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Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/125

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CAPITULO CXXV.
Que trata das balêas que se entram no mar da Bahia.[1]

Entendo que cabe a este primeiro capitulo dizermos das balêas que entram na Bahia (como do maior peixe do mar d’ella), a que os indios chamam pirapuã; das quàes entram na Bahia muitas em o mez de Maio, que é o primeiro do inverno n’aquellas partes, onde andam até o fim de Dezembro que se vão: e n’este tempo de inverno, que reina até o mez de Agosto, parem as femeas á abrigada da terra da Bahia, pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que parem, tres e quatro mezes, que elles tem dispo sição para seguirem as mães pelo mar largo; e n’este tempo tornam as femeas a emprenhar, em a qual obra fazem grandes estrondos no. mar. E em quanto as balêas andam na Bahia, foge o peixe do meio d’ella para os baixos e reconcavos onde ellas não pódem andar, as quaes ás vezes pelo irem seguindo dão em secco, como aconteceu no rio de Pirajá o anno de 1580, que ficaram n’este rio duas em secco, macho e femea, as quaes foi vêr quem quiz; e eu mandei medir a femea, que estava inteira, e tinha do rabo até a cabeça setenta e tres palmos de comprido, e dezasete de alto, fóra o que tinha mettido pela vasa, em que estava assentada; o macho era sem comparação maior, o que se não pôde medir, por a este tempo estar já despido da carne, que The tinham levado para azeite; a femea tinhaa boca tama. nha que vi estar um negro mettido entre um queixo e outro, cortando com um machado no beiço debaixo com ambas as mãos, sem tocar no beiço de cima; e a borda do beiço era tão grossa como um barril de seis almudes; e o beico debaixo sahia para fóra mais que o de cima, tanto que se podia arrumar de cada banda n’elle um quarto de meação; a qual balea estava prenhe, e tiraram-lhe de dentro um filho tamanho como um barco de trinta palmos de quilha; e se fez em ambas de duas tanto azeite que fartaram a terra d’elle dous annos. Quando estas balêas andam na Bahia acompanham-se em bandos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam por ella em barcos, porque andam urrando, e em saltos, lançando a agua mui alta para cima; ejá aconteceu por vezes éspedaçarem barcos, em que deram com o rabo, e matarem a gente d’elles.

Notas

  1. 199. O nome pirapuã dado pelos indigenas ao cetaceo balêa póde traduzir-se por peixe redondo — ou — peixe ilha.