Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/89
Nhapupé é uma ave do tamanho de uma franga, de côr aleonada, tem os pés como gallinha, a qual anda sempre pelo chão, onde cria e põem muitos ovos de fina côr aleonada, cuja carne é dura, e come-se cozida.
Saracura é uma ave tamanha como gallinha, de côr aleonada, que tem as pernas muito compridas, e o pescoço e bico comprido; cria no chão, onde chega a maré de aguas vivas, que se mistura com agua doce; as quaes não andam pelo salgado, nem pelo mato grande, mas ao longo d’elle: de noite carcarêa como perdiz; e tem o peito cheio de titellas tenras, e a mais carne é boa tambem.
Orús são umas aves tamanhas como papagaios, de côr pretà e o bicò revolto; criam em arvores altas, e quando tem filhos nos ninhos remettem aos indios, que lh’os querem tomar; estas aves tem grande peito cheio de titellas, as quaes e a mais carne são muito tenras e saborosas como gallinha.
Anú é outra ave preta, do tamanho e feição de gralha; e andam sempre em bandos, voando de arvore em arvore ao longo do chão; criam em arvores baixas em ninhos, e mantem-se de uma baga preta, como murtinhos, e de outras frutinhas que buscam.
Magoari é outra ave de côr branca, que faz tamanho vulto como uma garça, e tem as pernas e pés mais compridos que as garças, e o pescoço tão longo que quando vôa o faz em voltas; e tem o bico curto e o peito muito agudo e nenhuma carne, porque tudo é penna; e vôa muito ao longe, e corre pelo chão por entre o mato, que faz espanto.
Aracoâ é outro passaro tamanho como um frangão, de côr parda; tem as pernas como de frangãos, mas os dedos muito compridos e o rabo longo; e tem duas goelas, ambas por uma banda, que leva ao longo do peito até abaixo onde se juntam; críam-se estas aves em arvores, e comem fruta d’ellas.
Sabiáuna são uns passarinhos pretos que andam sempre entre arvoredo; comem frutas e bichinhos, criam nas arvores em ninhos de palha.
Atiacú é um passaro tamanho como um estorninho, tem as costas pardas, o peito e à barriga branca, o rabo comprido, as pernas verdoengas, os olhos vermelhos; criam em arvores, comem o fruto d’ellas, e cantam em assobios.
Ha uns passarinhos pequenos todos pretos, a que os indios chamam timuna, que criam em ninhos de palha, mantem-se de frutas e minhocas.
Uanandi é um passaro pequeno pardo, pintado de preto pelas costas e branco na barriga; e tem o bico curto, e cria em ninhos de palha que faz nas arvores.
Ha outros passaros, a que o gentio chama uapicú, tamanhos como tordos, têm o corpo preto e as azas pintadas de branco, e o bico comprido, tão duro e agudo que fura com elle as arvores que tem abelheiras até que chega ao mel, de que se mantem; e quando dão as picadas no pão, sôa a pancada a oitenta passos e mais; os quaes passaros tem na cabeça um cucuruto vermelho e alevantado, e criam nas tocas das arvores..
Notas
- ↑ 163. Nhapupé é o Tinamus rufescens de Tempink. A saracura pertence ao genero Rallus: Spix descreve-a como Galinula Saracura. Orú é o Trogon sulphureus de Spix, e Anú (que Moraes diz Anum) o Crolophaga Anî de Linnêo. Segue-se a Ardea Maguari de Vieill, e talvez um Tinamus, varios Turdus; e conclue-se o capitulo com um trepador picapáu (Picus), manifestamente o que Spix denominou P. albirostris, e que, segundo Cuvier julga, tem analogia com o P. Martius de Linnêo.