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Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/112

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CAPITULO CXII.[1]
Em que se declara que cobras são as de cascavel, e as dos formigueiros, e as que chamam boitiapóia.

Boicininga quer dizer cobra que tange, pela lingua do gentio; as quaes são pequenas e muito peçonhentas quando mordem; chamam-lhe os Portuguezes cobras de cascavel, porque tem sobre o rabo uma pelle dura, ao modo de reclamo, tamanha como uma bainha de gravanço, mas é muito aguda na ponta que tem para cima, onde tem dous dentes com que mordem; que são agudos. Esta bainha lhe retine muito, quando andam, pelo que são logo sentidas, e não fazem tanto damno. E affirmam os indios, que as cobras d’esta casta não mordem com a boca, mas com aquelle aguilhão farpado que tem n’este cascavel, o qual tambem retine fóra da cobra: e tem tantos reclamos, como a cobra tem de annos; e cada anno lhe nasce um; as’ quaes cobras mordem ou picam com esta ponta de cascavel de salto.

Nos formigueiros velhos se criam outras cobras, que se chamam úbojára, que são de tres a cinco palmos, e tem o rabo. rombo na ponta, da feição da cabeça; e não tem outra differença um do outro que ter a cabeça boca, em a qual não tem olhos e são cegas; e sahem dos formigueiros, quando se elles enchem com a agua da chuva; e como se sahem fóra, ficam perdidas sem saberem por onde andam; e se chegam a morder, são tambem mui peçonhentas. Estas cobras não são ligeiras como as outras, e andam muito de vagar, tem a pelle de côr acatasolada pela banda de cima, e pela de baixo são brancas; mantem-se nos formigueiros das formigas quando as podem alcançar, e do seu mantimento, d’onde tambem se sahem apertadas de fome.

Boitiapoias são cobras de cincoenta e sessenta palmos de comprido e muito delgadas, que não mordem a nada; porque tem o focinho muito comprido, e o queixo de baixo muito curto; onde tem a boca muito pequena e não podem chegar com os dentes a quem querem fazer mal, porque lh’o impede o focinho; mas para matarem uma pessoa ou alimaria enroscam-se com ella, e apertam-n’a rijamente, e buscam-lhe com a ponta do rabo os ouvidos, pelos quaes lhe mettem com muita presteza, por que a tem muito dura e aguda; e por este lugar matam a preza, em que se depois desenfadam á vontade.

Notas

  1. 186. O nome de Boicininga cahiu em desuso e só ficou o de cascavel (Crotalus Cascavella.) Os Chiriguanos chamavam-lhe emboiciní o boiquirá; assim como, segundo J. Jolis (Saggio del Chaco p. 350), chamavam boitiapó á que Soares diz Boitiapoia, mais conhecida por cobra de cipó, talvez pelo uso dos indigenas de açoutarem com ella, pelas cadeiras, a suas mulheres quando lhes não davam filhos. Ubojara é naturalmente a Cecilia Ibiara, Daud, pag. 63 e 64.