Tratados da terra e gente do Brasil/1/2
Gibóia.[1] — Esta cobra he das grandes que por cá ha, e algumas se achão de vinte pés de comprido; são muito galantes, mas mais o são em engullir hum veado inteiro; não têm peçonha, nem os dentes são grandes conforme a corpo; para tomar a caça de que se sustenta usa desta manha: estende-se pelos caminhos, e em prepassando a caça lança-se sobre ella, e de tal maneira se enrodilha, e aperta que lhe quebra quantos ossos tem, e depois a lambe, e seu lamber tem tal virtude que a moe toda, e então a engole, e traga.
Ha outra que chamão Guigraupiagoára,[2] sc., comedora dos ovos dos passaros, he muito preta, comprida, e tem os peitos amarellos, andão por cima das arvores, como nadando por agua, e não ha pessoa que tanto corra pela terra, como ellas pelas arvores. Esta destrue os passaros, e seus ovos.
Ha outra muito grossa, e comprida, chamada Caninana;[3] he toda verde, e de notavel formosura. Esta tambem come ovos, passaros, e mata os pintainhos.
Ha outra chamada Boitiapoá,[4] sc. cobra que tem focinho comprido, he muito delgada e comprida, e sustenta-se sómente de rãs, têm os Indios com esta hum agouro que quando a mulher não tem filhos tomão esta cobra, dando-lhe com ella nas cadeiras e dizem que logo ha de parir.
Ha outra chamada Gaitiepia,[5] acha-se sómente no Rari: he de notavel grandura, cheira tanto a raposinhos que por onde quer que vai que não ha quem a soffra.
Ha outra, a qual se chama Boyuna,[6] sc. cobra preta, he muito comprida, e delgada, tambem cheira muito a raposinhos.
Ha outra que se chama Bom,[7] sc. porque quando anda vai dizendo bom, bom, tambem é grande, e não faz mal.
Ha outra, a qual se chama Boicupecanga,[8] sc. cobra que tem espinhos pelas costas, he muito grande, e grossa, as espinhas são muito peçonhentas, e todos se guardão muito dellas.
Notas
- ↑ — Gibóia, da familia dos Boideos (Constrictor constrictor, Linn.). — Jibóya e jeboia, em Piso e Marcgrav. — Os autores explicam o nome tupi yibói por cobra d’agua ou de páu; attendendo a que a gibóia é serpente terrestre, parece-nos melhor etymo o que, por similhança, a compare com o páu.
- ↑ — Guigraupiagoára, papa-ovo ou papa-pinto, da familia dos Colubrideos (Herpetodryas carinatus, Linn.). — Em G. Soares urapiagára. É perfeita a etymologia de Cardim: comedora dos ovos dos passaros, decompondo-se assim a palavra: guirá passaro, upiá ovo, e guára, participio do verbo ú, o que come, comedor. — O vocabulo tupi desappareceu da nomenclatura popular.
- ↑ — Caninána, da familia dos Colubrideos (Spilotes pullatus, Linn.). — Em G. Soares, caninam. — Difficil de interpretar.
- ↑ — Boitiapoá, cobra de sipo, da familia dos Colubrideos (Herpetodryas fuscus, Linn.) — Em G. Soares, buitiapoia. — Com essa cobra açoitavam os indios as cadeiras das mulheres estereis, como refere Cardim e confirmam outros autores. — O nome tupi, que não prevaleceu, seria bói-tî-apuã, cobra de focinho redondo.
- ↑ — Gaitiepia, nome impossivel de identificar.
- ↑ — Boyuna, mussurana ou cobra-preta, da familia dos Colubrideos. (Oxyrhopus cloelia, Daud) — bói cobra, úna preta, negra.
- ↑ — Bom, especie desconhecida.
- ↑ — Boicupecanga, que Cardim traduziu: cobra que tem espinhos pelas costas. — é outro nome difficil de identificar. Seu etymo só em parte é satisfactorio: bói cobra, cupé tergo, dorso, costas; mas acanga, que alem do significado proprio, póde ser tambem ramo, galho, não vem nos diccionarios com a accepção de espinho.