Tratado descritivo do Brasil em 1587/Dedicatória
Senhores.
Sabeis como a presente obra de Gabriel Soares, talvez a mais admiravel de quantas em portuguez produziu o seculo quinhentista, prestou valiosos auxilios aos escriptos do padre Cazal e dos contemporaneos Southey, Martius e Denis, que d’ella fazem menção com elogios não equivocos.
Sabeis tambem como as Reflexões criticas que sobre essa obra escrevi, foram as primicias que offereci ás lettras, por intermedio da Academia das Sciencias de Lisboa que se dignou, ao acolhe-las no corpo do suas memorias, contar-me nos do seu gremio. Sabeis como aquella obra corria espuria, pseudonyma e corrompida no titulo e na data, quando as Reflexões criticas lhe restituiram genuinidade de doutrina e legitimidade de autor e de titulo, e lhe fixaram a verdadeira idade. Sabereis, finalmente, como nada tenho poupado para restaurar a obra que por si constitue um monumento levantado pelo colono Gabriel Soares á civilisação, colonisação, lettras e sciencias do Brazil em 1587.
Essa restauração dei-a por em quanto por acabada; e desde que o Sr. Ferdinand Denis a inculcou ao publico europeu, com expressões tão lisongeiras para um de vossos consocios, creio que devemos corresponder a ellas provando nossos bons desejos, embora a realidade do trabalho não vá talvez corresponder á expectativa do illustre escriptor francez quando disse: «Ce beau livre... a été l’objet d’une... (permitti-me, senhores, calar o epitheto com que me quiz favorecer)... dissertation de M. Adolfo de Varnhagen. Le... écrivain que nous venons de nommer a soumis les divers manuscrits de Gabriel Soares à un sérieux examen, il a vu même celui de Paris, et il est le seul qui puisse donner aujourd’hui une édition correcte de cet admirable traité, si précieux pour l’empire du Brésil.»
Sem me desvanecer com as expressões lisongeiras que acabo de transcrever do benevolo e elegante escriptor, não deixo de me reconhecer um tanto habilitado a fazer-vos a proposta que hoje vos faço de imprimirdes o codice que vos offereço.
Não ha duvida, senhores, que foi o desejo de ver o exemplar da Bibliotheca de Paris o que mais me levou a essa capital do mundo litterario em 1847. Não ha duvida que, além d’este codice, tive eu occasião de examinar uns vinte mais. Vi tres na Bibliotheca Eborense, mais tres na Portuense, e outros na das Necessidades em Lisboa. Vi mais dous exemplares existentes em Madrid: outro mais que pertenceu ao convento da congregação das Missões e tres da Academia de Lisboa, um dos quaes serviu para o prélo, outro se guarda no seu archivo, e o terceiro a livraria conventual de Jesus. Igualmente vi tres copias de menos valor que ha no Rio de Janeiro (uma das quaes chegou a estar licenciada para a impressão); a avulsa da collecção de Pinheiro na Torre do Tombo, e uma que em Neuwied me mostrou o velbo principe Maximiliano, a quem na Bahia fôra dada de presente. Em Inglaterra deve seguramente existir, pelo menos, o codice que possuiu Southey; mas foram inuteis as buscas que ahi fiz após elle, e no Museu Britannico nem se quer encontrei noticia de algum exemplar.
Nenhum d’aquelles codices porém é, a meu ver, o original; e baldados foram todos meus esforços para descobrir este, seguindo as indicações de Nicoláo Antonio, de Barbosa, de Leon Pinelo e de seu addicionador Barcia. Na Bibliotheca de Christovam de Moura, hoje existente em Valencia e pertencente ao Principe Pio, posso assegurar-vos que não existe elle, pois que, graças á bondosa amizade d’este cavalheiro, me foi permitido desenganar-me por meu proprio exame. A livraria do conde de Villa-Umbrosa guarda-se incommunicavel na ilha de Malhorca, e não ha probabilidade de que quando n’ella se ache ainda o codice que menciona Barcia, possa elle ser o original. A do conde de Vimieiro foi consumida pelas chammas, as quaes póde muito bem ser que devorassem os quadernos originaes do punho do nosso colono.
Graças porém ás muitas copias que nos restam — a uma das de Evora sobretudo, creio poder dar no exemplar que vos offereço o monumento de Gabriel Soares, tão correcto quanto se poderia esperar sem o original, em quanto o trabalho de outros e a discussão não o aperfeiçoem ainda mais, como terá de succeder.
Acerca do autor talvez que o tempo fará descobrir na Bahia mais noticias. Era filho de Portugal, passou á Bahia em 1570, fez-se senhor de engenho e proprietario de roças e fazendas em um sitio entre o Jaguaripe e o Jequiriçá. Voltando á Peninsula dirigiu-se a Madrid, onde estava no 1º de Março de 1587, em que offertou seu livro a Christovam de Moura por meio da seguinte carta:
«Obrigado de minha curiosidade fiz, por espaço de 17 annos que residi no Estado do Brasil, muitas lembranças por escripto do que me pareceu digno de notar, as quaes tirei a limpo n’esta côrte em este quaderno, emquanto a dilação de meus requerimentos me deu para isso lugar; ao que me dispuz entendendo convir ao serviço de El-Rei nosso Senhor, e compadecendo-me da pouca noticia que n’estes reinos se tem das grandezas e estranhezas d’esta provincia, no que anteparei algumas vezes, movido do conhecimento de mim mesmo, e entendendo que as obras que se escrevem tem mais valor que o da reputação dos autores d’ellas.
«Como minha tenção não foi escrever historia que deleitasse com estylo e boa linguagem, não espero tirar louvor d’esta escriptura e breve relação (em que se contém o que pude alcançar da cosmographia e descripção d’este Estado), que a V. S. offereço; e me fará mercè acceital-a, como está merecendo a vontade com que a offereço; passando pelos desconcertos d’ella, pois a confiança disso me fez suave o trabalho e tempo que em a escrever gastei: de cuja substancia se podem fazer muitas lembranças a S. M. para que folgue de as ter d’este seu Estado, a que V. S. faça dar a valia que lhe é devida; para que os moradores d’elle roguem a Nosso Senhor guarde a mui illustre pessoa de V. S. e The accrescente a vida por muitos annos. Em Madrid o 1º de Março de 1587. — Gabriel Soares de Souza.»
Para melhor intelligencia das doutrinas do livro acompanho esta copia dos commentos que vão no fim. Preferi este systema ao das notas marginaes inferiores, que talvez seriam para o leitor de mais commodidade; porque não quiz interromper com a minha esquinha prosa essas paginas venerandas de um escriptor quinhentista. Abstive-me tambem da tarefa, aliás enfadonha para o leitor, de acompanhar o texto com variantes que tenho por não legitimas.
Esta obra, doze annos depois, já existia em Portugal ou por copia ou em original; e em 1599 a cita e copia Pedro de Mariz na segunda edição de seus Dialogos. Mais tarde copiou d’ella Fr. Vicente de Salvador e por conseguinte o seu confrade Fr. Antonio Jaboatão. Simão de Vasconcellos aproveitou do capitulo 40 da 1ª parte as suas Noticias 51 a 55, e do capitulo 70 a Noticia 66.
Assim, se vós o resolverdes, vai finalmente correr mundo, de um modo condigno, a obra de um escriptor de nota. Apesar dos grandes dotes do autor, que o escripto descobre, apesar de ser a obra tida em conta, como justificam as muitas copias que d’ella se tiraram, mais de dous seculos correram sem que honvesse quem se decidisse a imprimil-a na integra. As mesmas copias por desgraça foram tão mal tiradas que disso proveio que o nome do autor ficasse esgarrado, o titulo se trocasse e até na data se commettessem enganos!
Peza-nos ver nos tristes azares d’este livro mais um desgraçado exemplo das injustiças ou antes das infelicidades humanas. Se esta obra se houvesse impresso pouco depois de escripta, estaria hoje tão popular o nome de Soares como o de Barros. O nosso autor é singelo, quasi primitivo no estylo, mas era grande observador, e, ao ler o seu livro, vos custa a descobrir se elle, com estudos regulares, seria melhor geographo que historiador, melhor botanico que corographo, melhor ethnographio que zoologo. Em 1825 realisou a tarefa da primeira edição completa a Academia de Lisboa; mas o codice de que teve de valer-se foi infelizmente pouco fiel, e o revisor não entendido na nomenclatura das cousas da nossa terra. Ainda assim muito devemos a essa primeira edição: ella deu publicamente importancia ao trabalho de Soares, e sem ella não teriamos tido occasião de fazer sobre a obra os estudos que hoje nos fornecem a edição que proponho, a qual, mais que a mim, a deveis á corporação vossa co-irmã, a Academia Real das Sciencias de Lisboa.
Madrid, 1º de Março de 1851.
F. A. de Varnhagen.