Uma Lágrima de Mulher/III/III

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo III


Para onde e para que se dispunha Miguel com tanto afã? É o que vamos ver e o que necessariamente ficou concertado desde aquela singular entrevista na choupana de Sombra da Noite.

Prepararam-se como para uma pesca no alto mar; Miguel abriu francamente a bolsa à Sombra da Noite, e ele soube servir-se dela com inteligência e economia; fretara um barco grande de pescar, comprara provisões, salgara bastante peixe, empacotara lenha, bolacha e frutas secas, enchera duas talhas de água fresca, munira-se de bom vinho e aguardente, arranjara duas macas, alcatroara os competentes archotes de feno e com tal zelo e atividade se houve em tudo, que à meia-noite todo o necessário estava pronto.

O vento era favorável e já o barco se sacudia impaciente na praia. Entre esta e o barco, grosso archote, coberto de resina, espalhava um clarão vermelho e fumífero, parecia, refletindo na umidade da areia, uma brasa cuidadosamente colocada sobre uma lâmina de vidro.

De vez em quando, interrompia a luz o archote o vulto negro e Sombra da Noite, carregado de mantimentos, que ia deixara a bordo; logo voltava com água pela cintura, subia e novo a ladeira e tornava a descê-la vergado com a carga. Seis ou sete carretos e dera por feito todo o carregamento. Então, armou a tolda no tombadilho, empurrou com cuidado as talhas para um lado, calçou-as bem e depôs, ao alcance da mão, a borracha de aguardente; abriu em seguida a escotilha, arrumou nela os fardos de víveres e subiu novamente à coberta; aí fez lume para disfarçar a umidade, estendeu um bom encerado, armou duas macas e, tomando fôlego, que tudo isto o fizera cansar, disse em voz alta:

— Pronto, com os diabos!

Depois, por sua conta e de sua idéia, assestou à proa quatro anzóis e duas redes de pescar. Feito isso, tirou vagarosamente tabaco e uma bolsa de couro, encheu bem o cachimbo, olhou em torno, procurando descobrir o que faltava e disse satisfeito:

— Bom!

Acendeu o cachimbo, voltou à praia e subiu para casa, cantarolando muito tranqüilamente e muito contente de sua vida.

O artista desprezara as roupas graves do professor e revestira a sua antiga e singela blusa e artista ambulante: tinha na mão o estojo da sua queria rabeca, uma faca na bainha da cintura, na algibeira todo o dinheiro que possuía e no coração toda a esperança que lhe restava, na cabeça... Ah! nessa, além das harmoniosas concepções de há muito uma idéia sinistra e repugnante, dependurada da imaginação, com o cadáver contraído de um enforcado.

E, seguido dessa idéia, negra, como a sombra informe da sua própria desgraça, sentia alvejar, nas margens opostas o mar da Sicília, a roupagem transparente de um anjo, que o chamava de lá. Era isso a sua estrela; seguia-a indiferente a tudo mais que o cercava, via-a somente, só ela, luzir no fundo negro do seu futuro, com farol a única salvação possível.

Alvo, farol ou estrela, apagassem essa esperança e a vida para Miguel seria toda trevas e gelos.

— Roubem-na, pensava ele, e esta vida não será mais que uma enorme sepultura.

Castor dormia profundamente aos pés do amo.

— Pronto, patrãozinho! Disse Sombra da Noite, chegando à casa.

— Podemos ir?

— Quando quiser, respondeu o pescador, tomando do chão a torcida acesa.

Miguel tomou o capote de um prego donde estava dependurado e, embrulhando-se, saiu, acompanhado de Castor, que, rápido, lhe tomou a frente e desceu a ladeira.

Sombra da Noite fechou por dentro a porta com a tranca de nogueira, foi ao outro quarto e fez o mesmo à porta do fundo e, depois de apagar o pavio, pisá-lo e mantê-lo na algibeira, afastou de um canto do teto o choupo e, espremendo-se pela estreita abertura, saltou fora, exclamando:

— Até a volta, se te encontrar viva ou se eu não estiver morto!

Em cinco minutos, alcançou Miguel.

Chegados à praia, o homem tomou nos ombros o artista e carregou-o para bordo. Castor seguiu-os a nado.

Miguel agarrou-se ao portaló e pulou no barco, estendeu depois um braço e puxou Castor para dentro; o cão entrou todo a sacudir-se, salpicando água do corpo. Sombra da Noite foi o último e fechou o portaló; em seguida, voltando-se para Miguel, apresentou-lhe o barco e os seus arranjos, explicando a serventia disto, elogiando aquilo, falando de tudo e dando a entender que tinha consciência do bom desempenho da sua comissão. Miguel distraidamente passeou a vista pelo interior do barco e declarou-se plenamente satisfeito.

Suspendeu-se a amarra, guindou-se a vela grande. O barco começou a embalar-se, como se tivesse acordado naquele instante, parecia mesmo que se espreguiçava; logo, porém, cedeu ao leme de Sombra da Noite, virou a favor do mar e entrou a navegar com vento em popa.

Partiram.