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Tratados da terra e gente do Brasil/1/22

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DAS COBRAS DAGUA DOCE (XXII)

Sucurijuba.[1] — Esta cobra he a mó, ou das maiores que ha no Brasil, assi na grandeza como na formosura; tomão-se algumas de vinte e cinco pés, e de trinta em comprido, e quatro palmos em roda. Tem huma cadêa pelo lombo de notavel pintura e formosa, que começa da cabeça e acaba na cauda; tem dentes como cão, e aferra em huma pessoa, vacca, veado, ou porco, e dando-lhe algumas voltas com a cauda, engole a tal cousa inteira, e depois que assi a atem na barriga deixa-se apodrecer, e os corvos a comem toda de modo que não ficam senão os ossos, e depois torna a criar carne nova, e resurgir como dantes era, e a razão dizem os Indios naturaes he, porque no tempo que apodrece tem a cabeça debaixo da lama, e porque têm ainda em o toutiço tornão a viver: e porque já se sabe isto quando as achão podres lhe buscão a cabeça, e as matão. O modo de se sustentarem he esperarem os animaes, ou gente estendidas pelos caminhos, e em prepassando se envião a elles, e os matão, e comem; depois de fartas dormem de tal modo que ás vezes lhe cortão do rabo duas, três postas sem accordarem, come aconteceu que depois de cortarem duas postas a huma destas, ao dia seguinte a acharão morta com dous porcos montezes na barriga, e seria de cincoenta palmos.

Manĩma.[2] — Esta cobra anda sempre n’agua, he ainda maior que a sobredita, e muito pintada, e de suas pinturas tomarão os gentios deste Brasil pintarem-se; têm-se por bemaventurado o Indio a que ella se amostra, dizendo que hão de viver muito tempo, pois a Manĩma se lhes mostrou...[3]

Notas

  1. Sucurijuba, sucurijú ou sucury, da familia dos Boideos (Eunectes murinus, Linn.). Em G. Soares, sucuriú.
  2. Manĩma, em Piso manima, grande especie, ainda maior que a sobredita, e muito pintada: talvez a amoré-piníma, que Marcgrav representa. G. Soares não a menciona.
  3. Ao ms. falta o seguimento, que vem em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, ps. 1.318: “Many others kinds of snakes there be in the rivers of fresh water, which I cave for brevities sake, and because there is nothing in particular that can be said of them.”