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Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/1

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SEGUNDA PARTE
 

 
MEMORIAL E DECLARAÇÃO
DAS GRANDEZAS DA BAHIA DE TODOS OS SANTOS, DE SUA FERTILIDADE E DAS NOTAVEIS PARTES QUE TEM
 

 
capitulo i[1]

Atraz fica dito, passando pela Bahia de Todos os Santos, que se não soffria n’aquelle lugar tratar-se das grandezas d’ella, pois não cabiam alli; o que se faria ao diante mui largamente, depois que se acabasse de correr a costa com que temos já concluido. Da qual podemos agora tratar e explicar o que se d’ella não sabe para que venham á noticia de todos os occultos d’esta illustre terra, por cujos merecimentos deve de ser mais estimada e reverenciada do que agora é, ao que queremos satisfazer com singelo estilo pois o não temos grave, mas fundado tudo na verdade.

Como El-Rei D. João III de Portugal soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes partes da Bahia, da fertilidade da terra, bons ares, maravilhosas aguas e da bondade dos mantimentos d’ella, ordenou de a tomar á sua conta para a fazer povoar, como meio e coração de toda esta costa, e mandar edificar n’ella uma cidade, d’onde se pudessem ajudar e soccorrer todas as mais capitanias e povoações d’ella como a membros seus; e pondo S. Alteza em effeito esta determinação tão acertada, mandou fazer prestes uma armada e provel-a de todo o necessario para esta empreza, em a qual mandou embarcar Thomé de Sousa do seu conselho, e o elegeu para edificar esta nova cidade, de que o fez capitão, e governador geral de todo o Estado do Brasil: ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento, com que quebrou as doações aos capitães proprietarios por terem demasiada alçada, assim no crime como no civel; de que se elles aggravaram à S Alteza, que no caso os não proveu, entendendo convir a si a seu serviço. E como a dita armada esteve prestes, partiu Thomé de Sousa do porto de Lisboa aos 2 dias de Fevereiro de 1549 annos; e levando prospero vento chegou à Bahia de Todos os Santos, para onde levava sua derrota, aos vinte e nove dias de Março do dito anno, e desembarcou no porto de Villa Velha, povoação que Francisco Pereira edificou, onde pôz mil homens, convêm a saber: seiscentos soldados e quatrocentos degradados e alguns moradores casados, que comsigo levou, e outros criados d’El-Rei que iam providos de cargos, que pelo tempo em diante serviram.

Notas

  1. 75. O texto da Academia põe a sahida de Thomé de Souza de Lisbôa a 1 de Fevereiro e não a 2, como os mais codices.