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Tratados da terra e gente do Brasil/1/17

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DOS MARISCOS (XVII)

Polvos.[1] — O mar destas partes he muito abundante de polvos: tem este marisco hum capello, sempre cheio de tinta muito preta; e esta he sua defesa dos peixes maiores, porque quando vão para os apanhar, botão-lhes aquella tinta diante dos olhos, e faz-se a agua muito preta, e então se acolhem. Tomão-se á frecha, e assovião-lhe primeiro; tambem se tomão com fachos de fogo de noite. Para se comerem os açoitão primeiro, e quanto mais the derem então ficão mais molles e gostosos

Azula.[2] — Este marisco he como hum canudo de cana; he raro, come-se, e para o baço bebido em pò e em jejum he unico remedio.

Aguas mortas.[3] — Destas aguas mortas ha infinitas nestas partes, c são grandes, e são do tamanho de hum barrete; têm muitas dobras, com que tomão os peixes, que parecem bolsos de atarrafa; não se comem, picando em alguma pessoa causam grandes dores, e fazen chorar, e assi dizia hum Indio a quein huma mordeu que tinha recebido muitas frechadas, e nunca chorara senão então. Não apparecem senão em aguas mortas.

Notas

  1. Polvos, molluscos cephalopodos. As especies do genero Sepia são as que produzem a tinta que tem esse nome.
  2. Azula, mollusco difficil de identificar. — Purchas his Pilgrimes, vol. IV, ps. 1315, vem escripto apula.
  3. Aguas mortas, que melhor se denominam hoje aguas-vivas, são celenterados marinhos, tambem chamados Medusas. XVIII. — Vêm agora os crustaceos, mas in-fine enumeram-se alguns molluscos.