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Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/84

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capitulo lxxxiv.[1]
Em que se conta a natureza de algumas aves da agua salgada.

Na Bahia ao longo da agua salgada, nas ilhas que ella tem, se criam garcetas pequenas, a que os indios chamam carabuçú: algumas são branças e outras pardas, as quaes dão umas plumas cinzentas pequenas, muito fidalgas para gorro; todas criam ao longo do mar, onde tomam peixe, de que se mantem, e caranguejos novos; e esperam bem a espingarda.

Ha outros passaros, a que os indios chamam uirateonteon, que se criam perto do salgado, que são pardos, e tem o pescoço branco, o bico verde, e são tamanhos como adens, e tem os pés da sua feição. Estes passaros andam no mar perto da terra, e voam ao longo d’água tanto sem descançar, até que cahem como mortos; e assim descançam até que se tornam levantar, e voam.

Carapirá é uma ave, a que os mareantes chamam rabiforcado, os quaes se vão cincoenta e sessenta leguas ao mar, d’onde se recolhem para a Bahia, diante de algum navio do reino, ou do vento sul que lhe vem nas costas ventando, d’onde tornam logo fazer volta ao mar; mas criam em terra ao longo d’elle.

Jaború é outra ave tamanha como um grou, tem a cor cinzenta, as pernas compridas, o bico delgado e mais que de palmo de comprido; estas aves criam em terra ao longo do salgado, e comem o peixe que tomam no mar, perto da terra por onde andam.

Ao longo do salgado se criam uns passaros, a que os indios chamam urateon; são pardos, tamanhos como frangãos, tem as pernas vermelhas, o bico preto e comprido; são mui ligeiros, e andam sempre sobre a agua salgada, saltando em pulos, espreitando os peixinhos de que se mantem.

Ao longo do mar se criam outros passaros a que os indios chamam aty; tem o corpo branco, as azas pretas, e o bico de peralto, com que cortam o peixe como com tesoura; tem as pernas curtas e brancas; andam sempre pas barras do rio buscando peixe, do que comem.

Matuim-açú são uns passaros, que andam sempre sobre os mangues, tamanhos como franganitos, de cor pardaça; tem as pernas e bico preto, e mantem-se de peixe que tomam.

Matuimirim são outros passaros de feição dos de cima, mas mais pequenos e brancacentos; mantem-se do peixe que tomam; e uns e outros criam no chão ao longo do salgado.

Pitaoão são passarinhos do tamanho e côr dos canarios, e tem uma corôa branca na cabeça; fazem grandes ninhos nos mangues, ao longo dos rios salgados, onde põem dous ovos; e mantem-se dos peixinhos que alcançam por sua lança.

Ha umas aves como garcetas, a que os indios chamam socóry, que tem as pernas compridas e amarellas, o pescoço longo, o peito pintado de branco e pardo, e todo o mais pardo; criam em terra no chão, perto da agua salgada, aonde se mantem do peixe que n’ella tomam, e de caranguejos dos mangues.

Margui é um passaro pequeno e pardo, tem as pernas mui compridas, o bico e pescoço longo; e está sempre olhando para o chão e como vê gente foge dando um grande grito. Estas aves se criam ao longo do salgado, e mantem-se do peixe que tomam no mar.

Notas

  1. 158. O capitulo 84 occupa-se de varias aves ribeirinhas; talvez da Ardea garzetta de Gmelin; da Sterna magnirostris de Spix; de uma Procellaria; da Micteria americana; de alguns Ibis, Tringa, etc. — Socory deve ser Sócóboy ou Ardea Cocoi de Lath. Em vez de margui lemos em uns codices margusi, e talvez se devesse ler majuî que é o nome dado ás andorinhas (Dicc. braz. p. 12). — Pitahuãa parece que se diz no Peregrino da America (p. 48) que era o bemtevi; mas a descripção de pitaoão não se conforma.