Tratados da terra e gente do Brasil/1/7
Andá.[1] — Estas arvores são formosas, e grandes, e a madeira para tudo serve; da fructa se tira hum azeite com que os Indios se untão, e as mulheres os cabellos, e tambem serve para feridas, e as seca logo. E tambem fazem muitas galantarias pelo corpo, braços, e pernas com este oleo, pintando-se
Moxerecuigba.[2] — Esta arvore se acha no sertão nos campos: he pequena, da huma fructa do tamanho de laranja, e dentro della tem humas pevides, e de tudo junto fazem hum azeite para se untarem; a casca serve para barbasco dos peixes, e todo animal que bebe da agua donde se deita, morre.
Aiuruatubira.[3] — Esta arvore que he pequena dá huma fructa vermelha, e della se tira hum oleo vermelho com que tambem se untão os Indios.
Aiabutipigta.[4] — Esta arvore será do comprimento de cinco, seis palmos; he como amendoas, e preta, e assi he o azeite que estimão muito, e se untão com elle em suas enfermidades.
Ianipaba.[5] — Esta arvore he muito formosa, de hum verde alegre, todos os mezes muda a folha que se parece com folha de nogueira; as arvores são grandes, e a madeira muito bôa, e doce de lavrar; a fructa he como grandes laranjas, e se parece com marmellos, ou peras pardas; o sabôr he de marmello: he boa mezinha para camaras de toda ordem. Desta fructa se faz tinta preta, quando se tira he branca, e em untando-se com ella não tinge logo, mas dahi a algumas horas fica huma pessoa tão preta como azeviche; he dos Indios muito estimada, e com esta fazem em seu corpo imperiaes gibões, todos golpeados, e dão certos riscos pelo rosto, orelhas, narizes, barba, pernas, e braços, e o mesmo fazem as mulheres, e ficão muito galantes, e este he o seu vestido assi de semana, como de festa, ajuntando-lhe algumas pennas com que se ornão, e outras joias de osso; dura esta tinta no corpo assi preta nove dias, e depois não fica nada, faz o couro muito duro, e para tingir ha se de colher a fructa verde, porque madura não tinge.
Iequigtiygoaçú.[6] — Esta arvore dá humas fructas como madronhos, e dentro huma conta tão rija como hum pao que he a semente; são das melhores contas que se podem haver porque são muito eguaes, e muito pretas, e tem hum resplandor como de azeviche; a casca que cobre estas contas amarga mais que piorno.[7] serve de sabão, e assi ensaboão como o melhor sabão de Portugal.
Notas
- ↑ — Andá, talvez andá-açú, da familia das Euphorbiaceas (Johannesia princeps, Vell.) — De a-ãtã, fructo rijo, a noz, a amendoa dura. Th. Sampaio.
- ↑ — Moxerecuigba, arvore ou arbusto difficil de identificar.
- ↑ — Aiuruatubira, arvore ou arbusto nas mesmas condições.
- ↑ — Aiabutipigta, jabotapita, em Piso e Marcgrav. Segundo Martius é a Gomphia parviflora, DC.
- ↑ — Ianipaba, genipapo, fructo e arvore da familia das Rubinecas (Genipa americana, Linn.) — Em Maregrav, janipaba. — O nome tupi explica-se por nhandipab ou jandipab, fructo de esfregar, ou que serve para pintar, conforme Baptista Caetano e de accordo com o destino que davam ao fructo ainda verde.
- ↑ — Iequigtiygoaçu, que deve ser o saboeiro, da familia das Sapindaceas (Sapindus divaricatus, Will. & Camb.) — A casca polposa do fructo, esfregada n’agua, produz espuma, e é empregada como sabão para lavar roupa; as sementes servem para botões. Segundo o texto, serviram para contas, e eram das melhores por serem muito eguaes. — Difficil de explicar o nome tupi da arvore; mas note-se que quity esfregar, limpar, e o participio quityca, podem applicar-se ás arvores a que chamam vulgarmente saponarias.
- ↑ Alves, em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, pgs. 1309.