam varía nas diversas especies, podendo estabelecer-se, em geral, a seguinte ordem, a começar pela mais temporã: V. riparia, V. rupestris, V. vinifera, V. aestivalis e V. Berlandieri. Mas as castas da mesma especie variam ainda muito na floração, como é facil de observar nas castas portuguezas: e n'este, como em todos os outros phenomenos vegetativos, tem influencia capital as variações de temperatura, já de logar para logar, já de anno para anno.
64. - Para que o fructo vingue, é necessario que o pollen, produzido pelos estames, caia sobre o estigma; cada um d'esses pequenissimos granulos de pollen emitte depois um longo tubo, que atravessa o estylete e o ovario, misturando por ultimo o seu conteúdo com uma das cellulas do ovulo, e effectuando assim a fecundação. Como consequencia d'esta fecundação, o ovario desenvolve-se em fructo e os ovulos em sementes.
CULTURA DA VINHA 41
65. - Varios accidentes podem contrariar a fecundação: taes como, as deformações anormaes da flor (flores dobradas, flores com as petalas abertas em estrella, etc.); o ataque de diversas cryptogamicas parasitas (anthracnose, míldio); alguns estados anormaes de vegetação, muito robusta ou muito fraca; certos phenomenos meteorologicos na occasião da florescencia (a humidade excessiva, os ventos muito seccos, um grande frio, etc., etc.). Diz-se então que ha desavinho, e podem desavinhar todas as flores de um cacho que assim fica perdido, ou um numero variavel de flores em cada cacho. Certas castas são mais atreitas do que outras a este accidente: assim o Mourisco preto e a Malvasia desavinham bastante, com frequencia, e muito o Boal esfarrapado ou baboso.
66. - Cada ovario de uma flor produz um bago d'uva. Os bagos teem a fórma espherica (Tinta miuda, Bastardinho, Fernão Pires, etc.), ellipsoide (Arintho, Formosa, etc.), ou ovoide (Rabo d'ovelha, etc.). As suas dimensões variam muito com as castas, apresentando-se grandes, como na Diagalves, Ferral e Moscatel de Jesus, ou pequenos, como no Arintho e Bastardinho, e com todas as dimensões intermedias. Nas videiras americanas, ou são grandes como na V. labrusca, etc., ou são medianos, como no Jacquez, ou muito pequenos, como na V. riparia e V. rupestris.
42 CULTURA DA VINHA
67. - A's vezes, nem todos os bagos do cacho são eguaes ou quasi eguaes e, emquanto uns tomam o desenvolvimento normal, outros ficam muito pequenos e incompletos, verdes ou avermelhados (se a uva é tinta); este accidente parece devido á escassez da nutrição, ou a terem vingado bagos de formação tardia. No norte do paiz chamam a estes bagos rudimentares bagoinha, e em varios pontos do centro machio.
68. - O bago de uva tem externamente uma pellicula, casca ou bagulho, onde reside a côr das uvas tintas; esta pellicula póde ser mais ou menos grossa, como na Trincadeira, Diagalves, etc., ou fina, como no Sem bagulho, que a tem tão delgada que nem se acha na bocca. A' superficie, apresenta, em quantidade variavel, um pó ciroso, esbranquiçado, muito abundante por exemplo na Padeira, casta minhota assim chamada pelo enfarinhado dos seus cachos. Quanto á côr, as uvas dividem-se em brancas (branco-amarelladas ou branco-esverdinhadas), tintas ou negras, e rosadas.
69. - A polpa, subjacente á pellicula, é mais ou menos succosa, e em algumas videiras americanas chega a ser carnuda. Offerece resistencia á pressão muito diversa, sendo ora bastante dura, ora molle, como no Borraçal, casta vulgar do Minho, cujas uvas, muito faceis de esborrachar, são por isso muito sujeitas a apodrecer. Geralmente a polpa é incolor, mas em raras castas negras é tambem tinta.
CULTURA DA VINHA 43
70. - O sabor das uvas é mais ou menos doce, acido ou adstringente, conforme as castas, o clima e a cultura; algumas videiras americanas dão uvas bastante acerbas. As differentes uvas teem sabores difficeis de precisar; entre elles tornam-se notaveis o sabor dos Moscateis e o de algumas uvas americanas: lembrando este ultimo o gosto do morango ou da framboesa, sabor foxy ou de raposa como dizem nos Estados Unidos, que passa tambem ao vinho e é muito desagradavel aos paladares europeus (Isabella e todas as variedades da V. labrusca, os hybridos York-Madeira, Vialla, Triumph, etc.).
71. - No interior da polpa existem as sementes ou grainhas, em numero variavel, que de ordinario não excede quatro. Cada grainha está adherente ao pedicello por um cordão, ou funiculo, por onde se alimenta; são estes cordões que, ao amadurecer e desprender-se o bago, ficam presos na extremidade do pedicello com a fórma de pequenos pinceis. As grainhas são duras, e nota-se-lhes uma casca, um pequeno embryão ou rudimento da nova planta, e um albumen corneo, oleaginoso, destinado a nutrir o embryão emquanto elle não póde viver do meio exterior. Do lado mais proximo do pedicello são as grainhas attenuadas em bico (Fig. 10), e no extremo opposto arredondadas, com um chanfro ao meio; na face dorsal ou externa apresentam-se convexas, e na ventral ou interna quasi planas. O funiculo contráe adherencia com a semente, e desenha na face interna uma saliencia longitudinal (r) mais ou menos pronunciada (raphe); passa depois no extremo mais largo da semente, onde as mais das vezes é pouco distincto, e vem finalisar na face externa, n'um ponto (c) oval ou circular (chalaze). O estudo das sementes da videira tem grande importancia para distinguir as especies (principalmente a fórma e as dimensões do bico terminal, o chanfro maior ou menor do lado opposto, a saliencia do raphe e a fórma da chalaze).
Fig. 10. - Sementes da videira (grainhas): r, raphe; c, chalaze; b, bico da semente.
CULTURA DA VINHA 44
72. - As dimensões do cacho maduro variam muito com as castas e ainda dentro de cada casta com as circumstancias particulares da vegetação; a cêpa portugueza em que temos visto maiores cachos é a Uva da promissão, pois que chegam a medir mais de meio metro: teem pelo contrario cachos pequenos o Bastardo, a Periquita, etc. N'umas castas, o cacho é fechado, compacto, como no Bastardo; n'outras, aberto ou de bagos afastados, como no Boal esfarrapado ou baboso; e do mesmo modo varía a fórma, que pode ser cylindrica, globosa, conica, etc. Quando as ramificações principaes ou esgalhos da parte superior adquirem maior comprimento, tornando-se bem apparentes, tomam o nome de azas, e o cacho diz-se alado.
73. - A epocha da maturação de cada casta varía com as condições exteriores; diversas castas, postas em egualdade de circumstancias quanto ao meio e á cultura, podem amadurecer os seus fructos em epocha differente, como em epocha differente podem florescer e abrolhar. Notando, todavia, que o facto de uma casta abrolhar ou florescer mais cedo, não implica necessariamente que haja de ter maturação mais temporã.
CULTURA DA VINHA 45
74. - Vegetação da videira. - No periodo da actividade vegetativa, a videira produz as radiculas, ramifica-se na parte aerea, desenvolve as folhas, elabora os seus principios nutritivos, engrossa, cresce, floresce e fructifica; além d'isso, prepara a sua rebentação futura, pondo em reserva, nos parenchymas dos eixos, parte das substancias nutritivas elaboradas, para servirem á evolução dos gommos e das radiculas no periodo vegetativo seguinte, emquanto não tem folhas que possam preparar a alimentação necessaria. No periodo do repouso hibernal, a videira, despojada das folhas, nem cresce nem elabora; resiste ás acções do ambiente, com os pequenos rudimentos dos pampanos protegidos pelas escamas dos botões, com as varas endurecidas e lenhosas, com os tecidos vivos dos eixos abrigados pelos involucros suberosos.
75. - A funcção especial das radiculas é absorverem do terreno a agua e as substancias soluveis; já vimos como ellas estão apropriadas para essa absorpção e como vão explorando sempre novas camadas de terreno (10). O liquido assim absorvido, ou seiva bruta, entra nos vasos dos feixes lenhosos da radicula (13), e d'estes passa aos vasos das raizes, do tronco, das varas e das folhas, que todos se continuam uns com outros. Para verificar que a seiva bruta segue este caminho, basta cortar transversalmente uma raiz, uma cêpa ou uma vara, enxugar o golpe (que deve ser bem lizo) e examinal-o com uma lupa: vê-se então o liquido sahir dos vasos cortados, em pequenas gottas, sob a impulsão que o dirige. No interior dos vasos, a columna aquosa apresenta-se quebrada, com bolhas d'ar, mais ou menos numerosas, interpostas.
46 CULTURA DA VINHA
76. - As forças que elevam até ás ultimas ramificações aereas da videira os liquidos absorvidos na terra são, principalmente, a aspiração produzida pelo transpirar das folhas e a pressão osmotica das cellulas radiculares. Antes do abrolhamento, a grande accumulação de seiva, que produz os derramamentos conhecidos com o nome de choros da vinha, é sobretudo devida á pressão osmotica nas radiculas, pois que então falta a transpiração das folhas; a intensidade d'essa pressão, medida em experiencias adequadas, é superior, em muitos casos, a uma atmosphera (isto é, póde equilibrar uma columna de mercurio de mais de 76 centimetros).
77. - Nas folhas, ou mais em geral nos tecidos verdes, a seiva bruta transforma-se em seiva elaborada, apta para a nutrição cellular. Para isso, concentra-se por transpiração e enriquece-se de principios immediatos fabricados pela planta, uns ternarios ou hydrocarbonados (compostos de carbonio, hydrogenio e oxygenio), outros quaternarios ou azotados (em que, além dos tres corpos simples anteriores, entra mais o azote).
CULTURA DA VINHA 47
78. - A transpiração consiste no desprendimento de vapor d'agua para a atmosphera; dá-se principalmente atravez dos estomas (55), e é devida, na sua parte mais importante, a uma acção da chlorophylla ou materia verde, sob a influencia da luz. São as folhas os principaes orgãos de transpiração, mas tambem transpiram os pampanos e, mais em geral, todos os orgãos verdes. Em egualdade de circumstancias, transpiram mais as videiras de folhas mais tenras, mais herbaceas; na mesma videira, transpiram mais as folhas mais novas; nos logares mais quentes, mais seccos, e de luz mais aberta, a transpiração é maior do que nos mais frios, mais humidos e de luz menos intensa; de noite, cessa a acção da chlorophylla, e a transpiração diminue muitissimo. E' enorme a quantidade de metros cubicos d'agua que um hectare de vinha lança por esta fórma para a atmosphera, mas essa quantidade varía muito, conforme o numero de plantas, o seu desenvolvimento, as castas, a localidade, etc. Quando a transpiração é activa, é ella que regula a absorpção da agua pelas radiculas.
79. - Os principios ternarios ou hydrocarbonados teem por origem um composto fundamental produzido nas cellulas verdes. A chlorophylla (25), sob a influencia da luz, decompõe o anhydrido carbonico atmospherico, liberta o oxygenio, e liga o carbonio com os elementos da agua (hydrogenio e oxygenio), formando um principio immediato muito instavel e d'onde deriva, como primeira fórma estavel, a glucose; parte d'esta glucose é logo utilisada na nutrição cellular, parte transforma-se em amido, para ser empregado mais tarde; d'este amido, ou directamente da glucose, derivam depois todos os principios immediatos ternarios que a planta produz. Esta funcção importantissima de constituir por synthese um hydrocarbonado pertence a todos os tecidos verdes expostos á luz, mas são as folhas os seus orgãos principaes. Por outro lado, o azote, vindo da terra na seiva bruta, no estado de nitrato ou de sal ammoniacal, constitue com os hydrocarbonados os principios azotados, que tão importante papel representam na organisação cellular.
48 CULTURA DA VINHA
80. - A seiva elaborada, assim constituida, dirige-se para os pontos em activo crescimento, onde são necessarios materiaes para a multiplicação das cellulas, e depois para os tecidos em que se depositam as reservas nutritivas. Dirige-se pelos tubos crivosos (13) do feixe liberiano, mas não em corrente unica e de sentido determinado; cada principio immediato caminha independentemente, com velocidade propria, para os centros attractivos onde é organisado ou transformado, segundo as leis physicas da osmose e da diffusão.
81. - E' á custa da seiva elaborada que a videira organisa as suas radiculas, que os pampanos crescem e mais tarde se lenhificam, que o cambio multiplica as suas cellulas e provoca o engrossamento dos eixos lenhosos (26). O fructo verde tambem elabora principios immediatos, pois que tem chlorophylla, mas fórma-se principalmente á custa ainda da seiva elaborada pelas folhas, e, logo que elle se constitue, diminue e por fim suspende-se o desenvolvimento da parte vegetativa.
CULTURA DA VINHA 49
82. - No fructo verde preponderam os tanninos, os acidos organicos, o amido, etc.; quando amadurece, todos estes corpos diminuem e produz-se, em grandes percentagens, o assucar invertido (mistura de glucose e de levulose). As uvas de umas castas são naturalmente mais doces que as de outras, mas o clima influe muito n'esta maturação, dependendo mais o augmento de assucar da temperatura elevada, e a diminuição dos acidos da intensidade da luz. Por sua parte, a cultura tambem é elemento importante, e as vinhas baixas dão fructos mais doces que as vinhas altas.
83. - As correntes de seiva elaborada, que armazenam substancias de reserva nos parenchymas cellulares de paredes delgadas (parenchymas corticaes, raios medullares, etc.), despojam por fim as folhas de quasi todo o seu amido e glucose, bem como de uma parte importante dos principios azotados e de substancias mineraes (acido phosphorico, potassa, etc.). Quando as folhas amarellecem e cáem, desarticuladas naturalmente, encontram-se pois muito empobrecidas nos principios mais uteis á vegetação, e não é a mesma cousa, para a videira, a queda das folhas por morte natural ou pelo arranque violento; o segundo caso representa sempre perdas. Por isso, é pratica viciosa o deixar entrar os rebanhos d'ovelhas nas vinhas, logo em seguida á vindima, para aproveitarem as parras, como fazem em algumas das nossas regiões vinhateiras.
4
50 CULTURA DA VINHA
84. - Além das funcções que ficam esboçadas, todos os orgãos da videira, quer aereos ou subterraneos, respiram, consistindo essa respiração, perfeitamente analoga á dos animaes, n'uma fixação de oxygenio e desprendimento d'anhydrido carbonico. Esta respiração tanto se realisa á luz como ás escuras, tanto de noite como de dia, e não tem nenhuma ligação directa com a assimilação do carbonio pela chlorophylla (79). Apenas, durante a noite, como a respiração continúa e pára a decomposição do anhydrido carbonico pela chlorophylla, a planta perde este ultimo gaz e fixa oxygenio; emquanto, durante o dia, como se passam as duas funcções e a assimiladora é muito mais intensa que a respiratoria, a planta, em resultado final, comporta-se então inversamente, fixando carbonio e desprendendo oxygenio.