Ir para o conteúdo

Tratado Elementar da Cultura da Vinha/V

Wikisource, a biblioteca livre

180 CULTURA DA VINHA

CAPITULO V

Estabelecimento e plantação da vinha

§ 1.º Escolha das videiras

330. - A escolha das videiras é decerto um dos problemas mais importantes no bom estabelecimento de uma vinha, e esta importancia ainda hoje sóbe de ponto perante a invasão phylloxerica. Quando convirá cultivar a Vitis vinifera? Quando convirá cultivar as videiras americanas? No primeiro caso, quaes são as regras a que nos devemos encostar na escolha das castas? No segundo caso, como se hão de determinar, nas diversas situações, as cêpas americanas preferiveis para cavallo e as castas europeas que hão de servir de garfos? Eis as interrogações de indispensavel resolução, antes de começar qualquer trabalho a valer no campo.

331. - Onde convém plantar a videira europêa. - Ao termos d'escolher, na plantação, entre a videira europea e as videiras americanas, julgâmos que se deve acceitar, hoje, em Portugal, como base de todas as deducções, a affirmativa de que o paiz está na sua grande parte phylloxerado e que sobre a parte ainda indemne impende uma tão constante ameaça, que é prudente consideral-a como tendo todas as probabilidades de ser invadida, em pouco tempo. Por outro lado, é certo que nenhuma das castas portuguezas, como nenhuma das castas da Vitis vinifera, resiste á phylloxera, embora, em egualdade de circumstancias, umas succumbam mais rapidamente do que as outras (1).

(1) Na região norte, são consideradas como resistindo um pouco mais (mas tornando-se de ordinario infructiferas depois d'atacadas) o Tinto-cão, Souzão, Bastardo e principalmente o Mourisco preto; na Beira, a Mortagua, o Riffete e a Tinta Pinheira; na Extremadura (Leiria), o Boal cachudo e Boal roxo; no Alemtejo, a Formosa e seguindo-se por sua ordem, o Roupeiro, Mureto, Trincadeira e Gallego.

182 CULTURA DA VINHA

332. - Assentes estas bases, as plantações das videiras europeas só darão probabilidades d'exito, ou sobre as areias refractarias á phylloxera (184 e seg.), ou entregues nos outros terrenos a qualquer dos tratamentos com que se combate efficazmente este insecto. Entre esses tratamentos sobrelevam dois, pelos resultados praticos obtidos - a submersão e o emprego do sulfureto de carbonio. Mas a submersão, embora optimo meio de lucta, é um processo relativamente excepcional; para que a agua asphyxie o parasita, precisa demorar-se pelo menos quarenta dias, sem interrupção, cobrindo o solo com uma camada de 20 a 25 cent. d'espessura; só se adapta portanto aos terrenos de planicie, de consistencia mediana, tendo subsolos adequados e havendo proximo grandes massas d'agua; além de que exige movimentos de terra e trabalhos d'installação, para os quaes são necessarias despesas relativamente elevadas. Por seu lado, os tratamentos pelo sulfureto de carbonio só têem dado resultados favoraveis nos terrenos de facil diffusão, leves ou de mediana consistencia, fundaveis e ricos; e, em todo o caso, vém sobrecarregar a cultura, já tão onerada pelos diversos tratamentos contra tantas outras doenças, com mais uma despesa annual constante; por estes motivos, o sulfureto de carbonio, hoje, é principalmente utilisado para amparar as vinhas atacadas já existentes, e perde cada vez mais a sua importancia como base da reconstituição dos predios viticolas.

CULTURA DA VINHA 183

333. - Fóra das condições apontadas, será sempre muito arriscado o emprego da videira europea; muito arriscado, mesmo nas regiões ainda consideradas indemnes, repetimol-o, mas onde, n'um futuro mais ou menos proximo, impossivel de precisar, talvez, infelizmente, bem proximo, o terrivel insecto póde apparecer. O exemplo do que tem acontecido nas outras regiões vinhateiras, obriga a este conselho de boa previdencia.

334. - Resumindo, pois, julgamos que esta questão das videiras europeas deve ter, hoje, a seguinte solução pratica - utilisal-as nas areias refractarias; utilisal-as nos terrenos de facil e efficaz submersão, onde as despesas com os trabalhos indispensaveis deixem margem a um lucro vantajoso. Considerar o tratamento pelo sulfureto de carbonio antes um meio de conservar certas vinhas já existentes, do que um processo geral da cultura da videira europea.

184 CULTURA DA VINHA

335. - Onde convém plantar as videiras americanas. - O que deixamos escripto acima parece indicar, por exclusão, os casos em que convém cultivar as videiras americanas; no emtanto, torna-se ainda necessario fazer algumas restricções.

336. - Nos pontos onde não convirá cultivar as videiras europeas, nem sempre poderemos cultivar com segurança as americanas. Sabe-se quanto são, por via de regra, mais exigentes nas condições do terreno estas ultimas; seguramente, para as terras onde se cultivava d'antes a vinha europea, salvas as mais excessivamente calcareas, será possivel encontrar cêpas americanas que vegetem bem; mas, nas terras muito pobres, nas muito superficiaes, nas encharcadiças de difficil enxugo, e nas muito calcareas (sobretudo nas de percentagens elevadas de calcareo molle), a plantação das videiras americanas ou é impossivel, ou ainda hoje muito precaria.

337. - E' certo que, nas terras muito pobres ou muito superficiaes, podem vegetar algumas americanas. Mas a cultura actual da vinha precisa tornar-se intensiva, accumular capital e trabalho para tirar um grande producto bruto, com que pague as despesas crescentes do grangeio, deixando um lucro. Depois, a vinha baseada nas videiras americanas servindo de cavallo ás castas europeas, além de que exige maiores despesas de estabelecimento, terá talvez vida mais curta, e tem renovação muito mais contingente (renovação aliás facil com o systema de cameação, empregado para as nossas videiras), o que demanda um capital inicial mais elevado e uma amortisação mais rapida d'esse capital; esta mais rapida amortisação é facilitada, em condições normaes, pelo augmento da producção das vinhas americanas enxertadas, e pelo facto d'ellas entrarem mais cedo em fructo. Ora, nos terrenos ingratos, muito pobres ou muito pouco espessos, o lucro remanescente, depois de tantos grangeios e tratamentos indispensaveis, e deduzida ainda a mais prompta amortisação do capital empatado, fica bem problematico.

CULTURA DA VINHA 185

338. - Quanto aos terrenos calcareos, é tambem certo, que ha especies americanas mais proprias para elles, e que alguns hybridos parece accommodarem-se ahi ainda melhor (192-193); mas, em todo o caso, o resultado da vinha apresenta-se n'esses terrenos bem mais contingente, e julgâmos arriscado plantal-os sem prévios ensaios de alguns annos, convenientemente dirigidos, que sirvam de base á plantação em ponto grande.

339. - Resumindo, formularemos a seguinte regra pratica - utilisar as videiras americanas nos terrenos não refractarios á phylloxera, nem economicamente submergiveis, quando não se apresentem muito pobres, ou encharcados e de difficil enxugo, ou muito superficiaes, ou muito calcareos (onde só a titulo de ensaio convirá, por emquanto, verificar a vegetação das cêpas menos conhecidas, e tidas como apropriadas a esses meios).

340. - Escolha das castas europeas. - O que vamos dizer sobre esta epigraphe, diz respeito, tanto á plantação das videiras europeas, como á escolha dos garfos para a enxertia das plantações americanas.

186 CULTURA DA VINHA

341. - Como regra geral, as castas preferidas não devem ser em grande numero, mas sim de boa qualidade e de abundante producção; não muito atreitas á anthracnose e ao míldio; perfeitamente adaptadas ás condições do terreno e do clima - exposição, altitude, etc. - e escolhidas de modo que da mistura das suas uvas, na proporção em que entram no conjuncto, se obtenha vinho são, bem equilibrado em todas as suas partes, e facil de collocar no mercado. A agglomeração de castas muito diversas na mesma vinha é sempre inconveniente: n'uma grande mistura não póde deixar de haver castas relativamente inferiores, que estão occupando o logar das boas; a vinha não tem epochas de vegetação uniformes, e isto difficulta os grangeios, os tratamentos contra as doenças parasitas, e a vindima; bem entendido que este inconveniente sóbe de ponto se as castas estiverem inconscientemente misturadas, e não separadas em talhões differentes. Na verdade, não são raros os bons vinhos de uma só casta; mas ha conveniencia, de ordinario, em cultivar com a casta predominante, e para assim dizer fundamental, mais algumas outras, que levantem no vinho certas qualidades - aroma, côr, acidez, etc. - e que ao mesmo tempo concorram para tornar a producção mais certa, porque, nos annos em que umas carregam menos, podem as outras carregar mais. Alguns bons praticos, com as castas tintas cultivam algumas brancas, porque a juncção de uma pequena quantidade de uva branca, na lagarada tinta, imprime ao vinho aroma, generosidade e vivacidade.

CULTURA DA VINHA 187

342. - Na escolha das castas, julgâmos que deve ser base solida o estudo dos vidonhos mais admittidos na região onde estiver situado o terreno que queremos plantar; a cultura d'essas castas tem ahi a sancção pratica de muitos annos, e decerto ellas teriam sido postas de lado, se não correspondessem ás condições do meio e ás necessidades da cultura. Não queremos dizer com isto, que cada região vinhateira se deve circumscrever actualmente a cultivar só as castas já existentes, o que seria negar a possibilidade de qualquer progresso, por este lado: haverá varias castas, quer de outras regiões portuguezas quer estrangeiras, que convirá introduzir, ou pela finura, ou pela abundancia, ou por outros determinados requisitos dos seus vinhos; mas esta introducção de castas exoticas, em um dado logar, que pode ser utilissima, pede, em todo o caso, ensaios anteriores em pequeno ponto, e demanda tempo. A quem não puder perder tempo, o que nunca aconselharemos, é a introducção de uma planta nova, por melhor que ella seja nos paizes d'onde é originaria ou onde é cultivada, para formar com ella um grande vinhedo; não podendo fazer esses ensaios previos, mais util suppômos o lançar mão das castas já conhecidas e já experimentadas como boas n'essa localidade.

343. - Tratando-se das plantações em areias (332, 184 e seg.), devem escolher-se videiras que se adaptem bem a esse meio, e o estudo comparativo das castas portuguezas, que nas nossas diversas provincias da beira-mar se cultivam em solos mais ou menos arenosos, póde elucidar bastante esta questão (188).

188 CULTURA DA VINHA

344. - Tratando-se das plantações que hão de ser sujeitas á submersão (332), convém escolher pequeno numero de castas: de abrolhamento serodio (porque a acção das geadas tardias é para recear n'esses meios); cujas varas se tornam cedo bastante lenhosas (porque a submersão affecta muito as vinhas quando as varas não estão convenientemente atempadas); e o mais refractarias possivel ás doenças cryptogamicas, que aliás se podem desenvolver muito, encontrando condições de tão excessiva humidade.

345. - Tratando-se da escolha de garfos europeus, é ainda indispensavel que as castas preferidas sejam susceptiveis de se ligar bem como os cavallos americanos adoptados, pegando os enxertos facilmente, dando soldaduras perfeitas e rebentos vigorosos. Já n'outro logar indicámos algumas regras geraes ácerca da adaptação do garfo ao cavallo (262), mas, no emtanto, só a experiencia local póde decidir este problema com segurança, porque ha exemplos da mesma casta, enxertada no mesmo cavallo, ter resultados muito differentes em localidades diversas.

346. - Escolha das videiras americanas. - As videiras americanas são hoje quasi geralmente empregadas como cavallos de enxertia - pelo menos na grande cultura. Os productores directos estão cada vez mais abandonados, por toda a parte. A querer empregal-os, convém escolher-lhes sempre situações bem favoraveis - terrenos ricos e fundos, clima propicio - onde possam desenvolver-se com vigor, para terem producção mais abundante, porque, de ordinario, nos meios menos apropriados ou mais pobres dão pequenas colheitas (108). Os principaes productores directos são: importados para a Europa - Clinton, Jacquez, Herbemont, Cunningham, Black-July, Othello, Senasqua, Triumph, Noah, Elvira, Canadá, Cornucopia, etc. - obtidos em França: Saint-Sauveur, Herbemont-Touzan, Herbemont d'Aurelles n.º 1, Clairette dorée Ganzin, Alicante × Rupestris n.º 20 Terras, hybridos Seibel n.os 1 e 2, hybridos Couderc (sobretudo n.os 503 e 603 para os terrenos calcareos e não calcareos, e n.os 4401, 6301 e 604 para os não calcareos). Como já dissemos (144 e seg.), os primeiros estão quasi completamente excluidos da cultura europea, e dos segundos, uns teem resistencia insufficiente, outros são ainda pouco experimentados, não têem ainda a seu favor resultados praticos incontestaveis.

CULTURA DA VINHA 189

347. - Na escolha do cavallo americano, para uma dada situação, devemos guiar-nos pelas exigencias de cada videira quanto ao clima e ao terreno, como ficou dito anteriormente (162 a 164-197 e seg.). E' de advertir, que o futuro da vinha depende essencialmente d'essa escolha; as cêpas americanas são mais exigentes do que a cêpa europea, e o cavallo mal adaptado desenvolve-se pouco, definha, torna-se chlorotico e morre, aggravando-se ainda este perigo depois da enxertia, e ficando assim perdidas todas as despesas feitas (191). Se na região houver já boas vinhas, d'enxertia sobre americanas, devemos, na nossa escolha, guiarmo-nos, naturalmente, pelos resultados obtidos, adoptando os cavallos que se comportaram melhor, em situações identicas. Se na localidade as videiras americanas são ainda pouco ou mal conhecidas, é tão complexo actualmente o problema, tem tantas incognitas, que julgamos mais prudente não emprehender a cultura sem restrictos ensaios locaes, em que se possa basear com segurança a escolha do cavallo.

190 CULTURA DA VINHA

348. - Uma das grandes difficuldades d'esta escolha é, sem duvida, o grande numero de fórmas, tão variaveis - culturaes ou selvagens, puras ou hybridas - que se grupam em redor de cada typo botanico (111); sabido, como é, que o resultado da plantação depende tanto, ou mais, da escolha d'essa fórma do que da escolha do typo da videira.

349. - A plantação feita ao acaso, simplesmente assente em deducções theoricas, peor ou melhor estabelecidas, importando-se um cavallo desconhecido na região, se póde ás vezes dar bons resultados, muitissimas vezes póde conduzir aos maiores desastres - mais proximos ou mais remotos; e em todo o caso, apresenta uma grande contingencia, que o agricultor cauteloso deve sempre evitar. Com certeza que n'isto reside o maior perigo para o futuro de muitas das replantações, taes como se estão hoje executando entre nós; a febre de replantar depressa, de não perder tempo nem dinheiro com ensaios, ha de ter, para muitos, effeitos bem contraproducentes: a perda total da despesa e do tempo da plantação.

CULTURA DA VINHA 191

350. - E, n'este ponto, não podemos deixar de aconselhar todo o cuidado com os reclames diarios, a favor de cêpas novas, hybridas ou não hybridas, que o commercio preconisa como preferiveis a todas as mais. E' certo que n'este, como em todos os ramos do commercio, ha boa e má fé; longe de nós o dizer que se não experimentem as cêpas novas, onde talvez se encontre a prosperidade futura da viticultura europea, e na verdade os resultados obtidos permittem essa esperança. Mas, emquanto a experiencia, repetida por varios annos, não sanccionar praticamente uma fórma nova, é arriscadissimo empregal-a n'uma plantação importante, a qual, no nosso entender, deve sempre ser feita com cêpas conhecidas, que já tenham dado bons resultados incontestaveis, em situações mais ou menos semelhantes.

351. - Como regra geral, a adaptação ás condições do meio deve ser tanto mais cuidadosamente estudada, quanto mais quente fôr o clima - porque então é mais energico o ataque phylloxerico - bem como quanto mais desfavoravel o terreno. Os terrenos peores para as videiras americanas, além dos de maior percentagem de calcareo friavel, são os excessivamente compactos, os muito seccos ou mais humidos, e os muito superficiaes (196).

192 CULTURA DA VINHA

352. - A questão da resistencia á phylloxera é capital, mas importa consideral-a não só em absoluto, como relativamente ás outras circumstancias que concorrem.

353. - Em absoluto, bem poucas são as videiras americanas completamente indemnes (706): parece que o são algumas (poucas) das fórmas da V. rupestris, da V. riparia, da V. rotundifolia e da V. cinerea, bem como alguns hybridos da V. rupestris. São muito resistentes, mas apresentam já algumas nodosidades (inoffensivas) nas radiculas (17), a maior parte das fórmas selvagens da V. riparia, muitas fórmas da V. rupestris, V. Berlandieri, V. cordifolia, V. cinerea, etc.; as fórmas inferiores, mais mal seleccionadas, d'estas especies, têem as nodosidades já um pouco maiores e ás vezes mesmo ligeiras tuberosidades nas raizes (17). Na York-Madeira e na Solonis (nas boas fórmas), as nodosidades das radiculas são mais grossas e mais numerosas, e nas raizes encontram-se algumas tuberosidades, embora pouco abundantes e pouco perigosas. No Herbemont, Jacquez, Cunningham, Noah, Vialla, Taylor, Clinton, Othello, Elvira, Senasqua, Triumph, etc., são frequentes tanto as nodosidades como as tuberosidades, sendo as ultimas já mais volumosas e mais perigosas (embora não seja bem egual a facilidade com que succumbem todas estas cêpas).

354. - Mas a resistencia de cada typo botanico não se póde representar por um valor absoluto; não só, como dizemos acima, as fórmas de um mesmo typo apresentam resistencia um tanto diversa, mas ainda a resistencia de cada fórma depende bastante das condições do meio (215). Em regra, quanto menor fôr a resistencia de uma videira tanto melhor adaptada precisa estar ao terreno e ao clima. Em regra, a resistencia nos paizes mais frios, mais ao norte, é maior do que nos quentes, meridionaes, onde as gerações annuaes da phylloxera são mais numerosas; por isso, n'estes ultimos paizes, convém preferir as videiras de resistencia comprovada.

CULTURA DA VINHA 193

355. - A Riparia (114), pela sua grande resistencia, pela facilidade da sua cultura e pela fructificação abundante dos seus enxertos, deve ser o cavallo preferido, sempre que o terreno o permitta; é o cavallo por excellencia dos terrenos ricos, frescos mas não humidos, argillo-siliciosos e silico-argillosos, mas muitos outros póde ainda aproveitar (198). E' preciso attender a que tem numerosas fórmas, com valor e aptidões differentes, que devem ser escolhidas com cuidado (115 a 118); a Gloria de Montpellier... é a fórma que hoje tende a tomar em França a preponderancia (1).

355 bis. - A Rupestris (120) é o cavallo essencialmente apropriado para os terrenos menos fundos, pedregosos e pobres; devem tambem escolher-se as boas fórmas (122), e parece que, em muitos casos, são ainda preferiveis ás fórmas typicas puras alguns dos seus hybridos, taes como o Aramon × Rupestris, as Riparias × Rupestris (143) e a Rupestris Monticola (122), sobretudo para os terrenos mais calcareos, onde d'antes se aconselhava a Solonis e o Jacquez. Tanto a Rupestris como a Riparia são videiras que já deram largas provas no nosso paiz, e sobre ellas se encontram das melhores enxertias. Em França, sustentam hoje a possibilidade de reconstituir todas as vinhas, que não assentem em terrenos excessivamente calcareos, sómente com algumas das boas fórmas, puras ou derivadas, d'estas duas especies (214 bis).

(1) Gongresso Viticola de Lyão (1894).

194 CULTURA DA VINHA

356. - Em plano mais secundario, a Solonis (132), apesar de ser considerada menos resistente, tem dado bons cavallos em varias das nossas vinhas; apresenta resistencia sufficiente - pelo menos quando bem adaptada e bem escolhida - é muito vigorosa e dá enxertias muito fortes e solidas. Apropria-se aos terrenos um tanto humidos e aos medianamente calcareos do centro e do norte (200); na região do Douro é bastante estimada. Notaremos, todavia, que a sua menor resistencia, relativamente ás videiras anteriores, e o perigo de se confundirem as suas boas fórmas com a fórma lobata, que succumbe de pressa á phylloxera (133), estão restringindo cada vez mais a sua cultura.

357. - Do mesmo modo, tem o Jacquez prestado alguns serviços. Como productor directo está quasi completamente abandonado na Europa; na America já o não cultivam tambem, pelo muito que soffre com a anthracnose. Como cavallo, tem resistencia sufficiente quando bem adaptado ao terreno, mas muito menor que as Riparias e Rupestris (135); é principalmente proprio para os terrenos argillosos um tanto compactos, bastante ricos e pedregosos (201). Porém a sua cultura tem diminuido muito, e no ultimo congresso de Lyão foi emittido o parecer de que ha vantagem em empregar antes a Rupestris Monticola (122) e os hybridos Riparia × Rupestris, nos terrenos fortes e medianamente calcareos, para que tanto o Jacquez como a Solonis tinham sido mais aconselhados.

CULTURA DA VINHA 195

358. - A Vialla (140) tem sobretudo dado bons resultados nos terrenos graniticos, frescos do norte (203), todavia a sua cultura é restricta entre nós. A York-Madeira (138) tem sido empregada com vantagem, em varios pontos de Portugal (203), mas apresenta o defeito de se desenvolver pouco nos primeiros annos, e em França estão-lhe hoje preferindo, geralmente, a Rupestris e a Riparia. São estas que deixamos enumeradas (355 e seg.) as videiras americanas mais conhecidas e mais experimentadas, até hoje, na cultura do nosso paiz (1).

(1) No recente congresso viticola de Lisboa foi resolvido, de accordo com o relatorio do sr. Henrique de Mendia, professor do Instituto e viticultor muito distincto, que, na actualidade, a reconstituição das nossas vinhas se deve basear sómente nos seguintes cavallos americanos:

Solos profundos, argillo-siliciosos e argillo-calcareos (até 10 ou mesmo 15 ou 18 % de calcareo, segundo as restantes circumstancias), moveis e regularmente ferteis: Riparias (a Tomentosa gigante, nos mais humidos, mas esgotaveis; a Gloria de Montpellier, nos que conservam lentura; a Grande glabra, nos relativamente mais seccos).

Solos d'encosta, pobres, siliciosos ou argillo-siliciosos, seccos, seixosos, graniticos ou schistosos: Rupestris (R. Ganzin; R. Fortworth; R. Martin; R. Monticola, de preferencia sobre as restantes nos argillo-siliciosos).

Solos não excessivamente calcareos (até 30 ou 40 %), de calcareo duro e pouco tenue: Riparia × Rupestris (as melhores fórmas); Aramon × Rupestris; Rupestris Monticola.

Solos excessivamente calcareos (além de 30 ou 40 %) e sobre tudo de calcareo pulverulento, brando: experiencias com as melhores fórmas da V. Berlandieri (a reconstituição n'estes terrenos não tem ainda completa sancção pratica).

(Nota junta durante a impressão).

196 CULTURA DA VINHA

§ 2.º - Escolha do processo de formação da vinha

359. - Por dois processos póde ser formada uma vinha - plantando bacellos ou barbados e no segundo caso ha ainda duas variantes a considerar, pois que os barbados pódem ser enxertados depois de postos, ou vir já enxertados do viveiro.

360. - A vinha em Portugal, antes da introducção das cêpas americanas, era quasi sempre, ou sempre, plantada sob a fórma de bacellos, vista a grande facilidade d'enraizamento da videira europea; apenas se aconselhava o emprego de barbados nas plantações das terras muito aridas dos climas mais seccos. Do mesmo modo, e pelas mesmas razões, podem continuar a ser feitas as plantações actuaes da V. vinifera. Quanto ás vinhas americanas, apenas convém a plantação de bacellos para as especies ou hybridos que enraizam facilmente e são de baixo preço (Riparia, etc.), nas terras soltas ou de mediana consistencia, de fundura sufficiente, e nos climas não muito seccos; aliás, e n'este caso estão o maior numero das americanas (Rupestris, Berlandieri, Jacquez, etc.), é muito mais vantajoso o emprego dos barbados, para regularidade da vinha, que senão fica com muitas falhas.

CULTURA DA VINHA 197

361. - Bacellos. - Os bacellos são tirados, na epocha do repouso da vegetação, da vara atempada do anno (bacello simples), ás vezes tendo na base um pequeno fragmento da vara antiga em que se implantavam (bacello com talão: bacello com cruzeta). Dizem que estes ultimos bacellos enraizam melhor, porque na intumescencia basilar, junto á vara antiga, ha grande tendencia para a formação de raizes; em contraposição, notam, como inconveniente a este processo, que apodrece rapidamente o pau velho, debaixo da terra, podendo esse apodrecimento contaminar a base do bacello; resolvem alguns esta contrariedade, conservando a base intumescida do bacello e adherente um fragmento da casca da vara mais velha, á qual cortam o lenho.

362. - Na escolha dos bacellos para a plantação, devem seguir-se as regras já apontadas para a escolha das estacas de viveiro (236). Se os bacellos são de videiras em que o enraizamento não é tão facil, convem lançar mão de algum dos processos indicados para auxiliar a emissão das raizes (239) - a torção da parte enterrada, o esmagamento, ou melhor o descasque. Tratando-se de uma plantação de bacellos americanos para cavallos de enxertia, esta enxertia deve fazer-se, em regra geral, no anno seguinte ao da plantação (416).

198 CULTURA DA VINHA

363. - E' pratica muito vulgar do nosso paiz, curvar os bacellos no acto da plantação (Fig. 32), de modo que fique horisontal uma porção importante da parte soterrada (unhamento); este unhamento tem por fim provocar o desenvolvimento de maior numero de raizes, e por isso os nossos auctores o recommendam principalmente para as plantações dos terrenos pobres ou muito inclinados: no primeiro caso, para que o maior numero das raizes assegure melhor a nutrição da planta; no segundo, para que o descahir da terra, sob a acção dos grangeios e das chuvas, não descalce tão facilmente as videiras. No emtanto, esta materia não é corrente, e tem-se discutido muito sobre se é preferivel unhar o bacello ou plantal-o vertical. A verdade é que, em condições normaes, a plantação vertical dá bellas plantas, optimamente enraizadas, como é bem facil de verificar a todo o momento com os barbados obtidos das pequenas estacas de viveiro. O bacello unhado parece que produz plantas menos vigorosas, com mais raizes, mas menos desenvolvidas.

Fig. 32. - Bacello unhado.

364 - Barbados. - A plantação de barbados americanos faz-se, ou enxertando-os na vinha no anno seguinte ao da plantação, ou pondo barbados já enxertados no viveiro. Quanto á conveniencia de um ou outro processo, diremos que de ambos se tem obtido bons resultados, quando applicados convenientemente; parece que a enxertia a valer na vinha é mais preconisada para os paizes quentes, onde o enxerto póde soffrer mais na transplantação: emquanto a plantação dos barbados enxertados se apropria melhor ás regiões mais frescas (266 a 268). Sem contestação, vindo os barbados já enxertados, obtem-se muito mais promptamente uma vinha regular, e o que ha só a temer é o atrazo das plantas transplantadas; mas esse atrazo attenua-se, em parte, fazendo o arranque com cuidado, e plantando em epocha apropriada (nos climas seccos, quanto mais cedo possivel, para que haja abundante raizame novo ao sobrevirem os calores fortes). Quer a enxertia seja feita na vinha, quer venham as plantas já barbadas e enxertadas do viveiro, as faltas da enxertia é que será sempre - em regra - vantajoso preencher com plantas enxertadas, para que a vinha eguale mais depressa.

CULTURA DA VINHA 199

365. - Os barbados não enxertados devem plantar-se com um anno de edade ou, o muito, com dois, se o seu desenvolvimento foi pequeno. Quanto mais novos, mais facil é o arranque e menos soffrem na transplantação; por outro lado, quanto menos grossos na occasião da enxertia, melhor acceitam o garfo e mais perfeita é a soldadura. A enxertia d'estes barbados deve fazer-se no anno seguinte ao da postura na vinha (416). Não convém enxertal-os na mão (265) no mesmo anno em que se plantam a valer, porque, tendo de soffrer simultaneamente os atrazos provenientes da enxertia e da transplantação, podem resentir-se muito: pois que na vinha, por mais bem tratada que seja, não recebem os mesmos cuidados de tratamento que no viveiro (onde se usa d'este processo (268).

200 CULTURA DA VINHA

366. - Os barbados já enxertados podem provir de enxertias feitas ou sobre estacas (269) ou já sobre barbados - quer na mão ou na terra (267-268) - e que, em qualquer dos casos, se demoraram ainda mais um anno no viveiro. A enxertia, no viveiro, sobre barbados, dá plantas mais robustas do que sobre estacas, e falha muito menos (267-268); essa maior robustez das plantas póde ser uma grande vantagem, pelo que a vinha ao depois adeanta mais: mas é preciso não esquecer que estes barbados já de dois annos têem raizes fortes e precisam cuidadoso arranque (sobretudo se a enxertia não foi feita na mão), porque aliás soffrem muito com a transplantação, e atrazam depois bastante. O barbado enxertado, tirado mal da terra e mal posto, que enfeza no primeiro anno, difficilmente se vigorisa no futuro; só á custa de muito trabalho e sempre mais ou menos contingente.

367. - Para arrancar os barbados do viveiro, de modo que soffram pouco, abre-se uma valla, parallela á linha marginal da plantação, e para essa valla se vão fazendo cahir as videiras, descarnando as raizes, por fórma a cortal-as o menos possivel (excepto as que se apresentarem muito compridas), sem puxar a planta e muito menos se fôr enxertada. Pela mesma fórma se procede ao arranque das plantas da linha immediata, e assim successivamente. Se os barbados já estiverem enxertados, devem inspeccionar-se n'essa occasião as soldaduras, para só utilisar na plantação definitiva os que estiverem bem soldados, pondo os outros, provisoriamente, á parte.

CULTURA DA VINHA 201

368. - Quando os barbados, logo depois do arranque, podem ir definitivamente para a vinha, mais favoravel é a plantação; n'este caso, se todas as operações foram feitas com cuidado, quasi que não ha falhas; pelo contrario, toda a demora depois do arranque se traduz geralmente n'uma perda, maior ou menor. Se fôr necessario conservar algum tempo os barbados fóra da terra, ou se tiverem de ser transportados para longe, devem acondicionar-se com musgo levemente humedecido, de fórma que se não desequem.

369. - Antes de plantar os barbados, convem cortar-lhes as raizes muito compridas, e alizar com um golpe bem nitido as raizes dilaceradas ou quebradas, mas todas as outras raizes devem ficar, e quanto mais numerosas forem, melhor. O processo que alguns seguem de cortar as raizes todas, a pequena distancia do eixo, é desvantajoso, porque exactamente do bom desenvolvimento radicular é que mais depende o pegar bem a planta, e o rebentar com vigor.

370. - Se a plantação se fizer logo em seguida ao arranque, não precisam os barbados de mais nenhum preparo, salvos os córtes de raizes indispensaveis, acima referidos. Se os barbados estiverem certo tempo arrancados (ou porque venham de longe ou outra qualquer causa), convem immergir-lhes as raizes em agua, durante umas horas, antes de os plantar, ou melhor ainda n'uma calda feita de agua, terra e estrume bem curtido.

202 CULTURA DA VINHA

§ 3.º - Plantação da vinha

371. - Trabalhos preliminares. - Assente a escolha das videiras que convém empregar e o processo da plantação, é necessario proceder ao estudo do terreno sob outro ponto de vista.

372. - Quando se trata de estabelecer um predio viticola consideravel, importa muito traçar os caminhos indispensaveis para o grangeio economico da propriedade. Não se julgue que os espaços que têem esse destino representam valores perdidos; antes bem pelo contrario. A conducção dos apparelhos de grangeio, dos estrumes, adubos e substancias empregadas nos tratamentos, a sahida das colheitas e das varas da poda, a passagem dos jornaleiros, a inspecção rapida da vinha, etc., ficam assim muito mais faceis e damnificam muito menos as plantas, traduzindo-se afinal n'uma economia importante.

373. - Cada talhão, delimitado pela rede dos caminhos, convém que fique, quanto possivel, homogeneo na natureza da terra e condições climatericas, para poder ser plantado com as mesmas castas. Bem entendido que, quando o predio viticola é muito grande, apresentará naturalmente solos variaveis na composição, riqueza, espessura, declive, exposição, etc.; n'este caso, os estudos anteriores da escolha das videiras e do processo de plantação têem de considerar cada uma d'essa variantes como uma vinha á parte.

CULTURA DA VINHA 203

374. - Antes da plantação, deve merecer particular cuidado o esgoto da terra; a humidade excessiva, accumulada junta ás raizes, é muito prejudicial á videira. Se o terreno não enxugar naturalmente, pelas condições d'impermeabilidade do solo ou do subsolo, é indispensavel sangral-o; já abrindo vallas convenientemente traçadas, já estabelecendo uma drenagem, cujas despesas são bem compensadas pelo excesso de rendimento da vinha. Nas terras humidas, e muito mais nas encharcadiças, a não se poderem fazer estes trabalhos previos d'enxugo, melhor é não plantar vinha, que se resente muito n'esse meio contrario, produz vinhos inferiores, e fica muito atreita á invasão de doenças graves, como ao apodrecimento das raizes e á exaggerada intensidade do oídio, anthracnose, mildio, etc. Se o terreno tiver enxugo natural, mas apresentar depressões onde se junte agua estagnada, é importante nivelal-as primeiro, ou sangral-as por meio de vallas

375. - Nos sitios mais expostos aos ventos fortes, póde convir crear abrigos, com cortinas d'arvores; mas, ao plantar arvores proximo da vinha, é preciso attender sempre a que ellas não a prejudiquem, já com a concorrencia das suas raizes, já com a sombra. O uso, antigamente em Portugal bastante vulgar, de pôr arvores no meio das vinhas é nocivo; bem como são pouco economicos os processos semelhantes de culturas intercalares, alternando com as fiadas mais espaçadas da videira, e que tem sido completamente banidos da cultura cuidadosa.

204 CULTURA DA VINHA

376. - Se o terreno da plantação está de matto, precisa uma arroteia e limpeza prévia, que, conforme os casos, poderão ser feitas a braço, ou á charrua, ou promiscuamente pelos dois processos. Alguns plantam a vinha logo sobre a arroteia; outros entregam primeiro o terreno, durante um ou dois annos, á cultura aratoria.

377. - Quando se trata de replantar um terreno que estava de vinha (e esta hypothese é hoje muito frequente), ha vantagem em o entregar alguns annos, sempre que seja possivel, á cultura arvense, principalmente se o terreno é argilloso. A querer replantar logo, convém ao menos levar a surriba de preparação abaixo da surriba da vinha anterior. Este preceito é motivado pelos inconvenientes conhecidos de fazer seguir, no mesmo terreno, uma cultura a si propria; é principalmente uma questão de nutrição, e póde ser quasi sempre infringido, quando se usem boas adubações. Com receio da phylloxera, não ha motivo para deixar de replantar logo, com videiras americanas, o chão onde succumbiu áquelle insecto uma vinha europea, uma vez que se empreguem videiras americanas de grande resistencia. Com effeito, o emprego das videiras americanas é um processo adoptado para a videira poder viver com a phylloxera; n'uma região invadida, mesmo que o terreno da plantação não esteja ainda phylloxerado, é contar com a certeza de que a nova plantação o estará em breve; simplesmente, se a cultura das cêpas de melhor resistencia é sempre para aconselhar, muito mais o deve ser no caso particular de que tratamos, pois que a phylloxera invadirá as plantas desde logo, ainda em muito novas e pouco enraizadas.

CULTURA DA VINHA 205

378. - Preparo da terra. - O bom preparo da terra é condição essencialissima para o desenvolvimento futuro da vinha. Quanto possa ser, deve a surriba de preparação fazer-se no estio, ou pelo menos no principio do outomno, anterior á plantação, para que as hervas vivazes, sobretudo a grama ou escalracho (1), morram, sob a influencia do calor, e para que a terra, mobilisada, tenha tempo de soffrer as acções atmosphericas, preparando melhor a nutrição das plantas (meteorisação).

379. - A fundura d'esta surriba varía d'entre 50 ou 60 cent. a 1 metro, descendo ainda mais abaixo em casos excepcionaes. Como regra geral, quanto mais secco é o clima, quanto mais compacta fôr a terra e sobretudo se fôr humida, tanto mais profunda deve ser a surriba; como regra geral, ainda, quanto mais funda é a surriba, tanto mais cresce a vinha nos primeiros annos, e tanto mais cedo entra em fructo. As videiras americanas, que têem grande desenvolvimento radicular, agradecem muito as surribas fundas. Quando a plantação é de barbados enxertados, mais bem preparado deve ser o terreno, não só para diminuir a percentagem das falhas, como para os enxertos não atrazarem muito com a transplantação.

(1) Os dois vocabulos não são synonymos; a grama é o Cynodondactylon, P., e o escalracho é o Panicum repens, L.; as duas plantas são muito faceis de distinguir, porque, emquanto a primeira apresenta 3-7 espigas, compridas e estreitas, verticilladas no cimo dos colmos, a segunda tem longas paniculas terminaes. E' a grama que infesta as vinhas e terras de lavoura; o escalracho é proprio das areias humidas, sobretudo do littoral; mas, em muitas das nossas regiões, os homens do campo chamam á grama, erradamente, escalracho.

206 CULTURA DA VINHA

380. - Ao ser executada a surriba, póde ser indifferente para as propriedades do solo, o mistural-o com o subsolo; mas, póde tambem esta mistura ser muito util - como, por exemplo, tratando-se d'um solo argilloso assente n'um subsolo silicioso, ou vice-versa; ou, pelo contrario, póde ser muito inconveniente - como, por exemplo, quando se trata da plantação de cêpas americanas e o subsolo seja muito calcareo. Se não convier misturar o sobsolo, deve a surriba parar logo que elle se encontre, mobilisando a terra d'ahi para baixo, mas sem a trazer para a superficie.

381. - A surriba de preparação póde ser feita á charrua ou á enxada; o segundo processo é o mais perfeito, e o unico exequivel nas terras muito pedregosas; o primeiro tem a seu favor o ser mais barato, e é o que mais convém para a grande propriedade.

382. - As charruas empregadas subdividem-se em dois typos; um de tracção directa, outro que funcciona por meio da acção de cabrestantes movidos pelos animaes ou movidos pelo vapor. Como exemplo do primeiro typo, indicaremos a charrua de Brabant (Fig. 33), que tem dois corpos sobre o apo, um superior e outro inferior, que trabalham alternadamente, o que permitte, apesar de ser fixa a aiveca, o reviramento da leiva para ambos os lados; profunda até 60 ou 70 cent., e ainda se lhe pódem applicar á parte posterior das aivecas umas relhas especiaes, que mobilisam o subsolo a 15 ou 20 cent. abaixo d'aquella fundura; esta charrua é solida e perfeita, mas tem o inconveniente de ser muito pesada. Como exemplo do segundo typo, referiremos as charruas Vernette (Figs. 34 e 35), movidas pela acção de um cabrestante, que trabalha com a força de dois bois ou muares; o cabrestante Vernette (Fig. 36) está montado em quatro pequenas rodas, que assentam sobre duas calhas de ferro, seguras ao chão por estacas e perpendiculares á direcção dos sulcos; os animaes giram como n'uma nora, fazendo mover, por meio d'almanjarras, o tambor do cabrestante, onde se vae enrolando o cabo preso á charrua; chegada ao fim do sulco, a charrua é tirada da terra e collocada sobre um carrinho especial, puxado por uma muar, e assim é conduzida ao lado opposto do campo, á medida que o cabo se vae desenrolando no tambor do cabrestante; d'este modo se effectuam sulcos successivos, tornando-se necessario que, no fim de uns seis ou oito, o cabrestante avance um pouco nas calhas, para ganhar terreno. Segundo dizem, estas charruas Vernette, empregando em todo o trabalho dois homens e tres muares, surribam approximadamente 1:000 a 1:200 metros quadrados por dia de dez horas de trabalho, podendo profundar 60 a 75 cent. (1). Quando se não queira misturar o subsolo, póde-se fazer passar, em seguida ás charruas que reviram a leiva, uma de subsolo, sem aiveca. A surriba a vapor só na muito grande propriedade convém.

(1) Esta charrua Vernette com todos os seus pertences custa em Lisboa proximamente uns 300$000 réis

Fig. 33. - Charrua de Brabant.

14

208 CULTURA DA VINHA

Fig. 34. - Charrua de plantação Vernette.

CULTURA DA VINHA 209

Fig. 35. - Charrua de plantação Vernette.

Fig. 36. - Cabrestante Vernette.

CULTURA DA VINHA 211

383. - A surriba á enxada executa-se com muita perfeição pelo processo denominado á manta. Riscam-se a cordel faxas ou mantas successivas, da largura de 0,4 cent. a 1 metro, conforme a fundura, cada uma das quaes se abre de maneira, que a terra tirada vá encher a valla precedente; a terra da primeira valla fica para encher a ultima, ou fica inutilisada, e, n'este caso, a ultima valla tapa-se com qualquer terra disponivel que haja proximo. Em algumas das nossas regiões vinhateiras, quando a terra do fundo da valla é cavada, sem vir para a superficie, denominam a esta operação fazer o solinho. E' de advertir que a surriba á manta tem sido principalmente empregada, entre nós, para a plantação immediata do bacello, sem preparo anterior da terra, ficando logo plantada uma fieira de bacellos em cada valla, sobre a terra meteorisada da superficie, e tendo-se addicionado no fundo, de ordinario, algum matto cortado ou estrume.

212 CULTURA DA VINHA

384. - Nos terrenos de forte inclinação, onde é necessario armar socalcos ou terrados, a surriba, simultanea quasi sempre com a plantação, faz-se pelo processo denominado á valla, que consiste em surribar espaços parallelamente alternados com outros de terra crua. Adeante nos referiremos com mais particularidade a este processo (411).

385. - Nos terrenos de rocha branda ou foliacea, como nos schistos, chegam, em varios sitios, a preparar o terreno, abrindo as bancadas á picareta ou á barra, e partindo a rocha mais difficil de ceder a marrão. Ha pontos do paiz, em que os bacellos ficam, não em terra vegetal propriamente, mas no meio de pequenos fragmentos da rocha mal pulverisada.

386. - Seja qual fôr o processo de preparo da terra, é indispensavel que ella se apresente bem limpa das plantas vivazes, sendo a grama uma das mais prejudiciaes e das mais difficeis d'extirpar, porque o mais leve troço de rhizoma quebrado, que remanesça, em breve inça outra vez o chão, se os grangeios da vinha não forem muito cuidadosos. Se o terreno fôr pedregoso, não convém geralmente tirar-lhe as pedras: sendo humido, é util deitar algumas d'ellas no fundo da valleira da surriba, para estabelecerem uma especie de drenagem; sendo secco, as pedras não são menos vantajosas, porque conservam subjacente a frescura (174).

387. - A despesa da surriba, por hectare, varía muito, conforme a natureza mais ou menos compacta do solo, conforme a profundidade, a limpeza necessaria d'hervas damninhas, e o salario dos jornaleiros. O calculo feito por milheiro de bacello ainda é mais fallivel, porque o compasso, ou distancia de bacello a bacello, é muito variavel; ha sitios do paiz onde a plantação de um milheiro de vinha póde custar 5$000 réis e crêmos que ainda menos, emquanto n'outros sóbe a 180$000 réis, e talvez mais, encontrando-se todos os valores possiveis entre tão afastados limites.

CULTURA DA VINHA 213

388. - Se o terreno fôr plano, convém quasi sempre fazer as vallas da surriba no sentido do maior comprimento; se fôr inclinado, devem executar-se mais ou menos perpendiculares á inclinação. Se a inclinação fôr muito forte, torna-se mesmo necessario estabelecer terrados ou andares, mantidos por sucalcos de terra batida, ou por muros de pedra solta, arrancada da surriba, se o terreno fôr pedregoso. Estão n'este ultimo caso as vinhas do Douro, cujos sucalcos ou geos são amparados pelos fragmentos mais volumosos, desaggregados dos schistos em em que ellas assentam.

389. - Determinação da plantação. - Feita a surriba e terraplenado o terreno, antes de se effectuar a plantação, é preciso marcal-a ou riscal-a. A plantação executa-se em alinhamentos, simples ou cruzados, não só para melhor repartir as plantas, como ainda para facilitar os grangeios.

390. - Na direcção d'estes alinhamentos, é preciso attender aos preceitos seguintes: se o terreno é plano, os alinhamentos devem ser, em regra, parallelos ao lado maior; mas, se fôr inclinado, convém que sejam obliquos ou mesmo perpendiculares á inclinação (se ella fôr muito grande), para que a terra não descaia tão facilmente. Por outro lado, tambem importa attender muito ao modo porque actuam, nos alinhamentos, o sol e os ventos dominantes, e como se podem contrariar as indicações deduzidas sobre estas differentes bases, trataremos de seguir, principalmente, as que se tornarem mais importantes no logar da plantação. Quanto á acção do sol, deve escolher-se nos paizes frios a orientação norte-sul, para que seja a insolação mais demorada, e nos paizes quentes, pelo contrario, a orientação este-oeste, para diminuir a queima das uvas. Quanto á acção dos ventos, attenua-se, dispondo, nos paizes ventosos, as fileiras na direcção das correntes dominantes, para que as plantas se abriguem mutuamente.

214 CULTURA DA VINHA

391. - A plantação póde ficar disposta no terreno segundo tres processos: em linhas, em quadrado e em equiconcio. No processo em linhas, as plantas ficam em alinhamentos simples, parallelos e equidistantes, mas ficam mais juntas entre si na mesma linha do que as linhas umas das outras. Nos outros dois processos, ha dois systemas cruzados de alinhamentos parallellos e equidistantes; no processo em quadrado, os dois systemas de alinhamentos cruzam-se perpendicularmente, dividindo o terreno em quadrados, cujos vertices as plantas occupam; no processo em equiconcio, os dois systemas de alinhamentos cruzam-se obliquos, sob angulos de 60°, ficando as plantas nos vertices de losangos.

CULTURA DA VINHA 215

392. - As vinhas plantadas em linhas são as que produzem menos, em egualdade de circumstancias, porque cada planta encontra ao seu dispôr um espaço de terra não regular; os grangeios mechanicos são mais faceis com esta disposição, mesmo os que se queiram fazer no periodo activo vegetativo, advertindo, ainda assim, que não é possivel cruzar as lavouras, n'este caso; a plantação em linhas é sobretudo apropriada aos terrenos inclinados, e para os terrenos planos convém mais, geralmente, os outros processos. A vinha plantada em quadrado tem maior producção do que no caso anterior, pois que as raizes estão repartidas mais regularmente, e póde soffrer lavouras cruzadas em dois sentidos. A plantação em equiconcio ainda regularisa muito melhor a distribuição das raizes em volta da cêpa, e mette n'uma mesma superficie mais cêpas á mesma distancia, permittindo além d'isso tres lavouras cruzadas; este processo veste muito a terra, o que é vantajoso para os paizes quentes, mas difficulta, por isso mesmo, o trabalho, das machinas no periodo vegetativo, se as videiras não estiverem amparadas com tutores.

393. - Quanto ao compasso, ou distancia a que ficam as videiras, é bastante variavel. Na plantação em linhas, é frequente espaçar as linhas de 1m,5 a 2m, ou mesmo a 3m e 3m,5 nos sitios muito inclinados; em cada linha, as videiras ficam a 1m,2 ou 1m, ou mesmo menos, havendo pontos no paiz em que ficam a 0m,5 e até a 0m,2 (1), o que decerto deve ser muito prejudicial. Nas plantações em quadrado ou equiconcio, os compassos mais habituaes variam entre 1m,5 e 1m,2, subindo a 1m,8 ou 2m, e descendo a 1m ou mesmo a 0m,90, rarissimas vezes a menos; é todavia de notar, como já dissemos, que, embora os compassos sejam eguaes, o numero das plantas na disposição em quadrado é menor, em egualdade de superficie, do que na do equiconcio, como se póde vêr na tabella seguinte:

CULTURA DA VINHA 216

NUMERO DE CEPAS POR HECTARE

Compasso Plantação em quadrado: Plantação em equiconcio:

1m,0 10:000 cêpas 11:560 cêpas

1m,1 8:264 » 9:549 »

1m,2 6:944 » 8:020 »

1m,3 5:917 » 6:837 »

1m,4 5:102 » 5:888 »

1m,5 4:444 » 5:132 »

1m,6 3:906 » 4:512 »

1m,7 3:460 » 3:996 »

1m,8 3:086 » 3:565 »

1m,9 2:770 » 3:199 »

2m,0 2:500 » 2:886 »

394. - E' um erro grave apertar de mais as plantações; as vinhas muito densas, geralmente, produzem mais ao principio, mas esgotam-se depressa, e a sua producção decresce em breve, com rapidez. Os compassos de 1m,2 a 1m,5 satisfazem, na maior parte dos casos, para as plantações em alinhamentos cruzados, quer para as videiras europeas, quer para as americanas enxertadas; tratando-se dos productores directos americanos que tomam grande desenvolvimento (Jacquez, etc.), convirá subir as distancias a 1m,8 ou 2m; este ultimo compasso dá cubagem sufficiente ás americanas mais exigentes.

(1) No concelho da Covilhã, as linhas ficam espaçadas de 1m,5 a 2m, e os bacellos plantam-se na linha a 0m,2 (Boletim da Direcção Geral de Agricultura n.º 11 - Nov. 1890).

CULTURA DA VINHA 217

395. - Em geral, podem estabelecer-se os preceitos seguintes: nos sitios onde a vinha tem crescimento mais vigoroso, o compasso deve ser maior - assim, deve ser maior nas terras fundas, ricas e frescas, relativamente ás terras superficiaes, pobres e aridas. Nas terras seccas dos climas quentes, a diminuição das distancias tem ainda a vantagem de vestir o terreno, para melhor conservar a humidade; nos terrenos humidos, pelo contrario, é util espaçar as plantas, para que o sol os enxugue. Nas planicies convém, de ordinario, alargar mais as plantações do que nas encostas, não só porque o chão é quasi sempre mais fertil, mais espesso e menos secco, mas ainda para que as videiras se assombreiem menos. Nas terras muito pobres, posto que, segundo a regra, as plantas devam ficar mais juntas, é necessario, todavia, graduar as distancias de maneira que a alimentação de cada videira fique garantida n'um meio tão escasso. Nas vinhas que hão de ser lavradas (514), é indispensavel deixar o espaço sufficiente para o trabalho regular da charrua.

218 CULTURA DA VINHA

396. - Determinadas as distancias e a direcção das linhas, é necessario riscar ou marcar no terreno os sitios correspondentes ás plantas. Para a plantação em linhas, determinam-se os alinhamentos parallelos, por meio do esquadro d'agrimensura, ou de um simples esquadro constituido por duas reguas de madeira, pregadas em angulo recto, e mantidas por uma travessa; o logar das plantas, em cada linha, póde marcar-se facilmente com uma corda, tendo nós d'espaço a espaço, segundo a distancia adoptada.

Fig. 37. - Plantação em quadrado.

397. - A plantação em quadrado (Fig. 37) passa-se ao terreno, marcando com a corda de nós uma primeira fiada marginal, e tirando por cada um dos pontos marcados uma perpendicular, a que se applica a mesma corda, cujos nós se assignalam na terra, identicamente, com estacas.

398. - Para marcar a plantação em equiconcio (Fig. 38), prepara-se, além da corda de nós, analoga á anterior, um triangulo equilatero de madeira, tendo cada lado egual ao compasso admittido. Começa por se extender a corda na margem do campo, marcando o sitio dos nós (Fig. 38, 1-2-3, etc.); em seguida applica-se um dos lados do triangulo sobre esse primeiro alinhamento, de maneira que os dois vertices correspondam á primeira e á segunda estaca: passa-se a corda de nós, encostando-a ao outro lado do triangulo que concorre no vertice apoiado á segunda estaca, e marcam-se os nós d'este novo alinhamento; do mesmo modo se procede, collocando o triangulo entre a segunda e a terceira estaca, e assim até ao final.

CULTURA DA VINHA 219

Fig. 38. - Plantação em equiconcio.

399. - Nas plantações extensas, convém empregar no traçado das linhas o riscador; é um singellissimo apparelho (Fig. 39), composto de duas reguas parallelas, ligadas entre si, e tendo pela parte de baixo tres pequenas relhas de ferro, collocadas á distancia dos alinhamentos. Dá-lhe movimento um homem, por meio de dois varaes, caminhando de costas, e dirigindo-se por uma corda que determina o primeiro alinhamento; traçados os tres primeiros riscos parallelos, continúa, introduzindo uma das relhas no ultimo risco aberto, para traçar dois novos riscos, e assim successivamente. Para traçar a plantação em quadrado, com o riscador, basta cruzar os riscos em angulo recto; para traçar a plantação em equiconcio, basta cruzal-os em angulos de 60°. E' de advertir que, seja qual fôr o processo adoptado para marcar a plantação no terreno, só se marcam os logares definitivos das videiras se a plantação ha de ser feita ao plantador (408) ou ao covacho (407); porque se é feita ao rego (409) ou á valla (411), apenas se risca a direcção das fiadas, devendo fazer-se a marcação depois da abertura dos sulcos ou vallas; na plantação á manta (410), marcam-se as videiras depois de aberta cada valleira, mesmo na occasião da postura.

220 CULTURA DA VINHA

Fig. 39. - Riscador Gouzy.

400. - Epocha da plantação. - A plantação de bacellos faz-se no inverno ou, mais excepcionalmente, no principio da primavera: mais cedo, nas terras mais seccas e nos climas mais quentes, para o bacello já estar bem enraizado quando sobrevenham os calores do estio; mais tarde, nas terras um tanto humidas ou n'aquellas de geadas fortes, onde a humidade excessiva no primeiro caso e o grande frio no segundo, o podem matar antes de desenvolver as raizes.

CULTURA DA VINHA 221

401. - A plantação dos barbados deve fazer-se no cedo, no fim do outomno ou principio do inverno, principalmente nos climas quentes; é muito sabido dos bons praticos que, n'uma grande parte do nosso paiz, as arvores ou arbustos que se transplantam no outomno vingam melhor e adeantam quasi sempre um anno, relativamente ás transplantações da primavera. Com os barbados enxertados é preciso mais cautela, e nos pontos mais frios convém demorar um pouco a postura, porque aliás se póde resentir o enxerto, ainda pouco consolidado.

402. - Seja qual fôr a epocha adoptada, deve sempre escolher-se, quanto possivel, um dia enxuto para a plantação, sendo preferivel retardal-a uns dias, a executal-a debaixo de chuva ou em terra muito molhada.

403. - Quando os bacellos tem de ser cortados com certa antecedencia antes da plantação, atam-se em pequenos mólhos, separando as castas, e conservam-se abacellados em sitio coberto e não humido, ou melhor estratificam-se em areia. Os barbados que tenham de estar algum tempo fóra da terra acondicionam-se com musgo humedecido (368) ou abacellam-se tambem.

222 CULTURA DA VINHA

404. - Fundura da plantação. - A fundura da plantação influe muito no desenvolvimento e na producção da vinha. As plantas enterradas profundamente criam, é certo, maior numero de raizes, mas essas raizes ficam mais delgadas e originam menos cabellame; estas plantas são menos vigorosas, e atrazam bastante no entrar em fructo; depois, a parte mais profunda morre cedo e apodrece, podendo ás vezes contaminar a parte superior. Em absoluto, somos pelas surribas fundas e pelas plantações superficiaes; não duvidamos mesmo asseverar que a falta de vitalidade de muitas das nossas vinhas depende, em grande parte, d'este erro de plantação. Nos terrenos bem preparados, as raizes procuram naturalmente a situação que lhes convém, ao alongarem-se, em harmonia com as condições do meio onde vivem; mas nas plantações profundas é que se não póde dar a correcção inversa.

405. - Como regra, reprovamos por completo as plantações feitas no fundo da manta a 1m e mais, e julgâmos que as plantações a 0m,2 ou 0m,3, ou o maximo, em casos mais raros, a 0m,40, satisfazem perfeitamente entre nós. As maiores profundidades convém nas encostas muito inclinadas, para impedir até certo ponto o descarne, e nas planicies muito seccas, como são as arenosas; as plantações muito mais profundas, por exemplo as de Collares, em que se procura a camada argillosa, subjacente, ás vezes, uns poucos de metros ás areias terciarias (178), são verdadeiramente excepcionaes. Os barbados de viveiro, obtidos as mais das vezes d'estacas pequenas (234), não se podem plantar muito fundos, nem isso convém; se já estão enxertados, plantam-se de modo que o ponto da enxertia fique um pouco acima da superficie do solo, tendo o cuidado de amontoar em seguida á plantação. Para regular bem a fundura, póde cravar-se um tutor, a que se ata o barbado, na posição e altura convenientes, conchegando depois a terra.

CULTURA DA VINHA 223

406. - Pratica da plantação. - A plantação póde ser feita - ao covacho, com o plantador, a rego, á manta e á valla.

407. - A plantação ao coracho executa-se, abrindo á enxada uma cova, nos sitios onde hão de ficar as videiras, dispondo ahi os bacellos ou barbados, e cobrindo-os com a terra sahida da mesma cova. Julgâmos este processo o mais perfeito para a plantação da vinha sobre terreno surribado com a devida antecedencia, principalmente quando se trate da plantação de barbados: porque é d'esta maneira que se lhes podem conservar todas as raizes, e que ellas se podem espalhar e dispôr nas suas posições naturaes, sobre a terra, o que é da maior conveniencia.

408. - A plantação com o plantador faz-se, abrindo com este instrumento um furo, onde se introduz a videira; o nosso plantador antigo, barra ou travella, é uma barra de ferro aguçada na extremidade inferior, e tendo superiormente uma argola, onde se passa um cabo de madeira, por meio do qual se imprime á barra movimento de rotação. Está hoje sendo usado em Portugal, em substituição d'este, um instrumento d'origem americana, o plantador de colheres (Fig. 40), que se compõe de um cabo tendo inferiormente duas largas colheres de ferro, moveis na base, e que se conchegam ou afastam pelo jogo de uma alavanca, collocada na parte superior do cabo; introduz-se este plantador no terreno, e, approximando ahi as colheres, retira-se uma porção de terra presa entre ellas, e assim successivamente, até o buraco ficar com as dimensões requeridas (1). O processo do plantador só póde convir em chão perfeitamente mobilisado, e ainda assim adapta-se de preferencia á plantação de bacellos, porque para a plantação de barbados, como o furo tem relativamente pequeno diametro, ou as raizes ficam enroladas e mal dispostas, ou têem de ser aparadas bastante rentes, o que, como já dissemos, é prejudicial (369), embora preferivel a ficarem ennovelladas. Posta a planta, ataca-se bem o furo com terra, conchegada quanto possivel.

(1) Este plantador custa em Lisboa entre 3$200 e 4$500 réis.

224 CULTURA DA VINHA

Fig. 40. - Plantador de colheres.

CULTURA DA VINHA 225

409. - A plantação ao rego é muito imperfeita; consiste em abrir com a charrua sulcos, segundo as linhas de plantação, onde os bacellos ou barbados se dispõem ás convenientes distancias; estes regos são depois tapados á enxada, ou com a terra de outro rego parallelo.

410. - A plantação á manta, tal como é geralmente praticada entre nós, executa-se simultaneamente com a surriba; abrem-se as mantas como já deixámos dito (383) e, á medida que se abre cada valla, dispõem-se logo as plantas correspondentes, tapando-as com a terra da manta seguinte, mas de modo que fiquem sobre a terra meteorisada da superficie. Comparado este processo com os outros, tem a desvantagem de ser feita a plantação sobre a terra mexida de fresco, que ainda não teve tempo de soffrer a influencia do ar, e ainda não assente, o que difficulta a regularisação da fundura do bacello ou do barbado. Como fórma de surriba é esta operação muito perfeita, e não hesitamos em dizer, que a surriba previa feita á manta e a plantação subsequente em covachos representam o melhor processo de plantação, sobretudo para os barbados.

226 CULTURA DA VINHA

411. - A plantação á valla é aquella em que a vinha fica em fileiras, separadas por intervallos de terra crua; tal é, por exemplo, o caso das plantações em que a inclinação do terreno obriga a deixar espaços por cavar, para sobre elles construir os muros de supporte, como no Douro (388). A largura e profundidade d'estas vallas variam com a inclinação do terreno, e a sua direcção é horisontal. No Douro (Fig. 41), deixada a faxa onde se collocam os maiores fragmentos do schisto arrancado, dispostos em muro, abre-se a valla para a parte superior, e no fundo se dispõe o bacello, geralmente unhado (com o unhamento para a parte de fóra); corta-se em seguida uma faxa vertical de terra, parallela ao bordo superior da valla (suchio varrido ou suchio pelo pé), que alarga a surriba, e permitte que o bacello fique no meio de terra mexida; corta-se nova faxa de terreno, parallela á anterior e da mesma largura (descombramento), e assim se chega á valleira do andar superior. E', todavia, de notar, que nem sempre cada terrado no Douro tem só uma fileira de vinha, o que depende da inclinação do terreno.

412. - Seja qual fôr o processo de plantar, convém muito, a não se tratar de uma terra fertil e cuja surriba funda pôz á disposição das plantas uma grande massa de substancias alimentares, estrumar, no acto da plantação. Tem-se discutido bastante em viticultura a conveniencia ou inconveniencia de estrumar as vinhas, pelo valor que a estrumação póde tirar ao vinho, baixando-lhe a qualidade e implantando-lhe sabores extranhos, desagradaveis; esta questão será exposta adeante, em logar mais proprio (523 e seg.), e nada tem que ver com a estrumação das plantações, com o fim principal de estimular o primeiro desenvolvimento da vinha. Julgâmos esta estrumação, em regra, não só muito util mas mesmo indispensavel no maior numero dos casos, sobretudo quando se trate de videiras americanas, que são mais exigentes que a videira europea: e ainda principalmente se essas videiras já forem enxertadas, para que os enxertos não enfraqueçam com a transplantação.

CULTURA DA VINHA 227

Fig. 41. - Plantação em socalcos ou geos (Douro)

413. - Os estrumes n'este caso mais convenientes são os estrumes organicos - estrumes de curral, mattos cortados, compostos, limpezas e varreduras, etc. - de preferencia aos adubos mineraes, para que por mais tempo exerçam a sua acção. Julgâmos, ainda, preferivel lançar estes estrumes nos covachos, valleiras ou regos da plantação, em vez de os espalhar pelo campo todo, como aconselham alguns auctores. O bacello ou barbado deve ficar assente sobre terra, quanto mais fina e superficial ou meteorisada melhor, cobrindo-se as raizes do barbado, a base ou o unhamento do bacello, com a mesma terra, lançando depois o estrume aos lados, e tapando, por ultimo, com o resto da terra. Quanto á dose de estrume a empregar, póde acceitar-se a média de 30:000 kgr por hectare, subindo em maxima a 60:000 kgr, e descendo em minima a 15:000 kgr. Um cesto vindimo de estrume para 4 barbados ou bacellos é uma boa estrumação.

228 CULTURA DA VINHA

414. - No anno da plantação, usam, em muitas das nossas regiões vinhateiras, aproveitar a surriba dos intervallos das linhas com culturas intercalares, de melancia, melão, abobora, batatas, favas, feijão, milho, ou mesmo trigo; é uma maneira de attenuar, em parte, mais rapidamente, as despesas feitas. Não se póde dizer que estas culturas, directamente, damnifiquem muito a vinha; mas teem o inconveniente de difficultar os bons grangeios e tratamentos, sobretudo quando se lida com plantas americanas, que tomam logo no primeiro anno muito maior desenvolvimento, e achamos mais util prescindir d'essas culturas intercalares.

415. - Cuidados seguintes á plantação. - Tanto o bacello como o barbado (enxertado ou não) devem ficar, na poda do anno da plantação, com dois olhos só fóra da terra; é frequente, as enxertias sobre americanas desenvolverem-se muito logo no viveiro, mas, ainda n'este caso, não convém deixar-lhes mais de dois olhos, para as vigorisar. Se os barbados são enxertados, é necessario tambem amontoal-os (405). No anno da plantação, são indispensaveis bons grangeios da terra, para a ter limpa e mobilisada (o que lhe conserva a frescura); devem empregar-se os tratamentos preventivos ou curativos das doenças cryptogamicas usuaes na região, para ellas não tolherem o desenvolvimento das varas. No inverno seguinte, devem escavar-se as cêpas, limpando então melhor os rebentos do cavallo, aos barbados já enxertados, bem como alguma raiz que lançasse o garfo. As falhas da plantação, é bom processo preenchel-as com barbados, que, se a plantação fôr de videiras americanas, devem vir enxertados do viveiro; mas, sempre que se plantem barbados no meio de uma vinha já forte, para assegurar melhor a vegetação das novas plantas, é muito util alargar-lhes as covas, e cortar as raizes, que se encontrem, das videiras proximas, de modo a evitar a sua perigosa concorrencia. Na plantação de videiras europeas ou de americanas não enxertadas, podem as falhas preencher-se tambem por meio de mergulhia simples (249) ou invertida (251).

CULTURA DA VINHA 229

416. - Enxertia das plantações novas. - Se a plantação foi feita com cêpas americanas, quer na fórma de bacellos ou barbados, sempre que se não queiram explorar como productores directos o que é verdadeiramente excepcional, é preciso enxertal-as ao depois. Em regra, a enxertia deve fazer-se no anno seguinte ao da plantação, quando as videiras já estão senhoras do terreno, e ainda pouco grossas; a enxertia mais apropriada é a de fenda cheia (283), ou teremos de recorrer á de fenda simples (287) se os cavallos já estiverem mais desenvolvidos. Com proposito á escolha dos garfos, pratica da enxertia, epochas de a executar, ligaduras, amontôa e cuidados subsequentes (córtes dos rebentos do cavallo, das raizes do garfo, etc.), applica-se tudo quanto dissemos ácerca da enxertia do viveiro (cap. IV, § 4). As falhas da enxertia podem preencher-se, repetindo a operação no mesmo cavallo, decapitado uns millimetros mais abaixo, e abrindo-lhe a fenda em cruz com a primeira; ou substituindo a planta, cujo enxerto falhou, por um barbado já enxertado no viveiro, o que julgamos preferivel. Alguns viticultores, quando o enxerto e o cavallo morrem promiscuamente, usam, se alguma das plantas mais proximas dá um rebento do cavallo, mergulhar esse rebento para o logar onde se deu a falha, enxertal-o ahi, e mais tarde fazer o desmamme, depois d'elle enraizado e pegado o enxerto. Accrescentaremos, ainda, que se podem tambem aproveitar com vantagem os cavallos cujos enxertos falharam, e que produzem varios rebentos, enxertando todos esses rebentos, separando-os depois de feitas as soldaduras, e pondo por ultimo as estacas-enxertos obtidas a barbar em viveiro.

230 CULTURA DA VINHA

§ 4.º - Plantação nas areias

417. - Já dissemos que o unico meio de cultivar hoje a vinha europea, n'um paiz invadido pela phylloxera, sem ter de acompanhar annualmente os grangeios com tratamentos insecticidas, é cultival-a nas areias refractarias (332); do mesmo modo, já vimos tambem quaes são as condições physicas a que devem satisfazer essas areias, para a vinha se conservar indemne, e a conveniencia de uma toalha d'agua subterranea a certa fundura (184 e seg.). Accrescentaremos, agora, que é necessario que esta agua não seja salgada, ou aliás torna-se indispensavel proceder a irrigações prévias, que arrastem os depositos salinos, muito contrarios á vinha.

CULTURA DA VINHA 231

418. - Em França, as plantações das areias tem dado optimos resultados; a Compagnie des Salins possue em Jarras, proximo d'Aigues-Mortes, e em Villeroy, proximo de Cette, um grande vinhedo florescente, situado todo em areias, cujo hectare valia de 100 a 200 francos e hoje vale de 5 a 6:000 fr.; muitos proprietarios das proximidades do littoral mediterraneo plantaram egualmente largas superficies arenosas, que estavam de todo abandonadas antes da invasão phylloxerica. Em Portugal, cuja costa maritima é tão grande, sería de toda a vantagem proceder a estudos, que determinassem as superficies a que se poderia dar tão lucrativa applicação.

419. - A pratica tem mostrado que, apesar d'estes terrenos serem caracterisados por uma grande mobilidade, é todavia necessario surribal-os antes da plantação, não só para a vinha prosperar, como ainda para os collocar n'um grau mais conveniente de refractabilidade á phylloxera. Estas surribas são aliás faceis e baratas.

232 CULTURA DA VINHA

420. - A plantação deve effectuar-se um pouco mais funda que o habitual. Empregam-se n'ella bacellos (um tanto mais compridos), que enraizam muito facilmente n'esse meio, ou barbados, mas que n'este caso são muito mais dispensaveis. Convém dispôr a plantação em equiconcio (391-392), para vestir melhor o terreno, diminuindo assim a acção do vento sobre a areia da superficie, e a perda da humidade. Quanto á escolha das castas, veja-se o que dissémos n'outro logar (343).

421. - E' indispensavel empregar estrumes na plantação, vista a quasi nulla fertilidade das areias; estes estrumes devem ser de tal natureza que não deem plasticidade ao solo, para não destruirem as propriedades physicas favoraveis, que tanto importa conservar. Devem preferir-se os adubos chimicos ou os estrumes organicos bem decompostos.

422. - Como estas vinhas estão sujeitas á acção forte dos ventos mareiros, precisam muitas vezes de abrigos do lado do mar; para isso, é imminentemente proprio o pinheiro bravo, que vive muito bem n'esse meio, e que, ao mesmo tempo que quebra a força do vento, se oppõe ao caminhar das dunas e ás invasões das areias.

423. - Recommenda-se, na cultura posterior d'estes vinhedos, que se deem poucos lavores ao solo, para não facilitar o levantamento das areias pelos ventos: uma cava unica, no fim do inverno, porque é perigoso mexer as areias quando estão mais seccas e desaggregadas. Geralmente, estes terrenos criam pouca herva; mas, se por ventura enrelvarem mais, podem as cavas ou as sachas ser substituidas por mondas. Em França, usam, depois da cava, cobrir o terreno com canniços cortados, juncos ou mattos, meio enterrados, que protegem a superficie contra a acção do vento. As vinhas das areias maritimas, como vivem n'uma atmosphera mais humida, estão bastante expostas ao ataque forte das cryptogamicas parasitas; por isso, requerem mais cuidado com os tratamentos preventivos ou curativos.

CULTURA DA VINHA 233

424. - Quanto á qualidade dos vinhos produzidos por estas vinhas, á duração d'ellas e á sua precocidade, já nos referimos anteriormente (182-189).

§ 5.º - Plantações nos terrenos submersiveis

425. - Postas de parte as vinhas dos terrenos arenosos, refractarios á phylloxera, a plantação da videira europea só hoje é - em regra geral - praticamente vantajosa nos terrenos submersiveis (334).

426. - O processo da submersão das vinhas é attribuido a M. Faucon, um engenheiro francez. Dá resultados muito favoraveis, e sempre que as condições physicas e economicas o permittam, ha verdadeiro interesse em o empregar. Em Portugal, tem sido posto em execução com bom exito: em Mogofores, pelo sr. Albano Coutinho; na Merceana, pelo sr. Visconde de Chancelleiros; na herdade do Pinheiro, pelo sr. Bartissol; no Bombarral, pelo sr. dr. Azevedo Feio, etc. A submersão realisa-se na epocha do repouso da vegetação, no outomno ou no inverno, e n'esta epocha as cêpas nada soffrem com a estada debaixo d'agua, o que aliás não aconteceria no periodo vegetativo. A agua actua, asphyxiando o insecto; para isso, precisa demorar-se sobre a vinha, nos paizes meridionaes como o nosso, onde a phylloxera tem um maior periodo d'actividade, a que corresponde um maior numero de gerações, uns quarenta ou cincoenta dias pelo menos. Durante este tempo, deve permanecer ininterruptamente sobre o solo uma camada liquida de 20 a 25 cent. d'espessura, que banhe a base dos troncos das cêpas, onde a phylloxera tambem hiberna. Se o nivel d'agua desce a 10 ou 15 cent., e muito mais se a agua falta, por algumas horas que seja, o trabalho fica improficuo.

234 CULTURA DA VINHA

427. - Theoricamente, para cobrir a superficie impermeavel de um hectare com uma camada de agua de 25 cent. d'espessura, não sujeita á evaporação, são precisos 2:500 metros cubicos; mas, na pratica, para manter aquella espessura constantemente, é necessario muito mais agua, porque ha a attender á que se infiltra, á que se evapora, e ás perdas inevitaveis, isto durante todo o periodo da submersão. É claro, que a natureza do solo e as variantes do clima local influem muito. Estas perdas diarias medem-se por meio de reguas graduadas, dispostas, verticalmente, em cada taboleiro da vinha submergida.

428. - Os terrenos impermeaveis não são proprios para este processo, porque a agua não os penetra; os terrenos muito permeaveis tambem convém pouco: não só porque precisam de muita agua, mas ainda porque a rapida infiltração d'esta agua arrasta muitas bolhas d'ar, e este arejamento do solo difficulta a asphyxia do insecto; de todos, os mais favoraveis são os terrenos de permeabilidade mediana, argillo-calcareos, argillo-siliciosos ou calcareo-argillosos. A natureza do subsolo, por sua vez, influe bastante, e deve sempre ser muito attendida; se o subsolo é arenoso, a agua foge rapidamente; os subsolos mais convenientes são os compactos (argillosos, argillo-siliciosos ou argillo-calcareos).

CULTURA DA VINHA 235

429. - Segundo os srs. Chauzit e Trouchaud-Verdier, a espessura da camada perdida por dia, nos terrenos abaixo indicados, e a duração da submersão em cada um d'elles, são as seguintes:

Submersão d'outomno

Submersão d'inverno

Agua perdida por dia

Terrenos pouco permeaveis . . . 50-55 dias 55-60 dias 1 cent.

Terrenos median. permeaveis . . . 55-60 » 60-65 » 1-4 »

Terrenos permeaveis . . . 65-70 » 70-75 » 4-7 »

Terrenos muito permeaveis . . . 90 » 90 » 8-9 »

Estes numeros são calculados para a França meridional; para o centro da França, a duração da operação póde diminuir-se 20 dias. Em Portugal, a evaporação durante o outomno e o inverno não se afasta muito da evaporação da França meridional, e por isso os valores da tabella acima podem servir-nos de guia, com muita approximação.

430. - Está praticamente calculado que um hectare de terreno pouco permeavel, com perdas de 1 cent. por dia, precisa, para se conservar durante 50 dias coberto de uma camada d'agua de 20 cent. d'espessura, receber 10:000 metros cubicos (1:000m3 para a embebição da terra; 2:000m3 para encher os taboleiros; 5:000m3 para manter o nivel constante; 2:000m3 para as outras perdas); os terrenos muito permeaveis, com perdas diarias de 9 cent., precisam de 90:000m3 d'agua. Parece assente que o terreno é favoravel para a submersão, se o nivel d'agua não desce abaixo de 5 cent. por dia; se a perda chega a 8 cent., o consumo d'agua é muito grande e a operação pouco efficaz; se passa de 9 ou 10 cent., a submersão não dá resultado.

236 CULTURA DA VINHA

431. - Todas as aguas se podem utilisar n'esta operação, excepto as salgadas ou as muito ricas em saes de magnesio; as melhores aguas são as que trazem detritos fertilisantes em suspensão, nateiros ou lodos, porque não empobrecem, ou empobrecem menos a terra, sujeita a uma tão forte lavagem. As aguas muito arejadas, provenientes de uma queda ou levantadas á machina, são menos convenientes, porque o ar que arrastam difficulta a asphyxia do insecto.

432. - A submersão mais economica é a que aproveita a inclinação natural do terreno, abrindo-se um canal de derivação para conduzir a agua, proveniente de rios, fontes, pantanos, depositos ou açudes superiores, etc. Se a agua tem de ser elevada, já a installação exige maiores despesas; as bombas centrifugas movidas pelo vapor são as machinas elevatorias mais usadas em França, mas em alguns casos podem ser substituidas por turbinas, nóras, bombas movidas pelo vento, etc. E' claro que a despesa por hectare será tanto menor, quanto a vinha inundada fôr maior; por isso, quando é necessario o empate de grande capital, para a compra de machinas caras, para o trabalho de motores dispendiosos, para fortes remoções de terra, etc., só póde este processo ser empregado pelos grandes proprietarios, ou pela associação dos pequenos viticultores vizinhos, que costeia em commum as despesas geraes, como se está usando em França. Nos terrenos drenados ou sangrados por meio de vallas, basta ás vezes, para submergir a vinha, tapar as boccas dos collectores da drenagem ou das vallas d'esgoto, e é este decerto o caso mais simples e mais barato; é o processo que o sr. Bartissol emprega na herdade do Pinheiro.

CULTURA DA VINHA 237

433. - Para praticar a submersão, é necessario dispôr convenientemente o terreno, antes de plantar a vinha; a primeira operação a executar, é nivelar-lhe a sua superficie o mais possivel, e depois dividil-o em taboleiros. Estes taboleiros, cuja fórma mais commoda é a quadrada ou rectangular, convém que tenham grandes dimensões, para diminuir o numero dos muros de separação (marachas), porque os insectos das raizes que vivem sob a terra d'esses muros escapam facilmente á acção asphyxiante da agua. Mas estas dimensões dos taboleiros têem de ficar sempre dependentes da inclinação do terreno e da quantidade d'agua disponivel, pois que, na pratica da submersão, ha vantagem em encher cada taboleiro com rapidez, n'umas quatro ou seis horas. Parece que os taboleiros de 4 a 6 hectares são os melhores, podendo, excepcionalmente, em solos muito planos, chegar a ter 15 e 20 hectares; com taboleiros muito grandes é, quasi sempre, difficil conservar todo o terreno coberto d'agua, demora muito o enchimento, e o vento levanta vagas na massa liquida, que, batendo nas marachas, lhes pódem causar rupturas.

238 CULTURA DA VINHA

434. - Quanto mais horisontal fôr a superficie do solo, mais facil é esta armação; nos terrenos inclinados, a submersão é mais difficil, mais despendiosa e mais imperfeita, porque, sendo necessario diminuir os taboleiros, dá-se a multiplicação correlativa das marachas, com os perigos acima expostos. Uma inclinação superior a 3 cent. por metro torna a submersão impossivel.

435. - As marachas são feitas de terra; teem secção trapesoidal, com a inclinação de 45° e altura de ordinario não superior a 1m; a base menor, ou superior, deve ter a largura sufficiente para a passagem de um carro, mas, se os taboleiros forem pequenos, póde a largura d'essa base descer até 1m ou mesmo 0m,5, nos pontos onde não tenha de dar passagem aos carretos. Querendo enrelvar os lados das marachas, nunca o devemos fazer com plantas que possam sujar a vinha, por meio das sementes que disseminam; é muito aconselhado para este fim o trevo branco (Trifolium repens, L.), planta espontanea e muito vulgar em Portugal. Nos pontos mais batidos do vento, convém quebrar o embate das aguas, protegendo as marachas com esteirões formados de sarmentos, cannas, etc.

CULTURA DA VINHA 239

436. - Armado o terreno em taboleiros e dispostas as cousas para elles receberem a agua necessaria, é ainda absolutamente indispensavel abrir sahida a essa agua, que só deve remanescer na vinha o tempo conveniente; se a agua não tem ao depois sahida franca, se fica estagnada em partes, o terreno esfria, a emissão das radiculas na primavera é atrazada ou mesmo tolhida (11), a vegetação enfraquece, e até se póde dar o apodrecimento das raizes. Os taboleiros devem estar armados de maneira que e excesso da agua d'uns escorra para os outros, o que se consegue, estabelecendo comportas d'espaço a espaço; mas, afóra isso, cada taboleiro deve ter o seu canal proprio de vazão, por onde se possa despejar separadamente.

437. - A vinha planta-se nos taboleiros por qualquer dos processos descriptos; apenas se recommenda que as linhas se não approximem muito das marachas, para não ficarem muitas raizes subjacentes, onde a phylloxera depois escape á acção da agua. Quanto á escolha das castas preferiveis para estas vinhas, já anteriormente nos referimos (344), sendo importante que essa escolha recaia em poucas castas, mas bem apropriadas.

438. - A submersão pratica-se na epocha do descanço vegetativo, depois da queda da folha e quando as varas estão bem atempadas; antes d'isso, póde prejudicar muito a vinha. Tem de ser praticada todos os annos, não só porque sempre escapam alguns insectos á acção da agua, mas tambem por causa das reinvasões. Se a vinha nova foi plantada em terreno phylloxerado, deve submergir-se logo no anno immediato ao da plantação, ou convirá mesmo submergir o terreno antes da plantação; advertiremos, todavia, que a submersão dos bacellos ou barbados, ainda muito novos e não bem presos, é arriscadissima, e produz de ordinario muitas falhas. Se a vinha não é plantada em terreno phylloxerado, a submersão deve executar-se, e sem a menor hesitação, logo aos primeiros symptomas do ataque.

240 CULTURA DA VINHA

439. - As vinhas tratadas por este processo pedem mais numerosos lavores no terreno, porque a agua o calca muito; tratamentos mais repetidos contra as doenças cryptogamicas, para cuja evolução é favoravel o excesso de humidade; estrumações fortes, se a agua não trouxer substancias fertilisantes (431): principalmente nos solos mais permeaveis, onde a lavagem dos principios soluveis, que servem de alimento ás plantas, é maior; finalmente, poda tardía, para que as geadas da primavera, mais frequentes n'estes meios, não damnifiquem tanto os pampanos já formados (41).