Ubirajara/VIII

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Ubirajara por José de Alencar
A Batalha


A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, do outro lado, a multidão dos guerreiros tapuias.

As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.

De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos arremetendo travaram a batalha.

Itaquê achou-se em frente de Canicrã. Ambos se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fora vencido.

Enquanto viverem os formidáveis guerreiros, não é possível quebrar a flecha da paz entre as duas nações.

Era preciso que um deles morresse para que o vencedor encostasse o tacape do combate e desse repouso à sua nação para reparar os estragos da guerra.

Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo ficaram imóveis, contemplando o pavoroso combate.

Ubirajara de longe, apoiado em seu grande arco, admirava os dois guerreiros e pensava qual não seria o seu orgulho em vencê-los ambos.

Durava a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada um.

Imóveis no mesmo lugar, só agitavam a cabeça e os braços; semelhantes a dois condores, que de garras presas aos píncaros do rochedo, se dilaceram com o bico adunco.

Um rugido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da floresta.

Pahã, a seta, era o último filho de Canicrã. Ainda curumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Crebã, cujo ombro mal alcançava com o braço.

Ele tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas de espinho de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbi.

Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as mutucas traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rápidas e certeiras que as vespas venenosas.

Pahã saltara sobre os ombros do guerreiro Crebã para assistir ao combate. Admirando o valor de Canicrã, teve orgulho e inveja do pai.

Itaquê desfechara tão formidável golpe, que o tacape e escudo de Canicrã se espedaçaram em suas mãos, deixando-o à mercê do inimigo.

O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão descia sobre a espádua do tapuia para fazê-lo prisioneiro.

O arco de Pahã sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão forte que nunca umedecera uma lágrima, choraram sangue.

As setas do curumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro, cuja vista era raio. Assim a jandaia rói o grelo do prócero coqueiro.

Foi então que Itaquê soltou o rugido pavoroso que fez tremer a terra. Mas o grito de espanto soçobrou no peito dos guerreiros e rompeu em um grito de horror.

Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor. A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicrã, a esquerda entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.

Separaram-se os braços do guerreiro cego, e a cabeça de Canicrã abriu-se como um coco que se fende pelo meio.

Agitando no ar o crânio sangrento como um maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fugia.

Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.

O velho herói voltou à cabana conduzido por Pojucã.

- Tupã viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens; e quis vencê-lo ele mesmo pela mão de um menino.



Quando Ubirajara viu o êxito do combate, lamentou que dos dois grandes guerreiros não restasse nenhum, para que ele o vencesse.

Seus olhos descobriram Pahã que fugia no meio dos destroços de sua nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retesar a seta.

A águia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.

O chefe chamou à sua presença Tubim, um dos jovens caçadores, que tinham acompanhado a guerra para prover o alimento.

- Tubim tem as asas da abelha; se ele alcançar o curumim tapuia que eu estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.

O jovem caçador seguiu o olhar do chefe e sumiu-se num turbilhão de poeira. Quando os vaga-lumes começaram a luzir no escuro da mata, ele estava de volta ao campo dos araguaias; e trazia o curumim fechado nos braços.

Nessa mesma noite, Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em honra da façanha que tinha realizado.

Os cantores entoaram seu louvor; e o jovem caçador teve a glória de receber os aplausos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como Ubirajara.

Ao raiar da manhã, Murinhém foi à taba dos tocantins, acompanhado por vinte guerreiros que conduziam o curumim.

Quando chegou em frente à cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no terreiro, sentado em uma sapopema.

O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonara.

Então o velho guerreiro abaixava os olhos para a terra, como se buscasse o lugar do repouso.

Quando soaram longe os passos dos estrangeiros, o chefe alongou a fronte para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recusavam.

Murinhém chegou e disse:

- Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Pahã, o filho de Canicrã. Ele te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão terrível. Faze do curumim tapuia um mancebo tocantim; e ele será a luz dos teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra.

Pahã avançou.

- O filho de Canicrã jamais será escravo; nasceu tapuia e tapuia morrerá, como o grande chefe que o gerou. Enquanto o ouriço viver nas florestas, ele roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.

Itaquê pousou a palma da mão na cabeça do menino.

- O curumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Pahã; vai caçar o ouriço. Quando fores um guerreiro, acharás cem mancebos do sangue de Itaquê para castigarem tua audácia.

O chefe voltou-se para o cantor.

- Tupã tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu braço. Ubirajara terá para combatê-lo um inimigo digno de seu valor.

Murinhém tornou ao chefe araguaia com esta resposta.



Quando partia o cantor, chegaram à cabana de Itaquê os abarés da nação tocantim.

Os anciões sentaram-se em torno do guerreiro cego; e bebendo a fumaça da sabedoria, formaram o carbeto.

Falou Guaribu:

- O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua corda; e de um olho seguro para dirigir sua seta. Itaquê é o maior guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fugiu de seus olhos e ele não pode mais abrir o caminho da guerra.

O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco dos tocantins abraçou-se com ele e falou-lhe.

- Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javari, ele pensava que só a morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, que não sabe onde vai.

Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. Era a lágrima que a desgraça lhe deixara.

Os abarés meditaram. Guaribu falou de novo:

- O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javari, teu pai, não te abandonará. Ele fica em tua mão invencível; haverá outro arco na mão do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas enquanto Itaquê viver, sua voz governará a nação que ele defendeu com seu braço.

O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorriso, como o negro rochedo sobre o qual desliza um raio de luar.

- Pais da sabedoria, abarés, olhai aquele jatobá que se levanta no meio da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma.

"Ele tem muitas raízes que o sustentam nos ares, tem muitos galhos que o cercam e estendem ao longe a sua rama. Mas o tronco é um só.

"As grossas raízes são os abarés que sustentam o chefe com o seu conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a multidão de guerreiros mais numerosa que as folhas das árvores. O tronco é o chefe da nação; se ele se dividir, o jatobá não subirá às nuvens, nem terá forças para resistir ao tufão.

"O lugar de Itaquê é no conselho. O último dente de seu colar de guerra foi o que ele arrancou da boca de Canicrã. Convocai os guerreiros, e o que for mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação."

O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas tribos.

O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande arco da nação, que ele segurava direito, parecia um dos esteios da cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rede do chefe.

Os mais famosos guerreiros tocantins se apresentaram para disputar o grande arco; muitos conseguiram vergá-lo, mas a seta não partiu.

Itaquê escutava com o ouvido atento; o som dele conhecido não feriu os ares.

- Onde está Pojucã? perguntou o velho chefe.

O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e taciturno. Algum motivo o separava do arco-chefe, que ele devia ser o primeiro a disputar.

- Teu filho te escuta; respondeu.

- Empunha o arco-chefe; se há um guerreiro tocantim que possa conquistá-lo, esse deve ser do sangue de Itaquê.

Pojucã recebeu o arco. Fincando nele os pés, o guerreiro arrojou-se para trás como a jibóia quando se enrista para armar o bote.

A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na estaca, à entrada da taba.

Itaquê curvara a cabeça. Ele ouviu brandir a arma; não era, porém, aquele o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante.

Pojucã depôs o arco-chefe aos pés de Itaquê e disse:

- Pojucã mostrou que em suas veias corre o sangue generoso de Itaquê. Mas o grande arco pesa em sua mão. Só há um guerreiro na terra que o possa brandir como Itaquêe esse não cinge a fronte com o cocar das penas de tucano.

- Pojucã negou a Itaquê esta última consolação. O arco invencível do grande Tocantim, que foi o pai da nação, vai sair de sua geração. Tocantim o transmitiu a seu filho Javari, que me gerou; mas eu não soube gerar com seu sangue um guerreiro digno deles.