Tratados da terra e gente do Brasil/Introdução Geral/1
INTRODUCÇÃO
I
A presidencia da Academia Brasileira de Letras, em 1923, foi occupada por Afranio Peixoto. Nesse posto, seu programma era simples: trabalhar. Expondo-o, em discurso inaugural, disse: “A vossa direcção pensa, pois, este anno mesmo, em começar a publicação de duas séries de obras raras e preciosas, postas ao alcance do publico, enriquecidas de introducção bibliographica, e de notas elucidativas, das quaes serão encarregados os nossos confrades que tiverem pendor por esse genero de estudos e ainda aquelles sabios e letrados de fóra que, designados por nós, acudirem ao nosso apello. Convém lembrar que a Academia não se presume mais que um estado-maior da cultura nacional, mas que a victoria dessa cultura deve ser conseguida tambem com o grosso do exercito, que não está aqui. Innumeros especialistas, insubstituiveis, fazem parte desse quadragesimo primeiro logar da Academia, o mais numeroso e o mais rico dos postos academicos.”
Das duas séries de classicos nacionaes — Literatura e Historia, — sairam a lume algumas obras da primeira e apenas uma da segunda. Motivos conhecidos fizeram mangrar o promissor emprehendimento, não porque a boa vontade do seu director lhe faltasse e seu apello deixasse de ser correspondido.
Das publicações historicas fazia parte a obra do Padre Fernão Cardim, que Afranio Peixoto houve por bem, ou por mal, attribuir ao que abaixo se nomêa. Segundo o plano adoptado, a obra devia comprehender os tres tratados do jesuita: Do Clima e Terra do Brasil, Do Principio e Origem dos Indios do Brasil e Narrativa epistolar, ou Informação da Missão do Padre Christovão de Gouvêa ás partes do Brasil, cabendo-lhe annotar o primeiro e terceiro, por isso que, em relação ao segundo, já o fôra, e superiormente, por Baptista Caetano de Almeida Nogueira.
A Afranio Peixoto pertence esta primorosa nota introductoria, inedita, que, com o seu consenso para aqui se traslada:
“Pela primeira vez reunem-se, num só tomo, com o seguimento que parece logico, o apparelho de notas eruditas elucidativas e o titulo a que têm direito, os tratados do Padre Fernão Cardim sobre o Brasil.
“Primeiro — Do Clima e Terra do Brasil, manuscripto da Bibliotheca de Evora, copiado de códice do Instituto Historico pelo Senador Candido Mendes, publicado em parte por seu filho Dr. Fernando Mendes, e, integralmente, em 1885, pelo erudito Capistrano de Abreu, que o identificou com o tratado que publicára em 1625 Samuel Purchas: as notas, só agora appostas, são da competencia de Rodolphio Garcia.
“Depois — Do Principio e Origem dos Indios do Brasil, tambem manuscripto de Evora, publicado em inglez, ein 1625, na collecção Purchas, identificado por Capistrano de Abreu, a quem se deve, em 1881, a edição vernacula, accrescentada de notas pelo sabio Baptista Caetano de Almeida Nogueira.
“Finalmente, depois da Terra e da Gente do Brasil, aquelles que aqui vieram ter, para a posse, a colonização, a catechese e a civilização do Brasil e dos Brasileiros. — a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica, copiada tambem de um manuscripto de Evora e por Francisco Adoipho de Varnhagen publicada em Lisboa, em 1817: Varnhagen, então, men. posteriormente, Eduardo Prado, na edição do Instituto Historico, de 1902. The poderam dar as notas necessarias, cabe agora esta honra a Rodolpho Garcia.
“Portanto, aos tres tratados do Padre Fernão Cardim parece exacto o titulo, que lhe damos, complexivo: Tratados da Terra e Gente do Brasil, — que são agora não só homenagem a um grande missionario que amou, observou, soffreu e tratou o Brasil primitivo, como contribuição do nosso reconhecimento a essas missões jesuiticas, que educaram os primeiros Brasileiros, e, para os de todos os tempos deixaram memorias desse passado nos seus escriptos, cartas e narrativas. Ao Padre Fernão Cardim, missionario, reitor, procurador e provincial, se não chegassem os meritos que taes titulos encerram, bastaria o ter sido um élo dessa cadeia a que pertenceram Anchieta e Vieira; precisamente está elle entre os dois, até pelos sucessos da vida: assistiu ás molestias e doenças dos ultimos annos do velho José de Anchieta, no Collegio do Morro do Castello, — vindo de Piratininga ao Rio de Janeiro, antes de ir finar-se em Rerityba, no Espirito Santo, — quasi o preparando para a outra sua celeste vida, e depois, abriu as portas do Collegio do Terreiro de Jesus, já na Bahia, ao joven Antonio Vieira, que, a contra gosto da familia, procurava alli o seu refugio, — como ao preparar tambem para a immortalidade de sua grande vida...
“Estes passos são symbolicos da obra do Padre Fernão Cardim: cuidado, trato, amor de um Brasil que ia passar, e morrer, legados ao Brasil da posteridade, que, esse, passando successivamente, nunca morrerá, e ha de guardar entre as suas memorias saudosas e fieis estes Tratados da Terra e Gente do Brasil...”
O plano mallogrou-se, por então, como se disse; mas o trabalho do annotador ficou em condições de ser dado desde logo á imprensa, á espera tão sómente de editor. Esse havia de apparecer no proprio anno em que se completa o tricentenario da morte de Fernão Cardim, na pessoa do Dr. José Attico Leite, jovem e intelligente livreiro-editor, a quem já devem as bôas letras optimos serviços.
A presente edição da obra do veneravel missionario, que reunida se imprime pela primeira vez, vale assim, neste momento, por uma commemoração expressiva e justissima.