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Tratados da terra e gente do Brasil/1/24

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DOS LOBOS D’AGUA (XXIV)

Jaguaruçú.[1] — Este animal he maior que nenhum boi; tem dentes de grande palmo, andão dentro e fóra d’agua, e matão gente; são raros, alguns delles se achão no rio de S. Francisco, e no Paraguaçú.

Atacape.[2] — Estes lobos são mais pequenos, mas muito mais damnihhos, porque saem d’agua a esperar a gente, e por serem muito ligeiros matão algumas pessoas, e as comem.

Pagnapopéba.[3] — Estas são as verdadeiras lontras de Portugal. Ha outro animal pequeno do tamanho de doninha, chama-se Sariguey bejú[4] — este tem ricas pelles para forros; e destes animaes d’agua ha outras muitas espécies, alguns não fazem mal, outros são muito ferozes.

Baéapina. — Estes são certo gênero de homens marinhos do tamanho de meninos, porque nenhuma differença têm delles; destes ha muitos, não fazem mal.

Capijuara.[5] — Destes porcos d’agua ha muitos e são do mesmo tamanho dos porcos, mas differem nas feições; no céo da bocca têm huma pedra muito grossa que lhes serve de dentes queixaes. Esta tem os Indios por joia para os filhos e filhas; não têm rabo, andão muito tempo debaixo d’agua, porém habitam na terra, e nella crião seus filhos; seu comer he erva e fructas que ao longo dos ríos achão.

Itã.[6] — Ha nos rios d’agua doce muitos generos de conchas grandes e pequenas; algumas são tão grandes como boas cúias, e servem de fazer a farinha com ellas; outras são pequenas, e servem de colheres; todas ellas são compridas, e de huma còr prateada; nellas se achão algumas perolas.

Cágados.[7] — Nos rios se achão muitos cágados, e são tantos em numero que os tapuyas engordão em certos tempos sómente para os ovos, e andão a elles como a maravilhoso mantimento.

Guararigeig.[8] — Não faltão rãs em os rios, fontes, charcos, lagôas; e são de muitas especies, principalmente esta — Guararigeig; he cousa espantosa o medo que della têm os Indios naturaes, porque só de a ouvirem, morrem, e por mais que lhes préguem não têm outro remedio senão deixar-se morrer, tão grande he a imaginação, e apprehensão que tomão de a ouvir cantar; e qualquer Indio que a ouve morre, porque dizem que deita de si hum resplandor conto relampago.

Todos estes rios caudaes são de tão grandes e espessos arvoredos, que se navegam muitas léguas por elles sem se ver terra de huma parte nem da outra; por elles ha muitas cousas que contar, que deixo por brevidade.

Notas

  1. Jaguaruçú, que significa cão grande, não estános outros autores, sinão como o Canideo que já vimos.
  2. Atacape, difficil de determinar.
  3. Pagnapopéba, em G. Soares jagoarapeba, é a lontra ou ariranha, dà familia dos Mustelideos (Pteronura brasiliensis Zimm.). - Pagnapopéba vem por erro de copia no ms., porque em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, ps. 1318, está iaguapopeba.
  4. Sariguey-beju, em Marcgrav çariguei-beiú, é especie difficil de identificar, do mesmo modo que baéapina, que não figura nos autores, e pela descripção, se não se trata de simios, deve pertencer á classe dos animaes phantasticos. — Em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, ps. 1318, vem baepapina. O nome tupi sariguê já foi explicado na nota I.
  5. Capijuara, capibára ou capivara, roedor da familia dos Caviideos (Hydrochoerus hydrochoerus, Erxl.) — Em Abbeville, capyyuare. — O nome tupi vem dej capyî herva, o capim, e guára, pariticipio do verbo ú comer: o que come capim, o herbívoro.
  6. Itã ou itan, conchas bivalvas de mexilhões, ás quaes ainda hoje se dá a aplicação a que se refere o texto. — É nome tupi e, segundo Baptista Caetano, póde ser modificado de tar colher: o que colhe, o que apanha.
  7. Cágados, chelonios terrestres ou d’agua doce.
  8. Guararigeig, com melhor graphia guararyey, para denominar certa rã, é difficil de explicar. O nome tupi da rã é yuí; G. Soares descreve a que os indios chamavam juigoaraigarai, talvez a mesma de que trata Cardim. A systematica moderna é que não faz distincção.