Tratado Elementar da Cultura da Vinha/II
CAPITULO II
Castas portuguezas e videiras americanas
85. - Especies de videiras; fórmas selvagens; castas cultivadas. - E' opinião hoje quasi geral, que as videiras cultivadas agricolamente desde a mais alta antiguidade pertencem a uma só especie botanica, a Vitis vinifera, originaria da Europa e da Asia. Mas, além d'esta, conhecem-se muitas outras especies do genero Vitis, de origem asiatica e americana, e das ultimas algumas entraram já na cultura europea, em virtude da sua resistencia aos ataques da phylloxera (16 e seg.). Os caracteres botanicos mais importantes em que se basea a distincção das especies do genero Vitis são os deduzidos da semente (71).
86. - Cada especie de videira apresenta fórmas selvagens mais ou menos distinctas, em que varía o pórte, o recortado das folhas, a quantidade da pubescencia (a natureza d'esta pubescencia é já mais constante e tem por isso certo valor especifico), a figura do cacho e dos bagos, a côr d'estes ultimos, etc. De ordinario, porém, estas fórmas não teem fixidez hereditaria segura, não transmittem com constancia aos individuos provenientes de semente os seus caracteres differenciaes.
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87. - Mas uma fórma não fixada pela hereditariedade póde, todavia, multiplicar-se illimitadamente por estaca, por mergulhia ou por enxerto, conservando-se invariavel sempre: pois que n'estes casos não ha, com rigor, a formação de plantas novas (o que implica a idéa de fecundação, a existencia de semente), e ha, com mais propriedade, a continuação d'uma mesma planta em fragmentos diversos, que se tornaram independentes.
88. - E' por este modo que se obtiveram e obtém as denominadas castas culturaes; notando, que empregamos a palavra casta porque está adoptada por todos, mas que de maneira nenhuma se lhe deve ligar a idéa de raça, geração ou linhagem, e simplesmente a idéa de um conjuncto de individuos identicos. Da sementeira de uma das nossas castas culturaes podem sahir videiras que dêem uvas da mesma ou diversa côr das da cêpa mãe, e muito distinctas na folhagem, na fórma do cacho, no sabor dos fructos, etc.; são tão instaveis os caracteres dos individuos obtidos de sementeira, que os viveiristas empregam esta operação para alcançarem castas novas. A estaca, o enxerto ou a mergulhia, é que multiplicam a casta sempre identica, dadas apenas as variantes de pórte, de abundancia de producção, de grandeza do cacho, de riqueza saccharina, etc., em harmonia com o clima, com o terreno e com a cultura.
89. - Evidentemente, o homem escolheu e cultivou dentre as fórmas selvagens aquellas cujos fructos melhor correspondiam ás suas necessidades; depois, fazendo parar ahi a variação, isto é, não empregando mais a sementeira, continuou a multiplical-as artificialmente pelos processos acima indicados. E' muito instructivo para este caso, para melhor ajuizar de como se obtiveram as actuaes castas, examinar o que hoje se passa com as videiras americanas: apparece uma fórma recommendavel por qualquer titulo (maior robustez, maior resistencia á phylloxera, melhor adaptação a um certo terreno, etc.); trata-se logo de a multiplicar rapidamente por estaca ou enxertia, e, dentro em pouco, de um individuo sáem centenas ou milhares d'elles, conservando sempre os mesmos caracteres. Foi exactamente o que aconteceu com as velhas castas da V. vinifera.
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90. - Hybridos. - Quando accidental ou propositadamente o pollen de uma videira fecunda os ovulos de uma outra de especie diversa, dá-se uma hybridação, e a planta sahida da semente assim formada chama-se um hybrido. Os hybridos encontram-se espontaneos na natureza (hybridação natural), mas podem ser obtidos pelos cuidados do homem (hybridação artificial).
91. - O hybrido tem caracteres dos dois progenitores, apresentando-se ora intermediario aos dois, ora mais proximo de um d'elles, mas, além disso, tem caracteres seus, proprios; geralmente é de vegetação vigorosa, e os hybridos das especies do genero Vitis são fecundos, ferteis, o que nem sempre acontece aos hybridos das especies d'outras familias.
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92. - O hybrido póde multiplicar-se illimitadamente, sem perder nunca os seus caracteres, por estaca, mergulhia ou enxerto, como qualquer fórma de uma especie pura. Reproduzido por semente é inconstante; a sua descendencia divide-se: um certo numero dos descendentes revertem á especie que deu o pollen (especie masculina); um outro grupo reverte á especie que deu os ovulos (especie feminina); e um terceiro lote inclue individuos com caracteres desordenados, todos dessemelhantes entre si. Tomando por base estas considerações, é que tem sido possivel resolver a origem de alguns hybridos selvagens americanos: vendo quaes as especies puras que apparecem na sua descendencia.
93. - O cruzamento de um hybrido com uma das duas especies progenitoras dá um novo hybrido, em que prepondera a especie cruzada duas vezes; a V. vinifera está hoje sendo muito empregada na hybridação assim conduzida. Em casos mais mal estudados ainda nas videiras, podem tres especies concorrer na formação de um hybrido: dando-se uma segunda hybridação entre um primeiro hybrido e uma terceira especie. E', decerto, mesmo, possivel, a exemplo do que se dá com especies d'outras familias botanicas, que dois hybridos se possam hybridar ainda entre si, concorrendo quatro especies diversas n'esta nova combinação.
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§ 1.º - Castas portuguezas
94. - A Vitis vinifera distingue-se das especies congeneres pela semente attenuada em bico mais estreito e mais comprido, com o raphe pouco pronunciado, e a chalaze grande, não muito evidente, situada quasi no quarto superior do comprimento total (71); distingue-se ainda pela grandeza das auriculas basilares da folha e pela fórma do recorte que ellas contornam (49).
95. - São muito numerosas as castas provenientes da V. vinifera cultivadas em Portugal. A lista dos nomes de videiras portuguezas publicada pelo sr. Taveira de Carvalho no Boletim da Direcção Geral d'Agricultura (n.º 5 - maio de 1889) enumera mais de mil e quatrocentos; embora muitos d'estes nomes sejam synonymos, correspondam á mesma casta conhecida em diversas localidades com denominações differentes, ainda um tão elevado numero deixa larga margem para demonstrar quanto é grande a variedade das nossas videiras. Não se julgue, todavia, que a excessiva quantidade de castas representa sempre a situação mais favoravel; n'uma vinha muito complexa, as castas de menor valor estão occupando o logar das melhores, e dos grangeios nunca resultam os beneficios mais completos: porque nunca se podem realisar na occasião mais propria para todas ellas, vista a diversidade das epochas de vegetação.
96. - Geralmente, em cada uma das nossas regiões vinhateiras, ha um certo numero de castas principaes, sobre que se basea a cultura, acompanhadas de muitas outras de importancia mais secundaria. Pondo de lado, por agora, as castas cujas uvas se utilisam exclusiva ou principalmente para mesa, tentaremos enumerar as mais cultivadas para vinho nas grandes regiões vinhateiras do paiz (1).
(1) Esta enumeração damol-a com toda a reserva. Fundamentámol-a principalmente nas indicações do trabalho referido do sr. Taveira de Carvalho, e d'esse trabalho o que propriamente se pode deduzir é a área de cultura de cada cêpa, dentro da qual, é claro, póde a cêpa ser muito ou pouco cultivada. Notámos, todavia, que, em geral, as castas que figuram em maior numero de listas concelhias, de uma dada região agronomica, são proximamente as que os diversos escriptores da especialidade apontam como mais cultivadas n'essa região (o que se explica, em parte, por muitas das listas, evidentemente incompletas, como já o diz o auctor da publicação, só incluirem as castas mais cultivadas; e, em parte, porque decerto as castas de maior valor e melhor adaptadas são as mais constantes, variando muito mais as secundarias). Nas curtas indicações que seguem cada casta, encostamo-nos ao que dizem os nossos escriptores viticolas (Visconde de Villa Maior, Lapa, Aguiar, os agronomos modernos em numerosas memorias e relatorios, etc.).
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97. - Na região littoral ao norte do Douro que produz os vinhos verdes, e onde a cultura preponderante é a da vinha alta ou mediana, as castas tintas mais largamente empregadas são: Borraçal (uva de bago molle, facil de esborrachar, bastante sujeita a apodrecer, que dá muito vinho, mas molle e de pouca côr); Espadeiro (videira muito productiva, de uvas negras ou avermelhadas, de que ha differentes variedades, sendo o de Basto o que dá melhor vinho); Vinhão, Souzão ou Tinta (videira de producção mediana, cujas uvas fabricam vinho muito tinto e encorpado); Verdelho (casta diversa do Verdelho do Douro, e que recebe este nome pelos cachos purpureos, com apparencia de poucos maduros; produz muito vinho, bastante acido e com pouca côr); Azal (casta muito frequente e muito productiva, que o visconde de Villa Maior julgava ser a Touriga do Douro; produz vinho acido e descorado); Padeira (assim chamada pelo pó esbranquiçado que enfarinha os seus cachos; dá muito vinho, bom, mas falto de côr e com pouca agulha); Cainho e variedades (produz medianamente e avinha bem); Doçal ou Doçar (cêpa de producção abundante ou mediana, e que dá bom vinho). Entre as castas brancas: Loureira (assim denominada porque se lhe attribue dar ao vinho o sabor do louro); Alvarinho (casta que avinha bem e produz muito); Espadeiro branco (producção grande; vinho bom).
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98. - No alto Traz-os-Montes, na terra fria, as castas tintas principaes são: Negreda; Merençã; Mourisco tinto ou Uva de Rei (todas tres reputadas como castas de valor, productivas e de bom vinho); Bastardo (uma das castas que tem mais larga distribuição no paiz; muito temporã, de cacho geralmente pequeno, mas productiva; dá um vinho especial muito fino, pouco tinto, espirituoso); Samarrinha e Cornifesto (ambas de producção abundante e de bom vinho). Entre as castas brancas: Verdelho ou Gouveio (a casta do Douro, muito estimada e de boa producção); Abelhal (pouco productiva, mas de uva muito doce); Mourisco branco (dá vinho muito bom e generoso); Malvasia e variedades (casta valiosa, de producção regular); Godello (bastante menos frequente). Na região média transmontana preponderam as castas do Douro.
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99. - Na região do Douro, que produz os afamados vinhos chamados do Porto, são mais importantes as seguintes castas tintas: Alvarelhão (uma das mais estimadas; produz vinho delgado, pouco tinto, muito gostoso); Mourisco tinto; Touriga (casta de muito valor, que com a antecedente e a Tinta Francisca era a base dos antigos vinhos do Alto Douro; produz vinho generoso e muito coberto); Bastardo; Tinta amarella; Tinta Francisca; Tinta Carvalha (d'estas tres Tintas a segunda é a menos productiva, mas todas são muito estimadas); Mureto (cêpa de muita producção; bom vinho e com bastante côr); Donzellinho do castello (muito productivo; vinho bom, não muito corado). E das castas brancas: Malvasia fina; Malvasia grossa ou Codega (muito productiva; vinho encorpado); Gouveio ou Verdelho (casta muito estimada e de boa producção); Rabo d'ovelha ou Estreito (producção abundante; bom vinho, com certo travo caracteristico); Folgosão (producção abundante; vinho encorpado e bom).
100. - Na parte da Beira Central não comprehendida na região duriense, são mais vulgares as castas tintas: Touriga; Bastardo; Alvarelhão; Riffete (producção regular; vinho tinto, bastante encorpado); Amaral (casta serodia, que, segundo o sr. Aguiar, dá mau vinho e muito acido); Baga (muito productiva). E entre as castas brancas: Arintho (cachos pequenos, mas abundantes, de côr esverdeada; vinho bom e espirituoso); Verdeal (casta muito serodia); Malvasia; Folgosão; D. Branca (cacho de bagos grandes, alambreados; producção variavel); Rabo d'ovelha; Terrantez (uvas um tanto douradas, aromaticas; videira temporã, bastante productiva) Boal e variedades (o Boal cachudo é muito productivo e dá bom vinho; o Boal esfarrapado desavinha muito); Alfrocheiro (muito productivo e serodio; vinho bom); Cerceal ou Esganacão (muito vinho, bom e espirituoso).
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101. - Na região littoral da Beira, que inclue proximamente os districtos administrativos d'Aveiro, Coimbra e parte do de Leiria, preponderam as castas tintas: Bastardo; Mureto; Trincadeira (produz vinho gostoso e bom, não muito tinto); Mortagua (casta excellente, muito productiva e serodia); Sombreirinha (dá vinho fraco); Baga de louro (temporã e de producção abundante); Alvarelhão. E das castas brancas: Arintho; Fernão Pires (uvas muito aromaticas; producção abundante; vinho bom); D. Branca; Rabo d'ovelha; Terrantez; Alvadurão (temporã, productiva e de bom vinho); Alfrocheiro e Boal. E' n'esta zona que está comprehendida a importante região da Bairrada, onde as castas tintas preponderantes são a Baga, Xara, Mureto e Alvarelhão; e as brancas, o Boal de Santarem, Arintho e Bical. Em alguns pontos do districto de Aveiro, cultiva-se tambem a vinha alta, e na producção d'estes vinhos verdes tornam a encontrar-se algumas castas do Minho, taes como o Espadeiro, Borraçal, Verdelho, Azal, etc.
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102. - Na zona seguinte, que abrange sobretudo os districtos de Lisboa e Santarem, são mais communs as castas tintas: Bastardo; Trincadeira; Castellão preto (producção mediana; bom vinho, muito tinto); Tintureiro (a base dos vinhedos de Torres Novas; muito productivo e dando vinho com muita côr); Preto Martinho (muito productivo e serodio); Periquita (muito commum nas vinhas da margem esquerda do Tejo, conjunctamente com a Morteira; parece ser a Trincadeira do Douro; no sul é tambem muito utilisada para embarque e para mesa); Mortagua (que para alguns é synonymo do Ramisco, muito cultivado em Collares); Monvedro (produz bom vinho); Tinta miuda ou do Padre Antonio (cachos pequenos, mas muito numerosos; vinho abundante e com muita côr); Bomvedro (muito productivo; vinho um tanto molle). E das castas brancas: Boal e variedades; Arintho (que fórma a base dos vinhedos de Bucellas); Fernão Pires; Rabo d'ovelha; Malvasia; Gallego (produz medianamente, mas dá vinho muito bom e espirituoso, sobretudo o Gallego dourado, predominante na região de Carcavellos); Camarate ou Carrega-bestas (videira muito temporã e de excessiva producção; querem alguns que seja synonyma do Fernão Pires); Roupeiro (vinho mediano); Formosa e Diagalves (estas duas ultimas castas mais como productoras de uva de mesa).
103. - Na Beira transmontana e parte montanhosa do Alemtejo (districtos administrativos da Guarda, Castello Branco e Portalegre) são mais vulgares as castas tintas: Trincadeira; Castellão; Bastardo; Riffete; Aragonez (que dá bom vinho e abundante); Mureto e Alvarelhão. E as brancas: Arintho; Fernão Pires; Malvasia e variedades; Folgosão; Alva; Tamarez (muito productivo; boa uva para comer e para vinho); Assario (medianamente productivo e de bom vinho; serodio); Verdelho e Formosa.
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104. - Na parte restante do Alemtejo, predominam as castas tintas: Negra molle (videira de cachos pequenos, de producção regular); Trincadeira; Aragonez e Mureto. E as castas brancas: Assario; Roupeiro; Diagalves; Perrum (muito productiva; opiniões muito desencontradas quanto á qualidade do vinho); Mourisco Branco; Tamarez; Boal; Fernão Pires; Formosa; Mantheudo; Sem bagulho (notavel pela finura da pellicula do bago), e Malvasia.
105. - Finalmente, no Algarve são mais communs as castas tintas: Negra molle; Pau Ferro; Crato preto (que dá vinho mediano); Pexem (de bom vinho; producção variavel); Alicante; (vinho muito bom e com muita côr; pequena producção). E d'entre as castas brancas: Boal; Assario; Mantheudo; Tamarez; Sabra.
§ 2.º - Videiras americanas
106. - Quando a phylloxera invadiu as vinhas da Europa, tratou-se logo de introduzir videiras exoticas na cultura: já com o fim de obter cêpas resistentes áquelle insecto e que dessem vinho bom e abundante (productores directos); já com o fim de obter cêpas de raizes resistentes, para serem enxertadas com as antigas castas da V. vinifera (cavallos d'enxertia).
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107. - As videiras asiaticas conhecidas não teem dado nenhuns resultados praticos. Em contraposição, está provado, pela experiencia de bastantes annos, que varias cêpas americanas podem entrar com vantagem na cultura europea, resistindo á phylloxera e vegetando perfeitamente, quando seleccionadas com intelligencia e postas nos terrenos para que são apropriadas. As plantações feitas em Portugal demonstram já bem estas afirmativas, quanto ao caso particular do nosso paiz.
108. - E' certo que, como productores directos, as videiras americanas não podem representar senão um papel muito secundario na regeneração dos vinhedos da Europa; umas dão fructos muito pequenos, pouco abundantes e de má qualidade; outras, e algumas d'essas nem mesmo resistem á phylloxera, produzem fructos maiores e mais copiosos, mas com o sabor foxy (70) desagradavel; finalmente, as que teem sufficiente resistencia á phylloxera e dão vinho melhor, não podem, todavia, competir na qualidade nem de ordinario na quantidade d'elle com as boas castas da V. vinifera. A hybridação das videiras americanas resistentes com as antigas castas europeas talvez de futuro resolva este problema e crie bons productores directos; mas hoje a importancia capital das videiras americanas na Europa é como cavallos de enxertia.
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109. - Consideradas sob este ultimo aspecto, varias cêpas americanas teem um valor pratico incontestavelmente muito grande; apresentam raizes resistentes á phylloxera (16 e seg.); adaptam-se a muitos dos nossos terrenos e climas; vingam bem a enxertia dos garfos europeus, imprimindo-lhes ás vezes um desenvolvimento acima do normal e fazendo entrar a vinha mais cedo em fructificação abundante.
110. - Comtudo, a questão é mais complicada do que á primeira vista póde parecer. As videiras americanas teem graus diversos de resistencia e, se algumas se não resentem com os ataques da phylloxera, muitas outras succumbem, e tanto mais facilmente quanto mais fraca a vegetação, quanto mais desfavoravel o solo e o clima; além d'isto, são sempre, mesmo as que resistem bem á phylloxera, mais exigentes nas condições do terreno e não se adaptam a todos elles, como se adaptava mais ou menos a nossa V. vinifera. O solos em que predomina o calcareo, sobretudo o calcareo friavel, brando, são os de mais difficil reconstituição, onde a maioria das cêpas americanas vae mal ou não póde mesmo viver. Esta falta de adaptação traduz-se pela chlorose, estado em que a videira apresenta as folhas pequenas, encarquilhadas e amarellecidas, e as varas curtas, mais ou menos erectas, do que resulta uma fórma geral arredondada ou emangericada; o estado morbido ainda mais se aggrava, quasi sempre, com a enxertia (1).
(1) E' preciso notar, desde já, que a chlorose das videiras americanas nem sempre é devida á presença de um excesso de calcareo, no solo e nem sempre apresenta a mesma gravidade; mas, quando provém da composição muito calcarea da terra, produz como resultado final a morte mais ou menos rapida da vinha.
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111. - Depois, alguns dos typos selvagens introduzidos teem na America uma larga área de habitação espontanea, isto é, encontram-se em climas e terrenos bastante differentes: e assim os bacellos do mesmo typo, segundo a proveniencia, podem ter vegetação e exigencias muito distinctas. Por outro lado, a sementeira e a selecção methodica já modificaram ou apuraram convenientemente certas fórmas, e as hybridações teem creado outras. Tudo isto, origina em redor de cada typo um grande numero de fórmas, com desenvolvimento e aptidões especiaes, o que ainda torna mais incerta e difficil a boa escolha do cavallo para uma dada situação.
112. - Passâmos ao estudo das especies americanas, sob o ponto de vista do seu aproveitamento em Portugal (2).
113. - Vitis riparia, Michaux. (Especie espontanea da America do Norte, com vasta área de habitação). - Arbusto vigoroso, trepador ou largamente prostrado, com o tronco de ordinario delgado; casca secca desprendida em fitas estreitas e espessas. Sarmentos compridos, geralmente delgados, de côr variavel (acastanhado-avermelhada, acastanhado-amarellada, acinzentada, etc.), glabros ou avelludados, com os merithallos longos. Gavinhas discontínuas, delgadas. Folhas novas dobradas muito tempo em gotteira; folhas adultas de tamanho mediano, mais compridas que largas, não lobadas ou mais ou menos tri ou quinquelobadas (fundamente lobadas na fórma palmata), duplamente dentadas, com os dentes grandes, agudos, irregulares; chanfro basilar muito aberto; pagina superior glabra, e a inferior, de côr mais clara, com pellos grupados no angulo das nervuras, ou com as nervuras completamente pelludas. Cacho pouco apertado, com os bagos irregulares, pequenos, esphericos, de gosto acidulo e acerbo; grainhas pequenas com a chalaze pouco saliente, alongada, e o raphe pouco pronunciado.
(2) As resumidas descripções que apresentamos são principalmente fundamentadas nos dados do Cours complet de Viticulture, do sr. G. Foëx (Paris, 1891).
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114. - A Riparia é muito resistente á phylloxera; péga muito bem de estaca; é de muito facil enxertia e accommoda-se ao maior numero das nossas castas; os enxertos fructificam sobre ella muito depressa e muito abundantemente. Nota-se como principal defeito de varias das suas fórmas o engrossarem de ordinario pouco, não acompanhando bem o garfo. Alguns maus resultados obtidos na cultura d'esta especie devem principalmente attribuir-se á má escolha das fórmas, ou a não ter sido collocada em terrenos proprios, pois que ella, como todas as americanas, não tem a plasticidade da V. vinifera; mas, sem contestação, é o cavallo americano por excellencia, o que incita o garfo a producção maior, e o que deve sempre preferir-se nas terras em que a sua cultura seja possivel - em todas as terras medianas, que tenham pelo menos 40 a 50 centimetros de profundidade, de facil esgoto, quer sejam argillo-siliciosas, argillo-calcareas ou mesmo argillosas (1).
(1) Congresso Viticola de Lyão (1894).
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115. - Conhecem-se-lhe muitas fórmas (n'algumas das quaes tem talvez entrado a hybridação), umas selvagens outras culturaes, e cujo valor é muito diverso. O sr. Viala dividiu as fórmas selvagens em dois grupos - glabras e tomentosas - caracterisadas as primeiras pelas folhas glabras desde novas ou só com alguns raros pellos nas nervuras da pagina inferior, e as segundas pelo avelludado das folhas novas e pampanos. As fórmas d'este ultimo grupo encontram-se espontaneas nas margens dos rios e nas alluviões ferteis, por isso exigem entre nós terrenos com um certo grau de frescura; para as terras seccas, são mais proprias as do primeiro grupo. Na classificação do sr. Viala, as subdivisões d'estes dois grupos apoiam-se nas dimensões da folha e nos seus recortes, espessura, e aspecto baço ou lustroso da pagina superior.
116. - Póde estabelecer-se, como regra geral, que as melhores fórmas, dentro de cada grupo, são as de tronco mais grosso, de merithallos menos longos, de folhas grandes (para a especie) e não lobadas, no grupo das glabras devem, além d'isto, preferir-se as de folhas mais espessas e lustrosas na pagina superior. As fórmas com as folhas pequenas e mais lobadas são pouco vigorosas, não têem importancia cultural.
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117. - Em França, ha fórmas seleccionadas, de maior valor, em cada grupo. Entre as fórmas glabras, de folhas espessas e lustrosas, onde, considerada a questão em absoluto, se incluem, segundo o sr. Foëx, as melhores de todas as Riparias, designa este auctor como dignas de particular interesse a Riparia Scuppernong (do Jardim de Acclimação), a Riparia Portalis ou Gloria de Montpellier, a Riparia n.º 13 de Meissner ou Grande glabra, a Riparia Fabre, etc.; entre as Riparias glabras de folhas espessas e baças destaca a Riparia baron Perrier; entre as Riparias de folhas delgadas a Riparia Martin des Pallières ou Gigante. A Gloria de Montpellier, a Grande glabra e a Tomentosa gigante, são tres fórmas das mais preconisadas, e já bastante introduzidas no nosso paiz.
118. - Das fórmas de Riparia (ou derivadas de Riparia) cultivadas na America como productores directos e introduzidas na Europa, citaremos o Taylor e o Clinton (1). O Clinton não tem importancia para nós, nem como productor directo nem como cavallo, porque resiste pouco á phylloxera e é de difficil adaptação ao terreno, apresentando grande tendencia para se tornar chlorotico (110). O Taylor, como productor directo é de muito pequena producção; como cavallo, engrossa bastante, péga facilmente de estaca e desenvolve bem os enxertos; mas só se adapta a umas condições restrictas de terreno (segundo o sr. Foëx, aos de consistencia mediana ou mesmo um pouco fortes comtanto que sejam bem drenados, ou aos leves e frescos); ainda assim, continúa o mesmo auctor, são-lhe preferiveis as fórmas selvagens da V. riparia, que o excedem em rusticidade e em resistencia aos ataques da phylloxera. São videiras estas geralmente abandonadas hoje.
(1) Considerados por muitos como hybridos da V. riparia e da V. labrusca.
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119. - Vitis rupestris, Scheele. (Especie da parte meridional dos Estados Unidos, onde, como o seu nome o indíca, se encontra principalmente entre os rochedos e nos terrenos mais seccos). - Arbusto de porte semi-erecto, ramoso, formando moita, ou menos vezes rastejante ou prostrado, com o tronco grosso e curto. Sarmentos medianos ou pequenos, bastante grossos ou delgados, com merithallos curtos; no estado herbaceo, purpureos, sobretudo nos nós e na extremidade, e tendo n'essas regiões pellos tearaneos; depois de atempados, castanho-avermelhados ou castanho-amarellados. Gavinhas discontínuas, grossas ou delgadas, ás vezes quasi nullas. Folhas pequenas, cordiformes ou reniformes, mais largas do que compridas, não lobadas ou trilobadas, com dentes irregulares, dobradas em gotteira, completamente glabras nas duas paginas, glaucas (verde-azuladas) e com as nervuras rosadas na pagina superior (em novas). Cacho pequeno, frouxo, irregular, com os bagos pequenos, negros, sem gosto especial; sementes pequenas, com a chalaze pouco saliente, alongada, confundindo-se com o raphe, que é pouco pronunciado, como na V. riparia.
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120. - A Rupestris tem grande resistencia á phylloxera; desenvolve-se com vigor e, como engrossa muito, acompanha bem o enxerto. Não enraiza, todavia, com tanta facilidade como a Riparia; a sua enxertia falha mais, e os enxertos são menos productivos. Tem sido empregada em Portugal com bons resultados; devendo aconselhar-se para certos terrenos que não podem ser aproveitados pela Riparia, sobretudo para os outeiros pedregosos e seccos, e ainda para algumas margas e argillas.
121. - Só tem a Rupestris fórmas selvagens. Em absoluto, as fórmas prefevereis são as menos ramificadas e que não emoitam, de folhas maiores e menos dobradas em gotteira; entre as que emoitam, são melhores as de folhas lustrosas nas duas paginas.
122. - As suas principaes fórmas seleccionadas são: Rupestris Ganzin, caracterisada pelo pórte em moita rasteira, e pelas folhas pequenas, imbricadas, muito dobradas em gotteira, verde-amarelladas; Rupestris Fortworth, R. Metallica, R. Mission, R. Martin, etc., de lançamentos reptantes e folhas verde-escuras, com reflexos metallicos; Rupestris Monticola, (R. Saint-Georges, R. du Lot ou Phenomeno), de pórte erecto, com as ramificações principaes prostradas, e as folhas pouco dobradas em gotteira. Esta ultima videira, que para uns é uma fórma da V. rupestris, e para outros um hybrido da V. rupestris e V. monticola, é bastante notavel pela sua resistencia á chlorose nos terrenos não excessivamente calcareos.
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123. - Vitis Berlandieri, Planchon. (Especie do sudoeste dos Estados Unidos). - Arbusto vigoroso, prostrado ou trepador, com o tronco de mediana grossura. Sarmentos compridos, delgados, de secção polygonal, sinuosos, de merithallos compridos, com floccos de pellos ou em toda a superficie ou só proximo dos nós. Gavinhas discontínuas. Folhas tornando-se planas cedo, pequenas ou medianas, orbiculares ou cordiformes, ás vezes trilobadas, com o chanfro basilar em fórma de V ou de U, com os dentes muito curtos e obtusos; verde-escuras e geralmente lustrosas na pagina superior, e na inferior mais claras, subglabras ou pubescente-acinzentadas. Cacho mediano, compacto, com os bagos pequenos, esphericos, negros, sem gosto particular; sementes medianas, com o bico curto e obtuso, com a chalaze de ordinario alongada e o raphe pouco saliente.
124. - A Vitis Berlandieri péga mal d'estaca e desenvolve-se pouco nos primeiros annos; mas tanto ella como alguns dos seus hybridos teem hoje particular interesse para a reconstituição das vinhas em terrenos calcareos, onde as outras videiras americanas não podem viver; por isso a enumerâmos. E' muito resistente á phylloxera. Em Portugal é ainda pouco conhecida, e parece que em alguns ensaios não se tem desenvolvido bem. As suas fórmas mais estimadas em França são as seguintes: Berlandieri d'Angeac, Berlandieri Rességuier n.os 1 e 2, Berlandieri Capdeville, etc.
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125. - Especies americanas restantes. - As tres especies que deixâmos indicadas são as unicas, como especies puras, que teem real importancia na actualidade para a cultura. As duas primeiras são de todas as videiras americanas as mais conhecidas no paiz e as que até hoje têem dado maior numero de resultados favoraveis.
126. - A V. aestivalis é sobretudo digna d'attenção pelos hybridos, entre os quaes sobresáe o Jacquez, que adeante, em logar competente, indicaremos (134).
127. - A V. labrusca encontra-se selvagem e cultivada na America do Norte; produz cachos de bagos grandes, mas com o sabor foxy. Por outro lado, resiste muito pouco á phylloxera e algumas das suas variedades são de difficil adaptação ao terreno; não deve ter, pois, valor cultural entre nós. As suas variedades mais conhecidas na Europa são a Isabella, Concord e Catawba; a primeira é bastante cultivada em S. Miguel, sob o nome de Uva de cheiro, e foi introduzida pela sua resistencia notavel ao oídio.
128. - Algumas outras especies americanas é possivel que obtenham no futuro importancia cultural na Europa, como cavallos, mas não teem por emquanto valor pratico; taes são, segundo os dados do sr. Foëx: - A V. arizonica, que parece muito rustica e dotada de sufficiente resistencia á phylloxera, mas cuja cultura apenas está em ensaios. A V. monticola, que enraiza muito facilmente d'estaca e parece vegetar bem nos terrenos seccos, vivendo até em alguns calcareos, embora ahi lhe seja preferivel a V. Berlandieri. A V. candicans, V. cinerea e V. cordifolia, todas bastante resistentes á phylloxera, e que parece terem a aptidão muito valiosa de vegetarem nos terrenos calcareos; mas todas ellas pegam mal d'estaca e as tentativas da sua cultura apresentam resultados contradictorios (1).
(1) Notaremos que, em alguns pontos de Portugal, a V. cinerea tem muito boa vegetação.
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129. - As especies restantes (V. rotundifolia, V. Munsoniana, V. californica. V. caribaea, V. Linsecomii, V. bicolor e V. rubra) não teem condições para a cultura europea: como productores directos, dão fructos pequenos ou maus, ou não os amadurecem convenientemente; como cavallos, ou são de difficil enxertia, ou pegam muito mal d'estaca, ou são pouco plasticas e não se adaptam bem á maioria dos terrenos. Varias d'ellas são, ainda, muito atacadas pela phylloxera, ou exigem condições climatericas diversas das nossas.
130. - Hybridos. - As videiras hybridas (90), quer provenientes do cruzamento das especies americanas entre si, quer do cruzamento d'estas com a V. vinifera, tomaram desde a introducção das cêpas americanas (embora para varias se ignorasse então a sua origem hybrida) grande importancia cultural. As tentativas d'hybridação alargam-se todos os dias, acreditando muitos que n'ellas está o melhor futuro da viticultura da Europa. Os hybridos introduzidos ha mais tempo na cultura são os seguintes, que passamos a enumerar.
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131. - Solonis. (V. riparia × candicans (1), Viala. - Hybrido selvagem americano). - Arbusto vigoroso, prostrado, ramoso, de tronco grosso e curto. Sarmentos compridos, delgados, subcylindricos, muito pouco sinuosos, de merithallos compridos; em herbaceos, purpureo-escuros e levemente pubescentes na extremidade; depois de atempados, cinzento-acastanhados, lizos, com floccos de pellos persistentes nos nós. Gavinhas discontínuas, bifurcadas. Folhas dobradas em gotteira; em adultas de mediano tamanho, typicamente não lobadas, duplamente dentadas, com os dentes compridos, agudos, irregulares e de ordinario maiores no sitio dos lobulos (ou lobadas, na fórma lobata); verde-glaucas e glabras na pagina superior, mais claras e levemente pubescentes na inferior; chanfro basilar pouco fundo e muito aberto. Cacho pequeno, com os bagos pequenos ou muito pequenos, globosos, negros, de sabor acido pouco agradavel.
132. - A Solonis, em varias das nossas localidades vinhateiras, tem dado resultados muito satisfactorios; tem a vantagem de poder aproveitar os solos compactos, um pouco humidos, e até um tanto salgados. As boas fórmas resistem sufficientemente á phylloxera, quando bem adaptadas, e apresentam vigor e rusticidade notavel; é pouco sujeita á chlorose. Enraiza bem d'estaca, havendo o cuidado de não empregar bacellos excessivamente grossos; enxerta-se com facilidade e desenvolve com grande vigor os enxertos de muitas das castas portuguezas, imprimindo-lhes fructificação precoce e abundante. No recente congresso viticola de Lyão, foi todavia contraconselhado o emprego d'esta videira, em virtude da sua menor resistencia, e afirmada a vantagem de se lhe preferir a Rupestris Monticola (122), ou os hybridos Riparia × Rupestris (143), nas terras improprias para as Riparias.
(1) Os dois nomes separados pelo signal × são os das duas especies que entram na hybridação. Para o sr. Millardet, a Solonis é um hybrido mais complexo, em que tambem toma parte a V. rupestris; alguns dos nossos viticultores e agronomos confirmam com as suas observações esta opinião.
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133. - A fórma de folhas lobadas é de vegetação mais fraca e muito menos resistente á phylloxera; não deve por isso empregar-se; já entre nós tem succumbido muito aos ataques d'este insecto. Conhece-se em França, com o nome de Solonis robusta, uma fórma muito vigorosa, de varas compridas e grossas, que é das mais recommendadas.
134. - Jacquez. (V. aestivalis × vinifera (1). - Hybrido selvagem americano). - Arbusto vigoroso, semi-erecto, com o tronco robusto. Sarmentos compridos, de mediana grossura, quasi rectilineos, bastante ramosos, de merithallos um tanto compridos, subcylindricos; em herbaceos levemente purpureos, depois de atempados castanho-claros, com a côr mais aberta nas extremidades. Gavinhas discontínuas, grossas, bi-trifurcadas. Folhas com tres ou cinco lobulos, de ordinario profundos (bem como o chanfro basilar), bidentadas, com os dentes deseguaes, obtusos; em novas, densamente tomentosas; em adultas, glabras ou subglabras e verde-escuras na pagina superior, e na inferior mais claras, com pellos sobre as nervuras. Cachos grandes, cylindricos ou cylindro-conicos, ás vezes alados, com os bagos não muito apertados, esphericos, negro-violaceos.
(1) Alguns querem que seja um hybrido mais complexo, em que entra tambem a V. cinerea.
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135. - O Jacquez é tido como sufficientemente resistente á phylloxera, quando bem adaptado ao terreno; mas é ainda menos resistente que a Solonis. E' pouco sujeito á chlorose, e de facil adaptação, tomando particular desenvolvimento nos solos fundos, ricos e frescos. Como productor directo, fornece vinho muito tinto, sem sabor foxy, alcoolico, bom, mas commum e principalmente proprio para lotações. E' muito atreito á anthracnose e muitissimo ao míldio, que lhe ataca sobretudo o cacho; está sendo hoje, mesmo em França, muito pouco utilisado como productor directo. Em Portugal, citam-se casos de ter succumbido á phylloxera, sobretudo depois de enxertado. Não péga muito bem d'estaca. No recente congresso de Lyão, foi aconselhado, como para Solonis (132), que se preferisse ao emprego do Jacquez, como cavallo, nos casos onde a Riparia e a Rupestris não vão bem, a Rupestris Monticola e os hybridos Riparia × Rupestris.
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136. - O Saint-Sauveur é uma videira obtida em França, n'uma sementeira de Jacquez, pelo sr. Gaston Bazille; foi muito adoptado ao principio, mas está hoje posto de parte; soffre muito com o míldio e a sua resistencia á phylloxera é insufficiente.
137. - York-Madeira. (Hybrido da V. labrusca, segundo uns; Aestivalis × Cinerea × Vinifera, segundo outros. Originario dos Estados Unidos, onde a sua cultura está quasi abandonada). - Arbusto prostrado. Sarmentos compridos, delgados, com os merithallos curtos ou medianamente longos, cannelados, tomentosos e esverdinhados no estado herbaceo, e depois de atempados ruivo-acastanhadas. Gavinhas discontínuas, bifurcadas. Folhas adultas medianas, cordiforme-polygonaes, não lobadas ou tendo de cada lado um lobulo pouco apparente, duplamente dentadas, com os dentes de ordinario curtos e obtusos; em novas tomentosas, em adultas glabras na pagina superior, e na inferior lanuginosas, esbranquiçadas; chanfro basilar aberto. Cacho pequeno, as mais das vezes alado, frouxo, com os bagos medianos, esphericos, negros, dando vinho com sabor foxy.
138. - Tem sido empregada como cavallo, na Europa, e em varios pontos do nosso paiz tem boa vegetação. Resiste bastante á phylloxera, mais do que o Jacquez e a Solonis; enraiza e enxerta-se com facilidade, dando muito boas soldaduras; adapta-se á maioria dos terrenos, até aos fracos e seccos, comtanto que não sejam cretaceos. Tem o defeito de se desenvolver pouco nos primeiros annos, todavia depois do terceiro anno engrossa bem; mas é de mais fraca vegetação que muitas outras americanas, e os seus enxertos são menos productivos. Em França preferem-lhe hoje a Rupestris, que alimenta mais rapidamente o garfo e, segundo o sr. Foëx «tem as mesmas qualidades».
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139. - Vialla. (Hybrido oriundo da America, obtido em França n'uma sementeira de Clinton). - Arbusto prostrado, de tronco robusto, com os sarmentos medianamente grossos, quasi rectos, de merithallos um tanto alongados, verdes em novos, acastanhado-arroxados depois d'atempados. Gavinhas contínuas. Folhas novas pubescente-tearaneas, em adultas bastante grandes; não lobadas, orbiculares, com os dentes pequenos e obtusos; subglabras na pagina superior e pubescente-esbranquiçadas na pagina inferior; chanfro basilar bastante aberto. Cacho pequeno, alongado, simples, com os bagos apertados, medianos, esphericos, negros, com sabor foxy.
140. - A Vialla péga muito bem d'estaca; é de muito facil enxertia e dá soldaduras notavelmente perfeitas. Tem grande vigor nos terrenos frescos, para os quaes é essencialmente propria, dando-se muito mal nos seccos, nos argillosos e nos superficiaes, bem como nos calcareos. Vegeta favoravelmente em varios pontos do paiz. Parece ter, quando bem adaptada, sufficiente resistencia á phylloxera. Não augmenta a producção do garfo tanto como a Riparia e a Solonis.
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141. - Hybridos modernos para cavallos d'enxertia. - Muitissimos mais hybridos se conhecem hoje, uns espontaneos ou occasionaes, outros resultantes do trabalho de especialistas distinctos, que, n'esse campo, onde já têem colhido resultados muito auspiciosos, antevêem o principal futuro da viticultura europea. Entre os primeiros, alguns teem sido cultivados na Europa, com resultados variaveis, mas nenhum tomou grande importancia, e todos estão cada vez mais abandonados. Entre os segundos, uns são inferiores ás cêpas já conhecidas, outros parece terem bastante valor, mas, sendo relativamente modernos, só a titulo d'ensaio é prudente aconselhar por emquanto a cultura do maior numero d'elles.
142. - N'este ultimo grupo, citaremos particularmente: os hybridos proprios para cavallos nos terrenos bastante calcareos, cretaceos, e entre os quaes o sr. Foëx aconselha Cabernet × Berlandieri n.os 329, 332 e 333 da Escola d'Agricultura de Montpellier, e o Gros Colman × Rupestris do sr. Millardet. São pouco conhecidos em Portugal.
143. - Os Aramon × Rupestris n.os 1 e 2, obtidos pelo sr. Ganzin, do cruzamento da casta franceza Aramon, notavel pela sua grande producção, com a V. rupestris, têem-se mostrado entre nós muito vigorosos, em diversos pontos, comportando-se como excellentes cavallos e vingando muito bem as enxertias. Parece terem facil adaptação ao terreno e diz-se que em França têem resistido em solos argillo-calcareos, onde muitas videiras americanas morreram ou soffreram bastante da chlorose. Os hybridos Gamay-Couderc estão tendo bastante emprego em França, até sobre terrenos calcareos. Os hybridos Riparia × Rupestris tambem em Portugal têem adquirido grande desenvolvimento e dado boas enxertias; os mais afamados são Riparia × Rupestris n.os 3309 e 3306 Couderc, e Riparia × Rupestris n.º 101 Millardet.
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144. - Hybridos productores directos. - Entre os hybridos productores directos obtidos pelos viveiristas, citaremos: Alicante × Rupestris n.º 20 Terras; hybrido Seibel n.º 1; Clairette-dorée Ganzin (uva branca), e os hybridos Couderc; mas todos elles são ainda pouco experimentados, e nenhum tem dado resultados praticos incontestaveis (1). Entre os hybridos productores directos espontaneos ou occasionaes, além do Jacquez de que já nos occupámos n'outro logar (134 e seg.), enumeraremos os seguintes, cujo valor pratico é cada vez mais secundario:
144 bis. - Herbemont. (Hybrido de origem identica ao Jacquez; existe selvagem no sul dos Estados Unidos, onde é cultivado). Produz vinho sem sabor foxy, mais agradavel mas menos tinto que o do Jacquez. E' videira pouco atacada pelas doenças cryptogamicas e tem sido ensaiada na Europa, tanto como productor directo como cavallo; mas exige condições muito especiaes de terreno e de clima, tendo por isso difficil adaptação; não péga bem d'estaca e soffre mal a enxertia, dá pequena percentagem de bons enxertos. Tem já sido entre nós victimada pela phylloxera e é considerada inferior ao Jacquez.
(1) Congrès Viticole et Agricole de Lyon - Compte rendu in-extenso, pag. 18 - Paris, 1894.
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145. - Cunningham. (Hybrido proveniente do sul dos Estados Unidos, e cuja derivação é identica á do Herbemont e Jacquez). - Productor directo, cujo vinho é bastante alcoolico, mas falto de côr; péga mal d'estaca; tem pequeno rendimento, e maturação muito tardia. Como cavallo, é difficil d'enxertar e torna os enxertos pouco productivos. E' caprichoso na adaptação ao terreno e duvidosa a sua resistencia á phylloxera. É já muito pouco cultivado.
146. - Black-July. (Hybrido cuja derivação e patria são analogas ás dos anteriores). - Produz vinho de boa qualidade e com boa côr, embora não tão retinto como o do Jacquez; é pouco productivo; tem mediana resistencia á phylloxera. Foi abandonado em França, logo depois das primeiras experiencias.
147. - Othello (Clinton × Vinifera). Produz vinho tinto não muito corado, ordinario, com sabor levemente foxy; produz sufficientemente nos bons solos, e não tem grandes exigencias na adaptação ao terreno; mas é muito atacado pelo míldio, tem insufficiente resistencia á phylloxera, e nos climas quentes a sua vegetação soffre com os golpes de sol.
148. - Canadá (Clinton × Vinifera). Produz vinho não muito tinto, um pouco acido, mas são de gosto; nas terras fundas, ricas e frescas, parece ter mais alguma resistencia á phylloxera, mas em geral é muito pouco resistente, e pouco productivo.
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149 - Cornucopia (Clinton × Vinifera). Vinho semelhante ao anterior, mas com gosto levemente foxy; videira tambem pouco productiva e muito pouco resistente á phylloxera.
150. - Senasqua (Labrusca × Vinifera). Produz vinho sem sabor foxy, mas descorado; resiste muito pouco á phylloxera, como em geral os cruzamentos da V. labrusca, sobretudo quando realisados com a V. vinifera.
151. - Elvira (Taylor × Sphinx). Produz vinho branco, com leve gosto foxy; péga bem d'estaca; é regularmente productiva, mas é pouco resistente á phylloxera. Em Portugal tem apresentado fraco desenvolvimento, n'uns casos, e tem-se mostrado muito melindrosa aos agentes atmosphericos, n'outros.
152. - Noah (Taylor × Labrusca?). Produz vinho branco, com sabor foxy; péga bem d'estaca e desenvolve-se depressa, mas tem sido em Portugal bastante atacado pela phylloxera; não resiste ao calcareo.
153. - Triumph (Concord × Vinifera). Videira de desenvolvimento vigoroso, que dá boa uva branca, mas de sabor foxy; é muito pouco resistente á phylloxera.
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