Via smarrita

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Via smarrita
por Luís Delfino
Publicado em Rosas Negras.


Perdi-me, há pouco, em curvas do caminho,
E achei-me, como Dante, em selva escura,
Ante velhas sinistras de figura,
Batendo, urdindo, desdobrando linho.

Sem surpresa, o olhar delas escarninho
Furou-me, como pua o ferro fura:
Tragava a teia o antro da espessura;
Hirto fiquei ao ver-me ali sozinho...

Disse entre mim: — Que amplíssima mortalha!...
Uma megera à outra uivou: — Trabalha!
Pingava nisto o luar sutil fulgor.

Pensei: — Que morto irá naquele pano?
Elas: — Tu, e contigo, e nele ao oceano
O mundo extinto do teu grande amor.