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Tratado Elementar da Cultura da Vinha/IX

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CAPITULO IX

Insectos, aracnideos, molluscos e vermes que prejudicam a videira

692. - Uns d'estes animaes exercem acção destructiva sobre as raizes, outros sobre a parte aerea das videiras. Em regra, os primeiros são muito mais perigosos, e as vinhas sujeitas aos seus ataques não resistem, emquanto os segundos, podem anniquilar uma colheita ou enfraquecer muito a vegetação, mas, em condições ordinarias, não provocam a morte das cêpas.

A: nas raizes

§ 1.º - A phylloxera

693. - A phylloxera (Phylloxera vastatrix) é um insecto sugador, da ordem dos Hemipteros, originario da America do Norte, segundo o demonstrou Planchon, importado pelos viveiristas para as vinhas europeas, onde se tem propagado de um modo assombroso, destruindo incalculaveis riquezas e tornando-se, inquestionavelmente, o maior inimigo d'esta cultura. Em Portugal, appareceu pela primeira vez no Alto Douro, na freguezia de Goivinhas (concelho de Sabrosa - districto de Villa Real); foi de 1862 para 1863 que se começou a notar o definhamento das videiras atacadas, mas sem ainda se conhecer a causa que o motivava. A invasão extendeu-se, depois, ao longo dos soberbos vinhedos do Douro, onde esteve acantonada algum tempo, e logo que poude irradiar para o norte e para o sul, nos poucos annos decorridos, alastrou-se por todas as provincias, com excepção, até hoje, do Algarve.

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694. - Descripção e modo de vida. - O cyclo biologico, tão complexo, da phylloxera foi principalmente estudado pelos especialistas francezes. Este insecto, pelo menos quando vive em condições favoraveis, sobre uma cêpa americana apropriada, apresenta quatro fórmas bem distinctas: a fórma gallicola, a fórma radicicola, a fórma alada e a fórma sexuada. Os insectos de todas estas fórmas produzem óvos, mas só os da ultima é que teem sexos; os individuos das tres primeiras fórmas multiplicam-se todos sem fecundação prévia (reproducção parthenogenesica). As fórmas gallicola, alada e sexuada vivem na parte aerea da videira, e directamente não occasionam damnos sensiveis na vegetação; a fórma radicicola é subterranea, vive nas raizes, e é ella que directamente destróe as vinhas não resistentes.

695. - Tomêmos para ponto de partida o ôvo da fórma sexuada. A femea, depois de fecundada pelo macho, põe um ôvo unico, em agosto ou setembro, e que recebeu o nome de ôvo d'inverno, porque persiste, durante essa estação, preso na parte aerea da videira, de ordinario sob a casca da vara de dois annos, e só na primavera seguinte se desenvolve. Os insectos sahidos do ôvo d'inverno, segundo uns observadores, dirigem-se sempre para as folhas, onde vão constituir a fórma gallicola; segundo outros, pódem, em certas circumstancias, tornar-se directamente radicicolas, ficando assim supprimida aquella primeira fórma. Os insectos da fórma gallicola (Fig. 69) multiplicam-se todos sem fecundação; não teem azas; são em novos muito ageis, de côr amarello-clara, ovoides, e com uns 30 a 40 centimillimetros de comprimento; teem tres pares de patas, duas antennas com tres articulos, e um grande apparelho sugador, dobrado ordinariamente sobre o corpo, formado de tres sedas, envolvido por uma bainha composta de quatro peças. Soffrem tres mudas e vão-se tornando cada vez menos alongados; depois da terceira muda são bastante maiores (Fig. 70), pyriformes ou quasi esphericos, de côr mais escura, e n'este estado é que põem os óvos (poedeiras).

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Fig. 69. - Phylloxera: fórma gallicola - insecto sahido do ôvo de inverno (muito ampliado).

Fig. 70. - Phylloxera: forma gallicola - mãe poedeira (muito ampliada - mas menos que a fig. prox.).

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696. - N'esta fórma gallicola, a phylloxera perfura, com o rostro, um ponto da folha da videira, e a hypertrophia do tecido vegetal, collocado em roda, origina uma excrescencia ou galha, dentro da qual fica o insecto. As galhas phylloxericas têem sido observadas principalmente sobre certas videiras americanas, e muito mais raras vezes na videira europea; já foram vistas entre nós, mas em pequenissimo numero. As galhas encontram-se na pagina inferior da folha (Fig. 71), e teem uma abertura linear para a parte superior (1); primeiro são verdes, mas mais claras que o parenchyma restante, depois notam-se-lhes frequentemente listas vermelhas; teem na superficie pequenos tuberculos e, tanto no exterior como no interior, apresentam pellos curtos e rigidos, bem como nos bordos da fenda; o seu diametro excede ás vezes 4 mill. Nos raros casos em que têem sido vistas nas videiras europeas, estavam situadas nas folhas mais novas e mais tenras da extremidade do pampano, eram menores e menos tuberculosas. Cada phylloxera das galhas, depois das tres mudas, e tendo passado a poedeira, produz de 500 a 600 óvos, primeiro amarellos e que depois escurecem, d'onde sáem, no fim de 7 ou 8 dias, insectos de segunda geração, semelhantes aos da primeira, mas menores. De ordinario, dentro de cada galha encontra-se uma poedeira, ás vezes duas ou tres, com os óvos respectivos e os insectos da segunda geração. Estes insectos da segunda geração sáem da galha e vão formar outras analogas, nas folhas, nas gavinhas ou nos pampanos; as cousas continuam assim, até que sobrevenham os frios, podendo haver até 7 gerações annuaes, mas as ultimas são menos fecundas e cada um dos seus individuos não põe mais de 100 a 200 óvos. Desde a terceira geração, alguns insectos emigram para o terreno, ou ao longo da cêpa, ou deixando-se cahir directamente. Quando os frios apertam, as poedeiras gallicolas morrem, e os insectos novos das galhas dirigem-se para as raizes, onde hibernam.

Fig. 71. - Galha phylloxerica (ampliada).

(1) As galhas phylloxericas não se devem confundir com as galhas produzidas pela Cecidomya oenophila (809), que são bastante analogas; differençam-se as ultimas em serem salientes para as duas paginas da folha, terem fórma conica, e a abertura situada na parte inferior.

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697. - A fórma radicicola é a que produz os grandes estragos na vinha; como dissémos, ou provém sempre, segundo uns, da fórma gallicola, ou póde provir, segundo outros, directamente do ôvo d'inverno. Os insectos subterraneos multiplicam-se, tambem, todos sem fecundação, e soffrem egualmente tres mudas, para passarem a poedeiras; em novos (Fig. 72) são amarellados (tomando côr mais viva depois das mudas) e têem fórma semelhante aos gallicolas, mas com a edade apresentam series longitudinaes, regulares e symetricas, de tuberculos, muito salientes nas poedeiras. Estas ultimas (Fig. 73) são amarello-acastanhadas; são mais escuras, menores, e teem o abdomen menos intumescido do que as poedeiras das folhas; põem de 25 a 100 óvos, presas pelo sugador á raiz que não abandonam, e em seguida morrem; d'estes óvos sáem gerações identicas, e assim successivamente, podendo crearem-se n'um anno até 8 gerações. Parece que, em casos muito raros, alguns d'estes radicicolas novos sáem da terra e passam a ter vida gallicola, nas folhas. Ao chegar o inverno, quando a temperatura desce, por novembro, os insectos da ultima geração, que ainda não soffreram a primeira muda, ficam entorpecidos pelo frio, e hibernam, grupados nas raizes não muito delgadas, e em maior numero nas mais afastadas da superficie do solo; dos insectos que já soffreram a primeira muda, uns morrem, outros conseguem seguir as phases do seu desenvolvimento, mas mais lentamente, e pôr óvos. Os hibernantes são mais escuros, magros, com o corpo deprimido; quando o frio é intenso estão completamente immoveis, mas entre nós, favorecidos decerto pelo clima, temol-os visto sempre apresentarem alguns movimentos. No estado d'hibernação, a phylloxera das raizes supporta impunemente rebaixamentos de temperatura de 8 e 10° abaixo de zero, se o tempo corre secco; o frio humido é-lhe mais nocivo. Na primavera, os hibernantes despertam, tornam-se mais claros e seguem as mudas, como se não tivesse havido o descanço hibernal. Nos paizes meridionaes, como o nosso, não só o inverno é menos frio, e por isso menos funda a lethargia da hibernação, mas ainda, é menor o periodo d'essa hibernação - ao que corresponde um maior numero de gerações radicicolas annuaes, isto é, um ataque mais energico da vinha.

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Fig. 72. - Phylloxera: fórma radicicola - insecto novo (muito ampliado).

Fig. 73. - Phylloxera: fórma radicicola - mãe poedeira (muito ampliada - mas menos que a fig. prox.).

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698. - D'alguns óvos das poedeiras da fórma radicicola sáem insectos que, em vez de soffrerem tres mudas e passarem á phase da poedeira, experimentam cinco mudas, transformando-se primeiro em nymphas (Fig. 74), que são mais alongadas, e teem uns rudimentos d'azas, e depois em alados (Fig. 75). A passagem do insecto radicicola a nympha dá-se ainda nas raizes, mas a nympha, em condições normaes, sáe da terra, e na parte aerea da videira é que se transforma em alado. Estes alados teem o corpo alongado, amarello com o corselete negro, e quatro azas horisontaes, cinzentas, transparentes e muito tenues, as duas anteriores muito maiores do que o corpo (o corpo e as azas fechadas medem uns 2 millimetros proximamente); teem, as antennas, em proporção, maiores do que as das nymphas e com o terceiro articulo muito comprido; teem os olhos multiplos. Os alados são mais ageis do que os insectos sem azas; voam bem no ar tranquillo, e podem ser levados muito longe pelo vento; são os principaes agentes da disseminação phylloxerica a distancias grandes. Todos os alados se multiplicam sem fecundação; cada um põe de 3 a 8 óvos, na parte aerea da videira, nas folhas, nos gommos, nos ramos ou na cêpa, debaixo da casca. Em Portugal, os alados teem sido vistos de junho a outubro.

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Fig. 74. - Phylloxera: nympha (muito ampliada).

Fig. 75. - Phylloxera alada (muito ampliada).

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Fig. 76. - Phylloxera: phase sexuada - insecto masculino (muito ampliado)

Fig. 77. - Phylloxera: phase sexuada - insecto feminino (muito ampliado).

699. - Os óvos dos alados são de duas naturezas: uns mais pequenos, outros maiores; de ordinario, os ultimos são mais numerosos. D'estes óvos, passados 4 ou 8 dias, nascem os sexuados: os machos (Fig. 76) nascem dos óvos mais pequenos, as femeas (Fig. 77) dos maiores. Os sexuados não teem mudas; são destituidos d'azas, e teem menores dimensões (os de ambos os sexos) que os individuos das fórmas precedentes; são amarello-claros, desprovidos de apparelho sugador e de apparelho digestivo; teem as antennas delgadas e muito sensivelmente curvas. As femeas são um pouco maiores, e encerram no abdomen um ôvo unico, muito grande, que se vê por transparencia. Os machos são em muito menor numero, e muito ageis; um só póde fecundar muitas femeas. As femeas vivem uns 8 dias, e morrem, depois de ter posto o ôvo d'inverno, que nos serviu de ponto de partida para esta descripção. Esse ôvo d'inverno é amarellado, e está preso por um pediculo em fórma de gancho.

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700. - Os sexuados apparecem, na França, em agosto e setembro; em Portugal, ninguem ainda os viu, nem o ôvo d'inverno. Alguns auctores, seguindo a opinião de Balbiani, julgam que as gerações parthenogenesicas vão tendo fecundidade cada vez mais fraca, e que a fórma sexuada é indispensavel para a continuação da especie; outros, admittindo o parecer de Lichtenstein, acreditam que as fórmas parthenogenesicas, em dadas condições, pódem reproduzir-se illimitadamente, dispensando o comparecimento dos sexuados. O que está provado, é que a multiplicação radicicola parthenogenesica póde continuar-se, pelo menos, durante 4 annos, sem a necessidade da fórma sexuada.

701. - Entre nós, não só os sexuados e o ôvo d'inverno se não encontraram ainda, mas os alados teem sido vistos na terra, sobre as raizes, e rarissimas vezes fóra; d'aqui, teem querido concluir alguns dos nossos agronomos, que os alados e os sexuados ou só apparecem por accidente, ou que se desenvolvem, ou mergulham logo, na terra, ficando tambem subterraneo o ôvo d'inverno. É possivel que assim seja; mas, dada a extrema difficuldade de encontrar na parte aerea da videira insectos e óvos tão pequenos, não nos parece licito concluir, do facto de não terem sido vistos, que não existam ahi.

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702. - Alterações das raizes; resistencia das cêpas. - As galhas provocadas pela phylloxera sobre as folhas quasi que não prejudicam a videira, pois só muito de leve pódem alterar o funccionamento d'aquelles orgãos; são, além d'isso, rarissimas nas videiras europeas. As gerações subterraneas do insecto é que produzem os grandes damnos nas vinhas, occasionando lesões nas radiculas e nas raizes novas, de que lhes póde resultar a morte.

703. - Já vimos que a picada do insecto sobre uma radicula provoca a hypertrophia do tecido em volta, constituindo-se uma nodosidade (17), tenra, amarellada, de diversas fórmas (Fig. 78); é frequente, dar-se a lesão na extremidade da radicula em via de crescimento, e, como o lado ferido não cresce, ou cresce menos, a protuberancia tem então fórma curva, ficando o insecto que a originou e a sua descendencia na parte concava; ás vezes, encontram-se na mesma radicula nodosidades proximas, que, conjunctamente, produzem conformações muito variadas. As nodosidades fórmam-se principalmente de abril a setembro, e quasi todas as radiculas assim modificadas morrem no fim do estio, quando augmenta a seccura da terra; as radiculas mortas em virtude do ataque phylloxerico apresentam-se escuras, facilmente desaggregaveis, e teem ainda bem visiveis as nodosidades, já seccas e negras. Todo o cabellame póde morrer, d'esta maneira.

Fig. 78. - Nodosidades produzidas pela phylloxera sobre as radiculas.

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704. - Sobre as raizes lenhosas novas, a picada do insecto promove tambem hypertrophias, typicamente quasi semi-esphericas, e que recebem o nome de tuberosidades (17); estas tuberosidades (Fig. 79) teem de ordinario uma parte achatada, ou mesmo concava, onde está o insecto, e, ou são isoladas, ou confluentes, podendo, no ultimo caso, estar tão proximas e ser tão numerosas, que alterem de todo o aspecto da raiz. Nas cêpas não resistentes, estas raizes atacadas morrem tambem, mas geralmente mais tarde, no anno seguinte. Essa morte é a causa principal da destruição da videira, que não só fica privada das radiculas, indispensaveis para a sua nutrição (17), como ainda das raizes novas, onde se deveria regenerar o subsequente cabellame.

Fig. 79. - Tuberosidades produzidas pela phylloxera sobre as raizes lenhosas.

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705. - Nas cêpas americanas, os effeitos do ataque phylloxerico variam muito, segundo a dureza e a compacidade dos tecidos da raiz, a espessura da camada cortical, e a rapidez da lenhificação das radiculas (18-19). São raras as cêpas americanas absolutamente indemnes, isto é, em que a phylloxera não produz a menor lesão; em várias, não se encontram tuberosidades, mas as radiculas apresentam nodosidades; finalmente, n'outras, formam-se nodosidades mais grossas e mais abundantes, e tuberosidades cujo volume está sempre em relação com o das nodosidades. Quanto mais pequenas e menos numerosas forem as alterações das raizes, maior a resistencia da cêpa; as americanas menos resistentes succumbem quasi que tão rapidamente como a videira europea.

706. - Baseado n'estas considerações, o sr. Millardet organisou uma escala de resistencia, que se póde resumir do seguinte modo. Considera como indemnes o Scupernong, Aramon × Rupestris Ganzin (seg. o sr. Ganzin), Rupestris × Aestivalis Lezignan, e algumas (poucas) Riparias, Rupestris, Cinereas, etc. Considera como tendo já algumas nodosidades, mas de ordinario muito pequenas, e sem tuberosidades, o maior numero das Riparias, Rupestris, Cordifolias, Cinereas, etc. Indíca, tendo nodosidades mais grossas e mais numerosas, e já algumas tuberosidades, posto que raras e pequenas, a Berlandieri do dr. Davin, as Riparias e Rupestris mediocres ou de má qualidade, as Solonis, York-Madeira, etc. Finalmente, apresenta como tendo nodosidades e tuberosidades cada vez mais grossas e mais numerosas: Herbemont, Jacquez, Noah, Cunningham, Vialla, Taylor, Clinton, Elvira, Othello, Senasqua, Isabella, Triumph, as ultimas das quaes pouco acima estão das videiras europeas. Advertiremos, que os srs. Viala e Ravaz organisaram uma outra escala, em que se notam differenças um tanto consideraveis em relação a esta, e em que unicamente é dada como cêpa indemne a V. rotundifolia.

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707. - Sempre que a videira não tem tuberosidades nas raizes, póde ser empregada, sem receio de que succumba á phylloxera; logo que ellas se formam, o perigo é tanto maior, quanto forem mais volumosas, mais numerosas, e a videira estiver mais mal adaptada ao terreno e ao clima. E' que, como já o dissemos (215-354), n'esta questão de resistencia, é preciso attender não só á organisação da cêpa, como a todos os factores da vegetação, que a podem vigorisar ou enfraquecer, favorecendo ou prejudicando a reparação dos damnos produzidos pelo insecto.

708. - Nenhuma das castas da videira europea resiste á phylloxera, embora, em egualdade de circumstancias, algumas resistam um pouco mais do que outras (331). E' variavel o tempo decorrido desde a invasão até á morte da vinha e depende de muitas causas: notando, todavia, que, quando a presença do insecto se torna visivel, póde o ataque datar já de um ou dois annos; geralmente, a vinha morre dentro de um periodo de 2 a 6 annos. Quanto mais meridional fôr o clima, de ordinario mais rapida é a morte, porque maior é o numero das gerações annuaes do parasita (697); quanto mais rico fôr o terreno, quanto mais favoravel a vegetação, quanto mais difficuldades tiver a passagem subterranea do insecto de uns para outros pontos, quanto mais fundas forem as raizes, mais tempo a vinha resiste. Assim, as vinhas novas, embora de vida exuberante, succumbem quasi sempre mais rapidamente, porque teem raizes mais superficiaes e com muito cabellame, onde a phylloxera pullula. As parreiras altas e as cêpas trepadas ás arvores resistem mais, porque as suas raizes profundam muito.

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709. - Disseminação da phylloxera. - A propagação da phylloxera a grandes distancias póde ser feita por meio dos alados, que o vento forte arrasta muito longe, ás vezes a 30 ou 40 kilometros, e mais. N'esta fórma de propagação, importa muito considerar a direcção dos ventos dominantes, na epocha do apparecimento dos alados, para calcular as probabilidades da situação dos novos focos. Certos accidentes do terreno, taes como uma cadeia d'altas montanhas, ou grandes extensões desprovidas de vinhas, oppõem embaraços a este processo de disseminação natural.

710. - Em volta dos focos existentes, a phylloxera alastra-se a pequenas distancias, gradual e successivamente, por via dos insectos sem azas, que, ou passam pela superficie da terra ou subterraneamente. Esta ultima passagem é muito influenciada pela natureza do terreno: é muito mais facil nos terrenos compactos que abrem fenda, ou nos pedregosos e cascalhentos que teem intervallos continuos, do que nos terrenos uniformemente apertados, ou nos de particulas muito moveis, como são os arenosos.

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711. - Afóra estes meios de disseminação natural, póde ainda a phylloxera ou os seus óvos serem inconscientemente transportados pelo homem: nas poeiras ou lamas que traz adherentes ao fato ou ao calçado; nos instrumentos de cultura; nos barbados ou bacellos vindos de uma região atacada; na terra presa ás raizes de outras plantas, cultivadas proximo das vinhas, etc. E' para attenuar os perigos d'estas disseminações, que os governos de todos os paizes adoptam providencias especiaes, quanto ao transito das plantas vindas de regiões phylloxeradas para outras indemnes. A passagem dos barbados de uma região invadida para outra indemne, deve ser absolutamente evitada, porque constitue um perigo enorme. A passagem dos bacellos, quando não tragam um fragmento da vara anterior, onde póde vir o ôvo d'inverno (695), tem muito menos riscos; mas é prudente desinfectal-os, antes d'entrarem na região ainda livre, e o processo mais simples e mais seguro é immergil-os, durante 10 minutos, em agua aquecida a 50° (237).

712. - A disseminação da phylloxera é poderosamente auxiliada pelo facto de ter este insecto reproducção parthenogenesica, e grande fecundidade; basta um individuo unico, de qualquer das tres fórmas asexuadas, ou um ôvo, para se dar a invasão; por outro lado, suppondo 8 gerações annuaes da fórma radicicola, de um só ôvo d'inverno póde provir, n'um anno, a enorme descendencia de 25 a 30 milhões de individuos.

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713. - Reconhecimento e pesquisa da phylloxera. - O ataque phylloxerico começa a patentear-se, geralmente, pelo definhamento da vegetação de pequenos grupos da cêpas, isolados, conservando-se a vinha regular, em volta d'esses grupos. As cêpas d'estes focos, ou nodoas phylloxericas, mostram-se cada vez mais fracas; com as varas mais pequenas, mais erectas e d'entre-nós mais curtos; com as folhas menores, bolhosas, menos lobadas e mais dentadas, amarellecendo ou avermelhando, e cahindo, muito mais cedo, no outomno; com os cachos menos numerosos, de bagos pequenos, cheios de bagoinha, tornando-se as cêpas mais atacadas infructiferas. Este conjuncto de caracteres dá o aspecto emangericado á videira, mas nem sempre ella o toma, antes de morrer, o que depende da fórma mais ou menos rapida porque perde as raizes. A nodoa phylloxerica apresenta em breve algumas cêpas mortas, e, com o tempo, váe alastrando circularmente pela vinha apparentemente sã, como o faria no papel uma nodoa d'azeite.

714. - De ordinario, a invasão phylloxerica ao principio caminha lentamente, sobretudo n'uma região onde entrou ha pouco tempo, e torna-se ao depois, ás vezes de repente, muito violenta. E' frequente, o encontrar indicios de existir a phylloxera n'uma vinha ha dois, e mesmo tres annos, com estragos pouco apparentes, quando se nota o ataque, ao adquirir, de subito, grande intensidade. No primeiro anno do ataque, é vulgar dar-se fructificação exaggerada; depois, a vara atempa mal, e a fructificação começa a diminuir, até se annullar.

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715. - O aspecto das nodoas phylloxericas é de muito facil observação, salta á vista menos perspicaz; n'uma região phylloxerada, o apparecimento de taes nodoas, n'uma vinha, é indicio quasi certo da existencia da phylloxera. No emtanto, como, nem estes signaes externos d'enfraquecimento da vegetação, nem o processo do seu desenvolvimento pela vinha, são exclusivamente peculiares á phylloxera, é sempre bom elucidar esta suspeita com o exame directo das raizes, unico meio de diagnostico seguro.

716. - Querendo pesquisar a phylloxera, não é nas cêpas mais doentes, nas que teem peor vegetação, que a devemos procurar; o insecto abandona as videiras, logo que não teem raizes em bom estado, e dirige-se para as outras proximas; é n'estas, nas cêpas ainda vigorosas dos bordos da nodoa phylloxerica, que deve ser feita a pesquisa. Escava-se, com cuidado, a cêpa e procuram-se as raizes delgadas e as radiculas, sobretudo as superficiaes; examinam-se estas raizes e radiculas, notando se teem ou não as lesões caracteristicas (703-704), e verifica-se, o que ainda é mais seguro, com uma lupa, a presença do insecto. Para quem tenha pratica d'estes exames e boa vista, o insecto é visivel mesmo á vista desarmada, sobretudo quando tem côr mais viva, emseguida á passagem das mudas. Nas vinhas muito atacadas, a phylloxera pullula nas raizes mais tenras e nas radiculas. Do facto de se encontrar um só insecto, póde concluir-se a invasão phylloxerica; do facto contrario, não é licito deduzir a sua não existencia: mas, se o exame foi conscencioso e repetido, pódem affirmar-se probabilidades da vinha estar isenta, ou muito fracamente atacada.

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717. - A pesquisa da phylloxera é, em varios casos, muito importante. Quando se trata do principio da invasão, n'uma região até ahi indemne, consegue-se, ás vezes, retardar por algum tempo o mal incipiente, com tratamentos apropriados (tratamentos d'extincção); n'um paiz atacado, a pesquisa é ainda indispensavel, sempre que se queira salvar a vinha europea e recorrer aos insecticidas, que só dão resultados, se forem applicados muito no principio, antes da vinha definhar (tratamentos culturaes).

718. - No inverno, a pesquisa phylloxerica é mais difficil e pede exame mais cauteloso; grande parte das lesões do systema radicular da videira estão alteradas, e os hibernantes (697), mais pequenos, mais escuros e com o corpo deprimido, são mais difficeis de aperceber.

719. - Querendo procurar os alados, os sexuados, ou o ôvo d'inverno, é necessario pesquisal-os nas epochas proprias, nas partes aereas da videira, onde existem; esta pesquisa é difficilima. Os alados encontram-se, ás vezes, melhor, presos nas pequenas teias d'aranha que ha nas vinhas.

720. - Tratamentos anti-phylloxericos. - Muitos processos têem sido indicados para luctar contra a phylloxera. Além da cultura das videiras americanas (335 e seg.), da cultura nas areias indemnes (417 e seg.), e da submersão (425 e seg.), já referidas, lembrou o emprego de substancias insecticidas muito variadas; afóra as tentativas improficuas de cultivar simultaneamente na vinha plantas diversas: umas, com o fim de attrahirem a phylloxera, libertando as videiras; outras com o fim de a repellirem, com os cheiros activos ou propriedades venenosas; e afóra, ainda, os methodos culturaes tendentes a vencer o insecto pela simples vigorisação da vinha, baseados no emprego de estrumações abundantes, de regas (591), etc.

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721. - De todos estes processos, os unicos sanccionados pela pratica, são a cultura das videiras americanas, a cultura nas areias, a submersão, e os tratamentos insecticidas pelo sulfureto de carbonio e pelo sulfo-carbonato de potassio; notando, ainda, que a grande quantidade d'agua necessaria para usar este ultimo insecticida, e as despesas maiores da sua applicação, tornam o emprego do primeiro muito preponderante. Os bons tratamentos culturaes podem demorar um pouco a morte da vinha, pelo que a robustecem, e são um complemento indispensavel dos tratamentos insecticidas, mas, só por si, não conseguem oppôr obstaculo á acção destructiva da phylloxera; por maior que seja o desvelo da cultura, a morte da vinha europea, em virtude do ataque phylloxerico, é inevitavel, se esse ataque não fôr combatido por meios mais energicos.

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722. - A cultura das videiras americanas e a cultura nas areias são processos preventivos. A submersão é um processo curativo; póde a vinha europea plantar-se propositadamente em condições de ser submergida, na hypothese provavel de um ataque phylloxerico mais ou menos proximo; póde, menos vezes, por um feliz acaso, empregar-se a submersão n'uma vinha invadida, que não foi posta para esse fim. Tendo já tratado de todos estes processos, resta-nos apenas estudar os tratamentos insecticidas.

723. - Como regra geral, estes tratamentos só dão resultado no principio da invasão, quando a vinha ainda não tem o systema subterraneo muito destruido, porque aliás melhor convém o arranque e a replantação com cavallos americanos; é necessario, por outro lado, que a producção possa pagar o excesso da despesa annual do tratamento; e muito importa considerar a natureza e a fundura do solo, porque nem em todos os casos os insecticidas dão resultados praticos vantajosos (334). E' exactamente esta contingencia, junta com o augmento da despesa annual, que faz com que os insecticidas cedam, cada vez mais, o campo ás videiras americanas.

724. - Os insecticidas, empregados em doses culturaes, isto é, em quantidades que não damnificam a vinha, não destróem todos os insectos das raizes, e apenas os diminuem, a ponto de ser possivel a continuação da cultura; d'aqui, a indispensabilidade de repetir o tratamento todos os annos; de resto, ainda que os insecticidas anniquilassem todos os insectos, nem por isso a repetição se tornava desnecessaria, n'um paiz phylloxerado, afim de combater as reinvasões. Em casos mais raros, os insecticidas empregam-se em doses d'extincção, muito mais altas, para matarem todos os insectos das raizes, embora á custa das cêpas, que tambem morrem; empregam-se, quando, n'uma região indemne e afastada do contagio phylloxerico, apparece algum pequeno foco, de cujo tratamento radical póde resultar a demora mais ou menos consideravel da invasão. Ao deante, diremos algumas palavras d'este tratamento d'extincção (752 e seg.).

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725. - Tratamento cultural pelo sulfureto de carbonio. - O sulfureto de carbonio é um liquido muito volatil, cujos vapores são extremamente toxicos, e que foi aconselhado contra a phylloxera pelo barão Thenard, em 1872. Introduz-se na terra da vinha invadida, em quantidade sufficiente para matar os insectos sem prejudicar as videiras; achando condições apropriadas, os seus vapores diffundem-se rapidamente, por entre as particulas terrosas, e vão atacar os parasitas radicicolas; da boa diffusão d'estes vapores ficam portanto dependentes os resultados obtidos, e como ella está subordinada essencialmente á natureza e ao estado de humidade do terreno, por isso, n'uns casos, este tratamento produz effeitos tão favoraveis, e, n'outros casos, effeitos nullos ou até prejudiciaes.

726. - São prova da efficacia do sulfureto de carbonio, vinhas tratadas em França ha mais de 15 annos e que se apresentam com boa vegetação, no meio d'outras não tratadas e destruidas de ha muito pela phylloxera. Em Portugal, foi pela primeira vez ensaiado em 1879, no Douro, no posto experimental da Regoa, sob a direcção do auctor d'este livro, e não só teve bons resultados no paiz duriense, onde a sua applicação se generalisou bastante, como n'outros pontos, até Almeirim, Alpiarça, etc. Em contraposição, não surtiu effeito em varias localidades, como Torres Vedras, Alemquer, etc.

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727. - Em regra geral, póde estabelecer-se que elle se apropría sobretudo aos terrenos leves ou de consistencia mediana, e muito principalmente quando sejam ricos e fundos. Nos terrenos muito compactos, nos terrenos humidos, nos muito superficiaes ou muito pedregosos, o seu effeito é quasi sempre nullo, ou mesmo desvantajoso; nos muito compactos, que se encharcam ou seccam e gretam com muita facilidade, é quasi impossivel aproveitar o momento intermedio conveniente, e a diffusão é irregular; nos superficiaes e nos muito abertos, os vapores toxicos perdem-se para a atmosphera; depois, n'uns e n'outros d'estes meios, a vinha succumbe mais depressa, apodrecidas em pouco tempo as raizes pela humidade ou resequidas pela seccura, o que ainda mais desfavorece os tratamentos.

728. - O sulfureto de carbonio introduz-se na terra por meio de injectores; o injector é uma especie de bomba premente, munida de um longo tubo de ferro, que se crava na terra, e por cuja extremidade sáe o jacto liquido, podendo graduar-se facilmente a quantidade sahida de cada vez. O typo d'estes apparelhos é o injector Gastine.

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Fig. 80. - Injectores Gastine (com valvula inferior e com valvula lateral).

729. - O injector Gastine (Fig. 80) compõe-se de um reservatorio cylindrico de zinco ou de cobre, com 4 litros de capacidade, e que envolve a parte superior de um longo tubo de ferro, prolongado ainda muito para baixo do mesmo reservatorio. Na parte superior do tubo de ferro, ha um embolo, cuja haste sáe para o exterior e termina n'um botão, chamado botão de compressão; o embolo sobe, actuado por uma mola em espiral, e desce pela pressão dada pelo operador. A extremidade inferior do tubo de ferro tem um cone d'aço, com um pequeno orificio, fechado por uma valvula metallica, de mola espiral, que veda a sahida do liquido, quando este não é comprimido pelo embolo. Na parte superior do reservatorio, ha dois cabos transversaes, revestidos de madeira, onde se carrega com as mãos para cravar o tubo; quasi a meio do tubo, ha um pedal de ferro, em que se colloca um pé, afim de auxiliar o cravamento. O sulfureto de carbonio deita-se com um funil para dentro do reservatorio, que para isso tem um orificio na parte superior, onde depois se põe uma rolha; do reservatorio passa o liquido, á medida que se injecta, para o tubo de ferro, entrando inferiormente ao embolo. De cada vez que o embolo desce todo, injecta 10 gr. de sulfureto; querendo injectar menor quantidade, enfiam-se na haste do embolo uns anneis metallicos, que lhe limitam o campo de acção: cada annel ahi posto diminue um gramma de liquido. Cada apparelho traz uma chave, rodellas de couro para o embolo, e molas em espiral de substituição; tem proximamente um metro de altura; depois de cheio, pesa uns 9 kgr., e contém quasi metade d'este peso de sulfureto. Ha um modelo mais perfeito, do mesmo auctor, com a valvula lateral.

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730. - O injector Vermorel é uma modificação do antecedente, que principalmente se distingue em ter a valvula collocada n'um tubo lateral, tornando o tubo perfurante mais solido; ha diversos modelos com successivas correcções: Excelsior, l'Ultime, etc.

731. - O sulfureto vem em barris de ferro especiaes; é preciso ter com elle certas precauções, porque é muito inflammavel, detona com o ar, e não convém respiral-o por muito tempo; assim, deve ser guardado em sitio fresco e arejado, longe das casas de habitação, e não se lhe deve approximar fogo.

732. - Antes de começar o trabalho, e mesmo no meio do trabalho, de quando em quando, é preciso verificar os injectores, vendo se depois de cheios vertem liquido, ou se o embolo deixa sahir mais ou menos do que o indicado pelos anneis de graduação. Na occasião do trabalho, a pancada deve dar-se rapida, sobre o botão, para que o embolo desça de vez, e com força. No fim do trabalho, é necessario tirar o embolo, enxugal-o e azeital-o.

733. - Nos terrenos leves ou medianos, o tubo do injector crava-se bem; nos muito duros ou pedregosos, é ás vezes indispensavel abrir os furos, primeiro, a ferro, e ha exemplos, entre nós, de ser preciso fazel-os á broca e a martello. Dada a injecção, os furos hão de ser logo tapados, o que executa um segundo operario, batendo com um pequeno maço apropriado.

734. - Os tratamentos com o sulfureto devem ser feitos a toda a vinha, e não só ás nodoas phylloxericas. A quantidade do liquido injectado deve regular-se por unidade de superficie, por metro quadrado, e não pelo numero de cêpas. Os furos dos injectores devem ser distribuidos com regularidade, em quadrado ou melhor em equiconcio, para haver probabilidades de ficarem expostas aos vapores toxicos todas as raizes; e não hão de ser dados muito proximos das cêpas, afim de as não prejudicarem. Nas plantações alinhadas, devem os furos ficar em alinhamentos parallelos ás fiadas da vinha, e a uma distancia minima de 8 a 10 centimetros das cêpas; nas plantações irregulares, esta distancia deve ser maior (uns 20 a 25 centimetros); em geral, a approximação pode ser maior nos terrenos leves, onde é facil a diffusão, do que nos compactos. Ao principio, usavam-se umas cadeias ou cordas de nós, para marcar os furos com egualdade; hoje, pelo maior habito, dispensam-se esses processos, e basta verificar, de quando em quando, as distancias com uma bitola.

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735. - O tratamento annual, ou é dado por uma só vez, ou por duas, com o intervallo de 10 a 15 dias, e empregando-se no ultimo caso menos quantidade de sulfureto em cada tratamento. Este tratamento reiterado é, de ordinario, mais efficaz, mas está hoje quasi posto de parte, por ser mais caro; apenas se usa em alguma nodoa mais intensamente phylloxerada. Quando haja segundo tratamento, os novos furos de injecção devem ficar desencontrados com os do primeiro.

736. - A dose de sulfureto empregada por hectare, em média, é de 200 a 250kgr, podendo descer, nos casos favoraveis, a 180, ou subir, nos menos favoraveis, a 280kgr; além d'estes limites são raras as applicações vantajosas. As doses maiores usam-se nos terrenos pedregosos e abertos, nos mais fundos, nos terrenos inclinados, e nas vinhas vigorosas; as doses mais baixas convém, pelo contrario, para os terrenos compactos, para os superficiaes e para as vinhas mais fracas.

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737. - Quanto ao numero dos furos, em theoria, ha toda a vantagem de o multiplicar, para favorecer a diffusão do insecticida; mas, na pratica, este numero é limitado pelo excesso da despesa, motivada pelo augmento de trabalho. Geralmente, empregam-se 2 a 4 furos por metro quadrado, ou por excepção 5; nos terrenos leves, podem ser em menor numero do que nos compactos; de ordinario, nos primeiros usam-se 2 ou 3 por metro quadrado, e nos segundos 4 ou 5. D'este modo, teremos por hectare 20:000 furos, 30:000, etc., cada um dos quaes receberá a sua quota parte da totalidade do sulfureto calculada: assim, admittindo 4 furos por metro quadrado, teremos 40:000 por hectare, e cada injecção será de 5 gr., de 6 ou de 7 gr., conforme quizermos empregar por hectare 200 kilogr. de sulfureto, 240 ou 280 kilogr. A fundura habitual d'estes furos é de 20 a 30 cent., mas na proximidade das cêpas não convém descer de 8 ou 10 cent.; nos terrenos leves, deve a fundura ser maior do que nos compactos, para que o sulfureto se não perca, em parte, evolvido para a atmosphera.

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738. - Ao principio, o sulfureto de carbonio só se empregava no periodo do descanço vegetativo, com o receio de que em plena vegetação prejudicasse as plantas; tem mostrado a experiencia que se póde sulfuretar impunemente em qualquer estação, comtanto que se evite a epocha da florescencia, para se não dar o desavinho, e a proximidade do amadurecimento das uvas, para não damnificar a colheita; com effeito, o sulfureto sempre inutilisa algumas raizes e portanto sempre occasiona um tal ou qual atrazo á vegetação, mais para temer n'aquelles periodos criticos. A epocha do desabrolhar tambem não convem, como para nenhum grangeio, pela facilidade com que então se desprendem os pampanos muito novos. Ao que principalmente importa attender, na escolha da epocha da sulfuretação, é ao estado de humidade da terra, porque, se a terra está muito secca, o sulfureto escapa-se com facilidade, e se está muito humida, o sulfureto evapora-se lentamente e, emquanto persiste na fórma liquida, póde alterar as raizes; o estado intermedio de humidade é o mais favoravel. Os tratamentos d'inverno são de mais facil execução e portanto mais baratos; devem aproveitar-se sempre que sejam possiveis, apropriando-se sobretudo melhor ás terras leves, que não retém a humidade. Nos terrenos compactos, muitas vezes, é indispensavel recorrer aos tratamentos mais tardios, para obter a prompta diffusão dos vapores. Em qualquer caso, é indispensavel que a terra não tenha sido mobilisada de pouco tempo, nem esteja muito compacta; nunca se deve empregar o sulfureto em seguida a uma cava, lavoura, ou redra, e do mesmo modo não se deve ao depois remexer o solo, senão passados uns 15 dias. Nos solos apertados, aconselha-se dar uma cava, com 20 dias d'antecedencia, profundando até 30 cent., se não houver perigo em cortar muitas raizes, para diminuir a compacidade propria a esses terrenos.

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739. - A despesa com a sulfuretação é muito variavel: independentemente da quantidade do sulfureto empregado por hectare, o custo da applicação depende muito da natureza e estado do terreno, do numero dos furos dados em egualdade de superficie, e do preço dos salarios. Póde admittir-se que um homem injecta, por dia, de 1:000 a 3:000 furos, e que são precisos tantos homens a taparem os furos quantos trabalharem com os injectores; ha exemplos, em Portugal, d'estas despesas d'applicação descerem a 4$200 réis por hectare e subirem a 14$500 e mais; entre 6$000 e 12$000 réis é talvez a média mais frequente.

740. - Para os grandes vinhedos, em que os grangeios são feitos á machina, inventaram em França injectores de tracção ou charruas sulfuretadoras, com o fim de maior economia. N'umas d'esta machinas, ha uma bomba premente, posta em movimento por meio de um rolo ou de uma roda que encosta ao chão, bomba que injecta o sulfureto, no sulco traçado por uma relha convenientemente disposta, tapando a mesma machina, em seguida, o sulco: tal é o injector de tracção Gastine, etc.; na charrua sulfuretadora Vernette (Fig. 81), ha um engenhoso apparelho de dosagem e não existe bomba. N'outros systemas, os apparelhos de distribuição do sulfureto adaptam-se a uma charrua qualquer, como nas sulfuretadoras Audebert, Defontaine, etc. Todas estas machinas estão hoje bastante abandonadas em França, porque se lhes notam os seguintes defeitos graves: depositam o sulfureto pouco fundo (o que obriga a empregar doses mais consideraveis), pois se profundarem mais encontram raizes, que damnificam, e exigem grande esforço de tracção; o peso do reservatorio cheio de liquido torna-as pouco estaveis, difficeis de conduzir; a dosagem do sulfureto fazem-na muitas vezes irregularmente; o sulco fica de ordinario mal tapado; por ultimo, só são applicaveis aos terrenos planos e sem pedras.

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Fig. 81. - Charrua sulfuretadora Vernette.

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741. - Tratamento cultural pelo sulfureto de carbonio dissolvido em agua. - Com o fim de diminuir as perdas devidas á rapida volatilisação do sulfureto de carbonio, e de diminuir o damno que elle possa causar ás vinhas, lembrou primeiro introduzil-o em capsulas ou cubos gelatinosos, que o abandonassem no solo pouco a pouco (cubos Rohart, etc.); estes processos foram postos de parte, pela irregularidade com que prestavam os vapores insecticidas. Lembrou, depois, incorporal-o com o sabão molle puro (processo sulfo-potassico de Feuillerat) e empregal-o como o sulfo-carbonato de potassio (746 e seg.); lembrou, ainda, mistural-o com a vaselina: mas as vantagens d'estes processos não são tão grandes como se julgou ao principio. A dissolução do sulfureto em agua (á temperatura ordinaria, 1 litro d'agua dissolve proximamente 2 gr.), foi proposta pelo sr. Cauvy, e o processo tornou-se ao depois pratico, graças ao apparelho inventado pelos srs. Fafeur e Benoist.

742. - Este processo é efficaz e completamente inoffensivo para a vegetação, mas mais caro do que o emprego do sulfureto puro; além d'isso, só se adapta aos terrenos pouco accidentados, exige installação despendiosa e grandes quantidades d'agua. E' ponto discutivel se, considerado pelo lado economico, o seu emprego é vantajoso. Advertiremos desde já que, embora 1 litro d'agua dissolva, como dissemos, proximamente 2 gr. de sulfureto, o liquido insecticida se emprega muito mais diluido.

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743. - O apparelho dos srs. Fafeur e Benoist dissolve o sulfureto ao abrigo do ar e sob pressão. Compõe-se de um reservatorio, onde se deita o sulfureto de carbonio e que se acaba d'encher com agua, ficando o primeiro liquido no fundo, por ser mais denso. Na parte superior d'este reservatorio, ha um tubo horisontal, estrangulado no meio por um tabique com um pequeno orificio, e que é percorrido por uma corrente d'agua. A diminuição da velocidade d'esta corrente, ao encontrar o estrangulamento do tubo, exerce uma pressão na agua do reservatorio, pressão que se transmitte ao sulfureto subjacente; sob esta pressão, o sulfureto é obrigado a subir por um tubo vertical, que mergulha no reservatorio e se abre na parte do tubo horisontal collocada além do estrangulamento, sahindo assim o sulfureto dissolvido na agua que percorre este ultimo tubo. Faz-se variar a quantidade da dissolução por meio de uma torneira, collocada na parte superior do tubo vertical, e que deixa passar mais ou menos sulfureto, n'um tempo dado, ficando constante a corrente da agua; esta torneira serve tambem para carregar de novo o apparelho, quando é necessario, interrompendo a sahida do sulfureto. O tubo horisontal é de vidro; na primeira metade, antes do estrangulamento, deixa vêr a corrente da agua pura; na segunda metade, deixa ver a união da agua com o jacto de sulfureto; n'esta segunda metade do tubo, o liquido resultante da dissolução do sulfureto deve conservar a côr e o aspecto da agua pura, porque, se apresentar a côr leitosa da emulsão, póde prejudicar a vinha. O liquido empregado tem, por litro, em média, 0,50 gr. de sulfureto, para os tratamentos d'estio, e 0,70 gr. para os d'inverno.

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744. - Para se applicar este liquido, escavam-se as cêpas, devendo as caldeiras ficar bem horisontaes e em contacto umas com as outras, separadas só pelos rebordos de terra; o liquido insecticida transporta-se para as caldeiras dentro de baldes. Facilita-se a applicação, empregando, nas vinhas maiores, um systema de tubos de rega, onde a agua circula, impulsionada por uma bomba de mão (Fig. 82) ou de vapor; para as medianas explorações, os tubos podem ser de cautchú; para as grandes, são de folha. O impulso, dado por uma machina de vapor, póde transportar o liquido a kilometros de distancia, nos tubos de rega. Na caldeira de cada cêpa deita-se o liquido correspondente a 20 litros por metro quadrado, e que contém 10 ou 14 gr. de sulfureto de carbonio, conforme a graduação fôr de 0,5 gr. ou 0,7 gr. de sulfureto por litro. Em seguida á applicação, tapam-se logo as caldeiras com a terra dos rebordos.

745. - Tratamento cultural pelo sulfo-carbonato de potassio. - Este tratamento foi proposto por Dumas, em 1874. O sulfo-carbonato de potassio, sob a acção da humidade e do anhydrido carbonico do terreno, decompõe-se em carbonato de potassio, sulphydrico e sulfureto de carbonio; tem, pois, a dupla vantagem de destruir a phylloxera, e de favorecer a vinha, pelo carbonato de potassio, que é um adubo potassico (567).

Fig. 82. - Apparelho Fafeur e Benoist, funccionando com uma bomba de mão.

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746. - O sulfo-carbonato emprega-se dissolvido na agua; produz bons resultados, mas exige muita agua, e o seu emprego fica mais caro do que o do sulfureto de carbonio puro. Em França, apenas o adoptam para as vinhas d'alta producção e de vinhos estimados, que podem pagar o excesso da despesa. Em Portugal, foi ensaiado com excellentes effeitos, mas a sua applicação custou mais do quadruplo do que custam os tratamentos com o sulfureto.

747. - Applica-se o sulfo-carbonato de potassio ás vinhas, abrindo caldeiras ao pé das cêpas, onde o liquido insecticida é deitado. Nas pequenas explorações, transporta-se o liquido a regador. Nas grandes, estabelece-se uma canalisação, onde a agua corre, actuada por uma bomba aspirante premente, tocada a vapor, fazendo-se a dissolução do sulfo-carbonato em vasos, collocados proximo das cêpas; o liquido insecticida é tirado d'estes vasos, e conduzido, a regador, para as caldeiras.

748. - Por metro quadrado, deitam-se de 40 a 50 grammas de sulfo-carbonato, com a agua precisa para embeber completamente o cubo de terra das raizes, isto é, 10 a 20 litros; o que dá, por hectare, 400 a 500kgr de sulfo-carbonato, e 100 a 200 metros cubicos d'agua. Logo depois da applicação, tapam-se as caldeiras, com a terra dos bordos.

749. - A melhor epocha de tratamento é no inverno: prejudica então menos a vinha; ha mais agua disponivel; a terra está mais humida, e satura-se com menos liquido; o liquido circula melhor. Se a vinha está muito atacada, aconselha-se segundo tratamento no estio. Ao contrario do que acontece com o sulfureto de carbonio, o sulfo-carbonato dá melhores resultados nos terrenos mexidos. Os terrenos menos proprios para os tratamentos com o sulfo-carbonato são os argillosos, onde o liquido penetra pouco, e se decompõe antes de haver boa diffusão, o que lhe faz perder grande parte da efficacia; além disso, n'estes terrenos, o carbonato de potassio, resultante da decomposição do sulfo-carbonato, diffunde-se tambem mal, e aproveita menos como adubo.

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750. - Tratamentos dirigidos contra o ôvo d'inverno. - Os tratamentos contra o ôvo d'inverno foram aconselhados por Balbiani, com o fim de se evitar a descendencia directa da fórma sexuada, sem a qual, na sua opinião, as fórmas radicicolas, prejudiciaes á videira, vão diminuindo de fecundidade e se extinguem (700). E' de vêr que, este tratamento contra o ôvo d'inverno em nada contraría os hibernantes das raizes; e - como está provado que as fórmas asexuadas podem multiplicar-se, sem a intervenção dos sexuados, pelo menos durante 4 annos (700), tempo que póde ser mais do que sufficiente para a morte da vinha (708) - nem por isso, a vinha atacada e que se queira salvar, deixa d'exigir os tratamentos pelo sulfureto de carbonio ou sulfo-carbonato de potassio. O principal fim do ataque ao ôvo d'inverno é prevenir as invasões causadas pelos alados. Em qualquer dos casos, estes tratamentos não tem dado resultados praticos favoraveis, nem em Portugal nem em França.

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751. - Os tratamentos contra o ôvo d'inverno consistem: na descasca superficial das cêpas; na queima ou escalda das cascas mortas; e nas pinturas com liquidos insecticidas. A descasca executa-se facilmente com a luva Sabaté (Fig. 83), formada de malhas de ferro; as cascas seccas desprendidas devem recolher-se com cuidado e ser queimadas. A queima e a escalda praticam-se com apparelhos especiaes (772-773). Todos estes processos são incompletos, e tanto a descasca como a queima, applicadas ás varas tenras de dois e tres annos, onde o ôvo d'inverno principalmente se encontra (695), não são inoffensivas para a vegetação; a escalda, essa é que não tem perigo. A pintura pode fazer-se com o seguinte liquido, proposto por Balbiani, e que se applica com um pincel: oleo pesado, 20 partes; naphtalina, 60; cal viva, 120; agua, 400. A melhor epocha de empregar esta pintura é proximo da evolução do ôvo d'inverno, em fevereiro ou março; se a cêpa é baixa, convém escaval-a primeiro; o liquido applica-se na cêpa, nos braços e nas varas, sem receio, que nem mesmo as varas mais novas damnifica.

Fig. 83. - Luva Sabaté.

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752. - Tratamentos d'extincção. - Os tratamentos d'extincção executam-se, quando, n'uma região vinhateira isolada e livre da phylloxera, apparecem fócos recentes, muito limitados; sendo bem feitos, conseguem retardar a invasão, embora não a possam retardar indefinidamente.

753. - Consistem estes tratamentos, em injectar uma quantidade tal de sulfureto de carbonio, que destrua completamente a phylloxera, ao mesmo tempo que destróe as cêpas, as quaes se arrancam e queimam. A applicação do sulfureto de carbonio é indispensavel, e o simples arrancamento nada consegue, porque ficam raizes vivas no terreno, onde persiste o terrivel parasita, que ao depois se dissemina pelas vinhas sãs. A dose de sulfureto empregada varía, ordinariamente, entre 200 e 300 gr. por metro quadrado, e deve injectar-se não só a nodoa phylloxerica, como tambem a vinha sã, n'um raio de mais de 20 cêpas.

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754. - As cêpas mortas pela injecção de tão fortes doses de sulfureto, arrancam-se cuidadosamente, com o maior numero possivel de raizes, e queimam-se no proprio logar, regando-as antes com alcatrão ou petroleo; com intervallo de 15 dias, fazem-se dois outros tratamentos ao terreno desnudado, na razão de 100 a 150 gr. de sulfureto por metro quadrado, e é util empregar, durante alguns annos, nas vinhas em redor, tratamentos culturaes de 20 a 25 gr. por metro quadrado. Aconselha-se, ainda, uma pintura contra o ôvo d'inverno (751), nas vinhas proximas, abrangendo a superficie de 50 hectares. Os fócos assim tratados não devem replantar-se durante cinco annos.

§ 2.º - A anguillula da vinha

755. - A anguillula (Anguillula radicicola) é um pequeno verme filiforme, branco-amarellado, com finas estrias transversaes, attenuado-obtuso nas extremidades, e provido de um orificio boccal; foi descoberto nas raizes da videira em 1881, em Portugal pelo sr. Rodrigues de Moraes, e na Italia pelos srs. Bellati e Saccardo. Persegue sobretudo, no nosso paiz, as vinhas da região d'entre Douro e Minho, causando ás vezes estragos superiores aos da phylloxera.

756. - Ataca as raizes da videira, onde penetra e depois se enkista, provocando a formação de intumescimentos oblongos, fusiformes ou irregularmente nodosos (potras, em linguagem vulgar), alguns um tanto recurvados, e fazendo lembrar as lesões phylloxericas. Emquanto novos, estes intumescimentos apresentam-se carnudos e duros; depois, tornam-se molles, quando as cavernas que contém as anguillulas são numerosas, e por fim putrefazem-se. Os kistos existentes no interior têem de 1 a 2 millimetros de comprimento, são pyriformes ou ovoides, nacarados, e contém os óvos (em alguns, examinados na Italia, notou-se uma só anguillula, de que nasciam outras por segmentação).

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757. - A videira atacada morre por falta de raizes, como acontece com a phylloxera, e externamente apresenta, nos dois casos, o mesmo aspecto, o mesmo definhamento. De ordinario, o ataque da anguillula não fórma nodoas bem definidas, e patenteia-se em pequenos fócos, muito restrictos e dispersos; mas, ás vezes, constitue nodoas semelhantes ás phylloxericas, com cêpas tanto mais fracas quanto mais no centro.

758. - Embora a anguillula ataque o interior das raizes e seja, por isso, muito mais difficil de combater que a phylloxera (e principalmente pelo abrigo que lhe formam os kistos), como se propaga com muito menos intensidade, produz estragos incomparavelmente muito menores. As vinhas das terras baixas e mal enxutas são as que persegue de preferencia.

759. - Aconselhou-se contra este verme a drenagem do terreno; não sabemos se em Portugal se chegou a experimentar, mas na Italia não deu os resultados que se esperavam. Experimentou-se a mistura de cal e cinza, e o sulfato de ferro dissolvido em agua, mas parece que o effeito de um e outro tratamento foi pequeno. O sulfureto de carbonio tem acção efficaz ou quasi nulla, conforme o estado em que encontra as anguillulas: mata as que estão livres, mas não consegue atacar os kistos, sobretudo os mais profundos; por isso, a querer empregal-o, deve o tratamento executar-se desde os meados de maio até ao fim de junho, epocha em que os kistos se abrem em maior numero, e ha mais vermes em liberdade. O sulfo-carbonato de potassio, na dose de 60 a 70 gr. por planta, é o tratamento que tem dado melhores resultados (1).

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§ 3.º - A rosca

760. - A rosca é o nome vulgar dado ás grandes larvas, curvas em crescente, que vivem na terra; estas larvas pertencem a mais de uma especie de insectos da ordem dos Coleopteros, e especialmente dos generos Anoxia, Melolontha e Rhizotrogus (2); todos estes insectos vivem, na phase mais perfeita, na atmosphera e são designados simultaneamente sob o nome popular de besouros. As roscas não atacam as vinhas adultas, mas damnificam os viveiros e as enxertias novas, sobretudo nos solos leves, siliciosos ou muito mobilisados; comem as raizes tenras, ou róem as soldaduras dos enxertos, matando, no ultimo caso, o garfo e ás vezes o cavallo.

(1) Relatorio dos serviços phylloxericos da circumscripção do norte - 1887.

(2) Devemos estas informações ao favor do nosso illustre entomologista o sr. dr. Manuel Paulino de Oliveira, que nos diz, nunca ter encontrado em Portugal o Melolontha vulgaris (muito commum e muito prejudicial em França), apesar de estar convencido que elle existe no nosso paiz; a especie que tem visto em grande quantidade, e que suppõe causar maiores estragos entre nós, é o Melolontha papposa.

CULTURA DA VINHA 433

761. - Como tratamento geral contra a rosca, póde empregar-se o sulfureto de carbonio, dado nas quantidades, por metro quadrado, de 20 gr. nos terrenos leves e de 30 gr. nos terrenos fortes. Quando as enxertias sejam atacadas, se não houver já inconveniente em lhes mexer, convém desamontoal-as, matar as larvas, e aproveitar a occasião para fazer o córte das raizes. Devem, como medida preventiva, apanhar-se os insectos da phase perfeita, logo que appareçam, antes da postura.

§ 4.º - A formiga branca

762. - Este insecto, da ordem dos Hymenopteros, tem apparecido n'algumas vinhas do norte do paiz, embora com pouca frequencia. Segundo a descripção dada no Relatorio da commissão central antiphylloxerica (circumscripção do norte) 1884, é uma formiga de côr uniforme branco-amarellada, um pouco avermelhada no abdomen, tendo, no estado imperfeito (sem azas), 5 a 6 millimetros de comprimento e 1,mm5 proximamente de grossura; tem a cabeça volumosa e as antennas rectas e moniliformes (com series de pequenos intumescimentos, em fórma de rosario). Parece-se bastante com a formiga ordinaria, mas não tem como ella o abdomen pedunculado, nem as antennas dobradas em linha quebrada. Estas formigas encontram-se em furos profundos, no lenho apodrecido das raizes.

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434 CULTURA DA VINHA

763. - Não sabemos se foram experimentados alguns tratamentos. Acreditamos que, no caso do insecto alargar a sua área de acção, que julgâmos restricta, se poderia combater, com resultado, applicando o sulfureto de carbonio.

B: na parte aerea

§ 5.º - A pyrale ou lagarta da videira

764. - Descripção e modo de vida. - A pyrale ou lagarta da videira (Pyralis vitana) é um insecto da ordem dos Lepidopteros e do grupo das torcedoras (Tortrix). O insecto perfeito é uma pequena borboleta nocturna (Fig. 84), com as azas amarello-esverdeadas tendo reflexos metallicos dourados; as azas anteriores, que medem de envergadura dois centimetros, teem tres listas transversaes ferruginosas; as posteriores são mais pequenas, cinzento-escuras, com reflexos assetinados, mais pallidas nas margens. Esta borboleta apparece em junho e julho, principalmente nos sitios quentes, nas vinhas das planicies e dos cabeços abrigados do vento.

765. - Depois da copula, a femea depõe 200 a 300 óvos, na pagina superior da parra, onde ficam collados, em grupos de 40 a 50. Em julho ou agosto, sáem d'estes óvos as lagartas, com dois millimetros de comprimento, e que são esverdeadas, com a cabeça negra (Fig. 85). Em França, as lagartas, pouco depois de sahirem do ôvo e de alguns passeios sobre as folhas, suspendem-se a um fio ou baba que segregam, até que, balouçadas pelo vento, encontrem a cêpa ou um tutor, onde hibernam, abrigadas n'um tenue casulo, dentro das fendas ou sob as cascas mortas. Na primavera seguinte, logo depois da rebentação da vinha, por abril, sáem dos abrigos hibernaes, e sobem para os pequenos pampanos; trazem fome devoradora, e róem, durante a noite, avidamente, as folhas tenras e os cachinhos, abrigando-se, durante o dia, em ninhos que preparam, enrolando e prendendo as folhas com fios sedosos (Fig. 86). Soffrem varias mudas, e quando teem 25 millimetros, geralmente no fim de junho, transformam-se, dentro de um casulo, fixo ás parras e cachos, em chrysalidas (Fig. 87), das quaes, passados quinze a dezoito dias, sáem as borboletas, que em julho põem os óvos. As novas lagartas, sahidas d'estes óvos, dirigem-se logo para os logares onde hão de hibernar, e no abril futuro vem devorar os pampanos, como ficou dito.

CULTURA DA VINHA 435

Fig. 84. - Pyrale: a borboleta

Fig. 85. - Pyrale: a lagarta adulta.

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Fig. 86. - Parra e cacho atacados pela lagarta da pyrale.

766. - Em Portugal, pelo menos em alguns pontos, parece que a vida da pyrale se modifica um tanto; parece que as larvas recem-nascidas, em vez de descerem sempre aos esconderijos onde hibernam, atacam ás vezes as folhas, em agosto. O sr. Tavares da Silva, segundo observações a que procedeu na Bairrada, chegou a suspeitar, dadas as condições do clima, da existencia de uma nova geração annual, que hibernava na terra, e não nas cêpas e tutores: fundamentando-se em que, as vinhas tratadas pelo sulfureto de carbonio ficavam quasi livres d'este insecto, emquanto a escalda das cêpas e o tratamento adequado da madeira d'empa, que tão bons resultados dá em França, foi inefficaz na Bairrada; mas os seus ultimos estudos não confirmaram este modo de ver.

CULTURA DA VINHA 437

Fig. 87. - Pyrale: a nympha ou chrysalida.

767 - Prejuizos que causa. - E' a lagarta que prejudica directamente a vinha; devora as folhas tenras dos pampanos, e, á medida que avança em edade, vae atacando as mais velhas e duras, cortando umas pelo peciolo e comendo as outras; devora tambem os cachos novos, e corta outros pelo pedunculo, mas raras vezes ataca os bagos. Se a invasão é forte, deixa a vinha em estado miseravel: poucas folhas persistem vivas, tendo sido as restantes comidas, ou apresentando-se cortadas e pendentes de alguns vasos intactos do peciolo; muitos cachos, ou tambem desappareceram, ou pendem dos pedunculos cortados. A pyrale chega d'este modo a destruir a colheita, porque mesmo os cachos que ficam, enredados pelos fios e privados de folhas, crescem e amadurecem mal.

438 CULTURA DA VINHA

768. - Este insecto tem feito grandes damnos em varias das nossas regiões vinhateiras (Bairrada, Torres Vedras, Alpiarça, etc.). E' conhecido ha muito tempo no paiz. A intensidade do seu ataque varía bastante com os annos, porque ha causas naturaes que o contrariam, como as geadas tardias da primavera e alguns insectos.

769. - Tratamentos. - A eslagartagem é o processo de tratamento mais empregado entre nós; executam-na ordinariamente mulheres, que apanham as lagartas ou as parras onde ellas se encontram, e as deitam para uns saccos, afim de serem queimadas fóra da vinha. Este processo tem os inconvenientes de ser caro, de só se poder praticar quando ha já prejuizos sensiveis, e de deixar inevitavelmente insectos para uma reinvasão; além de que, a eslagartagem indispensavel dos cachos sempre os damnifica um tanto.

770. - A apanha e a colheita das folhas onde as borboletas depositam os óvos, em julho, é tratamento preventivo para o anno seguinte, usado em França, com resultados favoraveis.

771. - Empregam tambem, em França, lampadas especiaes, que attráem de noite as borboletas e as queimam; mas este processo não é muito para recommendar, porque fica dispendioso, e parte das borboletas queimadas poderão já ter feito a postura, tornando-se inutil a sua morte.

772. - O melhor meio de atacar a pyrale é sem duvida quando hiberna. Para isso, applicam em França diversos tratamentos: a escalda, a queima das cascas e a sulfuração em espaço cerrado. A escalda pratíca-se, aquecendo a agua n'uma caldeira portatil apropriada - caldeira Raclet (fig. 88), etc. - que successivamente se desloca na vinha, depois de tratada uma certa área; a agua fervente deita-se para dentro de umas cafeteiras, da capacidade de um litro e providas de grande bico afilado; com a agua d'estas cafeteiras escalda-se a cêpa, rapidamente, de baixo para cima, para que fique bem impregnada. A agua, quando cáe na cêpa, deve, pelo menos, estar a 92°, e para que não esfrie mais, usam certos artificios: ou a cafeteira se envolve n'um trapo de lã; ou tem um duplo involucro; ou se deita na agua um corpo solido, que lhe eleva a temperatura e compensa o resfriamento ulterior - o carbonato de sodio, por exemplo, que eleva a temperatura da agua na caldeira 5 ou 6°. A escalda emprega-se logo depois da poda. Não prejudica a vinha, e destróe conjunctamente com a pyrale todos os outros insectos e lichens existentes; até contra o ôvo d'inverno da phylloxera tem sido aconselhada (751). Não é preciso escaldar os sarmentos, sob cuja casca liza não se aninham as larvas. Se a empa tem tutores, estes devem ser tambem escaldados, ou immergidos n'uma solução de sulfato de cobre (de 5 %).

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Fig. 88. - Caldeira Raclet.

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Fig. 89. - Pyrophoro Gaillot.

CULTURA DA VINHA 441

773. - A queima executa-se por meio de pyrophoros ou maçaricos especiaes, d'essencia de petroleo (Fig. 89), que produzem um dardo de fogo, que se passa rapidamente pelas cêpas, para queimar as cascas sêccas com as lagartas. Mas é processo menos prático que a escalda, porque exige muito cuidado e operador muito habil, ou aliás póde a cêpa soffrer.

774. - A sulfuração, usada no meio-dia da França, consiste em inverter sobre a videira uma grande campanula de zinco, ou um barril serrado ao meio, e queimar, n'este espaço limitado, 25 gr. de enxofre dentro d'um prato, ou mechas das vasilhas; o anhydrido sulfuroso, produzido pela combustão do enxofre, asphyxia os insectos, porém é preciso cautela com este tratamento, porque o sulfuroso em excesso destróe os gommos da planta. A videira não deve ficar exposta aos vapores insecticidas mais de 10 minutos, nem menos de 5.

775. - A escalda tem sido ensaiada entre nós, parece que com resultados contradictorios. A primeira cousa a fazer, é averiguar bem o ponto onde hibernam os insectos; se hibernam na casca das cêpas e nos tutores, como é provavel, a escalda, bem executada e em occasião propria, é decerto o melhor processo de lucta.

§ 6.º - A lagarta do cacho ou da uva

776. - Descripção e modo de vida. - A lagarta do cacho ou da uva, ou lagarta vermelha, (Cochylis roserana), parece ser antiga em Portugal, mas que andou confundida com a pyrale, e só modernamente os nossos agronomos a distinguiram. Tem duas geraçães annuaes.

442 CULTURA DA VINHA

777. - Pertence á mesma familia da pyrale. A borboleta (Fig. 90) é um pouco mais pequena (corpo de 7-8 mill. de comprimento, azas de 12-15 mill. de envergadura); tem o corpo amarello-pallido, com reflexos prateados na cabeça e no thorax, e as azas da côr do corpo, apresentando as duas posteriores uma lista arruivada transversal (e não tres, como na pyrale).

778. - A borboleta da primeira geração apparece quando a videira desabrolha; só vôa durante o crepusculo da manhã e da tarde, ficando immovel de dia, na pagina inferior das folhas. Depois de fecundada, a femea depõe os óvos nos gommos, isolados, e não em grupos como a pyrale; d'estes óvos sáem, na epocha da floração, as primeiras lagartas, que atacam logo o cacho em flôr (Fig. 91), roendo-o, e envolvendo-o de fios, para formarem ninhos com as flores agglutinadas; transformam-se depois as lagartas em chrysalidas, e estas em borboletas da segunda geração.

Fig. 90. - Cochylis ou lagarta do cacho: a borboleta.

779. - As borboletas da segunda geração apparecem nos fins de julho ou principios d'agosto; copulam, e as femeas depositam os óvos nos bagos d'uva; d'esses óvos sáem lagartas, que se tornam rosadas á medida que crescem, conservando a cabeça escura; estas lagartas envolvem os bagos com fios, perfuram os que estão quasi maduros, e comem-nos pela parte interna (Fig. 92). No fim de setembro, refugiam-se sob a casca das cêpas, ou nas fendas dos tutores, e fiam o casulo, onde se chrysalidam (outubro a dezembro). D'estas chrysalidas é que resultam, na primavera seguinte, as borboletas da primeira geração.

CULTURA DA VINHA 443

Fig. 91. - Cacho em flor atacado pela lagarta do cacho.

780. - Prejuízos que causa. - São as lagartas que prejudicam directamente a vinha, atacando os cachos em duas epochas. As da primeira geração destróem muitas flores, e mesmo os pequenos bagos; n'esse periodo, o estrago é tanto maior quanto o tempo menos favorece a floração e a demora mais. As da segunda geração, atacam as uvas pouco antes de amadurecerem, róem os bagos, no todo ou em parte, e além de anniquilarem muitos e de macularem outros com a baba e os excrementos, deixam o cacho em tal estado que, com a chuva e humidade, facilmente apodrece.

781. - Esta lagarta é só propria do cacho, não damnifica as folhas. E' mais para recear nos climas humidos. Entre nós, apparece com menos frequencia do que a pyrale, e só temos noticia de ser encontrada na Bairrada.

444 CULTURA DA VINHA

782. - Tratamentos. - A eslagartagem pratíca-se, esmagando as larvas com pinças ou tesouras compridas, tirando as flores e os fructos presos pelos fios e, na segunda invasão, esmagando os bagos de uva atacados. E' processo, além de despendioso e demorado, que tem o perigo de prejudicar bastante os cachos.

Fig. 92. - Cacho de uvas atacado pela lagarta do cacho.

783. - As borboletas podem, como as da pyrale, caçar-se com fócos luminosos, mas esta caça tem a mais dos inconvenientes já marcados para aquelle insecto (771), a maior despesa, porque precisa ser feita em duas epochas do anno.

784. - A escalda das cêpas (772) tem dado resultados favoraveis em França, mas não durante o inverno, porque os insectos depois de chrysalidados resistem dentro dos casulos; é necessario pratical-a, quando as lagartas ainda não passaram á phase de chrysalidas, logo depois das vindimas, por outubro. Se a vinha tem empa de tutores, estes tutores devem ser arrancados e demolhados, durante um ou dois dias, n'uma solução (de 5 %) de sulfato de cobre, ou devem ser immergidos n'uma solução sulfurica (81 litros d'agua para 5 litros d'acido sulfurico de 66° Baumé). A queima das cascas, feita pelo pyrophoro ou maçarico Gaillot, é mais aconselhada contra este insecto do que contra a pyrale (773), porque a essa queima é que não resistem nem lagartas nem chrysalidas; no emtanto, este tratamento demanda muito cuidado, como já dissemos (773).

CULTURA DA VINHA 445

785. - A descasca feita no inverno, com a luva Sabaté (751) ou apparelhos analogos, e a queima subsequente das cascas seccas desprendidas, póde destruir muitos insectos.

786. - Tem sido propostos em França varios liquidos insecticidas para atacar as lagartas, taes como:

Agua . . . 10 litros

Carbonato de sodio . . . 1k

Sabão negro molle . . . 2k

Petroleo . . . 1l

Dissolvem-se primeiro os crystaes de carbonato de sodio (a frio ou quente); junta-se o sabão, depois o petroleo, e por fim a agua. Para se empregar, addicionam-se mais 90 litros d'agua, e applica-se o mixto com um pulverisador.

446 CULTURA DA VINHA

Uma outra formula muito recommendada é a seguinte, do dr. Dufour:

Sabão negro molle . . . 5k

Agua quente . . . 10 litros

Pó de pyrethro do Caucaso . . . 1k,200

Agua fria (a necessaria para prefazer 100 litros).

Dissolve-se o sabão na agua quente, junta-se o pó de pyrethro, dilue-se bem, e junta-se a agua fria. O mixto applica-se por meio de um pulverisador de jacto intermittente (Vermorel), sobre os cachos, logo que apparecem as primeiras lagartas. Dizem que este liquido dá bom resultado, mas é caro, e, se os cachos tratados estão quasi maduros, chegam muito sujos ao lagar, e o vinho fica de má qualidade.

787. - Pelos srs. Sauvageau e Perraud foi proposto um curioso processo d'ataque. Consiste em diluir na agua os esporos da Isaria farinosa, um fungo parasita da Cochylis, que é bastante espalhado na natureza, e applicar este liquido ou sobre as cêpas, para que o insecto hibernante ahi encontre o parasita que o mata, ou directamente sobre as lagartas que atacam o cacho.

788. - Um dos meios mais racionaes de destruir a lagarta do cacho é vindimar no cêdo, se a maturação não fôr tardia nas localidades invadidas e as lagartas da segunda geração se encontrarem ainda nos bagos d'uva; estas lagartas morrem então durante a pisa e trabalho fermentativo, ficando assim prevenida a invasão futura.

CULTURA DA VINHA 447

§ 7.º - O pulgão

789. - Descripção e modo de vida. - O pulgão (Altica ampelophaga) é um pequeno insecto da ordem dos Coleopteros (Fig. 93), ovoide, tendo proximamente 5 millimetros de comprimento por 2 de largura, brilhante e lizo, de côr verde-escura ou azulada, metallica; tem a cabeça muito pequena, com as antennas filiformes, escuras, com os tres primeiros articulos verdes; tem as patas da côr do corpo, e as coxas posteriores muito desenvolvidas, o que lhe permitte saltar a grande altura, quando se vê perseguido: d'onde lhe vem o nome vulgar de pulgão.

Fig. 93. - Pulgão (ampliado como 1:3).

790. - O insecto perfeito, que descrevemos, passa o inverno debaixo da casca morta das cêpas e das arvores, nas fendas dos muros, nos mólhos das lenhas e hervas seccas, e sáe d'estes abrigos na primavera, logo que a videira tem folhas. Perfura as folhas, pela pagina inferior, com pequenos orificios, e, em seguida á copula, a fêmea põe os óvos, na pagina inferior da parra, em grupos de vinte a trinta. Os óvos são oblongos e amarellos.

791. - D'estes óvos sáem, passados oito a dez dias, pequenas larvas amarelladas. As larvas teem os anneis do corpo molles, levemente enrugados, e em cada annel uma serie de pequenos tuberculos negros; teem seis patas, terminadas em gancho. Crescem até uns seis ou oito millimetros, e com a edade tornam-se negras; sustentam-se da folha da videira, que perfuram, como o insecto perfeito, mas ainda com mais avidez. Quando têem quinze dias, pouco mais ou menos, descem para a terra, e ahi se transformam em chrysalidas, que, no fim de mais oito dias, passam á phase de insectos perfeitos. D'estes insectos perfeitos sáe uma nova geração, que se comporta como a primeira, e assim successivamente, até que os insectos perfeitos da ultima geração hibernam, como dissemos.

448 CULTURA DA VINHA

792. - No meio-dia da França, o pulgão tem cinco gerações annuaes. Em Portugal, com certeza não deve ter menos, e talvez tenha mais.

793. - Prejuizos que causa. - Tanto o insecto perfeito como a larva róem as folhas (Fig. 94), na pagina inferior, abrindo pequenos furos, ás vezes tão numerosos, que a parra fica com o aspecto de uma renda, e em seguida morre; as larvas ainda são mais prejudiciaes. Se o ataque é muito forte, não só as parras são perfuradas, como é roida tambem a casca dos peciolos, dos pedunculos e do proprio pampano. Quando a videira desabrolha, logo o pulgão invade os pampanos; as primeiras invasões, emquanto os tecidos estão mais tenros, são as peores; a geração de agosto ou agostinha, contenta-se geralmente com as folhas novas da extremidade do sarmento, e deixa o cacho e as folhas proximas: por isso, é menos para temer, salvo nas vinhas fracas.

794. - Quando o ataque do pulgão é muito intenso, compromette a vegetação e o amadurecimento regular das uvas. Em Portugal, este insecto é conhecido ha muito, sendo bastante mais frequente n'umas regiões do que n'outras, e multiplicando-se mais ou menos em cada uma, nos differentes annos, segundo o correr das estações e outras causas accidentaes.

CULTURA DA VINHA 449

Fig. 94. - Parra atacada pelo pulgão

795. - Tratamentos. - O tratamento usual, entre nós, das vinhas atacadas de pulgão é a caça, dada aos insectos perfeitos ou ás larvas. A primeira, executa-se por meio de uns saccos em fórma de funil, enfiados n'um vime, que se introduzem, com cuidado, por baixo da rama das cêpas, sacudindo os pulgões para dentro, para os matar depois, ou queimando-os, ou deitando-os n'um balde com petroleo e azeite; esta caça deve executar-se pela manhã, quando os insectos, mais entorpecidos, saltam menos. As larvas são esmagadas entre os dedos, ou caçam-nas, quando são muito numerosas, arrancando as folhas em que se encontram. Estes processos são imperfeitos, e nada economicos nas grandes propriedades viticolas.

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450 CULTURA DA VINHA

Fig. 95. - Taboleiro Roussen

796. - Em França, usam processos identicos, mas o sacco, para onde se deitam os pulgões, tem na parte superior um funil largo de folha, com um córte lateral, para se ageitar ao tronco da videira, o que facilita a captura. Melhor ainda é o taboleiro Roussen (Fig. 95), que se compõe de uma bandeja de zinco com um rebordo, tendo um cabo de madeira, e no lado opposto uma abertura para se accommodar á cêpa; n'este taboleiro, deita-se um pouco de petroleo, que mata logo os insectos, evitando-se a fuga de muitos, o que sempre acontece nos saccos.

CULTURA DA VINHA 451

797. - Na Argelia, onde ha grandes invasões de pulgão, usam e com bom resultado, collocar nas vinhas, entre as fiadas das videiras, mólhos de ramagens seccas, onde os insectos se abrigam; queimando estes mólhos, no inverno, destróem-se assim grande numero dos hibernantes.

798. - O enxofre (parece que sobretudo o enxofre moido) é empregado em Portugal, com efficacia, contra as larvas (não contra os óvos, nem contra os insectos perfeitos); a sua efficacia é tanto maior, quanto mais elevada a temperatura; se o tempo corre frio e chuvoso, pouco resultado dá. A sulfosteatite cuprica (942) e em geral os tratamentos cupricos contra o míldio, afugentam os pulgões. As pulverisações com cal são tambem vantajosas.

799. - Os francezes, quando as invasões são muito grandes, applicam liquidos insecticidas apropriados: a infusão de tabaco, marcando 5° ou 6° Baumé; a infusão de pó de pyrethro do Caucaso (5k por 1:000 litros d'agua), etc.; mas estes insecticidas ou são caros, ou difficeis de preparar, ou nocivos á vegetação, e por isso não teem largo emprego. Usam, ainda, introduzir, nas vinhas invadidas, aves domesticas - gallinhas, perús e patos - que destróem muitos insectos.

800. - Uma boa pratica, é visitar, em abril e maio, cuidadosamente, as vinhas atacadas, e colher e queimar as folhas em que se encontrem os óvos do pulgão.

452 CULTURA DA VINHA

§ 8.º - Insectos restantes; aracnideos e molluscos.

801. - Muitos outros insectos, das ordens dos Coleopteros e Lepidopteros, róem as folhas e os gommos das videiras, uns peculiares á vinha, outros que tambem se sustentam de mais plantas; mas nenhuns d'elles são tão communs ou causam os prejuizos dos que deixámos enumerados. Em geral, o tratamento contra esses inimigos, a ser necessario fazel-o, consiste na caça dos insectos perfeitos ou das lagartas, e a destruil-os, com mais segurança ainda, nos seus abrigos de inverno; para isso, é indispensavel estudar-lhes o modo de vida, e verificar se hibernam na terra ou nas cêpas e tutores: no primeiro caso, surtem bom resultado os tratamentos pelo sulfureto de carbonio; no segundo, a descasca, a escalda das cêpas e os processos analogos.

802. - Outros grandes roedores das folhas da videira são os caracoes, molluscos Gasteropodes (caracterisados por um disco carnudo collocado por debaixo do ventre, que serve para a locomoção), de concha univalva, bem conhecidos. As especies que temos principalmente encontrado nas vinhas do centro do paiz são: o Helix aspersa, H. pisana, H. lactea, H. nemoralis (var. unicolor, var. unifasciata, etc.), H. inchoata e H. variabilis. Os caracoes roem as folhas novas e mesmo os sarmentos, deixando cicatrizes fundas, que muito difficultam o desenvolvimento; róem ainda o pedunculo das inflorescencias, e com a baba podem provocar o desavinho. Os prejuizos que causam são maiores quando a vegetação está mais tenra, e sobretudo se apparecem em grande numero na epocha da florescencia. São mais para temer nos terrenos humidos, que criam muita herva, e nos annos chuvosos. De dia, estão geralmente escondidos sob as folhas e as pedras, nos intersticios dos muros, nas fendas das cêpas e tutores, d'onde sáem á menor chuva; de inverno, cerram a abertura da concha, por meio de um diaphragma branco, incrustado de calcareo, e passam entorpecidos e sem comer, até que a temperatura suba. A maneira de os combater, é apanhal-os á mão, de tarde e pela manhã, com tempo chuvoso; em alguns pontos da França, utilisam para esta caça as aves de capoeira. Os tratamentos cupricos contra o míldio, e os tratamentos do sulfato de ferro contra a anthracnose, afugentam-nos.

CULTURA DA VINHA 453

803. - Alguns insectos damnificam as vinhas, perfurando galerias nas varas, onde as femeas depositam os óvos e se criam as larvas; citaremos, como existentes em Portugal, o Sinoxylon sexdentatum e a Vespa da vinha.

804. - O Sinoxylon sexdentatum é um Coleoptero, não muito commum, que no estado de insecto perfeito mede 4 a 5 millim. de comprimento; tem o corpo acastanhado-escuro, e nos elyctros costas longitudinaes parallelas, cujas extremidades apresentam seis dentes. A femea perfura as varas da cêpa, na primavera, penetrando por um botão; nas galerias que abre, deposita os óvos. As larvas provenientes d'estes óvos são brancas, sem pellos, conicas, curvas, e chegam a quinze millimetros, proximamente, de comprimento; róem no sentido das fibras, sem profundarem muito; os insectos perfeitos apparecem, uns na primavera seguinte, outros logo em setembro, e estes ultimos passam o inverno sob as cascas. No verão, emquanto a vinha tem parra, pouco se conhece o ataque, e no outomno apenas se denuncía pela presença de uma materia viscosa, alambreada, que apparece junto dos nós, devida ao derramamento da seiva e aos excrementos do insecto. As varas perfuradas, ou quebram na poda seguinte ou na empa, ou aliás só rebentam abaixo do primeiro furo, seccando a parte restante. O unico meio conhecido de tratamento é o córte e a queima dos sarmentos atacados.

454 CULTURA DA VINHA

805. - A vespa da vinha (Vespa sp.) é um insecto Hymenoptero, que foi encontrado nas vinhas do Douro, em 1892, pelo agronomo sr. Gondim. E' menor que a vespa commum, pois mede entre 8 e 11 millimetros; perfura e destróe a medulla das varas, onde fórma galerias mais ou menos profundas, em que deposita os óvos. Parece que ataca na primavera, começando pelo extremo livre da vara; as varas invadidas séccam, ou apresentam poucas ramificações definhadas.

806. - Outros insectos atacam as uvas maduras, sobretudo as mais doces; tal é a vespa commum, que ás vezes chega a causar damnos consideraveis. O remedio é destruir os vespeiros, com agua a ferver, com petroleo ou com mechas de enxofre; esta operação deve executar-se durante a noite, para não correr perigo o operador, e estarem recolhidos todos os insectos.

CULTURA DA VINHA 455

807. - A cochonilha ou kermes da vinha é um insecto sugador da ordem dos Hemipteros, pouco frequente entre nós, e que apparece de ordinario nas cêpas já enfraquecidas por outra doença. O macho tem o aspecto de um pequeno mosquito; é côr de tijolo, com as azas orladas de uma tenue linha sanguinea, e tem o abdomen terminado em duas longas sedas. A femea é muito convexa, bojuda, mais comprida do que larga, com a fórma de tartaruga, pardo-rosada, pontuada de preto; segrega pelo ventre uma substancia cirosa, branca, flocconosa, lembrando o algodão, com que reune os óvos; morre depois da postura, e a pelle do ventre, collada á das costas, constitue-lhe uma especie de concha, onde os óvos ficam abrigados. D'estes óvos, passados uns quinze dias, nascem os pequenos insectos, que se espalham pelos ramos e folhas mais tenras, cuja seiva sugam com o rostro. Os extravasamentos de seiva, provocados por essas picadas, mais enfraquecem a vinha, e mais lhe apressam a morte; além d'isso, sobre a materia cirosa segregada pelas femeas, desenvolve-se um fungo negro (Fumago vagans, ou Cladosporium fumago), que muito prejudica a vegetação (989). Os tratamentos, são a descasca e a queima das cascas seccas, onde hibernam os insectos, e as pulverisações com o seguinte liquido:

456 CULTURA DA VINHA

Petroleo . . . 4l

Sabão . . . 0,k250

Agua . . . 4l

Fig. 96. - Galhas produzidas em uma parra pela Cecidomya da vinha

Dissolve-se o sabão na agua, junta-se o petroleo, e dilue-se o mixto em quinze ou vinte vezes o seu volume d'agua. Tambem se emprega a infusão de tabaco, diluida em oito ou dez vezes o seu volume d'agua; ou as pinturas, depois da poda, com uma solução de sulfato de cobre de 10 % (contra o fungo).

CULTURA DA VINHA 457

808. - Além da phylloxera (696), produzem galhas, nas folhas da vinha, um outro insecto e um aracnideo.

809. - O insecto é a Cecidomya oenophila, pequeno Diptero, com dois millimetros de comprimento, cujas galhas (Fig. 96), se differençam das da phylloxera em serem conicas e salientes para as duas paginas da folha (emquanto as da phylloxera apenas o são para a pagina inferior); em serem lizas, e terem a abertura para a parte inferior (emquanto as da phylloxera teem geralmente pellos, e abrem-se para a parte superior). Estas galhas muito pouco influem na vegetação; não têem importancia para a cultura.

810. - O aracnideo é o Phytoptus vitis, que produz as galhas conhecidas com o nome d'erinose, e que a principio se attribuiram a um fungo parasita. Estas galhas são irregulares (Fig. 97), formam empola ou verruga para a pagina superior, e são largamente abertas para a parte inferior; n'essa parte inferior, ou interna, estão vestidas de felpa densa, primeiro branca e depois acastanhada (a felpa branca não se destaca facilmente pela fricção do dedo, o que differença a galha incipiente das lesões um tanto semelhantes do míldio); na parte superior são verdes (1). O acarideo que as produz é invisivel á vista desarmada, e passa quasi toda a vida no estado de larva; hiberna sob as cascas nas escamas dos gommos. São muito communs estas galhas nas nossas vinhas, mas de ordinario têem pequena importancia, salvo se tomam grande extensão e atacam tambem as flores e os cachos; com effeito, quando se tornam muito numerosas (e temol-as visto até confluentes), séccam as folhas, e podem prejudicar o atempamento da vara. Parece que, nos ultimos dois annos, este aracnideo tem mostrado tendencia para invadir com mais intensidade as nossas vinhas. Querendo tratar as vinhas atacadas, o que só valerá a pena em casos excepcionaes, ou se o mal tomar maior incremento, aconselha-se repetir os enxoframentos, pouco depois da videira abrolhar, com enxofre simples, ou misturado com cal gorda (25 a 30 % de cal); a escalda (772) das cêpas e dos gommos, durante o inverno, destróe os hibernantes.

(1) Em folhas de Solonis, que vimos dois annos a fio muito atacadas pela erinose, n'uma pequena cultura no concelho de Cascaes, em meio de outras cêpas americanas e europeas completamente isentas, as verrugas, que chegavam a invadir, com frequencia, toda a folha (na extremidade dos sarmentos), apresentavam ás vezes tambem pellos acastanhados na pagina superior.

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811. - Ha um outro aracnideo que prejudica a vinha, o Tetranychus telarius, sem que seja exclusivo a esta planta. Na vinha produz duas alterações differentes: uma das fórmas do Tetranychus provoca lesões, nas folhas, semelhantes ás da anthracnose (J. Perraud); a outra, origina uma das doenças vermelhas (Mayet e Viala [687-688]). As folhas, n'este ultimo caso, apresentam-se primeiro bolhosas, e na região atacada os pellos séccam e cáem; se o ataque se realisa na primavera, as folhas tomam em julho a côr carmim, que váe sempre alastrando e as invade todas, ou em grande parte, com excepção das nervuras; esta côr carmim torna-se com o tempo mais escura, passa a violacea, e por ultimo a castanho-avermelhada; as folhas ficam então quebradiças, séccam e cáem antes da epocha normal. As parras novas, atacadas no estio, deixam de crescer, e os ramos a que pertencem não se desenvolvem mais. Se o ataque é intenso, póde, em qualquer das duas fórmas, prejudicar bastante a vegetação e a colheita. O aracnideo que produz estas alterações tem de comprimento maximo 0,mm5, e o corpo ovoide, vermelho ou branco hyalino; pica as folhas, e d'ahi resultam as modificações apontadas. Aconselham-se contra esta doença as enxofrações repetidas. Parece que dão tambem resultados favoraveis: a escalda das cêpas (722); ou a descasca e a queima subsequente das cascas seccas; ou as pinturas com o liquido indicado por Balbiani, para atacar o ôvo de inverno da phylloxera (751) - o que está em harmonia com a affirmativa de que o aracnideo hiberna sob a casca das cêpas.

Fig. 97. - Parra atacada pela Phytoptus vitis (erinose)

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