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Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/95

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CAPITULO XCV.[1]
Em que se trata de uma alimaria que se chama jaguareté.

Tem para si os Portuguezes que jaguareté é onça, e outros dizem que é tigre: cuja grandura é como um bezerro de seis mezes; fallo dos machos, porque as femeas são maiores. A maior parte d’estas alimarias são ruivas, cheias de pintas pretas; e algumas femeas são todas pretas; e todos tem o cabello medio, e o rosto a modo de cão e as mãos e unhas muito grandes, o rabo comprido; e.o cabello n’elle como nas ancas. Tem prezas nos dentes como libréo, os olhos, como gato, que lhe luzem de noite tanto que se conhecem por isso a meia legua; tem os braços e pernas muito grossos; parem as femeas uma e duas crianças; se lhes matam algum filho andam tão bravas que dão nas roças dos indios, onde matam todos quantos podem alcançar comem a caça que matam, para o que são mui ligeiras, e tanto que lhes não escapa nenhuma alimaria grande por pés; e saltam por cima apique altura de déz, doze palmos; e trepam pelas arvores apóz os indios, quando o tronco é grosso; salteam, o gentio de noite pelos caminhos onde os matam, e comem; e quando andam esfaimadas entram-lhe nas casas das roças se lhes não sentem fogo, ao que tem grande medo. E na visinhança das povoações dos Portuguezes fazem muito damno nas vaccas, e como se começam a encarniçar n’ellas destroem um curral; e tem tanta força que com uma unhada que dão em uma vacca lhe derrubam a anca no chão.

Armam os indios a estas alimarias em mondéos, que é uma tapagem de páo a-pique, muito alta e forte, com uma só porta, onde lhe armam com uma arvore alta e grande levantada do chão, onde lhe põem um cachorro ou outra alimaria preza; e indo para a tomar cahe esta arvore que está deitada sobre esta alimaria, onde dá grandes bramidos; ao que os indios acodem e a matam ás flexadas; e comem-lhe a carne, que é muito dura e não tem nenhum sebo.

Notas

  1. 169. Jaguareté ou jaguar verdadeiro é a Felis onça de Linnêo.