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Trechos de Vizao de Don Rodrigo

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Existe hum som do fervida harmonia
Que inda sublime feitos de Mavorte
Ou morreo la c'o Mestre a melodia
Que celebrou de Ilion a adversa sorte?
Tal Wellington teu nome excitaria
E por ti mares constrantando, e a morte
Se inchara a voz da tuba, que afancia
A Britania victoria, a Portugal vinganca.

Luz propria argentaea lampada mandava
Em quanto a triste confissao fazia
Rodrigo, e occultas couzas, que expressava
De bom grado qualquer nunca diria
Mas quando seos punhacs no scio crava
Remorso, e medo; a carga occulta impia
Do Crime a Conscientia nao atura
E a Deszperacao folga na voz procura

A face do Prelado reverente
E alva madeixa a frouxa luz se via;
Porem Rodrigo o rosto, e nua frente
Com suas maons, e o manto seu cobria
Do soberbo Alarico o descendente
Dizendo os seos pecados, nao soffria
Que o visse homem mortal naquelle estado
Guerreiro com remorso, e ao medo rei curvado.

A concencia aqui com desdem fero
As faces do Monarcha afougeando
A vozes Ilhe truncao-

Da luz preludio, musicas se ouviao
Na terra a vis grilhoens ja destinada;
Quaes nas rusticas dancas se faziao
De Xerez na vindima celebrada
Quando em Boiero rapido porfiao
Gaio Mozo, Muchacha enamorada
E a seu trage surrindo, em cabriolas
Saltao bamboleando, e butem castanholas.

Das frouxas maous ja velha, entorpecida
Cahir deixava o sceptro a Realeza
De Favorito audas, Mulher perdida
Vendo sem Ilhe importar seu throno a preza.
Na choca a voz de amor so era ouvida
Longe da intriga, e cortezam baixeza
Onde ao som de guitarra, que agravada
Grato se punha o Sol, grata a manham tarvada.

Quel marino vapor, de hum palmo extenso
Que Elias vira do Carmello santo,
Espelhar, engrossando o vulto immenso
Nas terras de Israel fugido manto;
Que a cor purpurca, a cor de Phebo intenso
E o claro azul tornando em negro espanto,
Do Ceo que escurreceo, cobrio de horrores
Dezabao grossa chuva, e ventos bramiadores.

Tal innundando o placido terreno
Pezada nuvem, veio extranho bando;
Seu Chefe nuas maons, gesto screno,
E na bainha a espada aprezentando
Mas encobrindo perfido veneno
Com ar de amigo; campo foi ganhando
E rota a fe, a integridade leza
Lanca as garrar de acor, e faz da Hespanha preza.

Ferrea c'roa lhe cinge ancioza frente
Seu corracao seu ferreo sceptro imita;
Nunca remorso lhe deteva a mente,
De piedade nem pejo a voz lhe grita.
De honra, e verdade estimulos nao sente
Seio que a furia so do estrago agita.
E quem ergueo ao throno a Iniquidade
Nao tem a fe de Rei, nem a real bondade.

De ilha rude mais rude a prole veio
Scentelha, que largou palhoca obscura,
E trouxe a Capital incendio feio
Nao teve origem mais abjecta e impura.
Paul, que a peste do corrupto scio
Exala, e seca aos campos a verdura
Nao tem mais negra essencia e mais maligna
Que alma que lhe ordenou a universal ruina.

Com passo collossal Figura umbrosa
Ante o Chefe marchanilo aperecia,
Membros de nevoa, e tocha pavarosa
Qual meteoro em suas maons Luzia.
Aquella alma de estragos sequiosa
Ao lugubre clarao cega corria.
Era Ambicao que no excitava a horrores
Sem vir bem como outrora em menos turvas cores.

Nao desprezando ja baixa vinganca
A imigo oppresso a destra aprezentava,
Qual dos Romanos Fados em mundaca
Caezar com ella o Rubicon passava.
Nem folga em dar thesouros seos que alcanca,
Qual Macedonio Moco prodigava
Tirou-lhe o novo alumno esse vestido
Vio-lhe a hedionda face, e o monstro amou despido.

Nao se pode em Britanica peleja
Dizer de heroes de accoens qual mais se aclama;
Se em Albuera Beresford troveja
De Graham Barrosa exalta a fama!
Qual o fragor, que o raio seu darjeda,
Quizera hum verso de tumultuo de flama
Para os cantar! Pois nunca se adornarao
De taes tropheos heroes, que as armas mancjarao.

Quem trouxe ao campo a raca restaurada
E emula a fez d'antiga illustre gloria;
Quem lhe poz freio a raiva denodada
E a grao coragem lhe firmou notaria.
Quem fez alcar a Luzitania espada
Pelo esquecido trilho da victoria,
Diga Albuera, que os laureis lhe tece,
Se Beresford illustre a minha lyra esquece!

Nao so no campo da battalha horrendo,
Que as Legioens de Gallia ensanguentarao,
Se mostrou seu valor raro estupendo,
Pois que ali so seos dias se arriscarao.
Mas na dotrina os esquadroens regendo,
Que feros quaes Britanos pelejarao,
Confunde a Injeva no louvor so muda,
E a gloria militar, que he mais que a vida, escuda.

A mais rude atalaia Anglo-nascida
Ao ver o feio horror, que pe lhe embarga,
C'o mizero seu pao da mor movida
Reparte, e mais feroz toma a espingarda.
Do pranto a voz foi de Britania ouvida,
Que a afflicta gente em soccorrer nao tarda;
Rei, ou par, rico ou pobre nao se izenta
Nao do Vate a cancao, que escasso dom prezenta.