Ir para o conteúdo

Tratados da terra e gente do Brasil/1/23

Wikisource, a biblioteca livre
DOS LAGARTOS D’AGUA (XXIII)

Jacaré.[1] — Estes lagartos são de notável grandura, e alguns ha tão grandes como cães; têm o focinho como de cão muito comprido, e assi têm os dentes. Têm por todo o corpo humas lâminas como cavallo armado, e quando se armão não ha frecha que os passe; são muito pintados de varias cores; não fazem mal á gente, mas antes os tomão com laços facilmente, e alguns se tomarão de doze, quinze palmos, e os estimão muito, e os tem por estado os Indios como rembabas, sc. cães, ou outra cousa de estado; andão n’agua, e na terra põem ovos tão grandes como de patas, e tão rijos que dando huns nos outros tinem como ferro; aonde estes andão logo são sentidos pelos grandes gritos que dão; a carne destes cheira muito, maxime os texticulos, que parecem almiscre, e são de estima: o estéreo tem algumas virtudes, em especial he bom para bebidas.[2]

Notas

  1. Jacaré, reptil emydosaurio da familia dos Crocodilios, representada no Brasil pelos generos Caiman e Jacaretinga. O jacaré do papo amarello è o mais commum da Bahia para o Sul. Deve ter sido esse que o autor mais particularmente conheceu.
  2. Em Purchas Ms Pilgrimes, vol. IV, ps. 1.318, lelidas; deve ser belidas, manchas na cornea do olho.