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Tratado descritivo do Brasil em 1587/1/Proêmio

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PRIMEIRA PARTE
 

 
ROTEIRO GERAL
com largas informações de toda a costa do brasil
 

 
PROEMIO.
 

Como todas as cousas tem fim, convém que tenham principio, e como o de minha pretenção é manifestar a grandeza, fertilidade e outras grandes partes que tem a Bahia de todos os Santos e o demais Estado do Brazil, do que se os Reis passados tanto se descuidaram; a El-Rei nosso Senhor convém, e ao bem do seu serviço, que lhe mostre, por estas lembranças, os grandes merecimentos d’este seu Estado, as qualidades e estranhezas d’elle, etc.; para que lhe ponha os olhos e bafeje com seu poder; o qual se engrandeça o estenda a felicidade, com que se engrandeceram todos os estados que reinam debaixo da sua protecção; porque está muito desamparado depois que El-Rei D. João III passou d’esta vida para a eterna, o qual o principiou com tanto zelo, que para o engrandecer metteu n’isso tanto cabedal, como é notorio, o qual se vivêra mais dez annos, deixára n’elle edificadas muitas cidades, villas e fortalezas mui populosas, o que se não effeituou depois do seu fallecimento, antes se arruinaram algumas povoações que em seu tempo se fizeram. Em reparo e accrescentamento estará bem empregado todo o cuidado que Sua Magestade mandar ter d’este novo reino; pois está capaz para se edificar n’elle um grande imperio, o qual com pouca despeza d’estes reinos se farà tão soberano, que seja um dos Estados do mundo, porque terá de costa mais de mil leguas, como se verá por este Tratado no tocante á cosmographia d’elle, cuja terra é quasi toda muito fertil, mui sadia, fresca e lavada de bons ares, e regada de frescas e frias aguas. Pela qual costa tem muitos, mui seguros e grandes portos, para n’elles entrarem grandes armadas com muita facilidade; para as quaes tem mais quantidade de madeira que nenhuma parte do mundo, e outros muitos apparelhos para se poderem fazer.

É esta provincia mui abastada de mantimentos de muita substancia e menos trabalhosos que os de Hespanha. Dão-se n’ella muitas carnes assim naturaes d’ella, como das de Portugal, e maravilhosos pescados; onde se dão melhores algodões que em outra parte sabida, e muitos assucares tão bons como na ilha da Madeira. Tem muito pão de que se fazem as tintas. Em algumas partes d’elle se dá trigo, cevada, e vinho muito bom, e em todas todos os fructos e sementes de espanha, do que haverá muita quantidade, se Sua Magestade mandar prover n’isso com muita instancia, e no descobrimento dos metaes que n’esta terra ha; porque lhe não falta ferro, aço, cobre, ouro, esmeraldas, cristal e muito salitre, e em cuja costa sahe do mar todos os annos muito e bom ambar; e de todas estas e outras podiam vir todos os annos a estes reinos em tanta abastança, que se escusem os que vem a elles dos estrangeiros, o que se pode facilitar sem Sua Magestade metter mais cabedal n’este Estado que o rendimento d’elle nos primeiros annos; com o que o póde mandar fortificar e prover do necessario a sua defensão; o qual está hoje em tamanho perigo, que se n’isso cahirem os cossarios, com mui pequena armada se senhorearão d’esta provincia por razão de não estarem as povoações d’ella fortificadas, nem terem ordem com que possam resistir a qualquer affronta que se offerecer; do que vivem os moradores d’ella tão atemorisados, que estão sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o matto, como fazem com a vista de qualquer náo grande, temendo-se serem corsarios; a cuja affronta Sua Magestade deve mandar acudir com muita brevidade; pois ha perigo na tardança, o que não convém que haja; porque se os estrangeiros se apoderarem d’esta terra custará muito lançal-os fóra d’ella, pelo grande apparelho que tem para n’ella se fortificarem, com o que so inquietará toda Hespanha, o custará a vida de muitos capitães e soldados, e muitos milhões de ouro em armadas o no apparelho d’ellas, ao que agora se pode atalhar acudindo-lhe com a presteza devida. Não so crê que Sua Magestado não tenha a isto por falta de providencia, pois lhe sobeja para as maiores emprezas do mundo; mas de informação do sobredito, que lhe não tem dado quem d’isso tem obrigação. E como a eu tambem tenho de seu leal vassallo, satisfaço da minha parte com o que se contém n’este Memorial, que ordenei pela maneira seguinte.