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Tratados da terra e gente do Brasil/1/16

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HOMENS MARINHOS, E MONSTROS DO MAR (XVI)[1]

Estes homens marinhos se chamão na lingua Igpupiára; tem-lhe os naturaes tão grande medo que só de cuidarem nelle morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns morrerão já, e preguntando-lhes a causa, dizião que tinhão visto este monstro; parecem-se com homens propriamente de bôa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As femeas parecem mulheres, têm cabellos compridos, e são formosas; achão-se estes monstros nas barras dos rios doces. Em Jagoarigpe sete ou oito leguas da Bahia se têm achado muitos; em o anno de oitenta e dois indo hum Indio pescar, foi perseguido de hum, e acolḥendo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor para animar o Indio quiz ir ver o monstro, e estando descuidado com huma mão fóra da canôa, pegou delle, e o levou sem mais apparecer, e no mesmo anno morreu outro Indio de Francisco Lourenço Caeiro. Em Porto-Seguro se vêem alguns, e já têm morto alguns Indios. O modo que têm em matar he: abração-se com a pessoa tão fortemente beijando-a, e apertando-a comsigo que a deixão feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se levão alguns comem-lhes sómente os olhos, narizes, e pontas dos dedos dos pés e mãos, e as genitalias, e assi os achão de ordinario pelas praias com estas cousas menos.

Notas

  1. XVI. — Este capitulo occupa-se exclusivamente dos homens marinhos, ou monstros do mar. A lenda pertence ao mesmo cyclo de idéas que produziu os tritões, as sereias, as mães d’agua e outros seres phantasticos. Os autores antigos, que trataram do Brasil, Gandavo, Gabriel Soares, frei Vicente do Salvador, padre João Daniel e Barlaeus, referem-se ao homem marinho, que descrevem similhantemente; delles, manifestam-lhe o nome indigena: Gandavo — Historia da Provincia Santa Cruz (Lisboa, 1576) fls. 32 — “os Indios da terra the chamam em sua lingua Hipupiára, que quer dizer demonio d’agua”; Gabriel Soures — Tratado descriptivo da Brasil (Rio de Janeiro, 1851) ps. 280 “não ha duvida senão que se encontram na Bahia e nos reconcavos della muitos homens marinhos, a que os indios chamam pela sua lingua ypupiara”; Barlaeus — Rerum per octennium in Brasilia (Amsterdam, 1647) ps. 134 — “sunt Tritonis indigenis ypupiapræ dicti, cum humanos vnitus aliqua referant, et femelle casariem ostentent fluidam et faciem elegantiorem.” — O nome tupi serve de prova de que a idéa era familiar ás gentes desse grupo importante. Sua etymologia consigna Baptista Caetano em upypeara ou y-pypiára, em que apparecem os elementos y agua, e pypiára de dentro, do intimo: o que è de dentro d’agua, o que vive no fundo d’agua, o aquatico; o nome era tambem attribuido a peixes, especialmente á baleia.
    Para o editor da traducção franceza do livro de Gandavo na collecção de Henri Ternaux, o monstro provocador das assaltadas, que narram os autores citados, seria provavelmente alguna phoca de tamanho extraordinario; para Varuhagen, o commentador de Gabriel Soares, seriam ellas obra de tubarões, ou de jacarés, uma vez que não consta haver phócas no litoral brasileiro.