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Tratados da terra e gente do Brasil/1/20

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DOS PASSAROS QUE SE SUSTENTÃO, E ACHÃO N’AGUA SALGADA (XX)

Guigratinga. — Este passaro he branco, do tamanho dos grous de Portugal; são em extremo alvos, os pés têm muito compridos, o bico muito cruel, e agudo, e muito formoso por ser de hum amarello fino; as pernas tambem são compridas entre vermelhas e amarellas. No pescoço têm os melhores panachos e finos que buscar se pode, e parecemse com os das Emas africanas.[1]

Caripirá. — Por outro nome se chama — Rabiforcado; estes passaros são muitos, chama-se rabiforcado por ter o rabo partido pelo meio; das pennas fazem muito caso os Indios para empenaduras das frechas, e dizem que durão muito; em algum tempo estão muito gordos, as enxundias são bôas para corrimentos; costumão estes passaros trazer novas dos navios á terra, e são tão certos nisto que raramente faltão, porque como se vêem, de ordinario dahi a dous ou tres dias chegão os navios.[2]

Guacá. — Este passaro he a propria Gaivota de Portugal; seu comer ordinario são amejas, e porque são duras, e as não podem quebrar, levão-nas no bico ao ar, e deixando-as cair muitas vezes as quebrão e comem. Destas gaivolas ha infinidade de especies que coalhão as arvores e praias.[3]

Guigratéotéo. — Esta ave se chama em portuguez Tinhosa — Guigratéotéo, sc. passaro que tem accidentes de morte, e que morre e torna a viver, como quem tem gotta coral, e são tão grandes estes accidentes que muitas vezes os achão os Indios pelas praias, os tomão nas mãos, e cuidando que de todo estão mortos os botão por ahi, e elles em caindo se alevantão e se vão embora; são brancos e formosos, e destes ha outras especies que têm os mesmos accidentes.[4]

Calcamar. — Estes passaros são pardos do tamanho de Rolas, ou Pombas; dizem os Indios naturaes que põem os ovos, e ahi os tirão, e crião seus filhos; não voão, mas com as azas e pés nadão sobre o mar mui ligeiramente, e adivinhão muito calmarias e chuveiros, e são tantos nas calmarias ao longo dos navios que se não podem os marinheiros valer e são a propria mofina e malencolia.[5]

Ayaya. — Estes passaros são do tamanho de Pegas, mais brancos que vermelhos, tên côr graciosa de hum branco espargido de vermelho, o bico he comprido, e parece huma colher; para tomar o peixe tem este artificio: bate com o pé na agua, e tendo o pescoço estendido espera o peixe e o toma, e por isso dizem os Indios que tem saber humano.[6]

Saracúra. — Este passaro he pequeno, pardo, tem os olhos formosos com hum circulo vermelho muito gracioso; tem hum cantar extranho, porque quem o ouve cuida ser de hum passaro muito grande, sendo elle pequeno, porque canta com a bocca e juntamente com a trazeira, faz outro tom sonoro, rijo, e forte, ainda que pouco cheiroso, que he para espantar; faz esta musica suave duas horas ante manhã, e á tarde até se acabar o crepusculo vespertino, e quando canta de ordinario adivinha bom tempo.[7]

Guará. — Este passaro he do tamanho de huma Pega, tem o bico muito comprido com a ponta revolta, e os pés de comprimento de hum grande palmo; quando nasce he preto, e depois se faz pardo; quando já avôa faz-se todo branco mais que huma pomba, depois faz-se vermelho claro, et tandem torna-se vermelho mais que a mesma grã, e nesta côr permanece até á morte; são muitos em quantidade, mas não têm mais que esta especie; crião-se bem em casa, o seu comer he peixe, carne, e outras cousas, e sempre hão de ter o comer dentro n’agua; a penna destes he muito estimada dos Indios, e dellas fazem diademas, franjas, com que cobrem as espadas com que matão; e fazem braceletes que trazem nos bracos, e põem-nas nos cabellos como botões de rosas, e estas suas joias e cadêas douro com que se ornão em suas festas, e estimão-nas tanto que, com serem muito amigos de comerem carne humana, dão muitas vezes os contrarios que têm para comer em troco das ditas pennas: andão em bando estes passaros, e se lhe dá o sol nas praias, ou indo pelo ar he cousa formosa de ver.[8]

Ha outros muitos passaros que do mar se sustentão, como Garças, Gaviões, e certo genero de aguias, e outros muitos que seria largo contar.

Notas

  1. Guigratinga, guiratinga ou garça branca, da familia dos Ardeideos (Herodias egretta, Gm.) Nome tupi, de guirá passaro, tinga branco.
  2. Caripirá, grapirá, tesoura, alcatraz, da familia dos Fregatideos (Fregata aquila, Linn.) — Em G. Soares carapirá. — De guirá, passaro, pirá peixe.
  3. Guacá, ou gaivóta, deve ser a Thaethusa magnisrostris, Licht., da familia dos Larideos, tambem chamada andorinha do mar. — O nome guacá desappareceu da synonymia vulgar.
  4. Guiratéotéo, téu-téu, da familia dos Charadriideos (Belonopterus cayanensis, Gm.) — O nome é onomatopaico do grito da ave.
  5. Calcamar, talha-mar, corta-mar, bico-rasteiro, da familia dos Larideos (Rynchops intercedens, Saunders).
  6. Ayaya, colhereiro, da familia dos Plataleideos (Ajaja ajaja, Linn.)
  7. Saracúra, nome commum a diversas aves da familia dos Rallideos. — De çara espiga, cur comer, tragar: o que come ou traga espiga.
  8. Guará, da familia dos Ibidideos (Eudocimus ruber, Linn). — Nome tupi, de etymo discutivel.